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Dados abertos ajudam governos a combater o crime

mapa-violencia-2014O jornal O Globo divulgou dados da mais nova versão do Mapa da Violência, pesquisa que analisa estatísticas de crimes no Brasil, com apoio de dados públicos. Em 2012,  dois recordes: a taxa mais alta (29 mortos em cada 100 mil habitantes) e o maior número absoluto (56.337 homicídios).

Diversos motivos são listados para a persistente epidemia brasileira de violência. O baixo índice de solução – e consequentemente de punição – para os crimes é apontado como um dos principais.

IndicadoresJulio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência, estimou, em recente reportagem do Valor Econômico, que apenas 8% dos homicídios do país sejam solucionados. A mesma matéria trouxe uma reflexão: os níveis de renda e de escolaridade estão no pico histórico no Brasil, e a violência permanece elevada.

Fatores que interferem – A lista de fatores com correção ou interferência – o que não significa causalidade – nos indicadores de segurança pública são muitos: capacidade de coletar dados em tempo real, organização e transparência de estatísticas de crime, equipamentos (carros e outros itens) e tecnologia, evolução da economia e do nível educacional, capacidade do poder público prender, investigar, punir e educar, entre outros.

A realização da Copa do Mundo no Brasil, a partir de 12 de junho, deixará – em tese – melhorias na área de inteligência. Em tese porque, depois do evento, será necessário alocar recursos para operação e treinamento de recursos humanos.

Monitorar e capturar informação – O projeto, viabilizado graças à pressão do evento esportivo internacional, foi a construção de uma central de monitoramento de locais públicos, capaz de captar imagens de aproximadamente 500 câmeras que já operam em funções de segurança, transporte e trânsito. O governo federal investiu R$ 66 milhões, e o governo estadual paulista gastou R$ 2,25 milhões na reforma predial.

Não é só em São Paulo que projetos de inteligência serão inaugurados. A matriz de responsabilidades da Copa do Mundo, documento acordado entre os governos brasileiros, lista projetos em todas as cidades envolvidas no evento. Mas reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que, das 39 ações em segurança pública, 27 foram concluídas (69%) e 12 estão incompletas (31%).

Dados abertos – As políticas públicas de dados abertos também podem ajudar na prevenção ou combate aos crimes. De um lado, as autoridades públicas responsáveis pelos registros de ocorrências são publicidade aos dados, mantendo o sigilo das pessoas envolvidas. O que importa é onde, quando e que tipo de crime ocorreu. De outro lado, o cidadão tem à disposição mais informações para tomar decisões melhores.

Mais que isso: empresas privadas, com acesso legal aos dados, passaram a oferecer serviços de organização, visualização, análise e treinamento. Exemplos: CrimeReport, SpotCrime e CrimeMapping. Nos Estados Unidos, há um conjunto enorme de companhias com esse objetivo, que fecham acordos com as autoridades e, ao mesmo tempo, oferecem consultorias e treinamento a elas, nas cidades ou condados. O cidadão pode acessar aplicativos para visualizar os tipos de crimes em um raio próximo aos locais de moradia ou trabalho.

Chicago himicidesSe os dados são públicos, a imprensa também ajuda. Programadores e jornalistas constroem mapas constantemente atualizados, encontram a melhor forma de visualizar a informação e oferecem reportagens associadas. O Chicago Tribune esclarece ao leitor que está comprometido a escrever uma história sobre cada assassinato e oferece mapas indicando onde pessoas levaram tiros ou foram assassinadas. O Los Angeles Times tem mapas com indicadores de crimes. O Everyblock, projeto de jornalismo local que que voltou a funcionar em janeiro, também oferece mapas de criminalidade baseados em dados públicos.

Para saber mais:

Lembram do filme Minority Report, no qual os investigadores passam a se antecipar aos crimes? Com base em estatísticas e algorítimos, alguma coisa parecida começa a surgir nos departamentos de polícia.

Acesse o banco de dados da ONU com taxas de homicídios (sem contar suicídios) em diversos países e ao longo de vários anos, em números absolutos e em taxa relativa (homicídios por 100.000 habitantes). Esse banco de dados é interessante porque também indica a fonte da estatística. No Brasil, a taxa de homicídios pode variar de 21 a 25 assassinatos a cada grupo de 100.000 habitantes, de acordo com a fonte (Ministério da Justiça ou Mapa da Violência).

