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Exemplo nota dez de reportagem para público jovem

Reportagem feita pelo jornal O Estado de S. Paulo em junho de 2013 é um exemplo excelente sobre o exercício, que deveria ser cotidiano, de escolher temas que interessem para o público jovem. Os principais jornais do país praticamente perderam audiência deste segmento de leitores para a internet, que tem canais com pauta e linguagem mais personalizadas e adaptadas.

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Para saber mais:

Os projetos educacionais selecionados pelo Estadão são apenas uma pequena fração do que existe para aqueles interessados em aprender temas específicos de diversas áreas do conhecimento. Aqui, é possível compreender como as opões são muitas – em língua inglesa.

Com vários repórteres em torno da mesma matéria, leitor ganha análise exclusiva no dia seguinte

Reportagem bastante interessante do jornal O Estado de S. Paulo mostra as principais medidas dos estados brasileiros para contornar as dificuldades macroeconômicas previstas para 2015 e depois.

A pauta é simples: identificar as perguntas que precisam ser respondidas, procurar todos os gestores estaduais e, a partir das respostas, identificar as tendências e explicá-las ao leitor.

Esse tipo de pauta apresenta sempre dois desafios para a mídia, principalmente para empresas jornalísticas com abrangência regional ou local: colher as respostas em todas as fontes necessárias para montar o quadro geral. Nem sempre há profissionais disponíveis para tamanho esforço. Na reportagem realizada pelo O Estado de S. Paulo, o diário informa que nove jornalistas participaram da cobertura.

OESP Administrações estaduais

Enquanto a coleta das respostas e um trabalho mais braçal, a formulação das perguntas é uma atividade mais intelectual e demanda planejamento de um profissional que conheça bastante o tema a ser investigado. Isso evita desperdício de esforço das equipes em campo.

O resultado é sempre recompensador, pois análises semelhantes costumam ser feitas por consultorias ou universidades, mas após algum tempo. Na imprensa, o resultado é entregue bem mais rápido.

Exemplos de pautas – Há inúmeras pautas que podem ser desenvolvidas com essa estrutura e tipo de planejamento. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, dividida em subprefeituras para aproximar a administração pública da população, repórteres podem perguntar em cada autoridade local qual é a principal obra a ser realizada em 2015. Esse tipo de informação certamente é de interesse do leitor.

O mesmo pode ser feito nos estados, novamente: identificar qual será a principal obra ou ação pública do governador em cada cidade. O resultado pode ser editado em um mapa, nas páginas impressas ou na versão online, e produzida por jornais regionais.

Para saber mais:

Outra boa pauta que inclui o trabalho de diversos repórteres em diversas localidades, desta vez para os cadernos de esportes, é identificar algumas perguntas que podem ser respondidas na abertura dos campeonatos estaduais de futebol.

A opinião das crianças nas reportagens: como garantir naturalidade e precisão?

pedidos das crianças

Em 14 de outubro de 2012, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem a partir da opinião de crianças entre 9 e 12 anos. Elas sugeriam o que o próximo prefeito da cidade de São Paulo – que viria a ser Fernando Haddad – deveria fazer ou ter como prioridade.

Nada de errado em escutar a opinião das crianças. No entanto, por mais que o texto do jornal explicite claramente que os jovens foram ouvidos por jornalistas, há muitas dúvidas se a opinião é realmente dos entrevistados mirins ou dos repórteres.

Esse problema é comum em matérias desse tipo, que tentam tornar adultos mais pueris ou fazer das crianças pessoas mais maduras do que elas realmente são. É comum os pais enviarem a opinião dos filhos aos jornais – o que geralmente resulta na opinião dos pais, induzindo os filhos a darem respostas automáticas e condicionadas para perguntas nas quais eles nunca pensaram. Não raramente, os pais respondem, de forma velada, pela criança, para que ela fale aquilo que os pais considerem adequado.

Mesmo que a redação do jornal tenha enviado repórteres para entrevistar as crianças, a deturpação da opinião pode facilmente acontecer, mesmo sem intenção. Quando o jovem entrevistado não formula boas respostas – ou respostas esperadas pelo entrevistador – as perguntas podem facilmente ser feitas de forma a ajudar a criança a responder aquilo que o jornal gostaria de ouvir. Não há maldade. A pauta precisa ser cumprida.

É claro que pode ter ocorrido a coincidência de a reportagem ter encontrado várias crianças com elevado grau de opinião política, sintonizadas com os problemas da cidade e as obrigações de um prefeito – e que saibam expressar as ideias de forma clara. Mas matérias desse tipo deixam sempre a dúvida: será que as frases reproduzidas expressam realmente a opinião das crianças? Ou as ideias dos pais ou repórteres?

