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Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?

Quadrinhos 3Sim, a resposta é afirmativa. As histórias em quadrinhos são uma das formas mais eficientes de narrar novelas e acontecimentos quaisquer, com ou sem diversos personagens, com ou sem múltiplos cenários.

Gerações inteiras têm conquistado o hábito da leitura pelas portas das histórias em quadrinhos, se envolvendo em enredos de ficção terrenos ou espaciais, possíveis ou não. Até empresas passaram a utilizar o recurso para ensinar e treinar funcionários. Além do mais, são uma ótima estratégia para atrair os jovens e adolescentes para a leitura de jornais.

No jornalismo impresso, o texto ainda impera, mesmo que haja pressão para que as redações cedam mais espaço para fotografias, gráficos e infografias. Fotos-legendas, também bastante eficientes, são raras nos jornais.

No entanto, há sinais de mudança no ar. Em agosto e setembro de 2008, o jornal O Globo publicou uma série de reportagens denominada Favela S.A., na qual relatou a dinâmica, a estrutura e a expansão da movimentação econômica nas favelas fluminenses. O Café Expresso já tratou dessa série aqui.

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Além da pauta inovadora e do trabalho em equipe, foi interessante ver a utilização do recurso das histórias em quadrinhos para ajudar a narrar os fatos. Foi uma forma inteligente que mostrar como interagem moradores, policiais e traficantes em um ambiente muitas vezes sem lei. O cotidiano das favelas se passa em cenários inacessíveis para milhões de brasileiros, mostrando-se um terreno fértil para a utilização da narração em quadrinhos.Quadrinhos 2

Quadrinhos 1 Este ano, nos últimos meses, o portal UOL tem intensificado a utilização das histórias em quadrinhos para narrar fatos, recursos que blogueiros já vinham utilizando para fazer piada entre times e torcidas, para a diversão dos internautas.

Hoje, dia 28 de julho, publicou uma história em quadrinhos sobre a partida de futebol entre Internacional (RS) e São Paulo (SP) pela fase semi-final da Libertadores da América 2010. Para tanto, precisou apenas recuperar fotografias feitas e frases ditas pelos personagens principais do enredo ao longo dos últimos 40 dias que antecedem o jogo, mostrando os pontos psicológicos fortes e fracos acumulados por cada um no período. Vale a pena conferir e a esperança é que a iniciativa se alastre.

Para saber mais: Acesse as reportagens da série Favela S.A (acesso mediante cadastro simples ou para assinantes do jornal).

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Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas de jornal

O Café Expresso costuma pegar no pé dos jornais quando eles perdem oportunidade de trazer para a capa matérias frias, mas com grande apelo para determinados grupos, nichos ou tribos. Este aspecto é importantíssimo por uma razão: pode atrair para a leitura de jornais aquelas pessoas que não costumam fazê-lo. E a primeira página, como se sabe, é a vitrine do jornal, cuja função prioritária é seduzir.

Por essa razão, volta a pegar no pé do Estadão, que deixou de estampar na capa, mesmo que sem a manchete principal, uma reportagem sobre a volta de grandes shows de rock e festivais de música, incluindo vários dos artistas e bandas mais cultuados pelos adolescentes e jovens adultos na atualidade. Perdeu uma oportunidade ímpar de, por meio das bascas de jornal, atrair tais públicos para comprar e consumir o produto. Afinal, quem não pára para conferir as chamadas de primeira página nas bancas antes de entrar no escritório, durante o almoço ou enquanto espera o ônibus?

FestivaisMatérias frias – a grosso modo, aquelas que não têm necessidade de serem publicadas imediatamente, independentemente de serem importantes, interessantes ou úteis – geralmente narram assuntos relativos a comportamento, cultura, entretenimento e variedades.

Com uma foto bonita ou inusitada, uma matéria fria pode fisgar para a leitura grupos de pessoas pelo gosto específico que têm, pela necessidade temporal que alguma data marcante impõe à agenda da sociedade ou pelo simples fato do tema da reportagem ser algo tão inusitado que há um interesse repentino em “consumir” a matéria, independentemente do leitor ser um gerente de negócios ou um mensageiro.