Quando vaia das arquibancadas, a torcida às vezes tem razão. Mas nem sempre

Alguns jogadores são considerados os “pernas de pau” pelos torcedores. No Corinthians, boa parte das arquibancadas credita a queda de rendimento do time no fim do primeiro turno ao desempenho do zagueiro Chicão, até então capitão do time e um dos símbolos de entrega e empenho da equipe.

No São Paulo, um dos mais criticados é o lateral esquerdo Juan, formado nas categorias de base, campeão brasileiro pelo Flamengo em 2009 com desempenho elogiado e recém-contratado pela equipe tricolor para a temporada 2011. No Palmeiras, a história não é diferente. O atacante Luan, em boa parte dos jogos, recebe críticas e á tratado com ironia pela torcida e pela mídia.

Como avaliar se a torcida tem razão? Um dos caminhos é medir o desempenho dos atletas, jogo por jogo: quantos passes certos e errados, quantos gols e finalizações, quantos desarmes e assistências, entre outros fundamentos do futebol. O que poderia ser informação pode se transformar em confusão.

O Globoesporte.com ofereceu aos internautas estatísticas individuais de cada jogador presente no campeonato brasileiro da primeira divisão. Está tudo lá. Então, que tal comparar o desempenho do perna de pau (aos olhos dos torcedores do próprio time) com rivais que estão se destacando na mesma posição?

Juan x Cortes1) Juan (São Paulo) x Bruno Cortês>

Um é criticado na equipe paulista. O outro, no Botafogo, foi convocado para a seleção brasileira. Em 13 aspectos avaliados, dados mostram que o são-paulino é melhor em 5, pior em 4 e empata em 4. Um detalhe: Nos passes errados, a desvantagem de Juan é de 0,01 ponto percentual, o que poderia ser considerado um empate. Então, o resultado mais realista seria Juan 6 x Cortês 3. Mas o destaque do campeonato é, sem dúvida, o botafoguense.

Dedé x Chicão 2) Dedé (Vasco) x Chicão (Corinthians).

O primeiro foi convocado pela seleção brasileira e está na mira de diversos clubes enquanto o segundo perdeu a vaga de titular, a faixa de capitão, não foi sequer escalado para o banco nos últimos jogos e está em desgraça com a torcida. As estatísticas mostram que o vascaíno é destaque em 6 categorias, contra 4 do corintiano. Dedé se destaca em dois fundamentos essenciais para um zagueiro: rouba mais bolas e acerta mais passes. Chicão, ao contrário de anos anteriores, deixou de fazer gols de falta e pênalti, fundamentos nos quais se destacava. Isso tem feito a diferença.

Luan x Dagoberto 3) Luan (Palmeiras) x Dagoberto (São Paulo):

O palmeirense não atuou no último clássico do clube, contra o Santos. Nas redes sociais, a torcida chgou a ironizar, escrevendo que o alviverde paulista estava tão mal na partida que já sentiam saudades do atacante. De outro lado, Dagoberto tem recebido elogios. Contando todos os campeonatos no ano, já marcou 22 vezes e deu muitas assistências. Pelas estatísticas, no entanto, o palmeirense se destaca em 6 fundamentos, contra 3 do são-paulino. A vantagem de Luan poderia ser ainda maior, já que Dagoberto, ao contrário de anos anteriores, não recebeu nenhum cartão vermelho ainda.

Esclarecimento ou mais dúvidas? – O problema das estatísticas em uma área tão dinâmica e tão sujeita a análises subjetivas como é o futebol é que elas esclarecem, mas não convencem. Certamente, torcedores que criticam fulano, mesmo que ela tenha melhor desempenho nos fundamentos, vão propor, de imediato: “quer trocar fulano por beltrano?” Os dados, isoladamente, não são definitivos – apenas auxiliam a entender melhor o assunto, a ter um diagnóstico melhor, a analisar a questão por outro ponto de vista e a pensar melhor.

