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Projetos jornalísticos mapeiam a opinião de partidos e parlamentares no Brasil e nos EUA

O ProPublica, organização jornalística independente sediada em Nova Iorque, EUA, conseguiu montar um mapa que facilita bastante aqueles que querem entender o quanto é difícil e polêmico discutir e alterar a legislação sobre o porte de armas nos Estados Unidos. O trabalho, divulgado dia 16 de janeiro, mostra como deputados e senadores dos partidos Democratas e Republicano, além de um parlamentar independente, se comportam e opinam quanto ao tema.

A primeira conclusão que a visualização permite constatar é que há uma brutal distinção entre a opinião dos congressistas republicanos e democratas. Enquanto o Partido Republicano é majoritariamente favorável à manutenção do direito de possuir e portar armas de fogo, o Partido Democrata é amplamente favorável a restringir o porte de armas.

ProPublica

Após mais uma ocorrência de massacre em escolas norte-americanas, o presidente reeleito dos Estados Unidos, Barak Obama, incitou o Congresso a apertar a lei, tornando-a mais restrita. O problema é que a Segunda Emenda da Constituição daquele país deixa claro que todo cidadão tem o direito de manter e portar armas de fogo. A discussão é secular.

Estudo que facilita – A visualização interativa foi facilita pelo trabalho do Institute for Legislative Action (ILA), braço da National Rifle Association, associação que defende o direito de possuir e portar armas a todo cidadão. A organização situa cada congressista com base na opinião e ações deles sobre adotar um controle mais restrito ou manter o direito constitucional.

Com os dados, o ProPublica colocou programadores e jornalistas para apresentar os dados de uma forma visualmente agradável e inteligente, dando sentido às informações e permitindo aos internautas selecionarem as informações que querem do ponto de vista que desejam.

No Brasil – Imaginem usar a mesma solução para mapear a opinião dos congressistas brasileiros para os mais candentes temas em discussão – ou paralisados – no Congresso Nacional?

O projeto Estadão Dados, inaugurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, começou a organizar e entender estatísticas sobre diversos assuntos, entre eles comportamentos dos parlamentares no Congresso Nacional, em Brasília.

Um dos trabalhos dentro do Estadão Dados chama-se “Basômetro” e permite entender como os partidos políticos e congressistas votaram – com o governo ou contra o governo – em diferentes projetos de lei ao longo de 2011 e 2012. Vale a pena conferir.

Basômetro

Outros aspectos – Tanto o trabalho do ProPublica quanto do jornal O Estado de S. Paulo ajudam os leitores a entenderem melhor temas complexos. Só se tornam úteis porque há um trabalho importante dos programadores e jornalistas em dar uma orientação, um sentido, às estatísticas. Caso contrário, seria apenas mais um almanaque.

Um aspecto interessante é que os dois projetos jornalísticos permitem uma visão” tanto da árvore quanto da floresta”, pois mostra como pensam e decidem tanto o congressita, individualmente, quanto os partidos políticos, conjuntamente.

Incêndios nas favelas paulistanas: um roteiro para construir uma reportagem diferente

No dia 3 de setembro, mais um incêndio foi registrado em uma favela na capital paulista. Foi o 32º em 2012. O assunto é sempre muito polêmico. Em um município com pouco espaço para adensamento e crescimento de novas construções imobiliárias, casos como esses geram suspeitas se os incêndios foram casuais ou intencionais. O fato isoladamente – e o contexto ao longo dos anos – merece boa investigação jornalística.

Pelo Twitter e pela imprensa, o Corpo de Bombeiros informou que a quantidade de incêndios em favelas na cidade de São Paulo vem caindo nos últimos anos. Com o caso na favela Buraco Quente, no Campo Limpo, a instituição registrou, em 2012, até o início de setembro, 32 ocorrências deste tipo. Em anos anteriores, o Corpo de Bombeiros da cidade de São Paulo registrou mais casos: 130 em 2008, 122 em 2009, 91 em 2010, 79 em 2011. O gráfico é declinante.

Twitter Bombeiros

Mapa dos incêndios – Pois bem. Uma turma de jornalistas e programadores criaram um mapa com todos os incêndios ocorridos este ano. Visualizar geograficamente os fatos, todos juntos, ajuda a perceber novas informações e buscar relações e compreensão. Pelo Twitter, o jornalista Fabiano Angélico, prontamente, registrou: “A maioria deles (dos incêndios) está bem perto de artérias importantes da cidade”.

