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Londres 2012: cinco ótimas ideias do The Guardian colocam o internauta dentro dos Jogos Olímpicos

O jornal britânico The Guardian tem uma das principais equipes de programadores, jornalistas e designers trabalhando no desenvolvimento de reportagens baseadas no uso intensivo de estatísticas – vertente que tem sido denominada como “data-driven journalism”.

Os Jogos Olímpicos de 2012 são campo fértil para coletar dados e mostrá-los de forma inusitada, bela e mais eficiente – e a equipe do The Guardian tem sido bem sucedida neste esforço. Basta acompanhar tudo na seção olímpica do jornal na internet.

Mais do que beleza, o The Guardian procura apresentar trabalhos funcionais e eficientes, que entreguem informação útil. Nem ~todos os projetos são de fácil entendimento, mas, em geral, essa é a regra.

Efeito segunda tela – Um dos mais inovadores é a rede mundial de contatos de especialistas em competições olímpicas. O projeto permite que os internautas sigam, pelo Twitter, atletas, instituições, técnicos, blogueiros ou especialistas em 28 modalidades olímpicas. Como está escrito no anúncio, “siga-os enquanto eles escrevem pelo Twitter durante os jogos para colher a energia da atividade ao vivo e compartilhe visões técnicas ou triviais”.

Ótima ideia, realmente bastante útil e inovadora, principalmente em um momento em que ganha força o hábito de consumir informações simultaneamente pela televisão e internet – tendência de consumo denominada de “segunda tela”.

Olympic experts' network

Preparação física – Outra ideia bastante interessante do The Guardian foi o projeto que narra informações fundamentais ou somente curiosas da preparação dos atletas, tanto física quanto mental, de acordo com cada modalidade, mostrando que há muito mais cuidado e ciência por trás do desempenho deles do que apenas vontade e inspiração.

Novamente, o anúncio promete exatamente o que cumpre: “Do jogador de basquete que come um quilo de carne por refeição ao atleta de canoagem que fica sem se alimentar, do corredor que cobre 120 quilômetros por semana para a ciclista que anseia coxas maiores”. Usa o velho truque do jornalista que manda usar informações inusitadas para atrair a atenção do internauta – mas entrega um bom projeto. Os depoimentos são muito interessantes.

Olympic bodies

Excursão virtual – Incrível também é a sensação de passear por todo o parque olímpico, tanto as áreas externas quanto as internas das instalações. O mecanismo é bastante conhecido e utilizado com bastante maestria na excursão virtual. Basta clicar em cada instalação e depois mover as setas para ir para cima, para baixo, direita ou esquerda, aproximar ou distanciar a imagem.

Num passeio virtual pelo estádio olímpico, por exemplo, é possível notar a quantidade de equipamentos na cobertura do estádio (que permitiu a queima de fogos na cerimônia de abertura) e também os cabos de aço de ponta a ponta na mesma cobertura para que as câmeras de televisão busquem ângulos diferenciados de imagens. Na vila olímpica dos atletas, somente um vídeo. Vale lembrar que toda essa imensa área da Zona Leste de Londres era degradada, com muitos prédios abandonados, considerada uma espécie de ferro-velho a céu aberto. Tudo foi demolido, reaproveitado, reciclado e reconstruído.

Tour virtual

Os mais populares – Em um infográfico interativo, o The Guardian mostra quem são os atletas olímpicos mais populares, dia após dia, durante a realização das competições. A audiência é verificada a partir das citações nas redes sociais. Conforme os jogos avançam e grandes vitórias ou derrotas acontecem, esportistas são mais ou menos citados – e, assim, entram ou deixam a lista dos cem atletas mais populares.

Essa ideia, apesar de interessante e eficiente, já foi colocada em prática pelo jornal norte-americano The New York Times, cuja equipe também tem no currículo diversos prêmios conquistados por produzir reportagens inovadoras a partir da mescla de conhecimento de estatísticos, jornalistas, programadores e designers.