A solução é dar transparência ao método de apuração das informações. Explicar ao leitor quantas entrevistas foram feitas, quantas foram aproveitadas e quantas foram descartadas. Reproduzir com mais fidelidade as frases ditas pelas crianças, na ordem natural que elas foram formuladas e pronunciadas, corrigindo, eventualmente, somente erros de sintaxe.

Além disso, às crianças poderia ser dada a oportunidade de pensar sobre os temas centrais da reportagem antecipadamente, em uma aula especialmente formulada pelos professores. Assim, os jovens entrevistados estariam mais extrovertidos e seguros para responder, com naturalidade, as perguntas dos repórteres.

Planejamento garante bons relatos e recursos visuais em matéria difícil com usuários de drogas

FSP diário do crackOs grupos de pessoas que moram ou trabalham nas ruas são sempre alvo de curiosidade da sociedade e dos jornalistas.

Sem enveredar para análises sociológicas, esses personagens costumam ser vistos como símbolos de rebeldia, de diferenciação ou exclusão social.

É a forma como são vistos, e isso não significa que eles realmente pensem assim ou que esse retrato seja verídico.

Não é fácil entrevistar esses personagens. O repórter precisa manter o distanciamento necessário, para não julgar o entrevistado, nem odiá-lo nem ter piedade dele. Esses sentimentos podem enviesar a forma como o profissional ouve e processa as respostas e prejudica a forma de conduzir as perguntas.

Problemas aos entrevistados – Muitas vezes, não querem falar, pois vivem em condições que, por necessidade ou vontade própria, ultrapassam regras legais ou têm hábitos que são criticados pela maioria das pessoas, de forma preconceituosa ou não.

Eles vivem em uma cidade que quase nunca está nas páginas dos jornais ou no noticiário da televisão. Por isso, geram curiosidade. É comum, após um depoimento em que assume uma atividade irregular ou não aceitável, o personagem da entrevista sofrer alguma retaliação das autoridades ou dos moradores. Falar com jornalista pode trazer algum problema.

Quando um repórter tenta uma entrevista com um morador de rua, usuário de droga, prostituta, mendigos ou bêbados, entre outros, não são raras as vezes em que o jornalista enfrenta medo, tensão, xingamentos ou agressões. De outro lado, há personagens que são gentis e atenciosos, pois o repórter é uma pessoa que quer ouvir o que ele tem a dizer.

Boa matéria – Por essas razões, é bastante valorosa a reportagem que o jornal Folha de S. Paulo publicou dia 26 de janeiro. Chama-se “Diário do crack” (para assinantes), de autoria de Aretha Yarak Fabrício Lobel. No subtítulo: “Por cinco dias, a Folha acompanhou três dependentes e registrou os percalços da adaptação ao programa da prefeitura que tenta recuperá-los”.

A ideia, bem cumprida, foi acompanhar com os primeiros dias de três personagens – dependentes químicos que moravam na rua e passaram a ser alvo de um programa social da Prefeitura de São Paulo e do governo paulista para tentar ajudar as pessoas a abandonarem o consumo do crack.

Texto rápido, uma infografia na forma de página de diário, com anotações rápidas informando como transcorreu cada dia de cada um dos três personagens que aceitaram ser acompanhados. A ideia inicial e o planejamento de pauta foram fundamentais, certamente.

Oportuno verificar também que há um equilíbrio eficiente entre informações que estão no texto da reportagem e no texto da infografia. Muitas vezes, quando este tipo de recurso visual é empregado, ele acaba apenas copiando ou resumindo o que já está no texto, desperdiçando espaço.

Jornalismo esportivo: ainda há boas reportagens

A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo dispensa comentários. Muito boa. Aborda um fato que os torcedores parecem já ter percebido, traz depoimentos e análises de diversos ex-jogadores, especialistas no assunto – a arte de fazer gols nas batidas de falta.

É um trabalho muito positivo, considerando o nível ruim do jornalismo esportivo, no qual os profissionais, em grande parte das vezes, estão envolvidos em clubismo e opinião sem embasamento suficiente, muitos inclusive brigando contra números.

A matéria poderia ter sido melhor, no entanto. Um exemplo: mais números para comprovar a tese. O texto informa que há queda nos gols de falta no
Campeonato Brasileiro (133 em 2011 contra 116 em 2012). A estatística deveria abranger um período mais longo, desde 2003, por exemplo, quando o campeonato nacional passou a ser disputado no modelo de pontos corridos.

A cobertura, em vez de trazer pequena matéria com treinador de goleiros, poderia ter ouvido treinadores das categorias de base para explicar se o fundamento – bater faltas – é exaustivamente treinado entre os atletas mais jovens e aspirantes – e, caso negativo, por quais razões.

A possibilidade de melhorar a reportagem, no entanto, não tira o mérito da pauta muito bem feita, criativa e cumprida.

