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Duas boas ideias de infografias, mas detalhes e tempo exíguo comprometeram o resultado final

FlamengoGaza - Mortos e foguetes

Um dos principais desafios na elaboração de infografias no jornalismo é aliar o prazo exíguo para a produção das notícias e a complexidade de encontrar e coletar as estatísticas e produzir gráficos esclarecedores, contextualizados e relevadores.

Quando o jornalista termina a apuração dos fatos, geralmente há poucas horas – quando não, minutos – para que os infografistas pensem em uma solução e a coloque em prática. Na maioria das vezes, a única saída é escolher um gráfico simples, de barras ou colunas. São os desafios do ‘hard news’, expressão que indica as notícias que surgem no dia e precisam ser investigadas no mesmo dia, para constarem na edição do dia seguinte.

Nos últimos dias, duas reportagens chamaram a atenção por apresentarem duas infografias que são bonitas, funcionais, que contextualizam a notícia e revelam novas informações. No entanto, dois pequenos detalhes prejudicaram o resultado final, provavelmente fruto da pressa do dia a dia jornalístico. “Fecha! Fecha!”, é a ordem no fim do dia.

Carreira de Vanderlei Luxemburgo – Uma reportagem, da Folha de S. Paulo, informou, em pequeno texto, o retorno do técnico Vanderlei Luxemburgo ao Flamengo, equipe de futebol do Rio de Janeiro que se encontra em posição ruim no Campeonato Brasileiro de 2014. Nos últimos anos, o técnico tem acumulado críticas e resultados frustrantes.

De forma inteligente, os jornalistas criaram um gráfico de colunas que funciona como uma linha do tempo, mostrando uma estatística qualquer e pontuando momentos bons e ruins na carreira do treinador. “Uma estatística qualquer?” Sim, pois a bela infografia não indica ao leitor qual é a estatística expressa nas colunas. Pontos conquistados? Número de vitórias? Faltou a informação no eixo ‘y’, no rótulo de dados ou abaixo do título do gráfico. O que cada coluna mostra? Uma pena. Já a linha do tempo funciona perfeitamente, com setas e fotos de momentos diferentes da carreira de Luxemburgo.

Técnico Luxembrugo

Foguetes na Faixa de Gaza – Outra reportagem relata mais um dia de combates entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza. A ideia foi utilizar dois gráficos de colunas empilhadas para somar números de israelenses e palestinos mortos, em um gráfico, e quantidade de foguetes disparados pelo Hamas que foram interceptados ou não pelo exército de Israel. A soma das variáveis em cada gráfico deveria informar a quantidade total de mortos e de foguetes disparados, respectivamente.

No entanto, na legenda do gráfico que aborda os foguetes, a cor escura indica foguetes disparados e a cor clara indica foguetes que atingiram Israel. Na verdade, é a soma das duas informações que representam o total de foguetes disparados. Uma parte é a quantidade de foguetes interceptados, enquanto a parte restante é a quantidade de foguetes não interceptados que atingiram o solo israelense. Isso é o que se presume dos números. Uma pena, novamente.

Gaza - Mortos e foguetes 2

As duas ideias foram muito bem concebidas e até bem executadas, se considerar o tempo exíguo que os profissionais têm para coletar e organizar as estatísticas, planejar e produzir as infografias. Pequenos detalhes, no entanto, acabam dificultando o entendimento por parte do leitor.

Três cursos para aprender algumas competências associadas ao jornalismo de dados e à infografia

No Brasil, muitas pessoas, principalmente estudantes, que querem começar a trabalhar melhor dentro do universo que se convencionou a chamar de ‘jornalismo de dados’ encontra dificuldade para aprender, treinar e desenvolver as principais competências desta área: onde buscar as informações, como organizar e analisar dados e estatísticas, como dar uma forma bonita e inteligível a elas.

Algumas iniciativas interessantes surgiram, com aulas presenciais ou online, voltadas para iniciantes ou aqueles com comportamento autodidata. Todas as disciplinas são interessantes, tanto para jornalistas ou para profissionais que lidem com estatísticas e bancos de dados e precisem melhorar a eficiência na organização, análise ou apresentação das informações.

