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Na crise do coronavírus, jornais voltam a apostar nas crianças

Com a expansão da covid-19 pelo mundo, alçada para a categoria de pandemia, a população global foi forçada a mudar comportamentos a partir das recomendações de isolamento social, quarentena, proibição de abertura de lojas e serviços. Escritórios, escolas e quaisquer espaços que representem aglomerações de pessoas foram proibidos ou desestimulados.

As crianças estão em casa e os país estão à procura de entretenimento e educação para elas. É uma oportunidade para a mídia se aproximar dos pais e das crianças com conteúdo específico.

Formar novos leitores não é necessariamente uma obrigação dos jornais, mas sim das famílias e do sistema educacional do país. Mas essa diretriz sempre esteve por trás de suplementos semanais voltados para crianças e/ou adolescentes. Essa linha de atuação, em quase todos os órgãos de mídia, foi abandonada nos últimos anos, muito por causa das adaptações que a indústria jornalística empreende para encontrar novas fontes de receitas em tempos de redução das verbas publicitária.

Três reportagens recentes, neste cenário, chamaram a atenção. O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo elaboraram matérias para os adultos interagirem com as crianças, que estão reclusas em casa e demandam atividades recreativas. Outros diários podem ter feito reportagens similares. É uma boa tática para cativar pais e filhos, gerar empatia com adultos ansiosos devido à falta de criatividade para entreter a criançada.

Boa escolha dos jornais. Deveriam insistir nessa direção e, inclusive, criar um canal especial digital com vídeos, narração de histórias, brincadeiras diversas. Isso pode reforçar o relacionamento com pais e amais jovens. Veja os dois exemplos abaixo.

 

Para atrair jovens, mídia tem de pautar o dia a dia deles com seriedade – como fez o New York Times

A notícia é do The New York Times, que fez questão de dar grande visibilidade para o assunto na capa do jornal, dia 31 de agosto.

Na cidade de Seattle, mais de 11 mil jovens se reuniram em um ginásio de basquete para participar de um evento onde as equipes disputam competição de videogame.

Eventos como esse, não necessariamente com este porte e nível de organização, acontecem nas principais capitais globais, mas a imprensa não acompanha. Um dos motivos é porque a mídia está automaticamente orientada para cobrir política e economia, sobretudo o que os governos divulgam.

Essa reportagem do diário norte-americano é um bom exemplo para mostrar que é possível fazer, no dia a dia, matérias para públicos mais jovens, sem segregá-las em cadernos que são publicados uma vez por semana.

Os jovens têm, tal qual os adultos, inúmeras atividades diárias relacionadas com a escola, com entretenimento e com esportes. Se a imprensa quer atrair e fidelizar esse público, precisa condicionar os repórteres a procurar estes assuntos e cobri-los sem os infantilizar.

The New York Times - 31ago2014 - Cópia

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A opinião das crianças nas reportagens: como garantir naturalidade e precisão?

pedidos das crianças

Em 14 de outubro de 2012, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem a partir da opinião de crianças entre 9 e 12 anos. Elas sugeriam o que o próximo prefeito da cidade de São Paulo – que viria a ser Fernando Haddad – deveria fazer ou ter como prioridade.

Nada de errado em escutar a opinião das crianças. No entanto, por mais que o texto do jornal explicite claramente que os jovens foram ouvidos por jornalistas, há muitas dúvidas se a opinião é realmente dos entrevistados mirins ou dos repórteres.

Esse problema é comum em matérias desse tipo, que tentam tornar adultos mais pueris ou fazer das crianças pessoas mais maduras do que elas realmente são. É comum os pais enviarem a opinião dos filhos aos jornais – o que geralmente resulta na opinião dos pais, induzindo os filhos a darem respostas automáticas e condicionadas para perguntas nas quais eles nunca pensaram. Não raramente, os pais respondem, de forma velada, pela criança, para que ela fale aquilo que os pais considerem adequado.

