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Organizar todos os trajetos da corrida de São Silvestre – um trabalho a ser feito

Uma matéria publicada dia 30 de dezembro na Folha de S. Paulo poderia inspirar uma pesquisa de fôlego para identificar todos os trajetos que a corrida de São Silvestre já teve – já foram realizadas 91 edições anuais da prova até 2015, ininterruptamente.

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É trabalho para aficionados ou para uma atividade interdisciplinar em alguma faculdade que envolva alunos e professores de carreiras como história, jornalismo, designer gráfico e até ciências da computação.

Imagine obter informações do percurso de todas as edições da prova, desenhá-los em mapas de forma padronizada e listá-los lado a lado, como fez o designer Sam Potts com a Volta da França.

Ele organizou, lado a lado, os trajetos das cem edições da prova até então. Além da pesquisa histórica e da acurácia na compilação de dados, ele escolheu, para visualizar o trabalho, um modelo de infografia bastante simples e eficiente, chamado small multiples – gráficos com a mesma escala e eixos organizados lado a lado que permita a comparação fácil.

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O futuro tal qual descrito no passado: um roteiro para planejar uma infografia

As informações abaixo foram coletadas no Brain Pickings e reproduzidas quase fielmente porque são brilhantes para explicar o processo criativo no momento de traduzir uma série de dados ou estatísticas em um infográfico.

Resumindo: no artigo, a autora informa que distribuiu, via redes sociais, uma lista de informações sobre eventos futuros tal qual foram descritos em livros e outros produtos culturais de ficção científica.

A organização das informações talvez seja a parte mais importante da produção de uma visualização criativa e eficiente, pois precisa dispor, de forma uniforme e categorizada, um conjunto de dados que estão dispersos em várias fontes. Leva tempo, muito tempo (às vezes, uma vida inteira).

Giorgia Lupi, designer da informação e uma das mais criativas editoras de arte atualmente, ao acessar tal lista, organizou os dados em uma visualização no padrão da Accurat, agência da qual ela é fundadora. O resultado é visualmente interessante. As informações, ainda mais.

As lições dela:

  • como na maioria das infografias no formato linhas do tempo, os dados são organizados sobre um eixo horizontal.
  • ela explica que usou uma “linha do tempo distorcida”, pois listou os eventos com distâncias regulares, simétricas, entre um e outro, e não em escala proporcional aos anos. A distância entre entre os eventos será a mesma, não importa se transcorreram dez ou cem anos.
  • o eixo vertical informa o ano em que o livro foi publicado
  • na parte inferior no infográfico, a autora categorizou as histórias para facilitar a leitura. Alguns símbolos foram escolhidos para indicar se o evento é majoritariamente político, tecnológico, científico ou ambiental, entre outros.
  • várias camadas foram planejadas para oferecer o máximo de informação, de forma que seja facilmente perceptível conhecer um aspecto de cada história ou alguma tendência do conjunto das histórias. exemplo: ao identificar com cores diferentes se o livro mostra uma perspectiva positiva ou negativa do futuro, percebe-se rapidamente, somente pela cor predominante, que os autores de ficção científica não têm uma visão muito positiva do futuro.

 

Accurat - The future as foretold in the past

Vale a leitura.

Alguns cuidados quando a série histórica do gráfico não começa na posição zero

O Globo - Escala eixo y em gráficos

O eixo vertical deste gráfico, publicado no jornal O Globo, mostra a quantidade de trabalhadores por conta própria (em azul) e a quantidade de trabalhadores com carteira assinada (em vermelho).

Um leitor desatento pode se confundir. A primeira impressão é que a quantidade de trabalhadores por conta própria está crescendo e a quantidade de trabalhadores com carteira assinada está diminuindo. Ambas conclusões estão corretas.

No entanto, visualmente, o leitor fica com a impressão que a quantidade de trabalhadores por conta própria (em azul) e maior que a quantidade de trabalhadores com carteira assinada (em vermelho). Essa é uma falsa conclusão. No primeiro grupo, azul, há 22 milhões de pessoas. No segundo, vermelho, 35 milhões de pessoas.

