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Por que a mídia não abusa das fotos-legendas?

Nos últimos dias, UOL e National Geographic publicaram matérias utilizando de forma exemplar um recurso pouco explorado pela imprensa: as fotos-legendas. No jornalismo, inclusive na internet, ainda predomina o texto corrido, independente da extensão.

O UOL passou a narrar algumas reportagens apenas por meio de fotos-legendas, mesmo que ainda utilize o recurso como acessório ao texto na maioria das vezes. A National Geographic já faz isso há algum tempo – mais na internet, menos na revista impressa, também aplicando as fotos-legendas como elemento acessório ao texto corrido, que é quase sempre extenso, muito extenso.

Foto-legenda Na internet, é mais fácil para a imprensa utilizar esse recurso, principalmente por causa da sensação de o espaço ser ilimitado. Além disso, obriga o internauta a clicar mais vezes para ler a história toda, foto por foto, o que aumenta alguns indicadores de medição de audiência.

Nos jornais e revistas impressos, raramente há histórias narradas por fotografias, com um bom uso das legendas. Na quase totalidade dos casos, predomina o texto, mesmo que as imagens estejam bem explicadas. Acredito que algumas publicações poderiam experimentar melhor o uso das fotos-legendas e avaliar a resposta dos leitores.

Vale um alerta: algumas características diferenciam as fotos com legendas que geralmente são vistas nos jornais e revistas das chamadas fotos-legendas. No primeiro caso, a fotografia é um acessório da reportagem narrada por texto. No segundo caso, a fotografia é protagonista para narração da história, sendo auxiliada pelo texto, que explica a imagem. Nas fotos que acompanham a maioria das matérias na mídia, a legenda geralmente não ultrapassa duas linhas. Nas fotos-legendas, a legenda é mais longa.

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E se os jornais narrassem as histórias com páginas de fotos-legendas?

Notícias frias na capa dos jornais podem capturar novos leitores

As capas dos jornais impressos muitas vezes reproduzem o que outras mídias – televisão, rádio e internet – já informaram exaustivamente no dia anterior. Trata-se de um dilema. Os diários não podem deixar de publicá-las, pois nem todos os leitores têm acesso às mídias mais velozes, mesmo que isso pareça um absurdo. Além disso, notícias importantes não podem deixar de ser publicadas apenas porque outras mídias as informaram horas antes. O jornal, entre outras, tem a função de registro histórico.

Creio que as capas dos jornais, por causa desses dilemas, muitas vezes causam uma impressão aos leitores de entregar notícias com prazo vencido. Há especialistas dizendo isso há tempos. Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S. Paulo, martela essa questão.

As capas dos jornais – sobretudo elas – têm papel fundamental para atrair a atenção. Numa era de informações instantâneas, precisam ousar e mudar comportamentos enraizados. É difícil não reproduzir, na capa, notícias já exauridas por outras mídias. No entanto, é possível repensar a forma de editá-las, oferecendo nela temas que arrebatem a curiosidade e o interesse do leitor.

Na ausência de furos jornalísticos, um dos mais eficazes instrumentos para atrair a atenção da sociedade, as redações poderiam trazer para a primeira página algumas matérias consideradas frias (aquelas com pouca ou nenhuma relação com a atualidade ou com as grandes decisões das autoridades), mas com potencial para atrair audiência.

Primeiro, é preciso responder: quais elementos uma matéria precisa conter para motivar o leitor a abrir a carteira de forma repentina, enquanto passa pela frente de uma banca de jornal? Assunto subjetivo, mas com pistas testadas.

Tendência, conflitos e histórias de superação de pessoas comuns são alguns exemplos já bastante utilizados, com resultados razoáveis. Matérias que tragam roteiros, procedimentos, guias e formas do leitor atingir determinado objetivo ou vencer algum desafio são comprovadamente eficazes em atrair a atenção. Histórias de vida de personagens que ofereçam um exemplo ou um alerta também funcionam para cativar.

De nada adianta, no entanto, tais reportagens frias estarem escondidas no meio do jornal. Elas precisam explodir na capa, como fazem algumas edições de domingo. Volto a insistir na capa do norte-americano The New York Times, reproduzida aqui neste mês. Uma matéria fria ganhou grande espaço na capa sem eliminar a primazia que os assuntos mais atuais têm para ocupar a manchete principal.

argentinismos Esta semana, na minha opinião, duas matérias traziam elementos para ganharem grande destaque no topo da capa, com uma boa foto ou infografia, para tentar atrair a curiosidade ou o interesse do leitor e sem destituir os assuntos mais atuais e abrangentes da manchete principal.

Uma matéria de Denise Mota publicada na Folha de S. Paulo mostrou detalhes de um livro, prestes a ser lançado, que ajuda a explicar a história da Argentina por meio de frases, expressões e palavras. Bela matéria, extremamente curiosa e interessante. Há elementos suficientes para atrair a curiosidade dos leitores, sobretudo porque o país vizinho recebe cada vez mais turistas brasileiros, que também buscam aprender cada vez mais o espanhol.

Já O Estado de S. Paulo, por meio de Roberto Fonseca e Eduardo Passarelli, trouxe uma inusitada reportagem sobre rotas européias nas quais há matéria cervejainúmeras cervejarias, com variados sabores e fórmulas. Sabe-se que em qualquer país como o Brasil, com renda em crescimento, a cesta de consumo da população melhora e produtos mais baratos e simples são substituídos por outros mais sofisticados e caros. Por que não privilegiar tal matéria na capa, com uma bela foto?

Essa fórmula não é pronta. Um exercício como esse – dar grande destaque para matérias frias na capa do jornal – seria pura empiria. O sucesso ou o fracasso poderia ser medido pelo desempenho das vendas avulsas nas bancas, vitrine na qual o desejo repentino de consumir uma notícia pode ser saciado imediatamente com a compra do exemplar. Entre os jornaleiros, as vendas estão em crescimento, sobretudo por causa dos jornais populares lançados nos últimos anos. No entanto, para os jornais de abrangência nacional, a venda avulsa é muito ruim. Por isso, a experiência pode ser, no mínimo, um bom aprendizado.