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Analise o histórico de quaisquer estatísticas. Ele pode ajudar a contar outra história

Um curso recém finalizado pelo Knight Center sobre noções básicas de matemática e estatística para jornalistas pinçou uma regra básica na análise de dados: é fundamental olhar a evolução das informações em um prazo mais prolongado, quando tais informações estiverem disponíveis.

O instrutor, Greg Ferenstein, alertou que não é recomendável ignorar a História, sobretudo em mudanças de opinião pública, quando torna-se ainda mais importante consultar os dados do passado longínquo.

O exemplo utilizado para demonstrar o ensinamento foi a opinião pública da sociedade norte-americana sobre pena de morte. Enquanto a evolução das estatísticas no curto prazo mostra uma coisa (falta de apoio à pena de morte no nível mais baixo de todos os tempos), os dados completos indicam outra (apesar das oscilações ao longo das décadas, a sociedade norte-americana mantém a mesma opinião ao longo de quase um século).

Dead penalty 2

Dead penalty 1

Concluiu o instrutor, em tradução livre: “Você ainda pode afirmar que a pena de morte está em declínio em popularidade, mas você teria que levar a História em conta. Ela muda tudo.”

Dias atrás, o Pew Research Center, que investiga há muito tempo a opinião pública dos Estados Unidos e também de outros países com muita eficiência, publicou uma avaliação a respeito das taxas de pobreza entre crianças negras, brancas, asiáticas e hispânicas.

Child poverty rates

Vale a mesma lição e a mesma conclusão: com exceção das crianças asiáticas, as estatísticas mostram uma evolução, para mais ou para menos, interessante no prazo mais curto. Mas, no longo prazo, entre 1975 e 2015, o nível de pobreza entre crianças (menores de 18 anos para o instituto) permanece razoavelmente sem alterações significativas.

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Dados abertos ajudam governos a combater o crime

mapa-violencia-2014O jornal O Globo divulgou dados da mais nova versão do Mapa da Violência, pesquisa que analisa estatísticas de crimes no Brasil, com apoio de dados públicos. Em 2012,  dois recordes: a taxa mais alta (29 mortos em cada 100 mil habitantes) e o maior número absoluto (56.337 homicídios).

Diversos motivos são listados para a persistente epidemia brasileira de violência. O baixo índice de solução – e consequentemente de punição – para os crimes é apontado como um dos principais.

IndicadoresJulio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência, estimou, em recente reportagem do Valor Econômico, que apenas 8% dos homicídios do país sejam solucionados. A mesma matéria trouxe uma reflexão: os níveis de renda e de escolaridade estão no pico histórico no Brasil, e a violência permanece elevada.

Fatores que interferem – A lista de fatores com correção ou interferência – o que não significa causalidade – nos indicadores de segurança pública são muitos: capacidade de coletar dados em tempo real, organização e transparência de estatísticas de crime, equipamentos (carros e outros itens) e tecnologia, evolução da economia e do nível educacional, capacidade do poder público prender, investigar, punir e educar, entre outros.

A realização da Copa do Mundo no Brasil, a partir de 12 de junho, deixará – em tese – melhorias na área de inteligência. Em tese porque, depois do evento, será necessário alocar recursos para operação e treinamento de recursos humanos.

Monitorar e capturar informação – O projeto, viabilizado graças à pressão do evento esportivo internacional, foi a construção de uma central de monitoramento de locais públicos, capaz de captar imagens de aproximadamente 500 câmeras que já operam em funções de segurança, transporte e trânsito. O governo federal investiu R$ 66 milhões, e o governo estadual paulista gastou R$ 2,25 milhões na reforma predial.

Não é só em São Paulo que projetos de inteligência serão inaugurados. A matriz de responsabilidades da Copa do Mundo, documento acordado entre os governos brasileiros, lista projetos em todas as cidades envolvidas no evento. Mas reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que, das 39 ações em segurança pública, 27 foram concluídas (69%) e 12 estão incompletas (31%).

Dados abertos – As políticas públicas de dados abertos também podem ajudar na prevenção ou combate aos crimes. De um lado, as autoridades públicas responsáveis pelos registros de ocorrências são publicidade aos dados, mantendo o sigilo das pessoas envolvidas. O que importa é onde, quando e que tipo de crime ocorreu. De outro lado, o cidadão tem à disposição mais informações para tomar decisões melhores.

Mais que isso: empresas privadas, com acesso legal aos dados, passaram a oferecer serviços de organização, visualização, análise e treinamento. Exemplos: CrimeReport, SpotCrime e CrimeMapping. Nos Estados Unidos, há um conjunto enorme de companhias com esse objetivo, que fecham acordos com as autoridades e, ao mesmo tempo, oferecem consultorias e treinamento a elas, nas cidades ou condados. O cidadão pode acessar aplicativos para visualizar os tipos de crimes em um raio próximo aos locais de moradia ou trabalho.