Dois exemplos recentes – Para ficar mais claro, duas matérias frias que exemplificam o ponto central – uma sobre uma rota européia de cervejarias artesanais e outra sobre receitas chiques para festas juninas. A primeira tinha um apelo incontestável: graças ao crescimento da economia, há cada vez mais consumidores apreciando cervejas (e outras bebidas) importadas ou artesanais, mesmo que mais caras. A segunda também: publicada em junho, mês que inaugura as festas juninas para milhões de brasileiros Brasil adentro. Ambas tinham belíssimas fotos, bastante atraentes.

Em geral, pode-se pensar que os jornais não o fazem porque o jornalismo está preso e acostumado a velhas fórmulas. Há uma espécie de obsessão por dar destaques para assuntos relacionados a política e economia, sobretudo de fontes governamentais. Quando muito, um fato metropolitano rompe esse hábito.

Outro fato que pode ajudar a explicar é que há uma ideologia reinante nas redações que as impedem de colaborar de forma mais enfática com as vendas. As equipes do conteúdo editorial por bem não se misturam com a comercial, mas não podem jamais se esquecer que estão no mesmo barco que, se afundar, leva a todos para o fundo do mar, jornalistas e vendedores.

O problema é o jornalista? – Muitos ainda dizem que jornalista tem uma mania inconsciente de fazer jornalismo para ele mesmo ou para os pares, esquecendo-se que o público pode se interessar por temas além daqueles com os quais os trabalhadores da imprensa preferem ou estão envolvidos.

Não há evidências para tal conclusão, mas se em algum momento tal mito for confirmado, explica-se boa parte do distanciamento do brasileiro com os jornais impressos. Basta lembrar que no Brasil, país de 190 milhões de pessoas, são comprados diariamente cerca de 8 milhões de exemplares. O maior jornal do País não vende 300.000 exemplares por dia.

É possível expandir essa audiência, mas acho que, para isso, os jornais deveriam aproveitar melhor a primeira página e as vitrines gratuitas que são as bancas de jornal.

Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens

Os jornais impressos ainda buscam estratégias e formatos para atrair novos grupos de leitores, incrementando assim assinaturas, vendas avulsas e receitas. A tarefa é inglória no Brasil, país de renda média muito baixa, nível educacional ruim e de pouco hábito em leitura.

Pesquisas sobre o assunto mostram que os jornais atingem, historicamente, cerca de 30% dos adolescentes de 10 a 14 anos e aproximadamente metade dos jovens entre 15 e 24 anos. Sem desmerecer tais investigações, é difícil crer que todo esse contingente de gente mais nova está lendo jornais. Os números de assinaturas e tiragens dos diários impressos não refletem tamanha voracidade pela leitura.

Algumas experiências surgiram no Brasil para atrair para o universo de leitura de jornais impressos diários grupos inteiros até então marginalizados. O diário esportivo Lance!, surgido em 1997, representa um esforço nesse sentido, tentando transformar em leitores e clientes de mídia imprensa os vorazes debatedores de futebol.

Jornais populares das regiões metropolitanas de Belo Horizonte (Super Notícia)e Rio e Janeiro (Meia Hora) também fazem parte desse esforço, com preços módicos (entre R$ 0,25 e R$ 0,70, mais ou menos) e dirigidos para classes D e E, grupos sociais antes excluídos da leitura de jornais.

Esses jornais escolheram nichos e grupos de leitores para produzir conteúdo segmentado. Assim fica mais fácil. Já os jornais que miram o País inteiro, todas as faixas etárias e todas as classes sociais e econômicas não têm esse facilidade estratégica. Precisam encontrar um equilíbrio na linguagem e na pauta para produzir conteúdo que agrade diariamente jovens e idosos, pobres e ricos, empresários e estudantes. Meninas capa

O que ocorre hoje é que o conteúdo dos jornais é bastante desequilibrado. Pende automaticamente, como um vício, para temas políticos e econômicos, cujas fontes são majoritariamente oficiais (governos e autoridades públicas). São assuntos que não podem deixar de ser divulgados, até porque os diários cumprem uma função de registro histórico.