Comparar tamanhos – A ilusão de ótica ocorre porque por duas razões: o eixo vertical não começa no número zero e começa em diferentes posições em cada gráfico de área. Por causa disse, mesmo que ele demonstre corretamente a evolução (para mais ou para menos), ele induz o leitor ao erro ao comparar o tamanho de cada grupo.

Um gráfico de linha não precisa, necessariamente, começar no ponto zero do eixo vertical. É apenas recomendável. Muitas vezes, a série estatística começa em um número muito distante do zero e é importante chamar a atenção para a evolução dos números ao longo da série histórica (ainda mais se essas mudanças forem sutis). Assim, é possível iniciar o eixo vertical em uma posição diferente de zero.

Já para um gráfico de área, que além de informar sobre a evolução do número de trabalhadores tem também a incumbência de informar o tamanho deste grupo (a quantidade total), é bastante recomendável começar o eixo vertical no número zero.

Mesma posição – O que é recomendável passa a ser obrigatório quando há o intuito de fazer comparações entre dois diferentes grupos, mostrando a evolução deles, como é o caso do gráfico do jornal. Esse é o segundo – e principal – problema. Se o eixo vertical não começar na posição zero, é essencial que ele comece na mesma posição numérica em ambos os gráficos.

O fato de escrever o número que informa sobre a quantidade de trabalhadores acaba não sendo suficiente para contornar a distorção na transmissão da informação. O melhor, mesmo, é iniciar os gráficos sempre no número zero.

Um terceiro problema, muito comum em gráficos e em comparações, é usar escala diferente. Neste caso, tal equívoco não aparece. Em ambos os gráficos, cada intervalo no eixo vertical corresponde a 500 mil trabalhadores.

Dica para tratar com dados e elaborar infografias

O infográfico abaixo é um dos primeiros que estou fazendo para o curso ministrado pelo Alberto CairoAlberto Cairo, na modalidade Massive Open Online Course (MOOC) pela Knight Center for Journalism in the Americas.

Em uma das tarefas, o objetivo é desenhar novamente um infográfico original considerado ruim pelo professor (um mapa mostrando o perfil de consumo em alguns países).

Alberto Cairo w3 2

O infográfico original (acima), considerado pouco eficiente pelo professor, traz um mapa com diversas etiquetas de compras trazendo informações específicas de cada país. Apesar de bonito e agradável, dificulta a tarefa do leitor, pois requer dele muito esforço para memorizar e, então, consequentemente, comparar os números apresentados.

A minha sugestão (abaixo) foi mostra três gráficos em barras empilhadas – e algumas observações complementares. As barras ou as colunas tornam mais fácil a vida do leitor para comparar os dados, eliminando a necessidade de memorizá-los antes.

A ideia foi contextualizar as estatísticas presentes do infográfico original. As cores mais escuras nas barras levam o leitor para ler os pequenos quadros abaixo, com uma foto e uma informação referente ao país destacado.

Alberto Cairo w3

Listo ainda três outros exemplos (abaixo), de dois outros alunos, que buscaram facilitar a vida do leitor no momento de comparar. Outra dica do professor, que foi utilizada em todos os infográficos, aborda a utilização de cores.

A melhor opção é utilizar cores em tons mais claros e que não agridam muito a imagem apresentada. Esse princípio ajuda, inclusive, nos casos em que o infográfico precisa ressaltar alguma estatística. Com cores mais neutras e claras, basta realçar o dado desejado com uma tonalidade mais escura da cor.

Infográfico complexo e interessante mostra o clima em 35 cidades mundiais, inclusive São Paulo

Global Weather SP

Uma visualização de dados bastante interessante e complexa: é assim que se pode caracterizar o infográfico “Global Weather Radials 2013”, feito pelo estúdio alemão Raureif para mostrar as ondas de calor e frio em 35 cidades de vários países em 2013.

