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Alguns ingredientes de uma boa reportagem

Uma boa reportagem publicada dia 29 de março no diário Valor Econômico mostra o quanto uma boa idéia, acompanhada de um método eficiente, bastante persistência dos repórteres e um eficiente trabalho em equipe pode resultar em matérias exclusivas (por revelar um fato latente), abrangentes (por abordarem um amplo espectro de situações), profundas (por não darem trégua a questões mal respondidas) e bem dimensionadas (por apresentarem números que mensurem o tamanho do problema).

Dias atrás, o Café Expresso trouxe dois exemplos de reportagens produzidas a partir da transformação de boas idéias em matérias importantes e interessantes graças ao sucesso no estabelecimento de um método eficiente e habilidade no cruzamento de dados. Hoje, mais um, que além daqueles ingredientes, conseguiu explorar o trabalho em equipe ao extremo para ouvir várias fontes e evitar um problema que é um risco gigantesco na produção de notícias: os interesses justos, porém sempre parciais e às vezes contraditórios, das fontes ouvidas.

MiniapagõesA reportagem mostrou que os miniapagões, que compreendem interrupções de pequena duração no fornecimento de energia elétrica, cresceram 70% em um ano. A pauta surgiu a partir de uma dessas quedas de energia, que afetou também a redação do jornal. No intervalo de poucos dias, as redações do diário em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro tinham sofrido cortes de eletricidade. Decidiram apurar as razões, pois se tratava de amplo interesse social ao afetar residências e empresas repetidamente. A fonte primária para a coleta dos dados foi a Aneel, agência reguladora do setor elétrico. Uma equipe de jornalistas nas três cidades cuidou de entrevistas e coletou e organizou dados sobre qualidade do serviço (que mede quantidade de interrupções e duração média delas), satisfação do consumidor e preço das tarifas.

Miniapagões2 “Então decidimos publicar as três informações, porque percebemos, a partir de entrevistas, que os preços das tarifas, a satisfação do consumidor e a qualidade do fornecimento têm uma relação. E, o mais curioso, é que os consumidores parecem se preocupar mais com a qualidade do fornecimento do que com o preço que pagam”, respondeu-me, por e-mail, Danilo Fariello, autor da matéria principal. Para evitar quaisquer equívocos – afinal, os repórteres não são consultores ou especialistas das tecnicidades do mercado de energia elétrica – procuraram e entrevistaram autoridades e instituições, geradores, transmissores, distribuidores e consumidores de energia, para explicar a razão dos ‘miniapagões’. “Cada um apontava um motivo, mas o consenso maior acabou se formando em torno da falta de investimentos das distribuidoras na manutenção da rede”, respondeu Fariello. O resultado foram duas páginas analisando as causas, consequências e medidas das autoridades.

Como evitar conclusões equivocadas em uma matéria na qual a própria redação cruza dados e números e tira as próprias conclusões? O repórter responde:

– “Exaurir o máximo das fontes disponíveis de informações, tanto pessoas quanto dados. Além das pessoas citadas na reportagem, outras foram procuradas.”

– “A cada conversa com alguma pessoa ligada ao setor (elétrico), eu colocava a questão e perguntava por explicações. A apuração durou mais de uma semana, pelo que me lembro. Como o próprio texto mostra, foram muitas as razões apontadas para o problema e muitos os responsáveis.”

O jornalista deixou claro que a pauta conseguiu ser bem-sucedida graças ao tempo disponível para prepará-la e ao esforço de ouvir muitos envolvidos, dos mais variados elos da cadeia e de grupos de interesse, para não cometer equívocos. Era fundamental conseguir “discernir as informações do lobby puro”. “É um desafio diário filtrar o que realmente é dado objetivo do que pode ser uma informação questionável, que pode beneficiar A, B ou C”, informou-me Fariello.

Mesmo em um grande jornal, ou principalmente nesses, os interesses das fontes, autoridades e agentes de mercado são tremendos – e nem sempre é possível evitá-los. Invariavelmente, como me respondeu Fariello, “a informação que beneficia ou prejudica alguém é também, de fato, uma notícia”, e, por isso, precisa ser publicada.

Para saber mais: Assinantes do jornal podem ler a matéria completa por aqui.