Mas é possível tirar conclusões e lições. 1) O jogador muitas vezes permanece do time porque é aplicado em fundamentos que o técnico considera importantes. 2) Nem sempre o desempenho do atleta justifica as vaias do torcedor. 3) Em um único jogo, o “perna de pau” aplica um chapéu do adversário, marca um gol, acerta três chutes no alvo, e reverte toda a desvantagem estatística. Futebol é ou não é coisa do diabo?

Para saber mais:

Para avaliar o desempenho de cada jogador e compará-lo com outros atletas que disputam o campeonato brasileiro 2011 da primeira divisão, basta acessar a página do Globoesporte.com, clicar no escudo do clube. No fim da página de cada clube, estão as ferramentas que permitem analisar as estatísticas.

Quer saber onde arrumar namorado ou namorada? O jornalismo com base em estatísticas te ajuda

Essa reportagem não vai mudar o curso do mundo, mas pode mudar a vida de alguém. Primeiro, porque qualquer ação tem 50% de chances de dar certo e 50% de chances de dar errado. Segundo, porque se a pessoa estiver no lugar certo e na hora certa, pode ter chances maiores de ser bem-sucedida.

O jornal O Estado de S. Paulo produziu uma boa reportagem com base em estatísticas de concentração de homens e mulheres nas regiões da cidade de São Paulo. A equipe de infografia e arte do diário despejou os dados em um mapa e conseguiu um efeito muito interessante, ao mostrar facilmente ao leitor quais são os lugares que ele deveria estar no Dia dos Namorados.

É claro que não hác erteza que alguém conseguirá encontrar um namorado ou namorada somente por estar em um bairro onde há maior porcentagem de homens ou mulheres. A reportagem apenas encontrou uma forma diferente de dizer a mesma coisa. Não há nada para analisar ou divagar. Somente parabenizar a iniciativa.

Dia dos namorados

Para saber mais:

Leia a matéria principal e as reportagens sobre os bairros (Marsilac, República, Barra Funda e Moema, diretamente no portal Estadão. com.

Toda história tem de ter um fim – principalmente no jornalismo

Uma das críticas costumeiras que as pessoas fazem para a imprensa é a capacidade que a mídia tem de mudar de direção e esquecer um caso – até então, extremamente importante – tão logo surja outra história tão ou mais devastadora. É comum notar que um caso sobre corrupção é rapidamente esquecido quando outro aparece. Sim, a mídia é volúvel com suas histórias.

Dia 4 de abril, o jornal Folha de S.Paulo resgatou um caso que ganhou bastante audiência e notoriedade: a Máfia dos Sanguessugas. O gatilho que atiçou a memória da redação foi o aniversário de cinco anos da história, já que em 4 de maio de 2006, a Polícia Federal deflagrou uma operação para combater desvio de verbas públicas federais na compra de ambulâncias por autoridades municipais.

FSP Sanguessugas Antes de tudo, o jornal merece elogios. Foi o único, entre todos os mais importantes da mídia de circulação nacional, que lembrou de aguçar a memória dos leitores.

Atualizou para o público o rumo do julgamento dos envolvidos no escândalo e mostrou que, até o momento, somente um dos envolvidos foi punido criminalmente – que é o que interessa para combater a impunidade.

Problemas – A crítica que a imprensa merece é a capacidade de esquecer facilmente dos casos que descobre. Toda história precisa ter um fim – principalmente no jornalismo. Lançar os casos de corrupção e deixar de acompanhá-los semanas depois, independentemente dos motivos, somente aumenta a sensação de impunidade que a sociedade tem com relação à punição de casos de corrupção.

Manter os principais casos de corrupção atualizados para o público, independente da plataforma que a notícia será distribuída, custa caro. Jornalismo tem um custo e as empresas de mídia ainda não conseguiram fechar as equações para tornar rentáveis as inúmeras oportunidades diante delas. As redações estão cada vez mais enxutas e que a velocidade de circulação das informações aumentou a carga de trabalho dos profissionais.

Saídas para o impasse – Talvez a solução seja a reorganização da pauta das redações – deixar um pouco de lado a cobertura cotidiana dos atos oficiais de centenas de órgãos e autoridades do poder público que vivem apresentando frases de efeito e factóides para ganhar espaço na mídia e passar a produzir conteúdo direcionado ao que pode interessar à audiência.

