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Reportagem do Los Angeles Times mostra porque é tão importante divulgar dados públicos

O Los Angeles Times produziu um mapa de calor (heat map, em inglês) para mostrar se o atendimento do serviço de emergência local estava cumprindo os critérios estipulados pelas autoridades.

A regra dos serviços de resgate é chegar ao local da emergência em até seis minutos. Os jornalistas do Los Angeles Times espalharam em um mapa da cidade os dados de mais de um milhão de chamadas durante os últimos cinco anos, localidade por localidade.

A gradação das cores permite perceber que o serviço de resgate consegue fazer o atendimento em até seis minutos somente nas imediações das equipes – e, para a imensa maioria dos pedidos, o tempo limite é ultrapassado.

Esse é um típico exemplo de jornalismo baseado em dados (ou data-driven journalism, em inglês). Ao encontrar uma forma visual eficiente para mostrar as estatísticas, os jornalistas descobriram uma informação relevante para os leitores.

Los Angeles heat map

Note que haveria ainda uma boa notícia mesmo se as cores evidenciassem que os serviços de resgate conseguem cumprir o prazo de seis minutos para a maioria dos atendimentos.

Dados públicos – Agora, imagine um mapa como esse para cada cidade brasileira. Além de informar, possibilidade às autoridades públicas tomarem melhores decisões e corrigirem falhas. Por isso não é aceitável manter os dados públicos escondidos, guardados nas gavetas.

Esse tipo de jornalismo é muito dependente da existência de estatísticas – e da disponibilidade delas. Por isso, há um movimento crescente entre jornalistas e atividades da liberdade de expressão para que os administradores públicos tornem públicas as informações coletadas pelos governos.

No Brasil, ano passado, uma lei foi aprovada para atender a esse princípio – a Lei de Acesso a Informação.  Vale ressaltar que diversos países sul-americanos criaram legislação sobre o assunto muito tempo antes. Outras nações ao redor do mundo já se antecipam ao uso da lei, dando visibilidade às estatísticas públicas por livre iniciativa.

É uma demanda civil que veio para ficar. O cidadão, mais que o leitor, ganha muito com tudo isso.

Veja mais:

O desafio de produzir reportagens quando faltam números.

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos:

O criados da internet começa a dar novos usos à própria criação.

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Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe

No fim de semana, o jornal norte-americano The Washington Post publicou uma reportagem mostrando que diversas modalidades de crime estão em queda nos Estados Unidos, segundo o FBI, mas uma delas cai de forma muito mais rápida: os roubos de carro. A queda na quantidade de veículos roubados, lá, atinge 40% entre 2003 e 2010. Em algumas localidades, a redução foi maior que 60%.

Fewer cars stolen A matéria explica que as polícias locais, lá, usam uma gama variada de métodos e ferramentas, desde carros chamados de “isca”, que são monitorados pelas equipes à espera dos ladrões, como o uso de rastreamento e bloqueio remoto. São dispositivos já bastante disseminados.

As chaves especiais de ignição, que os bandidos aprenderam a copiar ao longo dos anos, evoluíram para outras que se comunicam com computadores de bordo a partir de algoritmos complexos e milhões de possibilidades de códigos de acesso, segundo o jornal, tornando mais difícil e caro burlar a tecnologia, exigindo ladrões especializados, tempo e equipamentos.

N o dia 25 de julho, o governo do Estado de São Paulo divulgou novas estatísticas sobre criminalidade. Os homicídios diminuíram consistentemente, o que é bom. Há alguns anos, o foco da política de segurança pública paulista é evitar crimes contra a vida. De outro lado, crimes contra o patrimônio, como os roubos de carros, continuam crescendo, depois de um período de queda.

Crimes SP 1semEscassez de dados – No Brasil, não há estatísticas consolidadas, abrangentes, centralizadas e à vista de todos sobre o assunto, que dê ao cidadão um retrato exato de como está a incidência de crimes no país inteiro. Os estados divulgam as estatísticas locais da forma como querem, quando querem, com a periodicidade que desejarem. Há relutância dos governantes em oferecer dados históricos e comparáveis.

O Estado de São Paulo passou a fazê-lo de uma forma mais transparente, divulgando estatísticas de acordo com diversas modalidades de crimes, períodos e localidades, da mais abrangente (o estado todo) à mais local, cidade por cidade até distrito por distrito, no caso da capital paulista.

