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Projetos jornalísticos mapeiam a opinião de partidos e parlamentares no Brasil e nos EUA

O ProPublica, organização jornalística independente sediada em Nova Iorque, EUA, conseguiu montar um mapa que facilita bastante aqueles que querem entender o quanto é difícil e polêmico discutir e alterar a legislação sobre o porte de armas nos Estados Unidos. O trabalho, divulgado dia 16 de janeiro, mostra como deputados e senadores dos partidos Democratas e Republicano, além de um parlamentar independente, se comportam e opinam quanto ao tema.

A primeira conclusão que a visualização permite constatar é que há uma brutal distinção entre a opinião dos congressistas republicanos e democratas. Enquanto o Partido Republicano é majoritariamente favorável à manutenção do direito de possuir e portar armas de fogo, o Partido Democrata é amplamente favorável a restringir o porte de armas.

ProPublica

Após mais uma ocorrência de massacre em escolas norte-americanas, o presidente reeleito dos Estados Unidos, Barak Obama, incitou o Congresso a apertar a lei, tornando-a mais restrita. O problema é que a Segunda Emenda da Constituição daquele país deixa claro que todo cidadão tem o direito de manter e portar armas de fogo. A discussão é secular.

Estudo que facilita – A visualização interativa foi facilita pelo trabalho do Institute for Legislative Action (ILA), braço da National Rifle Association, associação que defende o direito de possuir e portar armas a todo cidadão. A organização situa cada congressista com base na opinião e ações deles sobre adotar um controle mais restrito ou manter o direito constitucional.

Com os dados, o ProPublica colocou programadores e jornalistas para apresentar os dados de uma forma visualmente agradável e inteligente, dando sentido às informações e permitindo aos internautas selecionarem as informações que querem do ponto de vista que desejam.

No Brasil – Imaginem usar a mesma solução para mapear a opinião dos congressistas brasileiros para os mais candentes temas em discussão – ou paralisados – no Congresso Nacional?

O projeto Estadão Dados, inaugurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, começou a organizar e entender estatísticas sobre diversos assuntos, entre eles comportamentos dos parlamentares no Congresso Nacional, em Brasília.

Um dos trabalhos dentro do Estadão Dados chama-se “Basômetro” e permite entender como os partidos políticos e congressistas votaram – com o governo ou contra o governo – em diferentes projetos de lei ao longo de 2011 e 2012. Vale a pena conferir.

Basômetro

Outros aspectos – Tanto o trabalho do ProPublica quanto do jornal O Estado de S. Paulo ajudam os leitores a entenderem melhor temas complexos. Só se tornam úteis porque há um trabalho importante dos programadores e jornalistas em dar uma orientação, um sentido, às estatísticas. Caso contrário, seria apenas mais um almanaque.

Um aspecto interessante é que os dois projetos jornalísticos permitem uma visão” tanto da árvore quanto da floresta”, pois mostra como pensam e decidem tanto o congressita, individualmente, quanto os partidos políticos, conjuntamente.

Incêndios nas favelas paulistanas: um roteiro para construir uma reportagem diferente

No dia 3 de setembro, mais um incêndio foi registrado em uma favela na capital paulista. Foi o 32º em 2012. O assunto é sempre muito polêmico. Em um município com pouco espaço para adensamento e crescimento de novas construções imobiliárias, casos como esses geram suspeitas se os incêndios foram casuais ou intencionais. O fato isoladamente – e o contexto ao longo dos anos – merece boa investigação jornalística.

Pelo Twitter e pela imprensa, o Corpo de Bombeiros informou que a quantidade de incêndios em favelas na cidade de São Paulo vem caindo nos últimos anos. Com o caso na favela Buraco Quente, no Campo Limpo, a instituição registrou, em 2012, até o início de setembro, 32 ocorrências deste tipo. Em anos anteriores, o Corpo de Bombeiros da cidade de São Paulo registrou mais casos: 130 em 2008, 122 em 2009, 91 em 2010, 79 em 2011. O gráfico é declinante.

Twitter Bombeiros

Mapa dos incêndios – Pois bem. Uma turma de jornalistas e programadores criaram um mapa com todos os incêndios ocorridos este ano. Visualizar geograficamente os fatos, todos juntos, ajuda a perceber novas informações e buscar relações e compreensão. Pelo Twitter, o jornalista Fabiano Angélico, prontamente, registrou: “A maioria deles (dos incêndios) está bem perto de artérias importantes da cidade”.

