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Como pode um clube ter técnicos por décadas?

O técnico Alex Ferguson completa hoje, dia 6 de novembro de 2010, 24 anos à frente do Manchester United, uma das principais equipes do futebol mundial. Como deve, no mínimo, completar a atual temporada no comendo do time, ultrapassará Matt Busby, que foi técnico em Old Trafford entre 1945 e 1969.

Se já é difícil imaginar os motivos que fazem um técnico ficar mais de duas décadas à frente de uma equipe de primeira linha do futebol mundial, que dirá dois. Em uma equipe como o Manchester United, como em todo grande time, há pressões enormes, principalmente quando títulos não vêm. Tenho alguns palpites. Eles estão baseados no óbvio: uma cultura do clube de longevidade no comando técnico aliado aos resultados do treinador.

1) Casa em ordem. Onde há mais organização, há tendência de continuidade – ou vice-versa. A lista de técnicos à frente da equipe de Old Trafford mostra que a longevidade não é uma exceção. Isso mostra, no mínimo, que a diretoria do Manchester United não costuma “jogar o bebê fora junto com a água suja da banheira” só porque um ano os títulos não vieram.

2) Resultados. Técnicos são demitidos por falta de resultados em qualquer campeonato do mundo. Quando os títulos não chegam, o técnico precisa ter muito estoque de pontos positivos para que a diretoria e a torcida não pressionem pela demissão. Ferguson acumulou um bom estoque desses pontos positivos. Tem 11 campeonatos locais (Premier League), dois campeonatos continentais (Champions League), além de dois títulos do segundo torneio continental mais importante (antiga Copa da UEFA, agora Liga Europa, a partir de 2010). Na década de 90, foram seis campeonatos nacionais.

3) Os dois juntos. Nem sempre foi assim. Nos cinco primeiros anos, conseguiu apenas uma copa nacional de importância secundária (uma espécie de Copa do Brasil). Essa seca de títulos mostra que, independentemente dos resultados, havia uma cultura de longevidade, já experimentada por técnicos anteriores. O primeiro técnico do time inglês ficou por lá de 1892 até 1900. O segundo, por mais três anos. O terceiro, por quase nove anos. Dos 21 técnicos que a equipe já teve ao longo da história (18 em tempo integral, como eles costumam dizer), 12 comandaram por quatro anos ou mais.

4) Resultados contam. Em 1.348 partidas até outubro de 2010, Ferguson obteve 795 vitórias – um nível de aproveitamento de 59%, mesmo depois de tantos anos. Nenhum técnico da equipe conseguiu um resultado como esse.

No Manchester, treinadores ficam no cargo por 24 anos. No Brasil, técnicos têm de ganhar todo ano

Muricy Ramalho, cotado para ser o novo técnico da seleção brasileira, já deu entrevistas dizendo que gosta de seguir princípios como lealdade e esforço dentro do futebol. Prega o cumprimento de contratos firmados. Depois de rápida passagem como treinador do time principal do São Paulo Futebol Clube (SPFC), na década de 90, passou por diversos times até retornar ao mesmo SPFC, em janeiro de 2006. Ganhou três títulos brasileiros consecutivos mas não resistiu a uma nova desclassificação na Taça Libertadores da América – a quarta consecutiva. Em junho de 2009, três anos e meio de pois de assumir o cargo, foi demitido.

Controvérsias a parte, a relação entre Muricy Ramalho e o SPFC é uma das mais umbilicais no futebol brasileiro, devido a sintonia entre treinador e torcida. Superada, certamente, pela relação de Telê Santana com a mesma torcida e com o mesmo clube.

Telê Santana, à frente da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, foi desclassificado nas duas vezes, e passou a ser considerado “pé frio”, um profissional sem sorte. Em outubro de 1990, assume o cargo de treinador no SPFC, do qual só saiu em em janeiro de 1996, por causa de uma isquemia cerebral. Os cinco anos e três meses à frente do time ficaram marcados na história das relações entre treinadores e torcidas de futebol.

A sintonia que existe entre os dois treinadores, o clube e a torcida são sintomáticas e exemplares, mas ainda distante do que existe no Manchester United, clube inglês.

O atual treinador do Manchester United, Sir Alex Ferguson, está no cargo desde novembro de 1986, há quase 24 anos, independentemente de conquistar os títulos mais desejados do clube em um ano ou não. Ganhou duas vezes a Liga dos Campeões da UEFA, o que corresponde à taça Libertadores na América do Sul, e um título intercontinental de clubes, o mundial extra-Fifa até 2005. Comparativamente, Telê Santana obteve desempenho melhor quando analisada tal meta: ganhar o principal título continental.

Poucos sabem, mas Fergunson não é (ainda) o mais longevo técnico do Manchester. Matt Busby comandou o time de Old Trafford entre 1945 e 1969. Ganhou cinco títulos nacionais e um continental. Se comparações numéricas forem permitidas, o escocês, em números absolutos, vence, mas o brasileiro teria mais 20 anos para tentar um título continental. Mas cá, diferente de lá, não há tanto tempo assim para os treinadores permanecerem no cargo entre um título e outro.

Vale lembrar essas histórias, principalmente em um momento em que diversos treinadores correm o risco de perderem os cargos após o retorno do Campeonato Brasileiro 2010, depois da Copa do Mundo. Ricargo Gomes, no SPFC, há um ano no cargo, terminou o Brasileirão 2009 em terceira colocação e classificou o clube para as semi-finais da Libertadores 2010. Dorival Junior, no Santos, liderou o melhor futebol no primeiro semestre no Brasil, ganhou o campeonato paulista 2010 e está na final da Copa do Brasil, que pode dar uma vaga tranquilizadora para o time na Libertadores 2011. Silas, no Grêmio, está há menos de um ano no clube e ganhou o campeonato estadual este ano.