1) Escola de Dados. Há aulas básicas, ensinamentos e instruções sobre conceitos e procedimentos para praticar o jornalismo de dados. Ensinam como procurar e coletar estatísticas, utilizar os principais recursos disponíveis em uma planilha de dados (como organizar e filtrar informações) e os primeiros passos para analisar dados. Oferecem ferramentas online para diversas atividades – extrair, limpar, analisar, apresentar e compartilhar dados – e oportunidades para aprender mais por meio de ‘expedições de dados’. Online, para autodidatas.

2) Infografia e visualização de dados. É um curso introdutório, oferecido pelo Knight Center for Journalism in the Americas e ministrado por Alberto Cairo. É gratuito, em inglês, totalmente feito pela internet, para quantas pessoas se inscreverem (a primeira edição teve mais de 2.000 estudantes de 109 países e a segunda edição contou com 5.200 participantes de 138 países). Ensina por meio de capítulos de livros, vídeos, discussões em fórum. O curso já começou no dia 6 de outubro e dura cinco semanas. É possível se inscrever ainda e acelerar no cumprimento das tarefas para ficar no mesmo nível dos outros.

3) Programa de Jornalismo de Dados e Visualização. Organizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), organização que surgiu com a função de oferecer cursos de pós-graduação para editores em jornalismo, tem preço acessível, grade curricular abrangente e professores que colocam a ‘mão na massa’ todos os dias. Dura quatro dias inteiros, dois deles sábados, com aulas presenciais. Passa por áreas como infografia e visualização, coleta e organização de dados, mapas e utilização da Lei de Acesso à Informação Pública.

The New York Times: infografia simples e eficiente mostra peso dos tributos pagos pelo brasileiro

O The New York Times produziu uma reportagem muito interessante sobre uma possível causa para as manifestações ocorridas em mais de cem cidades brasileiras em junho: o preço dos produtos e serviços. O custo elevado, por causa da carga tributária exagerada, aliado à baixa qualidade do que é ofertado, teria sido um dos principais combustíveis para os protestos.

NYTimes Samples of sales taxes

A pauta é bastante interessante e certamente o leitor brasileiro se identificará com a tese, por mais que considere que há outras causas. Outro aspecto elogiável da reportagem foi a infografia, bastante simples e eficiente.

Sobre uma fotografia de manifestantes durante uma passeata, o jornalista identificou o quanto de tributos o brasileiro paga para cada objeto presente na imagem. Sem recursos gráficos complexos, passou o recado com eficiência.

Infografia no jornalismo: beleza não é tudo se os números não forem fundamentais

O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma boa reportagem tentando identificar o que pensam os mais variados partidos do Congresso Nacional sobre temas que devem ser debatidos durante uma possível reforma política.

Durante os dias que sucederam protestos em diversas cidades brasileiras, o governo federal sugeriu que regras do sistema eleitoral e partidário fossem alteradas para mudar a forma de fazer política no país e atender parte dos pleitos da população.

A equipe de reportagem do jornal conseguiu rapidamente consultar as lideranças dos partidos políticos representados tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado sobre diversos temas: unificação das eleições, foro privilegiado, reeleição, financiamento público, voto em lista e fim das coligações proporcionais.

Infográfico reforma política

A ideia foi cobrar respostas objetivas dos líderes partidários puderam, que podiam responder que o partido ao qual ele representa é a favor ou contra o assunto proposto ou ainda não tem posição sobre o tema.

O infográfico é muito bonito, atraente e eficiente – na medida em que permite ao leitor perceber dimensões (qual tema tem mais concordância ou discordância), variedade (a opinião sobre diversos assuntos) e detalhes (qual partido é contrário ou favorável e em qual casa do Congresso Nacional).

No entanto, a notícia entregue ao leitor é distorcida. No infográfico, o voto de um partido como PT e PSDB, as maiores bancadas no Congresso, valem o mesmo que os partidos políticos: um voto.

Pouco importa indicar que a maioria dos partidos apoia determinado assunto se as maiores bancadas parlamentares são contrárias ou ainda não têm opinião formalizada. Em assuntos como esses, seria natural que os congressistas seguissem a orientação dos partidos no momento de confirmar o voto.