É um aspecto interessante que merece mais investigação. Com os 32 casos registrados em 2012, é difícil determinar precisamente se há uma relação direta entre os incêndios e a proximidade das favelas com as grandes avenidas e áreas mais valorizadas. O ideal seria jogar em um mapa todos os incêndios ocorridos desde 2008, por exemplo, para verificar, em uma amostra maior, com um universo mais abrangente, se essa constatação (que brota dos dados de 2012) se repete nos anos anteriores. Se for confirmada, dá notícia, com mais segurança.

Incêndios favelas 2012

Cruzamentos – Mas a investigação pode ir além. Imagine que, entre todos os incêndios registrados entre 2008 e 2012, a maioria ocorreu em favelas próximas a grandes avenidas. Agora imagine que a maior parte das favelas paulistanas está próxima de grandes avenidas. Se isso realmente for verdade, a notícia não é tão gritante assim. Afinal, se há mais corintianos em São Paulo, é de presumir que você verá nas ruas mais pessoas vestindo camisa do Corinthians.

O projeto FolhaSPDados publicou um texto e um mapa mostrando a quantidade e a localidade das favelas paulistanas. Segundo o jornal, há 1.633 favelas na capital paulista. É mais uma base de dados que pode ser sobreposta à inicial (a dos incêndios) e tentar pintar, em cores diferentes, quais favelas estão longe e próximas às principais artérias da cidade.

FolhaSPdados

Se poucas favelas paulistanas estiverem à beira de grandes avenidas, e se essas poucas localidades registrarem a maioria dos incêndios registrados no périodo desde 2008, há uma boa informação para inciar uma matéria interessante. A pergunta que teria de ser respondida, neste exemplo hipotético, é: porque há menos incêndios em favelas localizadas em regiões menos valorizadas e mais ocorrências em favelas situadas em áreas mais valorizadas?

É isso. As estatísticas – e a cartografia – podem servir como novas ferramentas para os jornalistas perceberem informações adicionais e outros pontos de vista para os assuntos cotidianos.

Atualização – Programadores e jornalistas já iniciaram um trabalho coletivo para organizar as estatísticas e os dados dos incêndios ocorridos na cidade de São Paulo nos últimos anos em um mapa, de modo que a observação espacial das ocorrências ajude a constatar novas informações. Vale acompanhar.

Um árbitro aposentado vem fazendo jornalismo esportivo bem melhor que boa parte da imprensa

Leonardo Gaciba, ex-árbitro de futebol, se aposentou em outubro de 2010. Sorte dos torcedores. Não, ele não era um péssimo juiz. É que, ao abandonar o apito, ele passou a trabalhar como comentarista esportivo para o canal de televisão fechada SporTV e a escrever textos para um blog no portal da mesma emissora.

Os textos abordam, é claro, õ trabalho da arbitragem, mas com uma abordagem bastante diferente. O último relato, por exemplo, é uma verdadeira aula de jornalismo. Gaciba coletou dados, analisou-os e entregou ao leitor conclusões sobre o comportamento dos árbitros com o uso dos cartões amarelo e vermelho. Descobriu que a média de cartões despencou no Brasileirão 2012 enquanto o número de faltas manteve estável.

Ele somou a quantidade de punições dadas aos jogadores nos campeonatos de 2008 até 2012 (considerando sempre as 12 primeiras rodadas, que representam cerca de um terço da competição) e detectou que os juízes estão aplicando menos cartões. mais que isso: a redução é significativa. E ele pergunta: o que mudou? Porque mudou? O que aconteceu? Com especialista e fonte, ele mesmo identifica hipóteses e as comenta.

Dados como esses – quantidade de cartões amarelos e vermelhos mostrados aos atletas nos últimos cinco anos – não estão facilmente disponíveis na internet. Por isso, a maior parte dos jornalistas esportivos prefere opinar com base no que eles sentem e acham no momento – e essa opinião pode acabar enviesada e contaminada por diversos componentes, como a paixão clubística do repórter, a raiva por causa de algum acontecimento em um jogo recém-concluído ou a bronca com algum árbitro ou jogador, entre outros.

O ex-árbitro Gaciba merece os parabéns. Para apresentar as estatísticas que apresentou – e têm mostrado em diversos textos – certamente ele tem pesquisado e organizado os próprios bancos de dados para poder analisar os números e oferecer aos leitores informações mais precisas e objetivas. Os dados ajudam a esclarecer e circunscrever os fatos e reduzem o espaço para opiniões infundadas. Se o ex-juiz de futebol pode fazer, porque a maior parte dos profissionais da imprensa continuam a trabalhar na escuridão dos fatos?

