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Na véspera da Rio+20, que tal comparar estatísticas ambientais de 132 países?

A imprensa começou, faz umas duas semanas, a produzir matérias mais consistentes sobre a gestão ambiental dos governos, das empresas e dos países em geral. Há um conjunto enorme de temas para serem abordados: clima, qualidade do ar, qualidade dos mananciais e rios, resíduos sólidos e saneamento básico, flora e fauna, economia verde e por aí em diante.

Se a enorme quantidade de temas disponíveis torna mais difícil a escolha da pauta mais sensível para a sociedade, é também um enorme desafio saber como hierarquizar as informações – escolher aquilo que é mais importante ou relevante – dentro de cada tema.

Mais um obstáculo: estatísticas confiáveis. Nem sempre as instituições oficiais ou sociais têm dados críveis que forneçam ao jornalista ou pesquisador um retrato confiável do tema ou do assunto abordado. Tão difícil quanto é achar números que permitam fazer comparações e relativizar a informação. Afinal, como hipótese,  reduzir o desmatamento anual em 20% parece uma boa notícia, mas torna-se ruim se outros países derrubaram a taxa em 60%.

IndexPor isso, vale bastante o esforço de entender as explicações metodológicas e as estatísticas comparadas Environmental Performance Index, um desses extensos relatórios produzidos por organizações internacionais – desta vez, pelo trabalho conjunto de dois centros de pesquisa das universidades norte-americanas de Yale e Columbia – para entender melhor como está o desempenho de diversos países em assuntos ambientais.

O índice compara o desempenho de 132 países sobre 22 indicadores distribuídos em dez categorias. O Brasil, por exemplo, apesar de estar entre as nações que apresentam tendência de avanços e boa performance ambiental, na 30ª posição, é apenas o 81º colocado quando a infraestrutura de saneamento básico é avaliada e o 114º no indicador que avalia a perda de cobertura florestal.

Se os brasileiros estão bem avaliados em itens como geração de energia por fontes renováveis (12º entre 132 países) e estoque de florestas (1º da lista), ainda há muito o que avançar.

Para saber mais:

Acesso o relatório completo que avalia o desempenho ambiental de 132 países.

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A imprensa brasileira ignorou duas importantes celebrações do dia 22 de abril

Uma das principais formas de construir uma boa pauta (sugestão de tema que será, posteriormente, transformado em uma reportagem) no jornalismo é olhar para o calendário. Boas redações miram meses à frente para identificarem fatos importantes na história brasileira e mundial e preparar conteúdo interessante para a audiência.

No dia 22 de abril, comemora-se o descobrimento do Brasil – ao menos é essa a data que consta nos livros de história. Internacionalmente, o mundo comemora o Dia da Terra, uma celebração que serve para discutir em todos os continentes, de forma organizada, as melhores práticas para conservar os recursos naturais do planeta.

Ninguém falou nada – Curiosamente, as duas datas passaram completamente despercebidas pelas páginas dos três principais jornais diários do Brasil. Ferramentas não faltam para saber, com antecedência, quais são as datas importantes. O Wikipédia, por exemplo, oferece um prático calendário para ser pesquisado.

É inconcebível deixar de reportar as polêmicas e os avanços por trás dos dois temas. No caso nacional, há polêmicas seculares que permanecem. Historiadores ainda discutem a respeito de rastros que indicam que os portugueses – ou outros europeus – desembarcaram no Brasil muitos anos antes, de forma que a data 22 de abril de 1500 seria, historicamente, algo totalmente fantasioso e institucionalizado. Em outras palavras, o Brasil não teria sido descoberto no dia 22, no mês de abril e no ano de 1500.

Além disso, outro grupo de historiadores se contrapõem ao marco zero do descobrimento do Brasil, pois consideram que o Brasil já existia em 1500, com outro nome, outro tamanho, outros povos residentes. Há um verbete no Wikipédia que mostra suscintamente o âmago dessa discussão.

Que tal matérias com os seguintes títulos: “Mais de cinco séculos depois, data do descobrimento ainda gera dúvidas e polêmicas”? Ou: “Porque a verdadeira data do descobrimento do Brasil ainda é uma incógnita para muitos historiadores?” Ou ainda: “Descobrimento do Brasil: você pode estar comemorando no dia errado”.

Os segredos na Torre do Tombo – O jornalista Laurentino Gomes, autor dos livros “1808”, sobre a saga da vinda da família real portuguesa para o Brasil, e “1822”, sobre a história do descobrimento do país, escreveu um artigo extremamente interessante sobre os segredos que envolvem o tema. Jornais, emissoras de rádio e TV poderiam ter convidado o autor para entrevistas ou artigos. Veja um pequeno trecho:

O maior mistério, porém, diz respeito à própria data do Descobrimento. Há inúmeras evidências de que os portugueses já teriam chegado ao Brasil antes de 1500. E, talvez, também navegadores de outros países.