No infográfico, parece que os deputados estão divididos entre manter ou acabar com a possibilidade de governantes serem reeleitos. No entanto, três dos quatro partidos com as maiores bancadas – PT, PMDB e PSDB – não opinaram.

O ideal, então, seria multiplicar a resposta do líder partidário pela quantidade de congressistas que ele representa – o tamanho das bancadas. Assim, o infográfico mostraria com mais exatidão se determinados assuntos presentes na discussão sobre reforma política têm chances maiores ou menores de serem aprovadas.

Sozinhos, os números informam. Contextualizados, eles esclarecem

Messi x Muller 6

Dois assuntos recentes deram oportunidade para a imprensa mostrar o quanto está interessada em lidar corretamente com estatísticas. Na cidade de São Paulo, a quantidade de assassinatos aumentou significativamente em 2012, mês a mês, e os jornalistas investigam os motivos desta escalada. Na área esportiva, o atacante argentino Lionel Messi marcou, no último jogo, o 90º gol no ano, distanciando-se dos recordistas anteriores. Nunca antes na história do futebol profissional um atleta havia marcado tantos gols em um único ano.

Na capital paulista, a quantidade de assassinatos dobrou em diversos meses do ano. Essa notícia, informada diversas vezes por dia ao longo do ano causou tensão na sociedade. As pessoas, amedrontadas, passaram a mudar hábitos. A violência passou a ser o principal e quase único assunto nas famílias. No entanto, quando contextualizados com estatísticas históricas e de outros estados, surge um outra informação.

Veja - Violência SP 3

São Paulo, tanto estado quanto capital, figuram ainda entre os mais seguros do país e, apesar do recrudescimento da violência, mantêm-se próximos da meta de computarem menos de 10 assassinatos em cada grupo de mil pessoas, indicador que situa uma região fora da condição de violência em estado epidêmico. A média brasileira foi de 23,6 assassinatos em cada grupo de 100 mil pessoas em 2011. Repare: uma informação não anula a outra, mas ambas oferecem ao leitor uma compreensão melhor do fato.

Na área esportiva, o atacante argentino marcou o 90º gol. Já havia ultrapassado o brasileiro Pelé (75 gols em 1958) e o alemão Gerd Muller (85 gols em 1972). O número é surpreendente. Mas não diz tudo. A média, tanto do brasileiro quanto do alemão, é de 1,41 gol/jogo, contra 1,32 do argentino, que ainda tem mais um jogo em 2012 e, se escalado, teria de conseguir fazer oito gols para superar a média dos dois concorrentes. Novamente, uma informação não anula a outra a e só ajuda o leitor.

Veja - MessiOs números, isolados, estão corretos, mas não dizem tudo. Eles surpreendem e intrigam e, por chamarem tanto a atenção, aparecem isolados na maior parte das reportagens. No entanto, quando inseridos historicamente ou contextualizados, o alarde diminui. Menos alarde, menos audiência – e por isso muitas trazem apenas a informação sem o contexto. Essa é uma justificativa.

Outra razão para os números alarmantes ou surpreendentes aparecerem isoladamente na maior parte das matérias é a pressa. leva tempo para buscar estatísticas que permitam ao leitor ou internauta analisar o número ao longo de um período mais longo. Diante da pressa de uma imprensa cada vez mais presente na internet, a regra é primeiro publicar o fato para somente depois melhorar a apuração e oferecer mais dados para ajudar a compreensão.

A revista Veja, na edição de 21 de novembro, produziu reportagens sobre os dois assuntos, dando aos temas o tratamento adequado – apresentou tanto a informação alarmente, isoladamente, sem deixar de inseri-la em um contexto. O leitor saiu ganhando.

Todos os gols de Messi em uma única e magistral infografia. Quer saber como foi feita?