Nos EUA, há 15 mil homicídios por ano. No Brasil, 45 mil. Mas isso é só o começo dessa história

murder-draft-1.previewNos Estados Unidos, cerca de 15.000 pessoas são assassinadas por ano – e a taxa de solução de crimes, decrescente, diminuiu para 65%. No Brasil, os assassinatos somam, anualmente, cerca de 45.000 pessoas – e ninguém sabe como está a taxa de solução nacional destes crimes. Mas, com esforço, essa estatística pode surgir em algum tempo. Basta seguir os rastros de um dos mais recentes projetos premiados nos Estados Unidos por unir jornalismo, estatística, programação de computador e ciências sociais.

Nos Estados Unidos, Thomas Hargrove, repórter engajado no uso de dados e métodos das ciências sociais no jornalismo, ganhou recentemente um prêmio – o Philip Meyer Journalism Award – por ter coletado e analisado estatísticas sobre assassinados nos estados norte-americanos. O valor do primeiro prêmio, US$ 500, foi simbólico. O trabalho que ele desenvolveu, no entanto, chamado Murder Mysteries, ajudou inclusive alguns departamentos locais de polícia a reabrir casos antigos mediante o aparecimento de novas pistas.

Roteiro de um grande projeto – O início do projeto surgiu de uma pergunta: é possível detectar a ação de assassinos em série (os “serial killers”) a partir da análise dos relatórios de homicídios do FBI, o Federal Bureau of Investigation, órgão similar a Polícia Federal brasileira? Ele escarafunchou dados de 185 mil assassinatos não resolvidos entre 1980 e 2008 e produziu inúmeras reportagens.

Logo de início, descobriu que as forças policiais locais falharam em informar ao FBI diversos casos e, utilizando a lei de acesso à informação norte-americana, ele reuniu detalhes de 15 mil casos adicionais de assassinatos. Ele gastou mais de um ano nesse esforço, utilizando leis locais de acesso a informações públicas.

Murder Mysteries dataO passo seguinte – ou paralelo – foi desenvolver um algoritmo que permitiu cruzar e agrupar dados e detectou prováveis traços de mortes cometidas pelas mesmas pessoas, em série. O banco de dados completo foi disponibilizado na internet para acesso público.

Hargrove tem formação e experiência em áreas como jornalismo, análise de dados estatísticos, amostragem de pesquisas, programação e mineração de dados. Essas habilidades permitem a ele realizar projetos complexos e enfrentar os desafios inerentes tanto na busca, organização e análise de dados quanto na apresentação, de forma compreensível, das conclusões que brotam de milhares de células de estatísticas. Já estudou e publicou sobre temas como desaparecimento de crianças, mortalidade infantil inesperada e padrões em casos de homicídios não resolvidos – e todos resultaram, de certa forma, em aperfeiçoamentos nas políticas públicas.

A realidade brasileira – E no Brasil? Quantos assassinatos aconteceram nos últimos anos no país inteiro? O site do Ministério da Justiça não ajuda muito. Lá, há uma apresentação com dezenas de páginas e algumas estatísticas sobre ocorrências criminais referentes aos anos de 2004 e 2005. Para obter dados atualizados e organizados, vale acessar o Mapa da Violência, projeto de Julio Jacobo Waiselfiz.

Mapa da Violência 2011O pesquisador utilizada números do Datasus, o banco de dados do Sistema Único de Saúde, acessível a qualquer internauta. A vantagem é que o trabalho organiza e interpreta os dados, com explicações metodológicas , sem riscos de erro. No Datasus, o excesso de estatísticas e informações pode ser um inimigo para quem tiver pouca familiaridade com o tema.

Quanto à taxa de resolução desse tipo de crime, há uma percepção de que o desempenho não é bom. É difícil arriscar qualquer aposta. Especialistas costumam relacionar taxa maiores de solução de crimes com quantidade menor de assassinatos – e diversos estados brasileiros mostram trajetória decrescente homicídios.

Se os dados não estão à mostra, a saída para pesquisadores e jornalistas – com tempo, dinheiro e disposição – é aproveitar a Lei de Acesso à Informação recentemente aprovada no Brasil – e já em vigor para órgãos e autarquias públicas nas esferas federal, estadual e municipal. Infelizmente, não será um caminho fácil, principalmente para um país com cultura contrária à divulgação de informações e documentos públicos. Será necessário pedir informações em vários balcões. Mas é possível.

Para saber mais:

Acesse a lista de vencedores da última edição do Philip Meyer Journalism Award e conheça os projetos jornalísticos similares ao Murder Mysteries.

Uma investigação jornalística nos Estados Unidos força governo a adotar correções. E aqui?