Os jornalistas do The New York Times produziram soluções mais interessantes que o The Guardian para medir a popularidade dos jogadores de futebol durante a última edição da Copa do Mundo, na África do Sul, e dos competidores da NFL, a liga de futebol americano. Para dimensionar e comparar a audiência dos atletas, os nova-iorquinos preferiram usar a imagem de cada jogador em proporções maiores ou menores, mostrando facilmente quem é mais citado pelas redes sociais em cada momento.

topworldcupplayers

Seja um competidor – O The Guardian também quer saber se o internauta pode ser um medalhista. Para isso, criou um jogo interativo no qual é possível escolher entre quatro competições – natação, ciclismo, maratona e atletismo – e disputar as provas com os melhores atletas olímpicos de todos os tempos.

Medallist

O cenário é similar aos jogos de videogame antigos. O internauta insere nome, o tempo que deseja concluir a prova e pronto – o jogo faz o resto. É extraordinário ver o desempenho de todos os atletas concorrentes. O aplicativo do Guardian ainda permite compartilhar os resultados pela internet e convidar amigos para disputar as provas. Ao clicar no nome de cada atleta, a imagem muda para ele como se uma câmera de televisão passasse a acompanhá-lo. Imperdível.

Para saber mais:

Analise com calma as diversas reportagens já produzidas pelo DataStore do The Guardian. Eles publicam quase que diariamente novas matérias abordando assuntos variados, com foco na análise de estatísticas para descobrir novas abordagens encobertas. Durante os Jogos Olímpicos 2012, eles criaram um interessante infográfico interativo mostrando os recordes olímpicos desde 1900 , escreveram sobre uma nova possibilidade de avaliar o desempenho dos países nos Jogos Olímpicos e disponibilizaram em detalhes o orçamento para a organização do evento, indicando quem pagou a conta e quanto custou cada instalação.

Londres 2012: como a Foreign Policy superou o desafio de produzir reportagens inovadoras

Os grandes eventos – econômicos, políticos, esportivos ou culturais são um desafio para a mídia. Os jornalistas precisam apresentar ao público reportagens com abordagens inovadoras, exclusivas e surpreendentes. Nessa busca, muitas tentativas resultam em matérias bobas, fúteis ou apenas um pouco engraçadas.

cover_jul26_geolympicsA revista norte-americana Foreign Policy, quinzenal, conseguiu pensar uma boa reportagem – e cumpriu-a muito bem. Eles reuniram alguns casos que marcaram politicamente a realização dos Jogos Olímpicos, alguns deles bastante conhecidos – como o ataque terrorista perpetrado pelo Setembro Negro em Munique, Alemanha, em 1972, que resultou na morte de 11 atletas israelenses e cinco terroristas.

O interessante é que as desavenças geopolíticas entre as grandes potências mundiais ao longo da história refletiram em muitos Jogos Olímpicos. Os casos são bem narrados pela revista Foreign Policy.

Vale a pena a leitura. A revista é conhecida por analisar com bastante abrangência e competência as relações externas e as intrigas mundiais de poder entre as nações. A reportagem está em inglês.

A concepção e a estrutura da pauta são relativamente simples. Isso não faz da reportagem algo fácil de ser feito. O jornalista buscou adaptar o tema ao perfil da publicação. Depois, pesquisou, em todos os eventos olímpicos, exemplos nos quais as nações trouxeram para dentro de campo os conflitos políticos ou geográficos que viviam fora dele. Vários exemplos que têm o mesmo conceito ou os mesmos princípios por trás dão unidade à matéria. Depois, bastou descrever os episódios. É isso.

A um ano da abertura dos Jogos Olímpicos em 2012, Londres tem 88% de tudo pronto

A organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil começa a ganhar as páginas dos jornais, exclusivamente por causa das notícias negativas e da recorrente mistura entre bens públicos e ganhos privados, atrasos em obras e planos, estouros orçamentários, falta de planejamento, de licitação e de controle.

