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Quem são e o que pensam as pessoas que estão à frente das notícias?

O mês de junho foi bastante trabalhoso para os profissionais de imprensa, que foram obrigados a buscar compreensão para fatos inesperados, que ocorreram sem aviso prévio e com dimensões substantivas.

Em junho, manifestações sociais seguidas, em mais de cem cidades, levaram centenas de milhares de pessoas às ruas, principalmente nas capitais. Caminhoneiros bloquearam diversas estradas pelo Brasil e empregados de empresas de ônibus paralisaram a prestação de serviços aos paulistanos, fechando importantes terminais e promovendo ações violentas.

A mídia precisou se desdobrar para entender e explicar tanta insatisfação ao mesmo tempo. Um fato, entre tantos outros, deve ser destacado no papel da imprensa. Ela decidiu mostrar à sociedade quem eram as pessoas à frente dos fatos. Essa decisão foi importante para os leitores terem outras informações que são fundamentais para compreender quem está demandando o que.

Em curto espaço de tempo, o jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, apresentou uma reportagem com dados relativos ao perfil e à origem dos líderes do Movimento Passe Livre, que apertaram o gatilho na série de passeatas nas cidades brasileiras ao reivindicarem a redução da tarifa de ônibus.

O jornal fez também um perfil de um dos mais antigos empresários de ônibus que faz negócios na cidade de São Paulo, pauta extremamente importante para oferecer melhor compreensão sobre os custos de parte considerável do transporte público.

Ainda sobre ônibus, a Folha de S. Paulo mostrou que é e o que já fez o sindicalista que representa empregados de empresas de ônibus, inclusive lembrando das maiores e mais problemáticas paralisações provocadas por ele na cidade.

Do Movimento Passe Livre, os leitores descobriram que radicalizar faz parte da estratégia. Em várias passeatas, ônibus, agências bancárias, orelhões e lojas foram depredados. Do empresário de ônibus, foi possível saber que ele domina o negócio na capital paulista há cinco décadas e que é um devedor costumaz de tributos, usando de várias manobras para permanecer no mercado e não pagar dívidas.

Do líder dos caminhoneiros, os leitores foram avisados que ele é dono de uma frota de caminhões, presta serviços para a estatal brasileira de petróleo e que os bloqueios das rodovias de 2013 é uma repetição do que já ocorreu em 1999, quando o mesmo sindicalista parou o tráfego nas estradas por quatro dias.

Já o sindicalista dos trabalhadores do sistema de ônibus é parte de uma longa série de conflitos, assassinatos e paralisações de ônibus – uma delas de nove dias em 1992 – envolvendo os diretores de um mesmo sindicato de motoristas e cobradores.

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Está aberta a temporada de promessas para 2011

PromessaKassabNos três ou quatro últimos meses do ano vigente, os governos – federal, estaduais e municipais – precisam enviar aos parlamentares, sejam eles deputados ou vereadores, as propostas orçamentárias para os gastos e investimentos planejados para o ano seguinte.

Um conjunto enorme de metas e promessas costumam constar nas propostas orçamentárias.

É um momento até mais importante do que as eleições, já que a lei que autoriza o gasto do orçamento é um documento oficial, um compromisso muito mais firme e real do que cadernos com propostas de campanha eleitoral.

É uma oportunidade ímpar para que todos os jornais, independentemente do tamanho e da abrangência da circulação, mirem a atenção para esse assunto, como fez O Estado de S. Paulo dia 29 de setembro. Mostrou metas e promessas na proposta orçamentária que o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, pretende enviar para a Câmara dos Vereadores da capital paulista.

Jornais de todas as cidades e todos os estados deveriam repetir a mesma pauta enquanto os leitores poderiam recortar e guardar a página para cobrar dos governantes o cumprimento daquilo que foi escrito.

O leitor precisa lembrar, mas esquece. Os governos querem esquecer, mas lembram

As melhores reportagens da semana têm um mesmo gene: escancaram problemas e informações encobertas ou esquecidas pelas autoridades públicas ao investigarem o desempenho dos governos na execução de programas e políticas públicas prometidas com alarde. O falecido Aldred Harmswoth, fundador dos jornais britânicos Daily Mail e Daily Mirror, teria dito que “notícia é aquilo que alguém em algum lugar quer esconder – o resto é publicidade”.

Esse olhar rigoroso e vigilante da imprensa é importante para que as políticas públicas atinjam os resultados esperados e prometidos. Sabe-se que, dentro da administração pública, muitas idéias ficam no papel não somente por ineficiência dos gestores, mas também por causa de um embaralhado de leis e regras burocráticas que precisam ser cumpridas, que visam o bom emprego do dinheiro do contribuinte. Quando os governos esquecem das promessas ou querem esquecer delas, cabe à imprensa lembrar a todos.

14ago Estadão ciclovia No último fim de semana, dias 14 e 15 de agosto, boas reportagens cumpriram essa função. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, dia 14 de agosto, que as obras para a construção da maior ciclovia na cidade de São Paulo ainda estão no papel. A prefeitura da capital paulista poderia ganhar alguns pontos com a população se fosse a público informar o atraso e os motivos. Ao adotar uma postura de silêncio, teve de se defender ao ser cobrada pela imprensa.

O Globo, também dia 14, divulgou o desempenho do programa Minha Casa, Minha Vida, que promete viabilizar a contrução de 1 milhão de unidades habitacionais até o fim de 2010, dos quais 400 mil para famílias pobres, com renda até três salários mínimos. Dentro desse grupo, apenas 3,5 mil casas foram entregues. A Caixa Econômica Federal (CEF), que financia as obras, explicou que 93% das casas previstas para os mais pobres já foram contratadas, jargão que significa haver um contrato entre construtora e banco para a contrução. Se o número for correto, e não há razão para duvidar, acredito que, até o fim do ano, o resultado deve ser bem melhor.

13ago FSP habitaçãoA matéria é similar à feita pela Folha de S. Paulo, que noticiou, no dia anterior, que da meta de 400 mil casas para os mais pobres, 240,5 mil já tinham contratos de contrução assinados, e só 545 casas tinham sido entregues. Mas a CEF teria omitido dados negativos e desfavoráveis sobre o programa, alegando que eles não existiam – mas existiam, como mostrou o diário.

Mas não somente os governantes derrapam no cumprimento das regras e promessas. As pessoas comuns, os cidadãos, também. No dia 14 de agosto, o jornal O Globo mostrou que moradores do Complexo do Manguinhos  estão transformando imóveis recém-recebidos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em lojas, bares e até açougue, o que é proibido por lei. Os moradores sabem da proibição, pois, para receberem as chaves, foram obrigados a frequentar um rápido curso de 15 horas sobre as regras de utilização. Quem descumpriu a lei o fez sob a confiança da ausência de punição que marca a história da relação entre Estado e cidadão no Brasil.