Messi O infográfico acima é de Fábio Abreu. Mostra o desempenho do craque argentino Lionel Messi. Ele conseguiu, de forma magistral, mostrar diversas características dos gols do jogador:

– Quantidade de gols por ano (inclusive, oferecendo uma noção da quantidade de gols feitos em um ano em relação ao total de gols já marcados por Messi na carreira até agora);

– Em que lugar do gol a bola entrou e de que lugar do campo o jogador chutou ou cabeceou para o gol;

– O desempenho do jogador antes e depois de o treinador Pep Guardiola assumiu o comando da equipe do Barcelona;

– A quantidade de partidas e de gols em um único gráfico que deixa claro que a eficácia do argentino aumentou ao longo dos anos, superando a marca média de um gol por jogo nas duas últimas temporadas.

– A quantidade de partidas e o total de gols e assistências em um único gráfico, evidenciando novamente a importância do argentino para o time espanhol nas últimas quatro temporadas.

– Com que parte do corpo o gol foi marcado, ano a ano. Há, inclusive, um gol de mão.

A organização dos dados – As informações que constam no infográfico não estão catalogadas e disponíveis facilmente em algum portal – oficial do clube ou especializado em futebol. Fábio Abreu precisou coletar os dados na fonte original – assistiu todos os gols, várias vezes, e catalogou todos os dados.

Ele aproveitou vídeos disponíveis no Youtube. Um deles foi elaborado por um fã; outro é do programa de televisão do próprio Barcelona. Abreu assistiu oito vezes o primeiro e uma vez o segundo, para confirmar informações.

O autor desenhou em uma folha de papel oito áreas e e oito traves e, enquanto assistia os gols, marcava onde a bola entrou e de onde ela partiu. Para finalizar, pesquisou no Wikipedia e nas estatísticas da Uefa, a União das Federações Européias de Futebol, para verificar a quantidade de gol marcados e assistências (o último passe, que possibilita o gol) do argentino em cada temporada.

Os alertas – É claro que pode haver imprecisões de centímetros ao tentar apontar o local que a bola entrou ou de onde ela foi chutada, até porque os vídeos não oferecem vários ângulos e pontos de vista para todos os gols. “Mas na proporção da página isso é imperceptível”, avalia o próprio Fábio Abreu.

Ele alerta sobre dois cuidados que tomou para catalogar as informações e produzir a infografia. Primeiro: a bola está na proporção real em relação a trave. Segundo: desde que você confirme a informação que está descrita nas páginas do Wikipedia com outras fontes, não há problema em usar a enciclopédia virtual na pesquisa.

Sugestão de pauta – Será que os cadernos esportivos poderiam investir algum tempo, buscar ajuda nos departamentos de história e estatísticas dos clubes e tentar fazer o mesmo com as principais estrelas do Campeonato Brasileiro 2012?

Sete anos depois, New Orleans conclui obras contra enchentes: 214 km de barreiras, R$ 30 bilhões

JP-HURRICANE-1-articleLarge Uma interessante reportagem do jornal norte-americano The New York Times narra a conclusão das obras de proteção contra inundações na cidade de New Orleans, devastada pelo furacão Katrina sete anos atrás.

O assunto ganha interesse por alguns motivos. A obra é gigantesca: consumiu US$ 14,5 bilhões (R$ 29,4 bilhões) para edificar 133 milhas (214 quilômetros) de barreiras, portões contra enchentes, bombas e  proteções diversas.

A infografia, simples, é eficiente, apesar de não ser bonito. Infográficos, antes de belos, precisam ser certeiros ao narrar a informação. Poderia ser melhor, com imagens em profundidade.

0615-nat-webHURRICANE2 O jornal perdeu a oportunidade para editar uma sequência de de fotos-legendas na versão online – ou até na impressa, o que seria ousado, eficiente e causaria um efeito arrasador, positivamente falando. Obras de infraestrutura chamam atenção e geram curiosidade pela grandiosidade. Para narrar, seria mais eficiente mostrar em imagens do que em texto.

No Brasil, obras gigantescas de infraestrutura como o sistema de proteção contra enchentes de New Orleans já estão em andamento há vários anos – e devem consumir mais um bom período. Exemplos: transposição das águas do rio São Francisco e a construção das ferrovias Norte-Sul e Transnordestina.