Chicago himicidesSe os dados são públicos, a imprensa também ajuda. Programadores e jornalistas constroem mapas constantemente atualizados, encontram a melhor forma de visualizar a informação e oferecem reportagens associadas. O Chicago Tribune esclarece ao leitor que está comprometido a escrever uma história sobre cada assassinato e oferece mapas indicando onde pessoas levaram tiros ou foram assassinadas. O Los Angeles Times tem mapas com indicadores de crimes. O Everyblock, projeto de jornalismo local que que voltou a funcionar em janeiro, também oferece mapas de criminalidade baseados em dados públicos.

Para saber mais:

Lembram do filme Minority Report, no qual os investigadores passam a se antecipar aos crimes? Com base em estatísticas e algorítimos, alguma coisa parecida começa a surgir nos departamentos de polícia.

Acesse o banco de dados da ONU com taxas de homicídios (sem contar suicídios) em diversos países e ao longo de vários anos, em números absolutos e em taxa relativa (homicídios por 100.000 habitantes). Esse banco de dados é interessante porque também indica a fonte da estatística. No Brasil, a taxa de homicídios pode variar de 21 a 25 assassinatos a cada grupo de 100.000 habitantes, de acordo com a fonte (Ministério da Justiça ou Mapa da Violência).

Incêndios nas favelas paulistanas: um roteiro para construir uma reportagem diferente

No dia 3 de setembro, mais um incêndio foi registrado em uma favela na capital paulista. Foi o 32º em 2012. O assunto é sempre muito polêmico. Em um município com pouco espaço para adensamento e crescimento de novas construções imobiliárias, casos como esses geram suspeitas se os incêndios foram casuais ou intencionais. O fato isoladamente – e o contexto ao longo dos anos – merece boa investigação jornalística.

Pelo Twitter e pela imprensa, o Corpo de Bombeiros informou que a quantidade de incêndios em favelas na cidade de São Paulo vem caindo nos últimos anos. Com o caso na favela Buraco Quente, no Campo Limpo, a instituição registrou, em 2012, até o início de setembro, 32 ocorrências deste tipo. Em anos anteriores, o Corpo de Bombeiros da cidade de São Paulo registrou mais casos: 130 em 2008, 122 em 2009, 91 em 2010, 79 em 2011. O gráfico é declinante.

Twitter Bombeiros

Mapa dos incêndios – Pois bem. Uma turma de jornalistas e programadores criaram um mapa com todos os incêndios ocorridos este ano. Visualizar geograficamente os fatos, todos juntos, ajuda a perceber novas informações e buscar relações e compreensão. Pelo Twitter, o jornalista Fabiano Angélico, prontamente, registrou: “A maioria deles (dos incêndios) está bem perto de artérias importantes da cidade”.

É um aspecto interessante que merece mais investigação. Com os 32 casos registrados em 2012, é difícil determinar precisamente se há uma relação direta entre os incêndios e a proximidade das favelas com as grandes avenidas e áreas mais valorizadas. O ideal seria jogar em um mapa todos os incêndios ocorridos desde 2008, por exemplo, para verificar, em uma amostra maior, com um universo mais abrangente, se essa constatação (que brota dos dados de 2012) se repete nos anos anteriores. Se for confirmada, dá notícia, com mais segurança.

Incêndios favelas 2012

Cruzamentos – Mas a investigação pode ir além. Imagine que, entre todos os incêndios registrados entre 2008 e 2012, a maioria ocorreu em favelas próximas a grandes avenidas. Agora imagine que a maior parte das favelas paulistanas está próxima de grandes avenidas. Se isso realmente for verdade, a notícia não é tão gritante assim. Afinal, se há mais corintianos em São Paulo, é de presumir que você verá nas ruas mais pessoas vestindo camisa do Corinthians.

O projeto FolhaSPDados publicou um texto e um mapa mostrando a quantidade e a localidade das favelas paulistanas. Segundo o jornal, há 1.633 favelas na capital paulista. É mais uma base de dados que pode ser sobreposta à inicial (a dos incêndios) e tentar pintar, em cores diferentes, quais favelas estão longe e próximas às principais artérias da cidade.

FolhaSPdados

Se poucas favelas paulistanas estiverem à beira de grandes avenidas, e se essas poucas localidades registrarem a maioria dos incêndios registrados no périodo desde 2008, há uma boa informação para inciar uma matéria interessante. A pergunta que teria de ser respondida, neste exemplo hipotético, é: porque há menos incêndios em favelas localizadas em regiões menos valorizadas e mais ocorrências em favelas situadas em áreas mais valorizadas?

É isso. As estatísticas – e a cartografia – podem servir como novas ferramentas para os jornalistas perceberem informações adicionais e outros pontos de vista para os assuntos cotidianos.

Atualização – Programadores e jornalistas já iniciaram um trabalho coletivo para organizar as estatísticas e os dados dos incêndios ocorridos na cidade de São Paulo nos últimos anos em um mapa, de modo que a observação espacial das ocorrências ajude a constatar novas informações. Vale acompanhar.