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Como formar novos leitores – e mais jovens?

Na indústria da mídia impressa, sempre esteve em pauta o desafio de formar novos leitores – principalmente porque os indicadores mostram que o brasileiro não é um leitor voraz. Além da crise diante da evolução tecnológica, a mídia impressa sofre com o envelhecimento do público fiel aos jornais e revistas.

A preocupação da mídia impressa encontra eco em diversas famílias: como fazer os jovens trocarem as plataformas eletrônicas pelos jornais e revistas? Como transformar a leitura em algo rotineiro e agradável?

Na revista Época, o colunista Danilo Venticinque escreve periodicamente sobre assuntos como esses. Basta conferir. Em um dos artigos mais recentes, ele listou algumas atitudes que ajudam a formar leitores.

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Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens.

Jornal impresso pode interagir mais com leitores – e outros textos corrrelatos.

Jornal impresso pode interagir mais com leitores

Com a explosão de aplicativos e infografias no ambiente online, parece que interagir com leitores só é possível para o jornalismo na internet. Ledo engano. O jornal O Estado de  S. Paulo publicou nos últimos dias duas páginas com reportagens que interagem com os leitores – se não no momento na leitura, ao menos no momento da concepção.

Um pouco esquecidas nos últimos anos, esse tipo de ação é louvável no jornalismo, sobretudo em uma plataforma percebida como fadada à extinção por muitos especialistas exatamente por não terem os mesmos ingredientes dinâmicos que o jornalismo online.

OESP Interação com leitores 2OESP Interação com leitores 1

Tempos atrás, o jornal O Globo publicada regularmente no meio das reportagens janelas com opinião dos leitores comuns. A iniciativa não tem mais espaço no diário atualmente.

Essas iniciativas são interessantes porque  colaboram para fidelizar o leitor ao produto. No caso específico do Estadão, são maneiras interessantes de atrair o público mais jovem para o manuseio e para a leitura de jornais.

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Verdades dolorosas para o jornalismo

Àqueles que se interessam em pensar como será o jornal no futuro, seja porque é leitor voraz ou jornalista, vale considerar um ótimo artigo escrito no O Estado de S.Paulo dia 7 de fevereiro. O texto questiona a perda de leitores e provoca a indústria da notícia ao afirmar, com base em argumentos do extraordinário Gay Talese, que os leitores estão desencantados com a forma como os jornais entregam informação atualmente. Separei trechos interessantes:

– É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico O Senhor dos Anéis e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real.

– Gay Talese: "A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. (…)"

– O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas a incapacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa.

– A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência.

– Os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

– Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

Minha opinião: o jornalismo precisa realmente de histórias bem apuradas, bem escritas (não necessariamente parecidas com romances, como defende Talese), sobretudo bem apuradas. Se os jornais não conseguirem encantar e entusiasmar, continuarão a perder (ou a não ganhar) espaço. Sempre me intriguei com a baixa tiragem dos principais jornais considerados de circulação nacional, que não conseguem vender mais de 300 mil exemplares em um país com 190 milhões de pessoas cada vez mais exigentes, com instrução e renda crescentes. A pista realmente é a falta de conexão com o mundo real – e não o mundo oficial divulgado pelos governos e autoridades públicas e polícias a todo momento. E também incapacidade de se relacionar com o público jovem, que lê, sim senhor, mas não jornal. O Brasil real é mais embaixo.

Outras matérias sobre o mesmo tema: Separei seis textos que abordam diretamente ou perifericamente o tema central do artigo em questão – a dificuldade para atrair novos leitores para os jornais e como chamar a atenção de jovens e adolescentes.

1) Estadão dá alguns passos na trilha de sucesso da Superinteressante

2) Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens

3) Notícias frias na capa dos jornais podem capturar novos leitores

4) Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas

5) Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?

Use as redes sociais para melhorar sua cidade

O leitor não precisa estar familiarizado com os termos técnicos, como API, app ou widget. Basta saber que a tecnologia hoje permite que qualquer cidadão que veja um problema na cidade enquanto se locomove por ela pode registrar o caso, divulgá-lo e acompanhar a resolução dele.

Li recentemente um artigo escrito por Chris Vein. Ele ocupa o cargo de diretor de informação na cidade de São Francisco, na Califórnia – a 12ª mais populosa dos Estados Unidos, com mais de 800 mil habitantes.  Na prática, ele comanda todas as tarefas relativas à divulgação de informações para a sociedade e a comunicação da prefeitura com a opinião pública.

Ele mostrou no artigo que diversos aplicativos (os chamados “apps”, abreviação da palavra em inglês “application”) que foram criados para funcionar pela internet e por telefones celulares permitem que os cidadãos, aos enxergarem um problema, encaminhem ele para o administrador público responsável pela apresentação da solução.

Esse tipo de serviço é extremamente valioso. Quantas vezes, ao passar por um monte de entulho despejado ilegalmente em uma viela, o cidadão não tem vontade de pegar um telefone e falar imediatamente com o funcionário público na prefeitura, responsável pela remoção? A dificuldade é achar o responsável, o número de telefone dele, ligar em um horário que ele esteja lá e contar com a atenção dele.