Quem é melhor? Leitores comentam e melhoram ótimas infografias entre Messi e Cristiano Ronaldo

O jornal espanhol El País elaborou um infográfico muito interessante comparando não somente a eficiência entre o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo, os dois principais jogadores do campeonato local de futebol da primeira divisão – o que é bastante comum fazer em qualquer país –, mas também analisando quais times conseguiram fazer mais gols do que os atletas em questão.

O resultado é bastante curioso e pode suscitar diversas análises e conclusões. Os jogadores são realmente fora de série e espetaculares? Os outros clubes que disputam o torneio são muito fracos? Fica ao gosto0 do leitor – ou do torcedor.

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Os comentários dos leitores – Ler os comentários dos leitores é um método bastante interessante para deixar a análise mais consistente. Um leitor escreveu o seguinte comentário: “Muy interesante estadística, porque demuestra por qué Messi es mejor que Cristiano, primero hay que quitar los goles “de regalo” los de penalty, 11 Ronaldo y 5 de Messi, entonces Ronaldo quedaría con 29 contra 34 de Messi. Y luego hay que ver quien anota más con jugadas individuales, por calidad propia: 10 de Messi, contra 1 de Ronaldo. Y para terminar,¿quién recibe más ayuda de su equipo? Ronaldo tiene 21 con ayuda contra 16 de Messi con ayuda. Con esto queda claro porque Messi es mejor que Ronaldo.”

O argentino, disse o torcedor, apesar de ter um gol a menos que o português (39 x 40), fez bem menos gols de penalti (5 x 11) e muito mais a partir de jogadas individuais (10 x 1), o que, segundo o comentário, demonstra a “qualidade própria” do atleta. Os números estão nos gráficos e a leitura parece bastante pertinente.

Mas pondera outro leitor: “El futbol es un deporte de equipo, cuando se depende de las individualidades, se llega antes al fracaso.” Tem razão também. Por ser esporte coletivo, a tendência é que a qualidade geral da equipe seja tão ou mais importante que a individual. Dessa opinião, poderia derivar uma pergunta: e se o argentino se machucar gravemente algum dia e desfalcar o Barcelona por alguns meses?

Na linha do que o último leitor comentou, a comparação entre Messi e Cristiano Ronaldo avança. O espanhol La Informacion publicou um infográfico com estatísticas mais recentes que apresenta números com outra abordagem para tentar mostrar quem é mais importante para a equipe.

Outra abordagem – O jornal fez um exercício considerando uma hipótese: caso os gols anotados por Messi e Cristiano Ronaldo fossem excluídos, qual seria o impacto para a quantidade de pontos conquistados por Barcelona e Real Madrid. É claro que a brincadeira parte do princípio que nada mais interferiria no resultado das partidas ao longo do torneio.

Messi x Cristiano

O resultado hipotético é que o Barcelona, sem os gols de Messi, perderia 19 dos 81 pontos conquistados até então. O Real Madrid perderia 13 de 85 pontos. Ambos os atletas têm 41 gols. A diferença é que os gols do argentino representam 42,7% dos 96 gols marcados pela equipe catalã, enquanto os gols anotados pelo português significam 38,3% dos 107 gols marcados pelo madrilistas.

Em suma, divirtam-se e melhorem as análises com seus próprios comentários.

Sugestão de pauta – A imprensa esportiva brasileira, que tem se esforçado para produzir pautas inovadoras e ousadas a partir do uso de estatísticas disponíveis ou da construção de bancos de dados próprios, poderia repetir o exercício dos jornais espanhóis El País e La Informacion e comparar a performance e a importância para a equipe entre duplas de craques brasileiros. Liedson (Corinthians) ou Luís Fabiano (São Paulo)? Neymar (Santos) ou Lucas (São Paulo)? Fred (Fluminense) ou Vagner Love (Flamengo)?

Saiba mais:

1) Infográficos ajudam a inovar a pauta no jornalismo esportivo e facilitam a compreensão.

2) Grandes duelos do futebol são oportunidade ímpar para mostrar, por infografias, quem são os melhores atletas

3) Exemplos mostram que blogueiros têm feito reportagens melhores que a imprensa em geral

Infográficos ajudam a inovar a pauta do jornalismo esportivo e facilitam a compreensão

Dias atrás, o jornal The New York Times ganhou um medalhas em uma competição chamada Malofiej, uma espécie de Oscar da infografia. O trabalho mostrou a quantidade de vezes que os atletas da NFL, a liga nacional de futebol americano, foram mencionados no SportCenter e no Sunday NFL Countdown, programas do canal esportivo ESPN.