As grandes empresas de mídia poderiam orientar as equipes para produzirem uma matéria especial por semana para relembrar algum caso de corrupção e atualizar as informações para a audiência. Contar o final das histórias esquecidas – sejam casos da economia, da política ou sobre corrupção – certamente faz parte do grupo de interesse dos consumidores de notícias.

Para saber mais:

1) O Museu da Corrupção é um portal que tem o objetivo de ser um receptáculo dos casos de mal versação dos recursos públicos. De uma maneira bastante humorada e interativa, é possível relembrar os principais escândalos com um nível de atualização até razoável. Vale a pena conferir.

2) O Wikipédia traz uma lista relativamente grande dos principais casos de corrupção que estouraram no Brasil nas últimas décadas. Para alguns itens, há boa descrição da história e até boa atualização. Como é sabido, o Wikipédia é escrito por voluntários, mesmo que haja algum tipo de supervisão. Dependendo do uso que se pretende, é fundamental checar os dados.

3) O Café Expresso produziu um texto recentemente analisando dados estatísticos sobre a evolução do Brasil nas listas que apontam as nações mais e menos corruptas. Você acha que vale a pena relembrá-lo?

Famílias mais pobres gastam R$ 6 por mês com educação. As mais ricas, R$ 410

Para quem gosta de escarafunchar estatísticas, há milhares de dados recém-saídos dos fornos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito do orçamento familiar. São informações que revelam como o brasileiro gasta a própria renda.

A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) é abrangente e traz dados sobre o gasto das famílias por diversas clivagens, como faixa de renda, anos de estudo e por regiões. Um prato cheio para jornalistas e estudiosos, que gostam de lidar com amplos bancos de dados, com o objetivo de extrair boas pautas com belas infografias, mas é preciso entender ou se esforçar para compreender os dados. Saber “ler as tabelas” corretamente é fundamental.

Seguem algumas constatações, a partir de uma rápida leitura feita em algumas tabelas:

– A habitação é ainda o principal peso na renda das famílias mais pobres do Brasil, cuja renda total (incluindo todos os integrantes da família que tenham algum tipo de rendimento) é de até R$ 830. Esse perfil de família gasta, em média, 37% da renda com despesas ligadas à moradia. Já os mais ricos, cuja renda familiar soma mais de R$ 10.375 por mês, gastam 22,8% da renda com itens referentes à moradia, o que também não é pouco.

– As famílias mais pobres gastam 8,8% da renda com serviços como energia elétrica, telecomunicações, gás, água e esgoto. Os mais ricos desembolsam 3,9% da renda da família com tais itens, todos os meses. A diferença é que os 8,8% da renda dos mais pobres significa uma fatura mensal de R$ 65,26 por mês, em média. A fatura dos mais ricos custa R$ 549,86 por mês, em média.

– Apesar de o Brasil já ter mais de 190 milhões de linhas de telefone celular em circulação e este serviço ter grande penetração entre as famílias mais pobres, a fatura paga todo mês é quase insignificante para as operadoras. Os integrantes de famílias cuja renda conjunta não ultrapassa R$ 830 por mês podem até ter aparelhos celulares no bolso, mas, juntos, pagam R$ 5,84 por mês pelo consumo de chamadas telefônicas celulares. Já as famílias mais ricas pagam uma fatura mensal de R$ 133,47, em média.

– Educação é um item que ganha bastante atenção na cesta de consumo das famílias. Quanto maior a renda, mais destaque para o gasto com cursos diversos, incluindo de nível superior. As famílias mais pobres desembolsam, em média, 0,9% da renda mensal com educação, enquanto as mais ricas gastam 2,9% por mês. Em reais, essa fatura mensal representa R$ 6,83 (mais pobres) e R$ 409,31 (mais ricas).

Este último dado não significa que os mais pobres não estudam. Eles estudam, mas em escolas públicas, com as já conhecidas diferenças na qualidade do ensino. Como é sabido, é a educação – e não o consumo de energia ou de alimentos – que move a roda da fortuna da ascensão social. Como diz um ditado italiano, dinheiro faz dinheiro, piolho faz piolho.