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Jornalismo esportivo: ainda há boas reportagens

A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo dispensa comentários. Muito boa. Aborda um fato que os torcedores parecem já ter percebido, traz depoimentos e análises de diversos ex-jogadores, especialistas no assunto – a arte de fazer gols nas batidas de falta.

É um trabalho muito positivo, considerando o nível ruim do jornalismo esportivo, no qual os profissionais, em grande parte das vezes, estão envolvidos em clubismo e opinião sem embasamento suficiente, muitos inclusive brigando contra números.

A matéria poderia ter sido melhor, no entanto. Um exemplo: mais números para comprovar a tese. O texto informa que há queda nos gols de falta no
Campeonato Brasileiro (133 em 2011 contra 116 em 2012). A estatística deveria abranger um período mais longo, desde 2003, por exemplo, quando o campeonato nacional passou a ser disputado no modelo de pontos corridos.

A cobertura, em vez de trazer pequena matéria com treinador de goleiros, poderia ter ouvido treinadores das categorias de base para explicar se o fundamento – bater faltas – é exaustivamente treinado entre os atletas mais jovens e aspirantes – e, caso negativo, por quais razões.

A possibilidade de melhorar a reportagem, no entanto, não tira o mérito da pauta muito bem feita, criativa e cumprida.

Sugestão de pauta – A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo deveria inspirar jornalistas esportivos a produzir boas matérias sobre outros fundamentos ou jogadas do futebol, como defesas de pênalti, cruzamentos e tabelas entre atacantes, entre outros.

Na mesma linha, as matérias poderiam trazer números sobre a eficiência dos atletas em fundamentos. Há consultorias que mensuram fundamentos e alguns clubes compram este tipo de serviço.

Tal qual  a reportagem do O Estado de S. Paulo, atletas considerados “ícones” nos fundamentos poderiam analisar o assunto.

Batedores de falta

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Reportagem digital evita erros das mais antigas e das mais recentes práticas jornalísticas

As mais antigas e mais recentes ferramentas do jornalismo muitas vezes colidem umas contra as outras – e essa colisão gera energia nova. A reportagem multimídia Moendo Gente é um bom exemplo. Uniu a boa e velha reportagem com os melhores recursos visuais disponíveis. O tema é o menos importante. Merece aplauso o processo, desde o planejamento e a escolha do método até o apuro na condução da reportagem e na edição. O foco da matéria é o leitor, por mais óbvio que pareça, e não a preferência do jornalista que a produz.

Reportagem digital

A matéria, como ela própria explica, “é um mergulho no universo dos trabalhadores dos principais frigoríficos brasileiros”. Ela investiga os acontecimentos, coloca repórteres em campo, junta as pontas, investiga de novo. Busca estatísticas e as ordena, tira novidades a partir do cruzamento dos dados, investiga novamente. Ouve pessoas, narra dramas e questiona autoridades. Mostra tudo de forma visualmente agradável, bonito e atraente e ainda permite que o receptor da notícia – o internauta – interaja com a reportagem, selecionando aspectos que deseja conhecer.

Usa texto, mapas, vídeos. Um bom exemplo de reportagem multimídia que usa o melhor de todos os recursos e não cai no erro das mais antigas e das mais recentes práticas jornalísticas. Uma delas é exagerar no texto quando há reportagens investigativas de fôlego como essa, com profundidade. Outra é exagerar nas estatísticas e números que, mesmo que apresentados de forma atraente, não apenas dados de almanaque, que não respondem as mais importantes questões sobre o assunto.

Foi produzida pela ONG Repórter Brasil. Os jornalistas investigaram as relações de trabalho nos maiores frigoríficos brasileiros, organizaram estatísticas sobre acidentes de trabalho, apresentaram os elos entre as empresas e as redes de supermercados, no Brasil e no mundo. A ideia é mostrar que um local de trabalho negligenciado aqui precisa ficar evidente para um varejista e para um consumidor do outro lado do mundo.

Londres 2012: como a Foreign Policy superou o desafio de produzir reportagens inovadoras

Os grandes eventos – econômicos, políticos, esportivos ou culturais são um desafio para a mídia. Os jornalistas precisam apresentar ao público reportagens com abordagens inovadoras, exclusivas e surpreendentes. Nessa busca, muitas tentativas resultam em matérias bobas, fúteis ou apenas um pouco engraçadas.

cover_jul26_geolympicsA revista norte-americana Foreign Policy, quinzenal, conseguiu pensar uma boa reportagem – e cumpriu-a muito bem. Eles reuniram alguns casos que marcaram politicamente a realização dos Jogos Olímpicos, alguns deles bastante conhecidos – como o ataque terrorista perpetrado pelo Setembro Negro em Munique, Alemanha, em 1972, que resultou na morte de 11 atletas israelenses e cinco terroristas.

O interessante é que as desavenças geopolíticas entre as grandes potências mundiais ao longo da história refletiram em muitos Jogos Olímpicos. Os casos são bem narrados pela revista Foreign Policy.

Vale a pena a leitura. A revista é conhecida por analisar com bastante abrangência e competência as relações externas e as intrigas mundiais de poder entre as nações. A reportagem está em inglês.

A concepção e a estrutura da pauta são relativamente simples. Isso não faz da reportagem algo fácil de ser feito. O jornalista buscou adaptar o tema ao perfil da publicação. Depois, pesquisou, em todos os eventos olímpicos, exemplos nos quais as nações trouxeram para dentro de campo os conflitos políticos ou geográficos que viviam fora dele. Vários exemplos que têm o mesmo conceito ou os mesmos princípios por trás dão unidade à matéria. Depois, bastou descrever os episódios. É isso.