É um aspecto interessante que merece mais investigação. Com os 32 casos registrados em 2012, é difícil determinar precisamente se há uma relação direta entre os incêndios e a proximidade das favelas com as grandes avenidas e áreas mais valorizadas. O ideal seria jogar em um mapa todos os incêndios ocorridos desde 2008, por exemplo, para verificar, em uma amostra maior, com um universo mais abrangente, se essa constatação (que brota dos dados de 2012) se repete nos anos anteriores. Se for confirmada, dá notícia, com mais segurança.

Incêndios favelas 2012

Cruzamentos – Mas a investigação pode ir além. Imagine que, entre todos os incêndios registrados entre 2008 e 2012, a maioria ocorreu em favelas próximas a grandes avenidas. Agora imagine que a maior parte das favelas paulistanas está próxima de grandes avenidas. Se isso realmente for verdade, a notícia não é tão gritante assim. Afinal, se há mais corintianos em São Paulo, é de presumir que você verá nas ruas mais pessoas vestindo camisa do Corinthians.

O projeto FolhaSPDados publicou um texto e um mapa mostrando a quantidade e a localidade das favelas paulistanas. Segundo o jornal, há 1.633 favelas na capital paulista. É mais uma base de dados que pode ser sobreposta à inicial (a dos incêndios) e tentar pintar, em cores diferentes, quais favelas estão longe e próximas às principais artérias da cidade.

FolhaSPdados

Se poucas favelas paulistanas estiverem à beira de grandes avenidas, e se essas poucas localidades registrarem a maioria dos incêndios registrados no périodo desde 2008, há uma boa informação para inciar uma matéria interessante. A pergunta que teria de ser respondida, neste exemplo hipotético, é: porque há menos incêndios em favelas localizadas em regiões menos valorizadas e mais ocorrências em favelas situadas em áreas mais valorizadas?

É isso. As estatísticas – e a cartografia – podem servir como novas ferramentas para os jornalistas perceberem informações adicionais e outros pontos de vista para os assuntos cotidianos.

Atualização – Programadores e jornalistas já iniciaram um trabalho coletivo para organizar as estatísticas e os dados dos incêndios ocorridos na cidade de São Paulo nos últimos anos em um mapa, de modo que a observação espacial das ocorrências ajude a constatar novas informações. Vale acompanhar.

Um árbitro aposentado vem fazendo jornalismo esportivo bem melhor que boa parte da imprensa

Leonardo Gaciba, ex-árbitro de futebol, se aposentou em outubro de 2010. Sorte dos torcedores. Não, ele não era um péssimo juiz. É que, ao abandonar o apito, ele passou a trabalhar como comentarista esportivo para o canal de televisão fechada SporTV e a escrever textos para um blog no portal da mesma emissora.

Os textos abordam, é claro, õ trabalho da arbitragem, mas com uma abordagem bastante diferente. O último relato, por exemplo, é uma verdadeira aula de jornalismo. Gaciba coletou dados, analisou-os e entregou ao leitor conclusões sobre o comportamento dos árbitros com o uso dos cartões amarelo e vermelho. Descobriu que a média de cartões despencou no Brasileirão 2012 enquanto o número de faltas manteve estável.

Ele somou a quantidade de punições dadas aos jogadores nos campeonatos de 2008 até 2012 (considerando sempre as 12 primeiras rodadas, que representam cerca de um terço da competição) e detectou que os juízes estão aplicando menos cartões. mais que isso: a redução é significativa. E ele pergunta: o que mudou? Porque mudou? O que aconteceu? Com especialista e fonte, ele mesmo identifica hipóteses e as comenta.

Dados como esses – quantidade de cartões amarelos e vermelhos mostrados aos atletas nos últimos cinco anos – não estão facilmente disponíveis na internet. Por isso, a maior parte dos jornalistas esportivos prefere opinar com base no que eles sentem e acham no momento – e essa opinião pode acabar enviesada e contaminada por diversos componentes, como a paixão clubística do repórter, a raiva por causa de algum acontecimento em um jogo recém-concluído ou a bronca com algum árbitro ou jogador, entre outros.

