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Ruy Castro: Lição importante de jornalismo

Não há nada a ser dito para complementer o tema do artigo de Ruy Castro, publicado no jornal Folha de S. Paulo. Trechos:

Ao assistir a filmes americanos envolvendo jornalistas, você notará a diferença. Quando surge na tela uma entrevista coletiva, cada repórter dispara uma única pergunta, curta e objetiva, que obriga o entrevistado a fazer “gulp” antes de responder. Agora compare isto com as coletivas dos nossos repórteres de TV.

Quase todos começam por uma pergunta tão longa quanto desnecessariamente explicativa. Não satisfeitos, engatam um “…e também”, e emendam uma segunda pergunta, tão longa e explicativa quanto. Ao fim desta, o telespectador já não se lembra do que ele perguntou primeiro. Mas o entrevistado se lembra muito bem —e só responde àquela que lhe for mais confortável ou conveniente. Vê-se isso ao fim de todos os jogos de futebol, nas coletivas dos treinadores. Tem-se visto isso nas coletivas dos ministros do governo, políticos e autoridades em geral.

Você dirá que, no cinema, a dinâmica do roteiro faz com que os jornalistas tenham de parecer objetivos —não há tempo nem espaço para conversa fiada em cena. E eu responderei que esta é uma cláusula pétrea entre os repórteres americanos. “Perguntas curtas, frases curtas, palavras curtas —e uma pergunta de cada vez”, aprendi em Nova York com Alain De Lyrot, antigo editor do “Herald Tribune”. “Se o entrevistado não responder a contento, você repica a pergunta.”

Nossos repórteres não se contentam com uma pergunta simples e direta. Sentem-se na obrigação de enriquecê-la, desdobrá-la e acrescentar elementos. Com isso, só a tornam confusa, e o entrevistado responde o que quiser.

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Desempenho dos jornais nos Estados Unidos mostra que há vida além da UTI para o setor

O mais recente relatório da instituição que verifica a circulação de jornais nos Estados Unidos – Audit Bureau of Circulations (ABC) – mostrou que o jornalismo sobrevive, independentemente da plataforma. Essa primeira constatação é importante porque, desde que a internet passou a ser um grande distribuidor de informações e notícias de forma gratuita, entra ano e sai ano aparecem muitos especialistas prevendo a morte de grandes empresas jornalísticas em curto espaço de tempo.

O ABC informou que, nos últimos seis meses, encerrados em março de 2012, os jornais norte-americano venderam 0,68% mais exemplares que no mesmo período do ano anterior, considerando a soma de exemplares em papel e digital. Já a tiragem das edições dominicais aumentam 5%.

Muito ou pouco? – Alguns podem pensar que crescer menos de 1% é pouco – e têm razão. Mas, primeiramente, aumentar a circulação é melhor que vê-la diminuir e, em segundo lugar, é preciso analisar a qualidade desse movimento. E é justamente nessa avaliação que surgem sinais de retomada.

As assinaturas das versões digitais dos jornais – para serem lidas por e-reader, tablete ou telefone celular – já representa 14,2% da tiragem total dos jornais. Nos seis meses completados em março de 2011, essa parcela era de 8,7%.

Os dados mais específicos mostram ainda que, entre os principais jornais norte-americanos em quantidade de circulação média diária, o The New York Times apresentou resultados positivos muito acima da média, com crescimento de 73,0%, graças às assinaturas digitais. Inclusive, no semestre encerrado em março, as assinaturas digitais (807.026 por dia) superara as vendas da versão impressa (779.731 por dia).

Os maiores – Os dois maiores jornais norte-americanos em circulação diária – o The Wall Street Journal, com 2,118 mil exemplares por dia, e o USA Today, com 1,817 mil exemplares diários – apresentaram estabilidade, com aumento de 0,02% para o primeiro e queda de 0,64 para o segundo.

Dos grandes jornais – o grupo dos 25 maiores – apenas cinco tiveram queda de circulação maior que 5% nos seis meses encerrados em março de 2012 em comparação ao mesmo período do ano anterior. De outro lado, nove tiveram aumento de circulação diária maior que 5% – metade dessa turma conseguiu crescer mais de 20%.

O que isso mostra? Que, ao menos na tiragem, os grandes jornais estão bem, mesmo que em patamar bem menor que na década de 80, considerada o pico de circulação nos EUA. Naquela década, o próprio The New York Times alcançou circulação média diária acima de 1 milhão de exemplares, produção que só baixou desse patamar em 2009, quando o jornal vendeu 928 mil exemplares diários.

A indústria de jornais – O desempenho da indústria de jornais nos EUA, de certa forma, segue o mesmo desempenho do Times. Em 1984, os norte-americanos consumiram, em média, 63,34 milhões de exemplares de jornais por dia, de 1.688 títulos diferentes, segundo a Newspaper Association of America. Em 2009, de acordo com as estatísticas mais recentes disponíveis pela instituição, 1.397 diferentes jornais publicaram, em média, 46,27 milhões de exemplares por dia. Essas três décadas de declínio não computam, no entanto, as vendas digitais.

Os jornais norte-americanos têm apostado fortemente em vender reportagens por plataformas digitais (tabletes e telefones celulares), por réplicas em formato PDF para leitura em computador ou notebook) ou inclusive os chamados ‘branded editions’, produtos próprios focados em alguma comunidade, linguagem ou qualquer outro tipo de segmentação. Sinal de que a indústria jornalística, se em algum momento passou a respirar por equipamentos, está cada vez mais perto de deixar o hospital.

Para saber mais:

No Brasil, a circulação média diária dos jornais é realizada pelo IVC – Instituto Verificador de Circulação. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) mantém um quadro com estáticas atualizadas do desempenho da indústria brasileira de jornais por ano. Para efeito de comparação, a circulação de jornais em 2011 cresceu 3,5% e atingiu 8,6 milhões de exemplares diários em média. O jornal brasileiro com maior circulação é o Super Notícia, de Minas Gerais, com 293.572 exemplares por dia, em média.