Dollars for Docs O jornal norte-americano The New York Times informou, dias atrás, que autoridades federais dos Estados Unidos devem determinar que as companhias farmacêuticas informem quanto e como pagam médicos por atividades como pesquisa, consultoria, palestras, viagens ou simplesmente entretenimento.

A medida é uma resposta à uma denúncia da imprensa – mais precisamente, do ProPublica, uma instituição independente de Nova Iorque que produz um tipo de jornalismo investigativo de fôlego, sem se pautar obrigatoriamente pela avalanche de anúncios e acontecimentos cotidianos.

Meses e meses – Os repórteres procuram as pautas, obtêm e perseguem pistas por semanas seguidas e publicam as matérias, algumas delas fruto de meses de investigação. Para amplificar a divulgação, costumam publicar as reportagens em parcerias com jornais, revistas e emissoras de TV tradicionais e de grande audiência.

Este modelo de jornalismo – ainda um pouco trôpego financeiramente, porque os recursos para praticá-lo chegam por doações, quase sempre intermitentes – já deu um prêmio Pulitzer inédito para o ProPublica em 2010.

A série de reportagens que o ProPublica publicou denomina-se “Dollars for Docs”, algo como “Dólares para os doutores”, uma menção ao pagamento encoberto e nada transparente feito pelas companhias farmacêuticas para custear as atividades de muitos médicos sem que o público fique sabendo dos intrincados conflitos de interesse que esse relacionamento acarreta.

Dados públicos – Tudo começou em outubro de 2010, quando os jornalistas compilaram as listas de pagamentos que as companhias farmacêuticas fazem aos médicos e montaram um banco de dados público disponível para pesquisas, de forma que os pacientes pudessem pesquisar o relacionamento dos doutores preferidos deles com as empresas que produzem e vendem os medicamentos. No Brasil, não há nada parecido com essa transparência que existe lá.

Vale um preâmbulo: uma investigação de fôlego como essa só é possível porque os dados, mesmo que desorganizados, estavam disponíveis. Os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, tem, há muito mais tempo, uma lei que determina a publicidade e a transparência em muitos tipos de informação pública. No Brasil, uma lei similar foi aprovada no fim de 2011 e ainda será testada na prática.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil

O jornal Folha de S. Paulo noticiou em manchete na capa no dia 1 de março: “Funcionário do Estado negocia dados sigilosos”. Trata-se de um sociólogo que chefia a área de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável por arquivar o conjunto de estatísticas sobre criminalidade no maior estado brasileiro.

Estatísticas crime 1 Esse cofre, repleto de estatísticas de um serviço público essencial, é alvo de uma disputa entre o jornal e o governo paulista desde 2008, no mínimo. A Folha de S. Paulo acredita ser de elevado interesse público desarquivar esses dados para que a população saiba quais são as ruas com maior incidência de crimes, em quais bairros há mais roubos residenciais, quais os veículos mais visados para roubo, por exemplo.

Já o governo paulista decretou uma regra: divulga, trimestralmente, somente dados consolidados por tipo de crime, de forma que a sociedade tenha apenas conhecimento sobre quais crimes aumentaram ou diminuíram em em cada macrorregião – capital, interior, litoral. O que o jornal deseja tem enorme relevância – mas está no arquivo. O que o governo estadual é interessante mas tem pouco valor – e está público.

O erro maior permanecerá – O que jornal revela, além da imoralidade da história, é a mentira do governante. Estatísticas públicas que deveriam ser divulgadas para toda a sociedade estavam sendo comercializadas de forma privada por funcionários públicos para instituições e empresas privadas que, com os dados comprados, faziam negócios e geravam mais e mais valor e riqueza. A desonestidade foi punida com demissão. Mas o erro maior – o arquivamento dos dados – certamente permanecerá.

HomicideReport São Paulo segue na contramão de diversas cidades norte-americanas e européias que já aderiram a um movimento internacional que clama por divulgação de informações e estatísticas públicas pelos governos – conhecido como “open data moviment”. Lá, a idéia é que programadores e outros profissionais criativos desenvolvam novos negócios e novas empresas com os dados públicos – independentemente se vão fornecer, posteriormente, serviços gratuitos ou pagos. O importante é gerar valor, negócios, empresas e empregos com as estatísticas públicas.

Um projeto interessante é o do jornal Los Angeles Times. Chamado The Homicide Report, mostra o local e a quantidade de homicídios rua por rua. Imagine qualquer quarteirão do bairro onde mora nesse mapa. Tem relevância para você? É ,ais ou menos isso que a Folha de S. Paulo quer fazer e que o governo paulista diz que não deve ser feito porque a divulgação de tais dados cria pânico e desvaloriza regiões.

