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Mapas podem frustrar caso não tragam marcos descritos nos textos

Recente reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostra os desafios do novo time à frente do governo federal para concluir uma obra emblemática para a segurança hídrica e para o desenvolvimento da Região Nordeste: a transposição do rio São Francisco. Os repórteres visitaram cidades no entorno da obra para avaliar a evolução do projeto, capturar as expectativas das pessoas que moram nas localidades e analisar a perspectiva de conclusão da obra, superlativa em muitos aspectos.

Um mapa enriquece a reportagem. Mas, infelizmente, indica apenas parte das localidades e instalações de infraestrutura descritas no texto e nas legendas das fotografias. É presumível: o mapa é pequeno e falta espaço para listar todas as cidades e informações de caráter geográfico, há pressa no fechamento do jornal, pode haver poucos profissionais disponíveis com a habilidade de produzir mapas – ou tudo ao mesmo tempo. Mas a falta de precisão pode gerar frustração.

O mapa cita:

  • Cidades: Natal (RN), João Pessoa (PB), Recife (PE), Cabrobó (PE), Penaforte (CE), Juazeiro do Norte (CE), São José de Piranhas (PB) e Cajazeiras (PB).
  • Marcos geográficos: rio São Francisco
  • Instalações de infraestrutura: Barragem de Sobradinho, Eixo Norte e Eixo Leste (da transposição do rio São Francisco).

Mas o mapa não cita outros municípios, marcos geográficos e instalações de infraestrutura que estão no texto:

  • Cidades: Floresta (PE) e Campina Grande (PB).
  • Marcos geográficos: Região do Cariri (CE) e Chapada do Araripe (na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco).
  • Instalações de infraestrutura: Açude Poções (PB), represas na Paraíba e reservatório de Fortaleza (CE).

O mapa serve certamente para orientar o leitor durante a descrição existente no texto da reportagem, pois mesmo as pessoas familiarizadas com os detalhes geográficos da região podem ter dificuldades que visualizar mentalmente o percurso das obras.

A reportagem é faz parte de uma cobertura especial de duas páginas publicada em um domingo, o que permite especular que houve tempo para planejar um mapa completo – e até maior.

A análise sobre estatísticas de crimes que ainda falta ser feita

A imprensa reportou a quantidade de homicídios dolosos em 2015 no Estado de São Paulo. Foi a menor taxa desde 1996. Algumas indagações:

  • A metodologia é realmente estranha. O poder público contabiliza a quantidade de casos, e não a quantidade de mortos. Como explica o texto, um caso pode conter várias mortes (uma chacina, por exemplo). Isso pode ampliar significativamente o número de pessoas assassinadas intencionalmente.
  • É sempre complicado analisar segurança pública por meio de um único indicador. Um dia ainda espero ler uma reportagem que traga, em bom espaço, todos os indicadores de mortes e de crimes.
  • Isso significa mostrar estatísticas históricas de mortes com ou sem intenção, por qualquer tipo de arma, no trânsito ou em casa, enfim, qualquer causa de morte, exceto doença.
  • Vale o mesmo para os tipos de crime: com ameaça ou não, em casa ou na rua, roubo ou furto, patrimônio – qualquer ocorrência.
  • Essa análise é muitas vezes difícil ou impossível por causa de imperfeiçoes na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas.
  • Isso é importante para evitar manipulações. Por exemplo: um assassinato passa a constar na lista de homicídios dolosos de acordo com a metodologia adotada na contabilidade e na investigação das autoridades públicas. Pode haver uma redução histórica dos casos de mortes intencionais, mas uma explosão nos de mortes cujas causas não foram identificadas.
  • Geralmente, os jornais mostram localidades com maior ou menor ocorrências de algum tipo de crime por meio de um mapa coroplético indicando cores mais escuras ou claras em cada distrito. Essa visualização é a única possível, já que o poder público não divulga o endereço exato da ocorrência, mas somente por bairros.
  • No entanto, isso pode causar distorções. Um exemplo: uma enorme quantidade de crimes praticados na fronteira entre um bairro tranquilo e outro mais problemático pode passar a impressão que um bairro inteiro é problemático. Essa distorção aumenta se o bairro for espacialmente bastante extenso.

    FSP crimes 2015

Reportagem do Los Angeles Times mostra porque é tão importante divulgar dados públicos

O Los Angeles Times produziu um mapa de calor (heat map, em inglês) para mostrar se o atendimento do serviço de emergência local estava cumprindo os critérios estipulados pelas autoridades.

A regra dos serviços de resgate é chegar ao local da emergência em até seis minutos. Os jornalistas do Los Angeles Times espalharam em um mapa da cidade os dados de mais de um milhão de chamadas durante os últimos cinco anos, localidade por localidade.

A gradação das cores permite perceber que o serviço de resgate consegue fazer o atendimento em até seis minutos somente nas imediações das equipes – e, para a imensa maioria dos pedidos, o tempo limite é ultrapassado.

Esse é um típico exemplo de jornalismo baseado em dados (ou data-driven journalism, em inglês). Ao encontrar uma forma visual eficiente para mostrar as estatísticas, os jornalistas descobriram uma informação relevante para os leitores.

Los Angeles heat map

Note que haveria ainda uma boa notícia mesmo se as cores evidenciassem que os serviços de resgate conseguem cumprir o prazo de seis minutos para a maioria dos atendimentos.

Dados públicos – Agora, imagine um mapa como esse para cada cidade brasileira. Além de informar, possibilidade às autoridades públicas tomarem melhores decisões e corrigirem falhas. Por isso não é aceitável manter os dados públicos escondidos, guardados nas gavetas.

Esse tipo de jornalismo é muito dependente da existência de estatísticas – e da disponibilidade delas. Por isso, há um movimento crescente entre jornalistas e atividades da liberdade de expressão para que os administradores públicos tornem públicas as informações coletadas pelos governos.

No Brasil, ano passado, uma lei foi aprovada para atender a esse princípio – a Lei de Acesso a Informação.  Vale ressaltar que diversos países sul-americanos criaram legislação sobre o assunto muito tempo antes. Outras nações ao redor do mundo já se antecipam ao uso da lei, dando visibilidade às estatísticas públicas por livre iniciativa.

É uma demanda civil que veio para ficar. O cidadão, mais que o leitor, ganha muito com tudo isso.

Veja mais:

O desafio de produzir reportagens quando faltam números.

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos:

O criados da internet começa a dar novos usos à própria criação.