O ex-árbitro Gaciba merece os parabéns. Para apresentar as estatísticas que apresentou – e têm mostrado em diversos textos – certamente ele tem pesquisado e organizado os próprios bancos de dados para poder analisar os números e oferecer aos leitores informações mais precisas e objetivas. Os dados ajudam a esclarecer e circunscrever os fatos e reduzem o espaço para opiniões infundadas. Se o ex-juiz de futebol pode fazer, porque a maior parte dos profissionais da imprensa continuam a trabalhar na escuridão dos fatos?

Nos EUA, há 15 mil homicídios por ano. No Brasil, 45 mil. Mas isso é só o começo dessa história

murder-draft-1.previewNos Estados Unidos, cerca de 15.000 pessoas são assassinadas por ano – e a taxa de solução de crimes, decrescente, diminuiu para 65%. No Brasil, os assassinatos somam, anualmente, cerca de 45.000 pessoas – e ninguém sabe como está a taxa de solução nacional destes crimes. Mas, com esforço, essa estatística pode surgir em algum tempo. Basta seguir os rastros de um dos mais recentes projetos premiados nos Estados Unidos por unir jornalismo, estatística, programação de computador e ciências sociais.

Nos Estados Unidos, Thomas Hargrove, repórter engajado no uso de dados e métodos das ciências sociais no jornalismo, ganhou recentemente um prêmio – o Philip Meyer Journalism Award – por ter coletado e analisado estatísticas sobre assassinados nos estados norte-americanos. O valor do primeiro prêmio, US$ 500, foi simbólico. O trabalho que ele desenvolveu, no entanto, chamado Murder Mysteries, ajudou inclusive alguns departamentos locais de polícia a reabrir casos antigos mediante o aparecimento de novas pistas.

Roteiro de um grande projeto – O início do projeto surgiu de uma pergunta: é possível detectar a ação de assassinos em série (os “serial killers”) a partir da análise dos relatórios de homicídios do FBI, o Federal Bureau of Investigation, órgão similar a Polícia Federal brasileira? Ele escarafunchou dados de 185 mil assassinatos não resolvidos entre 1980 e 2008 e produziu inúmeras reportagens.

Logo de início, descobriu que as forças policiais locais falharam em informar ao FBI diversos casos e, utilizando a lei de acesso à informação norte-americana, ele reuniu detalhes de 15 mil casos adicionais de assassinatos. Ele gastou mais de um ano nesse esforço, utilizando leis locais de acesso a informações públicas.

Murder Mysteries dataO passo seguinte – ou paralelo – foi desenvolver um algoritmo que permitiu cruzar e agrupar dados e detectou prováveis traços de mortes cometidas pelas mesmas pessoas, em série. O banco de dados completo foi disponibilizado na internet para acesso público.

Hargrove tem formação e experiência em áreas como jornalismo, análise de dados estatísticos, amostragem de pesquisas, programação e mineração de dados. Essas habilidades permitem a ele realizar projetos complexos e enfrentar os desafios inerentes tanto na busca, organização e análise de dados quanto na apresentação, de forma compreensível, das conclusões que brotam de milhares de células de estatísticas. Já estudou e publicou sobre temas como desaparecimento de crianças, mortalidade infantil inesperada e padrões em casos de homicídios não resolvidos – e todos resultaram, de certa forma, em aperfeiçoamentos nas políticas públicas.

A realidade brasileira – E no Brasil? Quantos assassinatos aconteceram nos últimos anos no país inteiro? O site do Ministério da Justiça não ajuda muito. Lá, há uma apresentação com dezenas de páginas e algumas estatísticas sobre ocorrências criminais referentes aos anos de 2004 e 2005. Para obter dados atualizados e organizados, vale acessar o Mapa da Violência, projeto de Julio Jacobo Waiselfiz.

Mapa da Violência 2011O pesquisador utilizada números do Datasus, o banco de dados do Sistema Único de Saúde, acessível a qualquer internauta. A vantagem é que o trabalho organiza e interpreta os dados, com explicações metodológicas , sem riscos de erro. No Datasus, o excesso de estatísticas e informações pode ser um inimigo para quem tiver pouca familiaridade com o tema.

Quanto à taxa de resolução desse tipo de crime, há uma percepção de que o desempenho não é bom. É difícil arriscar qualquer aposta. Especialistas costumam relacionar taxa maiores de solução de crimes com quantidade menor de assassinatos – e diversos estados brasileiros mostram trajetória decrescente homicídios.