Sugestão de pauta – A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo deveria inspirar jornalistas esportivos a produzir boas matérias sobre outros fundamentos ou jogadas do futebol, como defesas de pênalti, cruzamentos e tabelas entre atacantes, entre outros.

Na mesma linha, as matérias poderiam trazer números sobre a eficiência dos atletas em fundamentos. Há consultorias que mensuram fundamentos e alguns clubes compram este tipo de serviço.

Tal qual  a reportagem do O Estado de S. Paulo, atletas considerados “ícones” nos fundamentos poderiam analisar o assunto.

Batedores de falta

Boa pauta explora uma das inúmeras possibilidades de reportagem sobre futebol

Almir PernambuquinhoBela reportagem na Folha de S. Paulo, vinda de Anélio Barreto, jornalista que a escreveu como colaborador do jornal – isto é, ele não faz parte da redação. Na pauta, o ingrediente principal é a História. Na reportagem, é o texto longo, narrativo, que era praticado no Jornalismo décadas atrás e que a proliferação da internet e plataformas digitais sepultou.

A reportagem narra trechos da carreira e da vida do jogador Almir Pernambuquinho, que jogou Sport, Vasco da Gama, Corinthians, Santos, América (RJ), Boca Junior (Argentina) e Genoa (Itália) nas décadas de 50 e 60. Briguento, morreu assassinado em um boteco no Rio de Janeiro ao tentar defender um grupo de artistas gays que eram alvo de piadas de um grupo de homens sentados em uma mesa próxima.

O futebol, como todos os outros temas cotidianos, pode e deve ser abordado nas diversas facetas que interferem no esporte, como a política, a econômica, a histórica, a jurídica, a bélica, a criminal, a médica, a estatística, entre muitas outras. Com qualidade, é claro, e bom-senso na hora de organizar a pauta. É o caso dessa bela e surpreendente reportagem. O texto, apesar e longo para o jornalismo atual (uma página inteira do jornal, quase 10.000 caracteres), flui fácil. O conjunto da obra – pauta, texto e detalhes – tem qualidade.

Aviação regional no Brasil: quando o assunto é novo no país, como pautar uma reportagem?

O governo federal apresentou, no dia 2o de dezembro, mais um programa para incentivar investimentos na infraestrutura do país. Na ocasião, o alvo foi o setor aeroportuário. Desde setembro, outros pacotes de medidas e obras foram lançados para os mercados de energia elétrica, rodovias, ferrovias e portos.

Nos aeroportos, o governo federal decidiu adotar novamente o modelo de concessão em mais dois terminais. Nas concessões, a responsabilidade de investir em obras de expansão e modernização da capacidade e de operar e manter os serviços em boa qualidade passa a ser do empreendedor privado. Vale lembrar que a União adotou o mesmo procedimento para três dos maiores aeroportos do Brasil no início de 2012: Campinas, Guarulhos e  Brasília.

Além das concessões, o governo federal decidiu criar uma rede mais robusta de aeroportos regionais e incentivar as companhias aéreas a estabelecer rotas aéreas para essas localidades. A ideia é oferecer voos em muitas localidades ainda não atendidas pelo transporte aéreo.

A imprensa brasileira divulgou as decisões do governo federal e buscou outros aspectos paralelos nos dias seguintes, como taxa prevista de retorno ao capital investido, preços futuros de tarifas e distribuição de voos.

FTimes - regional airportsNovos ângulos – De matéria do Financial Times sobre aeroportos regionais no Reino Unido, fica a sugestão de aprofundar o tema a partir de novos ângulos. 

O governo do País de Gales vai novamente trazer para o poder público a responsabilidade de administrar e investir no aeroporto de Cardiff.

A reportagem é interessante porque traz informações e opiniões do aeroporto regional de lá que podem servir de ponto de partida para uma matéria similar.

– Os aeroportos regionais podem sofrer com a ‘força gravitacional’ exercida pelos maiores aeroportos?

– Quais os nichos de mercado em cada região que podem transformar os aeroportos regionais em bons negócios?

– As normas de regulação existente no Reino Unido – ou em outros centros europeus – podem servir de parâmetro para desenvolver uma rede de rotas e de voos pelo interior do país (sem a qual os aeroportos regionais ficariam esvaziados)?

– Aeroportos regionais relativamente próximos uns dos outros podem dificultar a captação de passageiros e negócios e criar uma concorrência predatória, ruim para ambos?

Mercado virgem – As perguntas acima surgiram após a leitura da matéria do jornal britânico Financial Times e podem servir de parâmetro para reportagens sobre esses negócios no mercado brasileiro.

O Brasil não tem experiência com um mercado regional de aviação e por isso pode ser mais difícil imaginar quais perguntas devem ser feitas. Nesses casos, a saída é buscar casos reais em países nos quais o setor está mais consolidado e tanto as dúvidas quanto as oportunidades são mais claras.