O clima de cada cidade é representado em um círculo, formado por várias linhas verticais, cada uma para um dia do ano. Esse círculo lembra um relógio, indicando o clima transcorrendo ao longo dos 12 meses do ano.

Global Weather Radials 2013 - Cópia

Como ler o infográfico – A parte de baixo da linha mostra a temperatura mais baixa do dia – e quanto mais próximo do centro do círculo, mas frio foi a temperatura mínima daquele dia. Ao contrário, o topo da linha mostra a temperatura máxima registrada naquele dia.

As bolhas em tom azul claro indicam as precipitações – quanto maior, mais chuva ou neve. O centro da bolha está posicionado no meio da linha que representa o dia em que choveu ou nevou.

Rapidamente, o leitor pode perceber quais as cidades que tiveram estações mais quentes ou mais frias, qual a duração das ondas de calor e frio, bem como ocorrências específicas, que são informadas em texto atrelado à fina barra que representa a temperatura de determinado dia.

São Paulo – O clima das cidades de São Paulo e de Buenos Aires estão demonstrados no infográfico. Na capital paulista, em 2013, percebe-se as elevadas temperaturas em todas as estações do ano – mais intensamente entre janeiro e março e depois entre outubro e dezembro.

A visualização apenas confirma o que o paulistano ainda deve ter na memória – as elevadas temperaturas do último verão entre o fim de 2013 e início de 2014. Mas o leitor não consegue comparar as precipitações de chuvas entre os dois últimos verões, pois os dados indicam somente as ocorrências em 2013.

Os dados utilizados para elaborar essa visualização foram obtidos no projeto Open Weather Map, no Instituto Meteorológico da Noruega e no Weather Underground. Os eventos climáticos específicos, informados em texto, foram avaliados manualmente, a partir da leitura de jornais nas respectivas cidades.

Um simples quadro devolve ao leitor a noção de conjunto das informações

Quadro investigações

Em várias reportagens atualmente, há geralmente uma busca frenética para conseguir números e dados que ajudem a produzir uma infografia diferenciada para ajudar o leitor a contextualizar a informação principal. Isso nem sempre é necessário.

A imprensa tem produzido, de forma incessante, matérias sobre as investigações sobre possível cartel envolvendo empresas que fornecem equipamentos para obras de transporte sobre trilhos.

Recentemente, dia 25 de março, uma ação do Ministério Público paulista ofereceu à Justiça estadual a denúncia de 30 empresários envolvidos nas investigações. Já foram tantas as reportagens sobre os desdobramentos do caso que há chance enorme de o leitor perder a noção do conjunto dos fatos.

O jornal O Estado de S. Paulo conseguiu devolver ao leitor essa noção. Para isso, não precisou recorrer a alguma visualização de dados pirotécnica. Bastou um quadro, com informação textual, noticiando os casos ainda em investigação e quais os fatores mais importantes para cada um deles.

Esse tipo de solução é muito interessante para o leitor em assuntos políticos e de investigações que se desdobram por meses e meses e deveria ser utilizado em mais ocasiões.

Quatro exemplos de mapas digitais para inspirar gestores a abrirem mais dados públicos

Long Island Rail Road map

Novas tecnologias têm facilitado bastante a elaboração de mapas animados que criam a opção de dar movimento aos dados apresentados. A ideia é espalhar os dados sobre mapas e dar vida a eles, colocá-los em ação. Mais do que entretenimento, isso facilita a detecção de padrões, mudanças e transformações contidas nos bancos de dados, o que poderia ficar escondido sem a animação.

Em geral, os mapas mostram as informações pulsando, acendendo e apagando, permitindo que o leitor perceba facilmente as regiões ou os períodos nos quais as ocorrências se concentram. As visualizações oferecem ainda setas para o controle da reprodução na animação, de forma que seja possível paralisar ou analisar as estatísticas cronologicamente ou em qualquer mês.

