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Ruy Castro: Lição importante de jornalismo

Não há nada a ser dito para complementer o tema do artigo de Ruy Castro, publicado no jornal Folha de S. Paulo. Trechos:

Ao assistir a filmes americanos envolvendo jornalistas, você notará a diferença. Quando surge na tela uma entrevista coletiva, cada repórter dispara uma única pergunta, curta e objetiva, que obriga o entrevistado a fazer “gulp” antes de responder. Agora compare isto com as coletivas dos nossos repórteres de TV.

Quase todos começam por uma pergunta tão longa quanto desnecessariamente explicativa. Não satisfeitos, engatam um “…e também”, e emendam uma segunda pergunta, tão longa e explicativa quanto. Ao fim desta, o telespectador já não se lembra do que ele perguntou primeiro. Mas o entrevistado se lembra muito bem —e só responde àquela que lhe for mais confortável ou conveniente. Vê-se isso ao fim de todos os jogos de futebol, nas coletivas dos treinadores. Tem-se visto isso nas coletivas dos ministros do governo, políticos e autoridades em geral.

Você dirá que, no cinema, a dinâmica do roteiro faz com que os jornalistas tenham de parecer objetivos —não há tempo nem espaço para conversa fiada em cena. E eu responderei que esta é uma cláusula pétrea entre os repórteres americanos. “Perguntas curtas, frases curtas, palavras curtas —e uma pergunta de cada vez”, aprendi em Nova York com Alain De Lyrot, antigo editor do “Herald Tribune”. “Se o entrevistado não responder a contento, você repica a pergunta.”

Nossos repórteres não se contentam com uma pergunta simples e direta. Sentem-se na obrigação de enriquecê-la, desdobrá-la e acrescentar elementos. Com isso, só a tornam confusa, e o entrevistado responde o que quiser.

Um mapa de bairro pode ser o pontapé para um projeto que junta História, Jornalismo e muito mais

San Francisco place names

Um projeto muito interessante, produzido por Noah Veltman, desenvolvedor de projetos na internet, aproveitou a interatividade da internet para oferecer Jornalismo e História com um dos ingredientes mais eficientes para chamar a atenção do público: a proximidade.

Quanto mais próxima a notícia for da realidade do leitor, mais o leitor dará atenção a ela. Com um mapa da cidade norte-americana de São Francisco, Califórnia, o autor explica quem foi ou o que fez cada pessoa que dá nome às ruas e avenidas.

Ao clicar no nome da rua, abre-se uma janela com um breve resumo do currículo do personagem, que, por vez, dá acesso a uma página na Wikipédia, com mais explicações.

O projeto, denominado History of Sao Francisco  Place Names, poderia ser bastante explorado em escolas de ensino fundamental e médio, principalmente em aulas de laboratórios extra-curricular, com objetivo de ensinar noções de informática, programação, internet, Jornalismo, História e pesquisa.

Os personagens que dão nome às ruas de cada bairro, ao exemplo do projeto são franciscano, poderiam também ganhar páginas na Wikipédia.

Poderia, inclusive, ser construído em processo colaborativo, onde as pessoas de cara bairro ao redor da escola pudessem corrigir ou acrescentar informações, preferencialmente sob a supervisão de um especialista ou professor.

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos?

Em regra geral, é a informação, e não a lei, que muda drasticamente e de forma perene os hábitos das pessoas. Quer um exemplo simples? A Universidade de São Paulo (USP) divulgou pesquisa mostrando que os os semáforos que informam ao motorista o tempo restante para a troca de cor – vermelha ou verde – ajuda a prevenir acidentes de trânsito. Fácil: ao saber que poderá cruzar a rua em cinco segundos, o motorista não arrisca atravessar no sinal proibido.

No mundo todo, em muitos casos, governos têm ampliado a transparência, divulgando pela internet, gratuitamente, bancos de dados com informações cruas de diversos serviços públicos. A intenção é que programadores e desenvolvedores possam transformar dados em serviços úteis às pessoas.

