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Com um bom método, jornalismo põe números em boas idéias

Boa parte das notícias com as quais a imprensa trabalha nasce de fontes governamentais ou empresariais. Nem sempre são as mais atraentes do ponto de vista do interesse e da importância, mas é preciso ouvi-los, pois, repentinamente, podem soltar uma informação de grande relevância e que muda completamente uma situação pré-estabelecida.

Outras matérias, no entanto, nascem da capacidade dos profissionais da imprensa de observação, análise e cruzamento de dados. Muitas vezes, nesses casos, não basta ter uma idéia, tem de ‘criar’ – buscar, organizar, filtrar, tabular – números para mensurar e dimensionar o acontecimento imaginado. Podem ser matérias ‘frias’ ou  ‘quentes’, dependendo do quanto estiverem relacionadas aos temas de cobertura do momento. Quanto mais próximas estiverem do calor dos fatos, mais repercussão ganharão.

Nas últimas semanas, coletei dois exemplos de reportagens que exigiram uma habilidade cada vez mais preciosa para o jornalismo. Em todas elas os repórteres, além de uma boa pauta, tiveram de se preocupar em garimpar e organizar dados. Parece algo simples e típico da profissão, mas não é. Essa função, na maioria das vezes, é feita pelas fontes, como universidades ou consultorias, geralmente por pessoas que são especialistas no assunto tratado.

Escolas SP 1 Além de um bom exercício de pauta, é preciso um método infalível. O faro do jornalista serve, primeiramente, para detectar potencial de informação nova, exclusiva, com impacto e relevância social. Mas, quando os dados não estão disponíveis e organizados por consultorias e universidades, por exemplo, caberá ao próprio repórter assumir o papel de consultor e acadêmico.

É claro que há riscos de cometer equívocos no tratamento dos dados, mas, para evitá-los, a tática de trabalhar em equipes nas redações (duas cabeças pensam melhor que uma) e também de checar as conclusões da garimpagem com especialistas do ramo, que podem inclusive fazer parte da matéria. Esse processo elimina possíveis e potenciais erros.

Conversei, por e-mail, com um dos repórteres envolvidos nos dois exemplos que listo aqui. Fabio Takahashi, jornalista da Folha de S.Paulo, publicou matéria sobre qualidade do ensino público no Estado de São Paulo. Descobriu que 32 escolas estaduais paulistas podem ser consideradas “top” no que se refere à qualidade do ensino, pois conseguiram atingir níveis semelhantes ao da Finlândia, país que lidera este tipo de estatística. Das 32, 24 obtiveram desempenho 100% melhor no período de um ano.Escolas SP 0

Mesmo que a informação seja positiva, governos não costumam divulgar listas desse tipo, pois imaginam que a comparação desestimula escolas em pior situação e cria barreiras entre servidores públicos e os métodos da secretaria. Por isso, lê-se, geralmente, notas médias, que misturam escolas ótimas, boas, regulares, ruins e péssimas no mesmo balaio. Mas, após tentativas de obter os dados segregados, as notas das escolas, de forma individual, foram publicadas sem alarde no Diário Oficial do Estado. Bastou, então, montar manualmente uma tabela, com apoio de colegas de redação, pela qual pôde fazer as mais variadas experiências.

“Consideramos essas informações importantes para que a sociedade possa comparar escolas que, teoricamente, têm as mesmas condições, mas que possuem desempenhos muito diferentes”, respondeu-me, por e-mail. Bom para o leitor, que ganhou uma matéria exclusiva, positiva e de extrema importância.

Rodoanel Bandeirantes Outra matéria interessante, que segue o mesmo procedimento – criar a pauta, garimpar e organizar dados – foi de José Ernesto Credencio e Ricardo Galo, também ara a Folha de S. Paulo. Para medir o impacto da inauguração do trecho Sul do Rodoanel, que circunda a capital paulista, utilizaram um contador do Datafolha, empresa do mesmo grupo que edita a Folha, para contar, manualmente, os caminhões que circularam em dias antes e depois do início de operação da nova estrada.

Como o trecho Sul do Rodoanel recebeu R$ 5 bilhões em investimentos e foi considerado a maior obra rodoviária do País nos últimos anos, tornou-se extremamente importante avaliar o resultado para verificar a relação entre custo e benefício da obra. Os jornalistas estabeleceram um método: contar veículos pesados que transitaram pela avenida dos Bandeirantes, corredor de exportação para o Porto de Santos que era passagem obrigatória para os caminhões, durante uma hora, entre 16 horas e 17 horas, uma espécie de horário de pico para este tipo de trânsito. Concluíram que o fluxo de caminhões foi reduzido em 46%. Com o método criado, conseguiram mensurar o ganho – antes mesmo dos consultores e das autoridades – e entregaram à população aquilo que ela desejava saber logo após a inauguração da estrada.

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