Há anos, as publicações criaram jornais dentro dos jornais: cadernos semanais que visam construir um relacionamento especial com grupos etários ou com gostos específicos. O único problema é que o esse leitor terá de esperar uma semana inteira para receber uma nova reportagem. Será que vale a assinatura?

Os jornais teriam, então, de fazer um amplo esforço de planejamento e pauta, de forma a criar conteúdo para tais grupos marginalizados todos os dias, seja sobe esporte, economia ou política. Porque não mostrar como crianças e jovens estão esbanjando ou economizando as mesadas? Ou como estão conseguindo gerar alguma renda própria? Esses são só exemplos – e muitas publicações já devem ter produzido matérias sobre tais assuntos sem conseguir atrair a atenção das crianças e jovens.

Meninas capa2 O problema, então, está na visibilidade que se dá ao conteúdo produzido. Se as crianças e jovens já sabem que os jornais dos pais raramente trazem algo que lhes sirva, certamente não têm o hábito de vasculhar as páginas deles para lê-los – a não ser que sejam surpreendidas.

Foi o que fez a Folha de S.Paulo. Conseguiu convencer meninas a contarem sobre a ansiedade diante da primeira menstruação, assunto que certamente interessa a um público maior do que ao das adolescentes. A iniciativa merece ser parabenizada, até porque o blog insiste que a capa dos jornais precisam começar a privilegiar outros assuntos que não sejam economia e política para tentar atrair novos públicos e elevar as vendas nas bancas. Se houve um pecado, foi não ter estampado a fotografia das garotas e o título para a matéria na parte superior da capa, no espaço dedicado à fotografia mostrando rezas e oferendas para o sucesso da seleção. Qual tema você acha que era mais importante?

Já imaginou se os jornais de domingo usassem infografias como as da família Superinteressante?

 H60_muralha.indd Os jornais têm se esforçado e investido esforços para ampliar o espaço para infografias. Não é por menos que alguns, inclusive, têm sido premiados pela ousadia. Mas será que não é possível avançar ainda mais?

Na conbertura diária da imprensa, é sempre extremamente complicado aliar o prazo exíguo e a originalidade e a perfeição na produção de uma infografia que conte uma história, explique-a e prenda a atenção do leitor.14mar Inca

O jornal O Estado de S.Paulo, a partir da reformulação editorial e gráfica que promoveu este ano, tem buscado melhorar as infografias. Esse aspecto é, inclusive, parte importante da reforma feita. No dia 14 de março, produziu uma bela arte para mostrar mudanças previstas no Inca, o Instituto Nacional do Câncer, sediado no Rio de Janeiro, e utilizou recursos diferentes para mostrar facilmente o resultado de uma pesquisa sobre como o brasileiro enxerga a imprensa. O esforço é bem-vindo e visível, mas seria possível avançar ainda mais, para algo totalmente inovador, original e surpreendente?

14mar imprensaO tempo curto e os desafios cotidianos das redações são sempre entraves à criação  e à produção de infografias mais ousadas. Por essas razões, as edições de domingo, com matérias especiais e pautas que nascem já na segunda-feira, poderiam ser palco para apresentar ao leitor infografias ousadas e inovadoras, como as que fazem as revistas Superintenressante, Mundo Estranho e Aventuras da História.

Em qualquer reportagem especial cabe um inforagráfico ousado como a publicada acima, sobre a Muralha da China, que, segundo Alessandra Kalko, autora do blog Infograthinking, foi feito a 12 mãos: Luiz Iria (edição de infografia), Éber Evangelista (ilustração), Débora Bianchi (edição de arte), Fábio Otubo (design), Tiago Cordeiro (edição de texto), Lívia Lombardo (reportagem). Se as edições dominicais dos jornais trouxesses algo desse tipo, é de se supor que todos ganham: os profissionais de arte se sentirão valorizados, os leitores presenteados e os jornais mais dinâmicos e atraentes.