A partir do artigo de Laurentino Gomes, a mídia brasileira poderia ter enviado equipes para fazer reportagens sobre a a Torre do Tombo, uma espécie de biblioteca do governo português que, desde a monarquia, guarda livros, documentos e segredos. Lá, como narra o escritor, podem estar documentos reveladores sobre as viagens marítimas portuguesas para o continente americano bem antes de 1500. Veja:

Um grande enigma encobre os nove anos entre a viagem de Bartolomeu Dias, primeiro navegador a cruzar o Cabo da Boa Esperança, na atual África do Sul, em 1488, e a viagem de Vasco da Gama. Nos arquivos portugueses da época não há registro de uma única viagem ao Atlântico Sul nesse intervalo. (…) Há fortes evidências, no entanto, de que, nesses nove anos de aparente calmaria, os portugueses navegaram mais do que nunca, enviando seguidas missões exploratórias à região.

Sobre o Dia da Terra, a quantidade de pautas é praticamente infinita, tamanha é a variedade de temas que englobam as áreas de conversação na natureza, economia sustentável e ambientalismo, entre outros. O Café Expresso, inclusive, já sugeriu a pauta tempos atrás para as redações. Em vão.

Leia mais:

Em março de 2010, o Café Expresso publicou o artigo “O que se comemora no dia 22 de abril”, sugerindo que a imprensa brasileira se preparasse para produzir conteúdo sobre o Dia da Terra.

O que se comemora no dia 22 de abril?

No Brasil, é feriado nacional. Comemora-se o que os livros escolares cunharam como “descobrimento” do Brasil e que os historiadores  chamam de “a chegada dos portugueses” ao litoral do que hoje é a Bahia. Mas, para o mundo todo, é o Dia da Terra, institucionalizada para marcar a defesa global do meio ambiente. Dia 22 de abril de 2010, diversos países farão passeatas, seminários e festas para lembrar a 40ª edição do Dia da Terra.

EarthDayA dica foi feita pelo The Washington Post, que lembrou da data ao publicar matéria sobre a quantidade absurda de esterco produzido em solo americano (sem metáforas), algo que está se tornando incontrolável naquele país, afirma o jornal. O esterco excessivo acaba liberando gás metano, prejudicial ao meio ambiente, e pode contaminar rios e bacias hidrográficas. Há pesquisas lá que mostram a extensão do problema, que não recebe tanta atenção como outras formas de poluição, como chuva ácida, esgoto ou lixo industrial.

A imprensa brasileira terá de se preparar para uma cobertura bastante especial, com objetivo de entregar aos leitores, telespectadores, ouvintes e internautas um material com abrangência e profundidade. Após a Conferência Mundial do Clima, em Copenhague, o tema tornou-se bastante familiar para o brasileiro médio, que certamente desejará informação jornalística ponderada sobre o assunto.

Alguns temas ambientais são de grande interessa para o brasileiro e poderiam se tornar alvo do planejamento de pauta das redações a partir de já, preparando um bom material para o dia 22 de abril:

1) Energia solar e eólica. O Brasil é considerado um país com bom potencial para a geração de energia elétrica a partir dos ventos e do Sol. Há analistas que dizem que o custo dos equipamentos é ainda muito alto, o que inibe o investimento. Há outros que alertam para a instabilidade dessa fonte de energia – já que não venta e não faz sol o tempo todo nos locais onde estão instalados pás e painéis. Uma boa matéria pode começar a responder a essas – e muitas outras – questões. Há uma mapa da energia solar e eólica para informar ao leitor sobre as principais regiões com potencial para estes tipos de geração de energia? Qual o tamanho do potencial – e como tal número foi calculado?

2) Combustíveis renováveis. O Brasil é sempre lembrado como uma promissora potência para a produção de etanol e biodiesel. Esse tema pode render uma boa pauta – ou mais. Há a questão do espaço territorial necessário para a plantação da cana-de-açúcar. Ambientalistas afirmam que há devastação de florestas para plantar cana. Até onde é verdade ou mentira? É possível averiguar o que dizem aqueles que são pró e contra? Outra questão é o desenvolvimento tecnológico. Os Estados Unidos produzem etanol a partir do milho e correm para extrai-lo da celulose. O Brasil aposta na cana e também tem pesquisas no mesmo sentido que os americanos. Quais esforços fazem cada país e quais resultados já atingiram? Por fim, o Brasil não conseguiu dar viabilidade econômica à produção de biodiesel à base de mamona. Por quê? O que deu errado? Que lições podem ser tiradas?

economia verde 3) Concessão de florestas. Interessante reportagem da Folha de S. Paulo dia 1 de março mostrou que a essa política pública, considerada até pelos ambientalistas como uma forma de produção sustentável de madeira sem que a floresta seja destruída, ainda não vingou, depois de um primeiro passo. Sobre esse assunto, é possível enviar repórteres aos locais das atuais e futuras concessões florestais, mostrar imagens e personagens, opiniões de especialistas favoráveis e contrários? É possível identificar com os ambientalistas e gestores públicos brasileiros quais países já adotaram tal política pública – e enviar repórteres para tais países, de forma que seja possível oferecer aos brasileiros uma visão abrangente sobre o tema?

4) Gestão do lixo. Desde 1991, há um projeto de lei no Congresso Nacional que visa criar uma política nacional para os resíduos sólidos. Ambientalistas e empresários já perderam a esperança inúmeras vezes sobre a possibilidade dessa matéria virar lei. Ela pode ser crucial para dar viabilidade econômica à gestão dos resíduos sólidos urbanos de forma múltipla, prevendo desde a reciclagem até a geração de energia por meio da queima deles, como fazem diversas economias da Europa entre as mais rigorosas na legislação ambiental, como França e Suécia, por exemplo.