Mesmo que a redação do jornal tenha enviado repórteres para entrevistar as crianças, a deturpação da opinião pode facilmente acontecer, mesmo sem intenção. Quando o jovem entrevistado não formula boas respostas – ou respostas esperadas pelo entrevistador – as perguntas podem facilmente ser feitas de forma a ajudar a criança a responder aquilo que o jornal gostaria de ouvir. Não há maldade. A pauta precisa ser cumprida.

É claro que pode ter ocorrido a coincidência de a reportagem ter encontrado várias crianças com elevado grau de opinião política, sintonizadas com os problemas da cidade e as obrigações de um prefeito – e que saibam expressar as ideias de forma clara. Mas matérias desse tipo deixam sempre a dúvida: será que as frases reproduzidas expressam realmente a opinião das crianças? Ou as ideias dos pais ou repórteres?

A solução é dar transparência ao método de apuração das informações. Explicar ao leitor quantas entrevistas foram feitas, quantas foram aproveitadas e quantas foram descartadas. Reproduzir com mais fidelidade as frases ditas pelas crianças, na ordem natural que elas foram formuladas e pronunciadas, corrigindo, eventualmente, somente erros de sintaxe.

Além disso, às crianças poderia ser dada a oportunidade de pensar sobre os temas centrais da reportagem antecipadamente, em uma aula especialmente formulada pelos professores. Assim, os jovens entrevistados estariam mais extrovertidos e seguros para responder, com naturalidade, as perguntas dos repórteres.

O modelo The New York Times de fazer e divulgar reportagens para o público mais jovem

NYT - Be yourself music videos

O The New York Times, como todos os jornais ao redor do mundo, se preocupa em publicar reportagens para todos os perfis possíveis de leitores. Um dos grandes desafios nas redações é escolher temas que interessem a crianças e adolescentes, principalmente com uma abordagem que não pareça infantil ou inocente demais para os leitores mais jovens.

Um grande erro dos jornalistas é tratar crianças e adolescentes como inocentes ou desinformados, um equívoco gigantesco, principalmente na era de difusão de informações nas redes sociais. Ou então anunciam como uma grande novidade algo que já está presente na conversa dos mais jovens há anos. Crianças e adolescentes sabem mais que os adultos sobre temas que lhes são de interesse. Mas a maioria das reportagens parece querer agradar os pais em vez dos filhos.

O The New York Times deve enfrentar o mesmo desafio diariamente. O jornal, no entanto, busca conversar com o público mais jovem com regularidade. Inclusive, mensalmente, seleciona uma coleção de reportagens que tratam de temas de interesse de crianças e adolescentes e publica em um blog, The Learning Network, que tem o objetivo de colaborar com professores que gostam de usar jornais e matérias para debates em salas de aula. É uma fonte inspiradora de pautas para os diários em qualquer país, guardadas as diferenças culturais e comportamentais entre jovens nos EUA e em outras nações, claro.

Exemplos – Em uma reportagem, o Times aborda a atuação de adolescentes com habilidades em tecnologia e que estão usando tais competências para empreender no mundo dos negócios, criando aplicativos e soluções digitais impulsionados pela difusão de ferramentas gratuitas de baixo custo.

NYT - Technologically skilled teenagers

Outra matéria analisa o conteúdo de musicas e vídeos recentes que dizem aos adolescentes para serem seguros com o corpo deles, ou “serem eles mesmos”, sejam eles mais gordos ou mais magros do que aquilo que pode ser considerado padrão em alguns grupos ou localidades.

Numa era que milhares de fotografias estilo “selfie” são publicadas todos os minutos, o discurso presente da letra das músicas capta o gosto dos mais jovens. Isso acontece há anos, claro, seja para a estética ou para qualquer outro comportamento. Os jornais precisam ficar atentos.