Exemplos – Imagine saber em quais hospitais há maior incidência de mortes ou infecções hospitalares, em quais ruas e bairros há mais casos de roubos e assaltos, em quais localidades há grande ou pouca ocorrência de enchentes, quais os planos de saúde com mais reclamações dos segurados.

No Brasil – e na América Latina, em geral – não há nenhum indício de que os administradores públicos estejam interessados em seguir o mesmo caminho. Estatísticas públicas podem comprometer. Por isso, são guardadas na gaveta.

Princípio – Essa visão mesozóica é ruim. Como disse tempos atrás Tim Berners-Lee, considerado um dos criadores da internet, “dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.”

De outro, a informação pode se transformar em serviços úteis para os cidadãos prevenirem acidentes, assaltos e fazerem melhores escolhas. Novas empresas que desenvolvem novos serviços em cima de tais informações públicas criam mais empregos, geram mais valor e conhecimento.

Safety products E novos exemplos continuam a aparecer no hemisfério norte. O jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo federal disponibilizará milhares de dados de um sistema de reclamações de consumidores sobre problemas de qualidade e segurança de produtos vendidos no varejo.

Os defensores dos consumidores de lá aplaudem o poder repentino que as pessoas passam a ter na hora de fazer compras. As empresas que estão no banco de dados dizem não se opor à iniciativa, mas acusam que várias reclamações não deveriam constar no banco de dados porque os problemas não existiram.

Melhores escolhas – Mas é inegável: se um produto está causando dor de cabeça a centenas de consumidores, é importante que as pessoas tenham informação para fazerem as próprias escolhas diante das gôndolas, independentemente de quem for a culpa.

O Brasil, mesmo tardiamente, como de costume, terá de aderir ao movimento de transparência – conhecido lá fora como “open data movement”. Algo já ocorre com dados de orçamentos públicos, na medida em que cresce a pressão para que sejam disponibilizados na internet para fácil consulta. Mais informação significa mais oportunidades das pessoas fazerem melhores escolhas. Se os bancos de dados com informações públicas existem, precisam  ser divulgados. Se não existem, precisam ser criados.

Para saber mais:

Veja outras matérias e mais exemplos sobre o mesmo assunto. 1) Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham. 2) O criador da internet começa a dar novos usos à própria criação.

Vigilância sobre poder público além da área política

Um dos principais papéis do jornalismo é manter estrita vigilância sobre o poder público – governos e governantes, órgãos e instituições públicas e quaisquer funcionários. Não por menos, recente pesquisa apontou que 91% da população consideram que a imprensa ajuda a combater a corrupção no Brasil e 97% das pessoas são a favor da investigação de casos suspeitos por jornalistas.

Marcar de forma acirrada a atuação do poder público, no entanto, vai além – e essa boa reportagem de Edison Veiga e Lucas de Abreu Maia, publicada dia 15 de março no jornal O Estado de S.Paulo, prova isso.

15 mar OESP Eles estiveram nas instalações da Biblioteca de São Paulo, recentemente inaugurada no Parque da Juventude, espaço que ocupou o lugar do antigo presídio do Carandiru, na Zona Norte da capital paulista. Os repórteres estiveram na biblioteca por quatro semanas seguidas, duas vezes cada um. Verificaram o funcionamento, o atendimento e o acesso para portadores de deficiências. Entregaram ao cidadão uma análise de primeira, mostrando tanto a eficácia quanto os defeitos da biblioteca.

Esse tipo de pauta costumeiramente resulta em boas histórias, desde que haja objetividade. Na era de internet e telefonia à disposição em aparelhos portáteis, o trabalho do jornalista tem se resumido, cada vez mais, a apurar dados e informações diretamente das redações, saindo cada vez menos para as ruas.

Essa transformação do cotidiano das redações gerou ganho de produtividade e redução de custos importantes para a indústria da notícia, mas a sociedade perdeu matérias cujo método é a observação do jornalista, que atua como um pesquisador.