Se os dados não estão à mostra, a saída para pesquisadores e jornalistas – com tempo, dinheiro e disposição – é aproveitar a Lei de Acesso à Informação recentemente aprovada no Brasil – e já em vigor para órgãos e autarquias públicas nas esferas federal, estadual e municipal. Infelizmente, não será um caminho fácil, principalmente para um país com cultura contrária à divulgação de informações e documentos públicos. Será necessário pedir informações em vários balcões. Mas é possível.

Para saber mais:

Acesse a lista de vencedores da última edição do Philip Meyer Journalism Award e conheça os projetos jornalísticos similares ao Murder Mysteries.

Uma investigação jornalística nos Estados Unidos força governo a adotar correções. E aqui?

Dollars for Docs O jornal norte-americano The New York Times informou, dias atrás, que autoridades federais dos Estados Unidos devem determinar que as companhias farmacêuticas informem quanto e como pagam médicos por atividades como pesquisa, consultoria, palestras, viagens ou simplesmente entretenimento.

A medida é uma resposta à uma denúncia da imprensa – mais precisamente, do ProPublica, uma instituição independente de Nova Iorque que produz um tipo de jornalismo investigativo de fôlego, sem se pautar obrigatoriamente pela avalanche de anúncios e acontecimentos cotidianos.

Meses e meses – Os repórteres procuram as pautas, obtêm e perseguem pistas por semanas seguidas e publicam as matérias, algumas delas fruto de meses de investigação. Para amplificar a divulgação, costumam publicar as reportagens em parcerias com jornais, revistas e emissoras de TV tradicionais e de grande audiência.

Este modelo de jornalismo – ainda um pouco trôpego financeiramente, porque os recursos para praticá-lo chegam por doações, quase sempre intermitentes – já deu um prêmio Pulitzer inédito para o ProPublica em 2010.

A série de reportagens que o ProPublica publicou denomina-se “Dollars for Docs”, algo como “Dólares para os doutores”, uma menção ao pagamento encoberto e nada transparente feito pelas companhias farmacêuticas para custear as atividades de muitos médicos sem que o público fique sabendo dos intrincados conflitos de interesse que esse relacionamento acarreta.

Dados públicos – Tudo começou em outubro de 2010, quando os jornalistas compilaram as listas de pagamentos que as companhias farmacêuticas fazem aos médicos e montaram um banco de dados público disponível para pesquisas, de forma que os pacientes pudessem pesquisar o relacionamento dos doutores preferidos deles com as empresas que produzem e vendem os medicamentos. No Brasil, não há nada parecido com essa transparência que existe lá.

Vale um preâmbulo: uma investigação de fôlego como essa só é possível porque os dados, mesmo que desorganizados, estavam disponíveis. Os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, tem, há muito mais tempo, uma lei que determina a publicidade e a transparência em muitos tipos de informação pública. No Brasil, uma lei similar foi aprovada no fim de 2011 e ainda será testada na prática.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil

O jornal Folha de S. Paulo noticiou em manchete na capa no dia 1 de março: “Funcionário do Estado negocia dados sigilosos”. Trata-se de um sociólogo que chefia a área de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável por arquivar o conjunto de estatísticas sobre criminalidade no maior estado brasileiro.

Estatísticas crime 1 Esse cofre, repleto de estatísticas de um serviço público essencial, é alvo de uma disputa entre o jornal e o governo paulista desde 2008, no mínimo. A Folha de S. Paulo acredita ser de elevado interesse público desarquivar esses dados para que a população saiba quais são as ruas com maior incidência de crimes, em quais bairros há mais roubos residenciais, quais os veículos mais visados para roubo, por exemplo.

Já o governo paulista decretou uma regra: divulga, trimestralmente, somente dados consolidados por tipo de crime, de forma que a sociedade tenha apenas conhecimento sobre quais crimes aumentaram ou diminuíram em em cada macrorregião – capital, interior, litoral. O que o jornal deseja tem enorme relevância – mas está no arquivo. O que o governo estadual é interessante mas tem pouco valor – e está público.

O erro maior permanecerá – O que jornal revela, além da imoralidade da história, é a mentira do governante. Estatísticas públicas que deveriam ser divulgadas para toda a sociedade estavam sendo comercializadas de forma privada por funcionários públicos para instituições e empresas privadas que, com os dados comprados, faziam negócios e geravam mais e mais valor e riqueza. A desonestidade foi punida com demissão. Mas o erro maior – o arquivamento dos dados – certamente permanecerá.