Detalhe importante: as reportagens não são segregadas em um caderno especial publicado uma vez por semana. Elas são impressas em quaisquer partes do jornal, sendo comum encontrá-las nas editorias de comportamento, ciência, economia ou política.

Como formar novos leitores – e mais jovens?

Na indústria da mídia impressa, sempre esteve em pauta o desafio de formar novos leitores – principalmente porque os indicadores mostram que o brasileiro não é um leitor voraz. Além da crise diante da evolução tecnológica, a mídia impressa sofre com o envelhecimento do público fiel aos jornais e revistas.

A preocupação da mídia impressa encontra eco em diversas famílias: como fazer os jovens trocarem as plataformas eletrônicas pelos jornais e revistas? Como transformar a leitura em algo rotineiro e agradável?

Na revista Época, o colunista Danilo Venticinque escreve periodicamente sobre assuntos como esses. Basta conferir. Em um dos artigos mais recentes, ele listou algumas atitudes que ajudam a formar leitores.

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Jornal impresso pode interagir mais com leitores

Com a explosão de aplicativos e infografias no ambiente online, parece que interagir com leitores só é possível para o jornalismo na internet. Ledo engano. O jornal O Estado de  S. Paulo publicou nos últimos dias duas páginas com reportagens que interagem com os leitores – se não no momento na leitura, ao menos no momento da concepção.

Um pouco esquecidas nos últimos anos, esse tipo de ação é louvável no jornalismo, sobretudo em uma plataforma percebida como fadada à extinção por muitos especialistas exatamente por não terem os mesmos ingredientes dinâmicos que o jornalismo online.

OESP Interação com leitores 2OESP Interação com leitores 1

Tempos atrás, o jornal O Globo publicada regularmente no meio das reportagens janelas com opinião dos leitores comuns. A iniciativa não tem mais espaço no diário atualmente.

Essas iniciativas são interessantes porque  colaboram para fidelizar o leitor ao produto. No caso específico do Estadão, são maneiras interessantes de atrair o público mais jovem para o manuseio e para a leitura de jornais.

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As pessoas comuns têm poder de guiar a cobertura da imprensa? Parece que sim

Verdades dolorosas para o jornalismo

Àqueles que se interessam em pensar como será o jornal no futuro, seja porque é leitor voraz ou jornalista, vale considerar um ótimo artigo escrito no O Estado de S.Paulo dia 7 de fevereiro. O texto questiona a perda de leitores e provoca a indústria da notícia ao afirmar, com base em argumentos do extraordinário Gay Talese, que os leitores estão desencantados com a forma como os jornais entregam informação atualmente. Separei trechos interessantes:

– É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico O Senhor dos Anéis e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real.

– Gay Talese: "A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. (…)"

– O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas a incapacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa.

– A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência.

– Os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

– Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

Minha opinião: o jornalismo precisa realmente de histórias bem apuradas, bem escritas (não necessariamente parecidas com romances, como defende Talese), sobretudo bem apuradas. Se os jornais não conseguirem encantar e entusiasmar, continuarão a perder (ou a não ganhar) espaço. Sempre me intriguei com a baixa tiragem dos principais jornais considerados de circulação nacional, que não conseguem vender mais de 300 mil exemplares em um país com 190 milhões de pessoas cada vez mais exigentes, com instrução e renda crescentes. A pista realmente é a falta de conexão com o mundo real – e não o mundo oficial divulgado pelos governos e autoridades públicas e polícias a todo momento. E também incapacidade de se relacionar com o público jovem, que lê, sim senhor, mas não jornal. O Brasil real é mais embaixo.

Outras matérias sobre o mesmo tema: Separei seis textos que abordam diretamente ou perifericamente o tema central do artigo em questão – a dificuldade para atrair novos leitores para os jornais e como chamar a atenção de jovens e adolescentes.

1) Estadão dá alguns passos na trilha de sucesso da Superinteressante

2) Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens

3) Notícias frias na capa dos jornais podem capturar novos leitores

4) Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas

5) Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?