Esse comportamento exigiu certa pressão da imprensa, mas tem permitido aos cidadãos acompanhar a evolução histórica dos crimes nas cidades e no estado e, inclusive, comparar com outros países.

Se nos EUA os roubos e furtos de carros caíram 40% desde 2003, no Estado de São Paulo a redução é de 21% desde 2001. Se a diminuição desse tipo de ocorrência parece vagarosa, vale lembrar que as autoridades priorizam a preservação da vida e depois a do patrimônio. Como reflexo dessa diretriz, os homicídios dolosos – ou seja, com intenção de matar – recuaram 65% entre 2001 e 2010.

Veja mais:

Conheça as estatísticas do Estado de São Paulo sobre segurança pública e faça suas próprias comparações.

Em matéria recente, o Café Expresso abordou a questão envolvendo a divulgação de dados de violência no estado de São Paulo.

Nos EUA, há dezenas de aplicativos criados quando os governos abrem os bancos de dados

Um interessante artigo publicado no The New York Times mostra a distância que existe entre governos brasileiros e estrangeiros, sobretudo norte-americanos e europeus, quando o assunto é transparência do setor público e atenção ao cidadão.

O artigo é de Richard Thaler, professor de economia e ciências comportamentais da Escola Booth of Business, da Universidade de Chicago. Selecionei alguns trechos que servem como síntese da idéia do autor e evidenciam o potencial que existe, tanto para os negócios quanto para a prestação de serviços aos cidadãos, quando governos divulgam informações ou dados crus sobre quaisquer temas.

– Os governos aprenderam uma nova forma – e barata – de melhorar a vida das pessoas. A receita é simples. Pegue os dados que eu e você já pagamos para um órgão público coletar e publique na internet de uma forma que programadores de computador possam facilmente usá-las. O setor privado se encarregará da criação de sites e de aplicativos para telefones celulares, reformatando e apresentando os dados de um jeito útil para consumidores, trabalhadores e empresas.

Onde está o ônibus? – Na cidade de São Francisco (EUA), o departamento de trânsito coletou dados da localização dos ônibus e trens por GPS e publicou as informações, em estado cru, na internet, tudo em tempo real. Um aplicativo para celulares foi criado e as pessoas que o utilizam podem saber onde está o ônibus que esperam, se ele está preso no trânsito ou atrasado – inclusive, se a pessoa está esperando o ônibus na rua certa. O cidadão recebe mais serviços e o governo não gasta nada com isso.

– Em São Francisco, já há uma enorme variedade de aplicativos disponíveis para serem utilizados nos celulares que abordam serviços em áreas como eleições, crime, transportes públicos e previsão do tempo, entre outros. O próprio governo federal dos Estados Unidos oferece um cardápio de aplicativos para serem utilizados. Eles lidam com assuntos como obesidade mercado de trabalho e programação de vôos, entre outros.

Nem tudo são flores – No entanto, mesmo que haja leis e governos dispostos a disponibilizar cada vez mais grandes bancos de dados e informações em estado bruto para programadores utilizarem e criarem aplicativos úteis às pessoas, há movimentos políticos e econômicos que tentam restringir a transparência abrangente e total no transporte aéreo e nas regras de segurança de produtos.

– Nos EUA, as companhias aéreas não querem publicar em tempo real os preços vigentes para passagens e serviços extras, como filmes, poltronas mais espaçosas e refeições, por exemplo, como determina a lei. Isso dificulta que os clientes tenham noção exata do custo total da viagem e possa comparar as companhias.

– Em outro programa governamental, que permite aos cidadãos relatarem problemas de segurança vivenciados com produtos quaisquer, políticos e setores econômicos organizados tentam restringir a iniciativa, já que ela, ao colocar companhias com má qualidade na vitrine, oferece um risco para as vendas.

E para os brasileiros? – No Brasil, há rascunhos de tentativas como as que vigoram na Europa e Nos Estados Unidos. O governo do Estado de São Paulo lançou recentemente o Governo Aberto, que disponibiliza bancos de dados com informações públicas para os desenvolvedores e programadores criarem aplicativos e serviços. No entanto, muitos especialistas reclamaram que os dados disponíveis estão em formatos pouco úteis – ou são superficiais. Mesmo que trôpego, é um passo que significa o início de uma jornada.

Imagine quantos novos serviços e aplicativos poderiam ser criados no Brasil, no mesmo molde do que já acontece em outros países. Gostaria muito de ver, por exemplo, a base de dados das companhias de engenharia de tráfego disponibilizadas, em tempo real e em formato utilizável, para que novos serviços e aplicativos fossem criados.