Muitos dos serviços em funcionamento em São Francisco se encarregam desse dessas tarefas. O cidadão, ao passar por uma pilha de entulho, por um buraco na rua, por uma calçada mal conservada, pode fazer uma fotografia como próprio celular, acessar a página do serviço disponibilizado em internet logo em seguida, cadastrar-se ao serviço gratuitamente, inserir a imagem, escrever um breve relato se desejar, indicar a categoria do problema (se é um buraco na rua, lixo jogado indevidamente etc) e apertar o botão “ok”.

Pronto, o aplicativo (o “app”, lembra-se?”) registra a reclamação e já encaminha automaticamente ao departamento da prefeitura responsável pela solução. Depois, mostra ao internauta a evolução do caso, até a conclusão – e pode ainda cobrar ou não o poder público pela resposta ao cidadão. Tudo automaticamente, graças à programação por trás do serviço, que “emite ordens” para o cumprimento de todas essas etapas.

Urbanias1 Se nas principais cidades européias e norte-americanas esse tipo de serviço cresce de forma acelerada, no Brasil ainda engatinha. Mas, ao menos, na maior cidade brasileira, São Paulo, já há um aplicativo com essa finalidade. Chama-se Urbanias, um serviço que permite ao cidadão apontar reclamações, inserir imagens dos problemas, escrever um breve relato e o aplicativo manda tudo isso para a prefeitura. Pelas redes sociais, ele mostra diversos exemplos de cidadania promovida pela rede.

Trata-se de um serviço bastante interessante. Eu mesmo já me cadastrei e já testei. Deu certo. Demorou quase um mês para a prefeitura remover excesso de lixo e entulho dispostos em frente a uma escola pública. Mas removeram.

O tema poderia ser uma interessante reportagem para a imprensa brasileira, seja rádio, TV, internet ou jornais e revietas. Inclusive, é uma pauta que vai ao encontro do comportamento da juventude atualmente, que, em média, busca resolver tarefas e problemas pela internet. Seria, no mínimo, uma experiência interessante para atrair jovens e adolescentes para a leitura de jornais.

Estadão também dá alguns passos na trilha de sucesso da Superinteressante

Dias atrás o Café Expresso mostrou algumas infografias da revista Época, brincando que a publicação estaria seguindo os passos da revista Superinteressante. Foi apenas uma metáfora, uma figura de linguagem para remeter a lembrança dos leitores ao produto editorial da mídia brasileira que inaugurou e melhor aproveita os recursos infográficos para contar histórias no Brasil. Ponto positivo para a Época por tentar narrar as reportagens de uma forma mais dinâmica e atrativa.

reciclagem O Estadão surpreendeu hoje, dia 2 de agosto, ao inaugurar uma bela página, sob a etiqueta Discussões Urbanas. Uma página inteira discutindo o problema do precário e incompetente sistema de coleta seletiva na cidade de São Paulo. O jornalista coletou números, ouviu especialistas e trouxe o relato de pessoas comuns.

No entanto, em vez de escrever um longo texto, fatiou a matéria em diversas pequenas partes e organizou tudo em um infográfico. A leitura virou uma diversão e pode ser uma ferramenta interessante para atrair para o jornal o público jovem que vem consagrando e seguindo pelo resto da vida a Superinteressante.

Não consegui verificar se essa página será parte de uma série do jornal, que inaugurou recentemente um projeto gráfico pelo qual pretende fazer um uso mais intenso de infografias. Quem quiser, posso mandar um arquivo PDF para melhor visualização.

Para saber mais: A Superinteressante mantém no Flickr diversos infográficos para você rever. Aproveite.

Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?

Quadrinhos 3Sim, a resposta é afirmativa. As histórias em quadrinhos são uma das formas mais eficientes de narrar novelas e acontecimentos quaisquer, com ou sem diversos personagens, com ou sem múltiplos cenários.

Gerações inteiras têm conquistado o hábito da leitura pelas portas das histórias em quadrinhos, se envolvendo em enredos de ficção terrenos ou espaciais, possíveis ou não. Até empresas passaram a utilizar o recurso para ensinar e treinar funcionários. Além do mais, são uma ótima estratégia para atrair os jovens e adolescentes para a leitura de jornais.

No jornalismo impresso, o texto ainda impera, mesmo que haja pressão para que as redações cedam mais espaço para fotografias, gráficos e infografias. Fotos-legendas, também bastante eficientes, são raras nos jornais.

No entanto, há sinais de mudança no ar. Em agosto e setembro de 2008, o jornal O Globo publicou uma série de reportagens denominada Favela S.A., na qual relatou a dinâmica, a estrutura e a expansão da movimentação econômica nas favelas fluminenses. O Café Expresso já tratou dessa série aqui.