Que essa matéria – a melhor reportagem da semana – incite novas pautas como essa. Planejamento é fundamental para que os repórteres saiam para as ruas com objetivos bastante definidos, com questões claras para buscar as respostas, sem ceifar o espaço natural para as novidades que podem colher nas ruas.

Leitores, internautas, ouvintes e telespectadores certamente vão aplaudir essas iniciativas, pois tão importante quanto prevenir que o dinheiro público seja desperdiçado ou desviado é garantir que os serviços públicos que receberam investimentos funcionem com qualidade e eficiência.

Melhor matéria da semana desvenda gestão pífia em plano de drenagem em SP

Apurar o desempenho de uma política pública nunca é fácil – exceto nos casos em que o resultado é sabidamente favorável ao gestor público. Mas é uma das principais e mais benéficas tarefas do jornalismo. Usualmente, as administrações públicas, em todos os níveis e regiões do Brasil, fazem de tudo para esconder ou fornecer parcialmente os dados que os jornalistas – e consequentemente a sociedade – desejam conhecer.FSP Plano drenagem 88

A tarefa fica ainda mais desafiadora quando esse trabalho precisa ser feito concomitantemente a tragédias ou situações de enorme prejuízo ou desconforto à população. Imagine um gestor público fornecer informações que demonstram a falta de investimento ou atenção em obras de manutenção de aeroportos após um acidente com aeronaves e com dezenas de vítimas. A melhor reportagem da semana enquadra-se nesse porta-retrato.

A equipe da Folha de S.Paulo conseguiu apurar informações a respeito do desempenho do mal conduzido plano de drenagem na cidade de São Paulo de 1988, que previa dezenas de novos reservatórios de água de chuva – os famosos piscinões – na capital paulista. Com boas infografias, a matéria deixou claro que a quantidade enorme de alagamentos em diversos bairros da cidade é também fruto da incompetência da administração pública, que não implementou nem metade do que anunciou naquele ano.

O trabalho ficou ainda mais difícil porque não é fácil conseguir tais informações em um momento em que a popularidade do prefeito despenca há dois meses por causa dos transtornos que as chuvas têm impingido aos moradores e motoristas de São Paulo.

O criador da Internet começa a dar novos usos à própria criação

Tim Berners-Lee é considerado o criador da internet – a world wide web. Em junho do ano passado, foi contrato pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown para conduzir o Reino Unido por um caminho que alguns países já tinham começado a trilhar poucos anos antes – abrir os dados dos governos para a sociedade fazer uso privado ou comercial deles. Tim foi contratado por Brown por ser um crítico do costume dos governantes de trancarem informações públicas nos armários. Como ele mesmo explicou, bem-humorado, as desculpas de presidentes, secretários, governadores e prefeitos para não entregar informações são surpreendentes e incríveis.

Hoje, na Inglaterra, Tim Berners-Lee lançou o data.gov.uk, cujo objetivo é oferecer acesso a bancos de dados com informações públicas que possam ser transformadas em serviços por desenvolvedores da área de tecnologia da informação. Começa com 2.500 conjuntos de dados. Não interessa se as informações serão usadas de forma privada ou comercial – o princípio é que a sociedade (pessoas, famílias e empresas) já pagou por elas e tem direito a elas.Sir Tim Berners-Lee idea

No lançamento, o data.gov.uk terá bancos de dados com informações sobre visitas a museus, preços de habitação, pontualidade de ônibus e qualidade do ar em todo o país.

Veja a frase de Tim Berners-Lee, numa tradução livre, dita para um repórter o portal da BBC, de Londres: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” Incrível, certo? Imagine o prefeito de São Paulo, então, dizendo o mesmo a respeito de disponibilizar à sociedade e aos jornalistas o banco de dados com endereços de alagamentos dos últimos dez anos na capital paulistana. Imagine o presidente da República fazendo o mesmo com o banco de dados do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, que o governo federal diz estar melhorando a infraestrutura do Brasil e que os partidos políticos de oposição dizem ser uma bela peça de propaganda.