Veja mais:

Em outro artigo, também no The New York Times, Richard Thaler descreve alguns aplicativos criados a partir dos bancos de dados disponibilizados pelo governo federal dos Estados Unidos.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil

O jornal Folha de S. Paulo noticiou em manchete na capa no dia 1 de março: “Funcionário do Estado negocia dados sigilosos”. Trata-se de um sociólogo que chefia a área de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável por arquivar o conjunto de estatísticas sobre criminalidade no maior estado brasileiro.

Estatísticas crime 1 Esse cofre, repleto de estatísticas de um serviço público essencial, é alvo de uma disputa entre o jornal e o governo paulista desde 2008, no mínimo. A Folha de S. Paulo acredita ser de elevado interesse público desarquivar esses dados para que a população saiba quais são as ruas com maior incidência de crimes, em quais bairros há mais roubos residenciais, quais os veículos mais visados para roubo, por exemplo.

Já o governo paulista decretou uma regra: divulga, trimestralmente, somente dados consolidados por tipo de crime, de forma que a sociedade tenha apenas conhecimento sobre quais crimes aumentaram ou diminuíram em em cada macrorregião – capital, interior, litoral. O que o jornal deseja tem enorme relevância – mas está no arquivo. O que o governo estadual é interessante mas tem pouco valor – e está público.

O erro maior permanecerá – O que jornal revela, além da imoralidade da história, é a mentira do governante. Estatísticas públicas que deveriam ser divulgadas para toda a sociedade estavam sendo comercializadas de forma privada por funcionários públicos para instituições e empresas privadas que, com os dados comprados, faziam negócios e geravam mais e mais valor e riqueza. A desonestidade foi punida com demissão. Mas o erro maior – o arquivamento dos dados – certamente permanecerá.

HomicideReport São Paulo segue na contramão de diversas cidades norte-americanas e européias que já aderiram a um movimento internacional que clama por divulgação de informações e estatísticas públicas pelos governos – conhecido como “open data moviment”. Lá, a idéia é que programadores e outros profissionais criativos desenvolvam novos negócios e novas empresas com os dados públicos – independentemente se vão fornecer, posteriormente, serviços gratuitos ou pagos. O importante é gerar valor, negócios, empresas e empregos com as estatísticas públicas.

Um projeto interessante é o do jornal Los Angeles Times. Chamado The Homicide Report, mostra o local e a quantidade de homicídios rua por rua. Imagine qualquer quarteirão do bairro onde mora nesse mapa. Tem relevância para você? É ,ais ou menos isso que a Folha de S. Paulo quer fazer e que o governo paulista diz que não deve ser feito porque a divulgação de tais dados cria pânico e desvaloriza regiões.

Princípios – Não se pode negar que há certa lógica por trás dos argumentos governamentais, mas há um problema de princípio: essas justificativas insistem que o povo, na ignorância, vive mais feliz. Caro secretário, caro governador, é a informação – que fornece às pessoas a chance de buscar as melhores opções por conta própria – que gera mais felicidade, aqui entendida como bem-estar.

Outro ponto relevante. Se as pessoas acreditam que governos e políticos são transparentes e sérios, elas acabam se tornando mais comprometidas com o funcionamento geral da cidade. Isso não é idéia de pesquisador utópico, mas sim conclusões de um estudo em três cidades nos Estados Unidos.

Já peguei emprestado algumas vezes a frase de um dos pais da internet, Tim Berners-Lee, que coordena o departamento chamado “governo aberto” no Reino Unido, e volto a fazê-lo: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” No Brasil, esses dados, arquivados, não estão sendo jogados no lixo. Estão gerando negócios, para alguns.

Para saber mais:

Projeto Not Just a Number, realizado em conjunto pelo The Oklahoma Tribune e pelo Inside Bay Area. Mostra a força de dados públicos relevantes de uma forma abrangente, com jornalismo. Entre estatísticas, relatos e procedimentos, informa fatores de riscos envolvidos nos homicídios, mapa com serviços públicos como recreação e treinamento para o emprego e ruas nas quais os crimes ocorreram, entre outros. Pena que tem atualização a partir de 2008.

Projeto Oakland Crimespoting. Mostra, ocorrência por ocorrência, por tipo de crime, em cada endereço. Um projeto ímpar quando o assunto é divulgação de dados públicos releventes para gerar serviço e valor para a sociedade.