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Além da pauta inovadora e do trabalho em equipe, foi interessante ver a utilização do recurso das histórias em quadrinhos para ajudar a narrar os fatos. Foi uma forma inteligente que mostrar como interagem moradores, policiais e traficantes em um ambiente muitas vezes sem lei. O cotidiano das favelas se passa em cenários inacessíveis para milhões de brasileiros, mostrando-se um terreno fértil para a utilização da narração em quadrinhos.Quadrinhos 2

Quadrinhos 1 Este ano, nos últimos meses, o portal UOL tem intensificado a utilização das histórias em quadrinhos para narrar fatos, recursos que blogueiros já vinham utilizando para fazer piada entre times e torcidas, para a diversão dos internautas.

Hoje, dia 28 de julho, publicou uma história em quadrinhos sobre a partida de futebol entre Internacional (RS) e São Paulo (SP) pela fase semi-final da Libertadores da América 2010. Para tanto, precisou apenas recuperar fotografias feitas e frases ditas pelos personagens principais do enredo ao longo dos últimos 40 dias que antecedem o jogo, mostrando os pontos psicológicos fortes e fracos acumulados por cada um no período. Vale a pena conferir e a esperança é que a iniciativa se alastre.

Para saber mais: Acesse as reportagens da série Favela S.A (acesso mediante cadastro simples ou para assinantes do jornal).

Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas de jornal

O Café Expresso costuma pegar no pé dos jornais quando eles perdem oportunidade de trazer para a capa matérias frias, mas com grande apelo para determinados grupos, nichos ou tribos. Este aspecto é importantíssimo por uma razão: pode atrair para a leitura de jornais aquelas pessoas que não costumam fazê-lo. E a primeira página, como se sabe, é a vitrine do jornal, cuja função prioritária é seduzir.

Por essa razão, volta a pegar no pé do Estadão, que deixou de estampar na capa, mesmo que sem a manchete principal, uma reportagem sobre a volta de grandes shows de rock e festivais de música, incluindo vários dos artistas e bandas mais cultuados pelos adolescentes e jovens adultos na atualidade. Perdeu uma oportunidade ímpar de, por meio das bascas de jornal, atrair tais públicos para comprar e consumir o produto. Afinal, quem não pára para conferir as chamadas de primeira página nas bancas antes de entrar no escritório, durante o almoço ou enquanto espera o ônibus?

FestivaisMatérias frias – a grosso modo, aquelas que não têm necessidade de serem publicadas imediatamente, independentemente de serem importantes, interessantes ou úteis – geralmente narram assuntos relativos a comportamento, cultura, entretenimento e variedades.

Com uma foto bonita ou inusitada, uma matéria fria pode fisgar para a leitura grupos de pessoas pelo gosto específico que têm, pela necessidade temporal que alguma data marcante impõe à agenda da sociedade ou pelo simples fato do tema da reportagem ser algo tão inusitado que há um interesse repentino em “consumir” a matéria, independentemente do leitor ser um gerente de negócios ou um mensageiro.

Dois exemplos recentes – Para ficar mais claro, duas matérias frias que exemplificam o ponto central – uma sobre uma rota européia de cervejarias artesanais e outra sobre receitas chiques para festas juninas. A primeira tinha um apelo incontestável: graças ao crescimento da economia, há cada vez mais consumidores apreciando cervejas (e outras bebidas) importadas ou artesanais, mesmo que mais caras. A segunda também: publicada em junho, mês que inaugura as festas juninas para milhões de brasileiros Brasil adentro. Ambas tinham belíssimas fotos, bastante atraentes.

Em geral, pode-se pensar que os jornais não o fazem porque o jornalismo está preso e acostumado a velhas fórmulas. Há uma espécie de obsessão por dar destaques para assuntos relacionados a política e economia, sobretudo de fontes governamentais. Quando muito, um fato metropolitano rompe esse hábito.

Outro fato que pode ajudar a explicar é que há uma ideologia reinante nas redações que as impedem de colaborar de forma mais enfática com as vendas. As equipes do conteúdo editorial por bem não se misturam com a comercial, mas não podem jamais se esquecer que estão no mesmo barco que, se afundar, leva a todos para o fundo do mar, jornalistas e vendedores.

O problema é o jornalista? – Muitos ainda dizem que jornalista tem uma mania inconsciente de fazer jornalismo para ele mesmo ou para os pares, esquecendo-se que o público pode se interessar por temas além daqueles com os quais os trabalhadores da imprensa preferem ou estão envolvidos.

Não há evidências para tal conclusão, mas se em algum momento tal mito for confirmado, explica-se boa parte do distanciamento do brasileiro com os jornais impressos. Basta lembrar que no Brasil, país de 190 milhões de pessoas, são comprados diariamente cerca de 8 milhões de exemplares. O maior jornal do País não vende 300.000 exemplares por dia.

É possível expandir essa audiência, mas acho que, para isso, os jornais deveriam aproveitar melhor a primeira página e as vitrines gratuitas que são as bancas de jornal.