Princípios – Não se pode negar que há certa lógica por trás dos argumentos governamentais, mas há um problema de princípio: essas justificativas insistem que o povo, na ignorância, vive mais feliz. Caro secretário, caro governador, é a informação – que fornece às pessoas a chance de buscar as melhores opções por conta própria – que gera mais felicidade, aqui entendida como bem-estar.

Outro ponto relevante. Se as pessoas acreditam que governos e políticos são transparentes e sérios, elas acabam se tornando mais comprometidas com o funcionamento geral da cidade. Isso não é idéia de pesquisador utópico, mas sim conclusões de um estudo em três cidades nos Estados Unidos.

Já peguei emprestado algumas vezes a frase de um dos pais da internet, Tim Berners-Lee, que coordena o departamento chamado “governo aberto” no Reino Unido, e volto a fazê-lo: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” No Brasil, esses dados, arquivados, não estão sendo jogados no lixo. Estão gerando negócios, para alguns.

Para saber mais:

Projeto Not Just a Number, realizado em conjunto pelo The Oklahoma Tribune e pelo Inside Bay Area. Mostra a força de dados públicos relevantes de uma forma abrangente, com jornalismo. Entre estatísticas, relatos e procedimentos, informa fatores de riscos envolvidos nos homicídios, mapa com serviços públicos como recreação e treinamento para o emprego e ruas nas quais os crimes ocorreram, entre outros. Pena que tem atualização a partir de 2008.

Projeto Oakland Crimespoting. Mostra, ocorrência por ocorrência, por tipo de crime, em cada endereço. Um projeto ímpar quando o assunto é divulgação de dados públicos releventes para gerar serviço e valor para a sociedade.

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos?

Em regra geral, é a informação, e não a lei, que muda drasticamente e de forma perene os hábitos das pessoas. Quer um exemplo simples? A Universidade de São Paulo (USP) divulgou pesquisa mostrando que os os semáforos que informam ao motorista o tempo restante para a troca de cor – vermelha ou verde – ajuda a prevenir acidentes de trânsito. Fácil: ao saber que poderá cruzar a rua em cinco segundos, o motorista não arrisca atravessar no sinal proibido.

No mundo todo, em muitos casos, governos têm ampliado a transparência, divulgando pela internet, gratuitamente, bancos de dados com informações cruas de diversos serviços públicos. A intenção é que programadores e desenvolvedores possam transformar dados em serviços úteis às pessoas.

Exemplos – Imagine saber em quais hospitais há maior incidência de mortes ou infecções hospitalares, em quais ruas e bairros há mais casos de roubos e assaltos, em quais localidades há grande ou pouca ocorrência de enchentes, quais os planos de saúde com mais reclamações dos segurados.

No Brasil – e na América Latina, em geral – não há nenhum indício de que os administradores públicos estejam interessados em seguir o mesmo caminho. Estatísticas públicas podem comprometer. Por isso, são guardadas na gaveta.

Princípio – Essa visão mesozóica é ruim. Como disse tempos atrás Tim Berners-Lee, considerado um dos criadores da internet, “dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.”

De outro, a informação pode se transformar em serviços úteis para os cidadãos prevenirem acidentes, assaltos e fazerem melhores escolhas. Novas empresas que desenvolvem novos serviços em cima de tais informações públicas criam mais empregos, geram mais valor e conhecimento.

Safety products E novos exemplos continuam a aparecer no hemisfério norte. O jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo federal disponibilizará milhares de dados de um sistema de reclamações de consumidores sobre problemas de qualidade e segurança de produtos vendidos no varejo.

Os defensores dos consumidores de lá aplaudem o poder repentino que as pessoas passam a ter na hora de fazer compras. As empresas que estão no banco de dados dizem não se opor à iniciativa, mas acusam que várias reclamações não deveriam constar no banco de dados porque os problemas não existiram.

Melhores escolhas – Mas é inegável: se um produto está causando dor de cabeça a centenas de consumidores, é importante que as pessoas tenham informação para fazerem as próprias escolhas diante das gôndolas, independentemente de quem for a culpa.

O Brasil, mesmo tardiamente, como de costume, terá de aderir ao movimento de transparência – conhecido lá fora como “open data movement”. Algo já ocorre com dados de orçamentos públicos, na medida em que cresce a pressão para que sejam disponibilizados na internet para fácil consulta. Mais informação significa mais oportunidades das pessoas fazerem melhores escolhas. Se os bancos de dados com informações públicas existem, precisam  ser divulgados. Se não existem, precisam ser criados.

Para saber mais:

Veja outras matérias e mais exemplos sobre o mesmo assunto. 1) Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham. 2) O criador da internet começa a dar novos usos à própria criação.