Parece reprise. Há exatos quatro anos, o Brasil sediou os Jogos Pan-americanos, no Rio de Janeiro. Em julho de 2007, durante as competições, os brasileiros começaram a tomar conhecimento da dimensão dos recursos públicos empregados – R$ 3,3 bilhões – e do despreparo das autoridades públicas em cumprir obrigações como construir as instalações esportivas e as obras de transporte público – estas, apelidadas como “legado” para a sociedade. Vale lembrar que o parque aquático, o velódromo e os dois estádios construídos ou reformados em 2007 não estão aptos para os Jogos Olímpicos de 2016.

A história todo mundo já conhece. Obras sem planejamento, sem projetos de engenharia e sem orçamentos realistas. Custos bastante acima do divulgado inicialmente, cobertos inteiramente pelos cofres públicos. A iniciativa privada, que seria investidora em cerca de 30% das obras, participou apenas como fornecedora de bens e serviços de construção das obras.

A organização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil seguem o mesmo roteiro do Pan-americano de 2007, só que envolvendo recursos públicos em volume muito maior. Os estádios, que poderiam ser eminentemente investimentos privados, transformaram-se em despesa pública, incluindo gasto público tanto em arenas públicas quanto privadas. Obras de mobilidade urbana e reforma urbanística das cidades não existem ou estão muito atrasadas. Os planos formulados inicialmente crescem todos os trimestres e não há nenhuma garantia que os orçamentos públicos atualmente relacionados aos dois eventos esportivos não crescerão ainda mais.

A organização dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, é a antítese do Brasil e tem muito a ensinar aos brasileiros. Algumas lições esbarram na instituição de leis e ferramentas de gestão. Outras, talvez as mais importantes, são culturais e conceituais, baseadas em princípios.

– Os governos envolvidos criaram uma agência (Olympic Delivery Authority, ODA, em inglês) exclusivamente para construir e entregar, com um ano de antecedência, todos os equipamentos e a infraestrutura para os jogos. O Brasil aprovou lei similar, pois se comprometeu a fazer isso. A lei brasileira, no entanto, não prevê metas e prazos para a entrega das instalações esportivas.

Londres 2012 arena 2 – O último relatório da agência britânica indicou que, em março de 2011, 83% das obras de instalações esportivas e de infraestrutura de transporte e energia tinham sido entregues em dia ou adiantadas. Segundo reportagem publicada no Financial Times, dia 20 de julho, 88% estavam concluídas e entregues.

– Em julho, os ingleses entregaram a quinta instalação, de um total de seis: o centro de imprensa, que comportará mais de 20 mil jornalistas.

– Além do centro de imprensa, já foram entregues para testes o velódromo (ciclismo), estádio (futebol, atletismo, abertura e encerramento), arenas para handebol e basquete, parque de canoagem e subestação de energia e central de calor, além de três estações de acesso metroviário ao centro olímpico. As obras seguem firmes nos 11 condomínios residenciais para atletas, que serão entregues no fim de 2011. O parque aquático será entregue, no prazo, no primeiro trimestre de 2012.

– Há muita preocupação com o legado. O que fazer com todas essas instalações? As unidades de saúde, o estádio,  os centros esportivos, os 11 conjuntos de alojamentos, com 2.818 apartamentos? Para uma parte dos alojamentos, já foi realizada uma pré-venda para empresas privadas. Para o restante, já três consórcios ou empresas privadas pré-selecionadas para assumir a administração e venda dos apartamentos. O estádio será concedido para um clube inglês, depois de desmontadas algumas seções, cujo objetivo é reduzir o custo de conservação.

– Os gastos das autoridades londrinas são publicadas na internet: datas, quem gastou, que tipo de gasto, quanto foi pago. Despesas com quaisquer coisas. Os salários de todos os diretores, conselheiros ou principais gestores da ODA britânica são publicados no relatório anual deles.