HomicideReport São Paulo segue na contramão de diversas cidades norte-americanas e européias que já aderiram a um movimento internacional que clama por divulgação de informações e estatísticas públicas pelos governos – conhecido como “open data moviment”. Lá, a idéia é que programadores e outros profissionais criativos desenvolvam novos negócios e novas empresas com os dados públicos – independentemente se vão fornecer, posteriormente, serviços gratuitos ou pagos. O importante é gerar valor, negócios, empresas e empregos com as estatísticas públicas.

Um projeto interessante é o do jornal Los Angeles Times. Chamado The Homicide Report, mostra o local e a quantidade de homicídios rua por rua. Imagine qualquer quarteirão do bairro onde mora nesse mapa. Tem relevância para você? É ,ais ou menos isso que a Folha de S. Paulo quer fazer e que o governo paulista diz que não deve ser feito porque a divulgação de tais dados cria pânico e desvaloriza regiões.

Princípios – Não se pode negar que há certa lógica por trás dos argumentos governamentais, mas há um problema de princípio: essas justificativas insistem que o povo, na ignorância, vive mais feliz. Caro secretário, caro governador, é a informação – que fornece às pessoas a chance de buscar as melhores opções por conta própria – que gera mais felicidade, aqui entendida como bem-estar.

Outro ponto relevante. Se as pessoas acreditam que governos e políticos são transparentes e sérios, elas acabam se tornando mais comprometidas com o funcionamento geral da cidade. Isso não é idéia de pesquisador utópico, mas sim conclusões de um estudo em três cidades nos Estados Unidos.

Já peguei emprestado algumas vezes a frase de um dos pais da internet, Tim Berners-Lee, que coordena o departamento chamado “governo aberto” no Reino Unido, e volto a fazê-lo: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” No Brasil, esses dados, arquivados, não estão sendo jogados no lixo. Estão gerando negócios, para alguns.

Para saber mais:

Projeto Not Just a Number, realizado em conjunto pelo The Oklahoma Tribune e pelo Inside Bay Area. Mostra a força de dados públicos relevantes de uma forma abrangente, com jornalismo. Entre estatísticas, relatos e procedimentos, informa fatores de riscos envolvidos nos homicídios, mapa com serviços públicos como recreação e treinamento para o emprego e ruas nas quais os crimes ocorreram, entre outros. Pena que tem atualização a partir de 2008.

Projeto Oakland Crimespoting. Mostra, ocorrência por ocorrência, por tipo de crime, em cada endereço. Um projeto ímpar quando o assunto é divulgação de dados públicos releventes para gerar serviço e valor para a sociedade.

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos?

Em regra geral, é a informação, e não a lei, que muda drasticamente e de forma perene os hábitos das pessoas. Quer um exemplo simples? A Universidade de São Paulo (USP) divulgou pesquisa mostrando que os os semáforos que informam ao motorista o tempo restante para a troca de cor – vermelha ou verde – ajuda a prevenir acidentes de trânsito. Fácil: ao saber que poderá cruzar a rua em cinco segundos, o motorista não arrisca atravessar no sinal proibido.

No mundo todo, em muitos casos, governos têm ampliado a transparência, divulgando pela internet, gratuitamente, bancos de dados com informações cruas de diversos serviços públicos. A intenção é que programadores e desenvolvedores possam transformar dados em serviços úteis às pessoas.

Exemplos – Imagine saber em quais hospitais há maior incidência de mortes ou infecções hospitalares, em quais ruas e bairros há mais casos de roubos e assaltos, em quais localidades há grande ou pouca ocorrência de enchentes, quais os planos de saúde com mais reclamações dos segurados.

No Brasil – e na América Latina, em geral – não há nenhum indício de que os administradores públicos estejam interessados em seguir o mesmo caminho. Estatísticas públicas podem comprometer. Por isso, são guardadas na gaveta.

Princípio – Essa visão mesozóica é ruim. Como disse tempos atrás Tim Berners-Lee, considerado um dos criadores da internet, “dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.”

De outro, a informação pode se transformar em serviços úteis para os cidadãos prevenirem acidentes, assaltos e fazerem melhores escolhas. Novas empresas que desenvolvem novos serviços em cima de tais informações públicas criam mais empregos, geram mais valor e conhecimento.

Safety products E novos exemplos continuam a aparecer no hemisfério norte. O jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo federal disponibilizará milhares de dados de um sistema de reclamações de consumidores sobre problemas de qualidade e segurança de produtos vendidos no varejo.