O Reino Unido entrou de cabeça em um movimento que cresce no mundo inteiro: o Open Data Moviment, que significa algo como dar ao público as informações públicas. Entre os ingleses, há campanhas que datam de anos atrás, como a Free Our Data, do jornal The Guardian, para que uma política governamental fosse implementada neste sentido, como já vinham fazendo outros países, como Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. Ganharam.

As consequências positivas de uma política pública como essa são inimagináveis. Como explicou o coordenador do data.gov.uk, ao abrir os bancos de dados governamentais, seja para uso particular ou comercial, os desenvolvedores podem enxergar utilidade em lugares e coisas que o governo não vê e tudo isso pode se transformar em novos negócios e mais produtividade, o que resultará em ganhos de arrecadação tributária para os governos. Simples assim. Imagine, agora, um governo qualquer no Brasil dizendo isso.

Para conhecer mais, leia:

The Guardian: UK’s free data website ‘is a world showcase’

DataBlog The Guardian: Official government data sites around the world

BBC: Tim Berners-Lee unveils government data project

Zilda Arns: resta fazer uma matéria ainda

Zilda O Globo 1 A imprensa cobriu a morte de Zilda Arns, médica pediatra e sanitarista que se transformou em uma das mais principais personalidades brasileiras ao liderar com êxito as iniciativas da Pastoral da Criança, com relativo equilíbrio e eficiência, principalmente se for considerado que ela faleceu ainda no dia 12, mas a notícia começou a circular pela internet somente dia 13 – e os jornais impressos só tinham como noticiar no dia seguinte.

Houve pouco tempo para levantar informações relevantes. Mas, mesmo assim, os principais jornais brasileiros deram conta do recado, seja no dia imediatamente seguinte ou depois. Destaque para O Globo e O Estado de S. Paulo, neste último Zilda O Globo 2 caso, com um belo artigo de José de Souza Martins, professor emérito da USP na área de filosofia, que trouxe números a respeito do desempenho da Pastoral e Zilda.

A TV Cultura, de São Paulo, foi muito feliz em reprisar uma entrevista concedida por Zilda Arns em 2001 para o programa Roda Viva. Lá, ela detalhou, com didatismo e clareza, os princípios e os procedimentos que fizeram da Pastoral da Criança um sucesso internacional, com bases de operação em países pobres da Ásia, África e América.

Mesmo com o bom trabalho da imprensa, acredito que há espaço para mais uma reportagem, principalmente por revistas de economia e negócios como Exame e Época Negócios, que focam muito em gestão, mas também para Carta Capital e Isto É Dinheiro. Sugiro um roteiro simples:

1) Quais os números que demonstram o sucesso da atuação da Pastoral da Criança, preferencialmente divididos por regiões, como mostrou José de Souza Martins? É possível produzir boas infografias com esses dados? Há localidades ou comunidades que podem servir como ‘personagens principais’ para demonstrar o desempenho desse programa coordenado por Zilda Arns?

2) Quais são os princípios e métodos gerenciais que podem ser transpostos para outros desafios que o Brasil tem? Nas reportagens, a imprensa traz algumas pistas: simplicidade, comprometimento das pessoas (que são voluntárias), capilaridade (atendimento em mais de 4.000 cidades), fé na causa, aproveitamento dos saberes locais (como demonstra os ingredientes regionais da  multimistura).

3) Há empresas que se servem dos mesmos princípios e métodos? Quais os resultados? Em quais mercados ou companhias tais métodos poderiam ser aproveitados? Empresas como Natura, Nextel, Avon e muitas outras se servem de uma rede de vendedores que trazem os princípios praticados por Zilda Arns.

4) É possível comparar o custo de atendimento e o resultado alcançado pela Pastoral da Criança com outras políticas públicas dos governos federal ou estaduais?

5) Zilda coordenava também uma iniciativa relativamente recente: a Pastoral da Pessoa Idosa. Há resultados, desafios, metas e métodos para serem mostrados?