Estatísticas de fluxo e estoque – Para cumprir o efeito pulsante, as séries estatísticas precisam ter uma característica: fluxo.  O que isso significa? Simples. Os dados do período presente precisam substituir aqueles de um período anterior. Exemplo: os pontos em um mapa que representa a quantidades de crimes em fevereiro de um ano se apagam quando surgem os dados de ocorrências em março.

Isso não quer dizer que séries estatísticas com característica de “estoque” – quando os dados de determinado período apenas são acrescentados aos de períodos anteriores – não possam ser transformadas em mapas animados. Exemplo: extensão de rodovias asfaltadas. Ao passo que os governos e as empresas entregam as obras de determinados trechos  de estradas asfaltadas, elas simplesmente surgem no mapa de vias já com asfalto, sendo somadas aos trechos já feitos em períodos passados.

Fishing map

Tornados e bombeiros – Um mapa exemplifica bem as explicações anteriores. Ele mostra dados referentes a ocorrências de tornados nos Estados Unidos durante 2004 e 2013, ‘dando vida’ às estatísticas do departamento norte-americano de meteorologia. O internauta pode perceber os meses com mais ocorrências, detectar se há algum padrão – um período do ano no qual sempre há maior prevalência – e analisar se os registros crescem ao longo dos anos. Uma tabela resolveria boa parte dessas perguntas, mas o mapa consegue mostrar as regiões mais impactadas.

Outro mapa mostra a rotina de movimentação diária dos trens urbanos nas linhas do sistema que atende Long Island, na Região Metropolitana de Nova Iorque, considerado o mais movimentado da América do Norte. Tem 124 estações distribuídas em mais de 1.100 quilômetros de extensão. Note que esse mapa mostra apenas as linhas que compõem o sistema de trens urbanos da cidade, excluindo as de metrô. Analisando o fluxo dos pontos ao longo das linhas férreas, percebe-se com mais facilidade em quais trechos e horários há maior intensidade e disponibilidade de trens.

Fire engine callouts Amsterdam

Outro mapa mostra a atividade pesqueira no norte da Europa. O autor indica que há 3,2 milhões dados ao longo dos 365 dias de 2004. Cada ponto indica um barco pesqueiro trabalhando. O internauta consegue visualizar a intensidade da atividade econômica, o que cumpre a intenção do mapa: fazer as pessoas pensarem sobre questões como uso sustentável dos mares.

O último mostra o ‘pulso’ das chamadas feitas ao serviço de bombeiros de Amsterdã, capital holandesa. O autor reuniu no mapa 62.415 pedidos de combate a incêndios feitas entre janeiro de 2006 e setembro de 2010. Novamente, é possível notar com mais facilidade – em comparação a uma simples tabela – quais são as regiões mais afetadas e se há algum padrão, como, por exemplo, se há meses em que há um número maior de ocorrências em todos os anos.

E você com isso? – Mapas animados podem ser produzidos para mostrar visualmente padrões e transformações sobre quaisquer assuntos em uma cidade ao longo de um ano ou mais. Imagine a quantidade de ocorrências de acidentes de trânsito (com ou sem quantidade de vítimas), alagamentos (inclusive a extensão das enchentes), homicídios, roubos e furtos, congestionamento (necessariamente com dados sobre a extensão de vias paradas ou com trânsito lento).

Todas essas informações podem ser mostrado em um mapa animado. Mas, para isso, os gestores públicos, sobretudo os municipais, precisam tomar decisões que resultem em mais dados públicos abertos à disposição dos desenvolvedores.

Para saber mais:

Os mapas animados usam a tecnologia CartoDB de cartografia digital, com contribuição de API (Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicativos, em português). É possível, com esforço razoável, abrir uma conta gratuita e aprender algumas técnicas por meio de tutoriais (aulas em vídeo).

Aqui, aula online para iniciantes sobre elaboração de mapas digitais, ministrada por profissional da CartoDB.