Os defensores dos consumidores de lá aplaudem o poder repentino que as pessoas passam a ter na hora de fazer compras. As empresas que estão no banco de dados dizem não se opor à iniciativa, mas acusam que várias reclamações não deveriam constar no banco de dados porque os problemas não existiram.

Melhores escolhas – Mas é inegável: se um produto está causando dor de cabeça a centenas de consumidores, é importante que as pessoas tenham informação para fazerem as próprias escolhas diante das gôndolas, independentemente de quem for a culpa.

O Brasil, mesmo tardiamente, como de costume, terá de aderir ao movimento de transparência – conhecido lá fora como “open data movement”. Algo já ocorre com dados de orçamentos públicos, na medida em que cresce a pressão para que sejam disponibilizados na internet para fácil consulta. Mais informação significa mais oportunidades das pessoas fazerem melhores escolhas. Se os bancos de dados com informações públicas existem, precisam  ser divulgados. Se não existem, precisam ser criados.

Para saber mais:

Veja outras matérias e mais exemplos sobre o mesmo assunto. 1) Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham. 2) O criador da internet começa a dar novos usos à própria criação.

Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham

Muitas cidades norte-americanas – como São Francisco, Nova Iorque e Washington – estão à frente de uma iniciativa pra lá de inovadora. Chama-se ‘open data movement’. Os governos municipais estão abrindo bancos de dados públicos para programadores e web designers criarem aplicativos que possam ser transformados em serviços à população. A idéia é que as informações, costumeiramente chatas e até incompreensíveis, passem a ser acessíveis e úteis para as pessoas comuns após o trabalho dos profissionais de programação e design. 

Uma reportagem na edição de hoje (7 de dezembro) do Stumble SafelyThe New York Times mostra muitos exemplos bem-sucedidos. Em Washington, um site mostra a rota mais segura para voltar para casa dos bares à noite. Em São Francisco, um portal mostra resultados de inspeções sanitárias em restaurantes enquanto outro site combina informações de escolas, livrarias e restaurantes de forma que os pais podem planejar atividades extra-classe para os filhos ou analisar o melhor valor nutricional para as refeições que eles fazem fora de casa. As pessoas conseguem perceber o que está acontecendo á volta delas.

No Brasil, o poder público local – diga-se, prefeituras – FSP SP RJnão tem comportamento de oferecer informações úteis nem quando questionadas ou forçadas. Recentemente, Belo Horizonte começou a expor informações referentes ao mapa de criminalidade da cidade na internet para que os cidadãos possam ter acesso àquilo que as autoridades já têm. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro descaratam tal iniciativa.

O que querem as autoridades municipais ao entregar bancos de dados públicos para desenvolvedores de aplicativos, uma tendência que ganhou o nome de ‘open data movement’? Elas apostam na criatividade dos desenvolvedores de aplicativos para estabelecer uma nova forma de entregar serviços da administração pública aos cidadãos.

É uma forma também das pessoas saberem o que está acontecendo nas redondezas de onde moram e avaliarem o desempenho dos prefeitos, mesmo que os mais céticos estejam se perguntando se há outras intenções por trás desse exercício de transparência repentino das autoridades, que historicamente preferem esconder dados constrangedores. 

São Fco CrimesSpotting A diferença entre a iniciativa das cidades norte-americanas e da de Belo Horizonte é que enquanto as de lá oferecem os bancos de dados para que profissionais trabalhem neles, mesmo que de forma controlada, a da capital mineira oferece um produto pronto. Seria interessante se as prefeituras brasileiras começassem a abrir os bancos de dados com informações públicas para programadores – e também jornalistas – trabalharem tais informações e oferecerem serviços para a sociedade.

Reportagens que valem a pena ler e guardar

Estadão e Folha de S. Paulo trouxeram, recentemente, dois bons exemplos de CAR (computer assisted reporting). No primeiro caso, aFSO 11nov a repórter Renée Pereira, especializada na cobertura de infraestrutura, descobriu que uma parte considerável dos já insuficientes recursos reservados pelo governo federal para investir em novas obras são devolvidos ao Tesouro Nacional por incapacidade da máquina pública de gastar o dinheiro. No segundo, o repórter Eduardo Scolese, acostumado a acompanhar as idas e vindas da política e da gestão das políticas públicas em Brasília, cruzou dados de duas fontes diferentes para descobrir que cidades que mais desmatam apresentam melhora momentânea na economia local, mas os índices  de atendimento em saúde e educação pioram.