Londres 2012 basquete – Londres foi escolhida em julho de 2005. Em julho de 2006, já tinha pronto o plano principal para a construção do parque olímpico em uma antiga área industrial no leste da capital, degradada e com solo contaminado.

– Em março de 2007, o orçamento para as Olimpíadas 2012 foi apresentado: 9,32 bilhões de libras. Em março de 2011, foi revisto: 9,29 bilhões de libras. Nenhum centavo a mais. Somente 8,09 bilhões de libras foram disponibilizados para gastos. Houve contingenciamento (por causa da crise financeira que eclodiu em setembro de 2008) e reserva de recursos para riscos diversos.

– Um consórcio formado por três empresas foi contratado em agosto de 2006 para gerenciar custos e cronogramas das obras com três objetivos: garantir que as instalações esportivas e a infraestrutura fossem entregues no prazo; garantir que os orçamentos não aumentassem; buscar a redução nos preços a partir do gerenciamento eficiente dos projetos. As economias feitas seriam repartidas entre empresa e governo.

– O consórcio já recebeu 515 milhões de libras por metas atingidas e superadas. Conseguiu fazer com que todas as obras fossem entregues nos custos e prazos estabelecidos em 2007 – ou até antecipadas – e conseguiu reduzir custos de outros projetos, de forma que ficou com uma parte dos ganhos obtidos. As obras do estádio olímpico, por exemplo, começaram com três meses de antecedência.

– Há metas e controle. Em todos os anos, a autoridade olímpica londrina lançou planos de metas anuais, cada qual com dez itens, considerados marcos fundamentais para o progresso da construção do parque olímpico. É possível acompanhar o progresso de acordo com as metas diariamente. A agência publica regularmente relatórios para todas as etapas cumpridas ou em andamento.

– Em 2008, para evitar atrasos e imprevistos motivados por conflitos em torno de contratos e obras, entrou em funcionamento uma instância independente de arbitragem para buscar soluções pragmáticas para quaisquer disputas.

– O centro olímpico está instalado em uma antiga e enorme área no leste da cidade, considerada como uma espécie de ferro-velho a céu aberto. O objetivo é remodelar esse lado da cidade. Uma das metas era limpar a área de cerca de 2,5 km², antigo reduto de fábricas poluidoras, de forma a permitir o início das obras. Cerca de 220 edifícios abandonados e antigos foram postos abaixo e o índice de reaproveitamento do material de demolição nas obras do próprio parque atingiu 98%. Mais de 1,5 milhão m³ de solo foram descontaminados por cinco máquinas de grande porte, com capacidade de limpar 200 toneladas de terra por hora, removendo óleos e metais pesados. Limparam cerca de 2 milhões de toneladas. Depois de limpa, a terra passou a ser utilizada nas obras do próprio parque olímpico. Mais de 70.000 toneladas de sucata em um antigo depósito de lixo industrial foram separadas, reutilizadas ou destinadas para reciclagem. A rede elétrica é agora subterrânea, incluindo dois túneis com seis quilômetros de extensão para enterrar a rede de alta tensão. Antigamente sobrecarregados, 52 postes de eletricidade desapareceram.

Para saber mais:

1) O Tribunal de Contas da União (TCU) publicou o acórdão 2101/2008, um relatório extenso, de 126 páginas, avaliando a gestão das autoridades públicas na organização do Pan-americano e 2007. Vá direto ao final e leia os 77 pontos que amparam o voto do ministro relator Marcos Vinicios Vilaça. É uma aula.

2) Basta um registro simples e gratuito para ter acesso a algumas reportagens do Financial Times, como esta, que explica em que fase de conclusão estão as obras e os preparativos para os Jogos Olímpicos de Londres e como funciona o trabalho do consórcio contratado para garantir cumprimento de prazos e custos.

3) Para quem quiser acompanhar, o portal da Autoridade Olímpica de Londres 2012 tem uma seção com as fotos das instalações esportivas já entregues ou em obras.