Da forma como foram feitas, as duas reportagens são boas aulas de jornalismo. Primeiro, porque evidenciam a vontade dos repórteres em revelar fatos a partir dados mensuráveis e de novas abordagens, além das fontes oficiais. Segundo, porque deram ao leitor um bom retrato de assuntos que estavam na agenda do dia – investimento em infraestrutura e desmatamento. Por fim, com evidências nas mãos, ofereceram às fontes usualmente entrevistadas – autoridades governamentais, líderes empresariais, acadêmicos e organizações ambientais – a oportunidade de analisarem e opinarem em cima de fatos concretos. Gráficos e infografias facilitaram o entendimento por parte do leitor. As duas matérias, merecidamente, saltaram para as respectivas capas dos diários.

Na Folha de S. Paulo, Scolese analisou um banco de dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que lista, em números, a área desmatada nos municípios brasileiros. Organizou-o de acordo com os mais desmatadores. Depois, cruzou as informações com outro banco de dados, desta vez da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), que enumera indicadores de desenvolvimento social – educação, saúde, emprego e renda – em todas as cidades brasileiras. Ambos os bancos de dados analisam o período de 2000 a 2006, o que permitiu grandes descobertas que podem ser lidas na reportagem publicada no dia 11 de novembro de 2009, dois dias antes do governo federal anunciar, com festa, o menor índice de desmatamento da história do País.

Já Renée organizou um banco de dados colhendo informações que lhe interessavam do Siafi (Sistema Integrado de OESP 13novAdministração Financeira), disponibilizado pelo Tesouro Nacional. A intenção era verificar como estava a execução do orçamento de investimentos dos ministérios federais responsáveis por obras de infraestrutura. Descobriu que, entre 2004 e 2008, o governo federal deixou de investir R$ 20 bilhões em novas obras, pois só conseguiu reservar para gasto R$ 52 bilhões de um orçamento de R$ 72 bilhões aprovado pelo Congresso Nacional para o setor no período. Publicada no dia 13 de novembro, no auge da cobertura da imprensa sobre as causas de consequências do maior blecaute de energia elétrica da história brasileira, a matéria mostrou que, mesmo quando há recursos, o poder público não consegue gastá-los integralmente.

Pela vanguarda e ineditismo, ambas as reportagens merecem ser lidas e guardadas.

Imprensa prova que pode melhorar a sociedade

Poucas autoridades públicas conseguem manter uma convivência profícua e transparente com a imprensa, o que inclui saber reconhecer problemas existentes e reportados pela mídia. O próprio presidente da República já demonstrou inúmeras vezes antipatia com os jornalistas. Já disse que não lê jornais nem revistas porque isso lhe dá azia. Já disse que aconselha a todo presidente se manter longe de jornais nos fins de semana. Já disse que formadores de opinião da imprensa estão em extinção. Já disse diversas outras coisas. Mas, dia após dia, a imprensa vem mostrado força e importância em ajudar a transformar o País em algo melhor.

Recente exemplo pôde ser conferido na última quinta-feira, dia 12 de novembro. A quantidade de parlamentares trabalhando normalmente na Câmara de deputados foi maior. Isso só foi possível porque o jornal O Globo flagrou dezenas deles usando de uma artimanha antiética para burlar o dia de trabalho sem desconto em folha de pagamento no fim do mês. Aproveitavam que o painel de presença era aberto uma hora antes das sessões plenárias para, antecipadamente, sem alarde, registrar presença e logo em seguida ir para o aeroporto para viajar para os respectivos estados.

A matéria causou constrangimento e forçou a presidência da Câmara a corrigir, por regra, os desvios de comportamentos dos parlamentares. Agora, o painel de presença só é aberto na hora em que a sessão é iniciada, às 9h. Antes, abria uma hora antes.

Vale lembrar que matéria recente publicada na Folha de S. Paulo mostrou que os consumidores pagaram a mais e indevidamente, por sete anos, pela conta de eletricidade. As autoridades foram forçadas a explicar a falha e indicar alternativas ou pretensões para resolver o problema.

Bem feito, o jornalismo pode desvendar problemas e maus comportamentos de autoridades públicas e ajudar a transformar positivamente a sociedade e o meio político. Assuntos como esses são, sem dúvida, uma boa leitura de domingo.