NFL players most mentioned

Durante a última Copa do Mundo, entre junho e julho de 2010, outra pauta parecida foi feita pelo jornal norte-americano. Os jornalistas organizaram um banco de dados para verificar quais jogadores foram mais citados no Facebook durante cada dia, da inauguração ao jogo final do torneio. Quanto mais mencionados, os jogadores aparecem maiores que outros.

O interessante é verificar a flutuação da audiência que cada atleta recebe de acordo com o papel que eles e as equipes deles obtém em campo. No dia 2 de julho, quando o Brasil perdeu para a Holanda nas quartas de final do torneio e foi desclassificado, Kaka e Felipe Melo foram os campões de audiência entre internautas de todo o mundo no Facebook.

Top World Cup players

A imprensa brasileira também tem se destacado nessa área. jornais e portais nacionais estão aprimorando e investindo mais na elaboração de infografias, estáticas ou interativas.

Foi o que fez o jornal O Estado de S. Paulo durante a cobertura da Copa do Mundo de 2010. A infografia, interativa, mostrou em quais países jogavam os atletas de cada seleção durante as copas de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.

Estadão Copa 2010 Benefícios – O grande benefício dos três gráficos é permitir que o internauta ou leitor perceba facilmente e rapidamente a informação principal. Além disso, arejam a pauta dos cadernos esportivos, muitas vezes repletas somente de fofocas ou reproduções do que aconteceu nos jogos do dia anterior.

Nos dois trabalhos do jornal norte-americano, nota-se imediatamente quais atletas foram campeões de audiência e, durante a Copa, quais fatos estavam associados ao pico de visibilidade.

No infográfico do Estadão, a principal conclusão é que, a cada torneio, os treinadores buscam para compor as seleções jogadores que atuam numa quantidade maior de campeonatos estrangeiros. Em 1994, dez atletas atuavam no brasil e 12 no exterior. Em 2010, só três viram do campeonato brasileiro e 20 de ligas de outros países – e a maioria jogava na Itália naquela época.

Nos EUA, famílias contam cada vez mais com programas sociais para melhorar renda. Porque você nunca saberá nada sobre isso no Brasil?

Em 2009, 18% da renda média do cidadão norte-americano foi resultante do pacote de benefícios (mais de 50 programas, de alimentação a saúde e emprego) pagos pelo governo dos EUA. Em 1969, essa parcela era de 8%. O que isso significa? Há duas possibilidades principais: ou as pessoas empobreceram e passaram a precisar da colaboração do poder público para complementar a renda necessária ao suprimento das necessidades básicas ou o próprio Estado tomou a decisão de elevar as transferências de assistência e recursos para aos cidadãos.

Esses números foram tabulados pelo Departamento de Comércio do governo dos Estados Unidos e publicados detalhadamente na edição do dia 12 de fevereiro do The New York Times. Deram substância e conteúdo para uma reportagem abrangente e longa, acompanhada pela publicação de infográficos interativos no formato de mapas, nos quais as diferenças de tonalidade mostram locais onde os cidadãos foram mais ou menos dependentes das transferências de recursos governamentais.

The New York Times 12Feb2012 O mapa com tonalidades diferentes para mostrar localidades nas quais as famílias receberam mais ou menos recursos de programas sociais é mais um projeto bem-sucedido da equipe de infografia do jornal norte-americano. No entanto, vale lembrar que a tarefa fica mais fácil quando há dados disponíveis.

Faltam estatísticas – No Brasil, é bastante comum não encontrar estatísticas confiáveis com um histórico significativo que permita fazer análises responsáveis, estabelecer tendências, interpretar transformações. Raramente é possível encontrar uma série estatística com dados que mensurem 30 ou 40 anos de qualquer coisa, mesmo na área econômica.

O IBGE, claro, é um clássico exemplo positivo dentro de um país acostumado a não contabilizar quase nada. Mesmo feita essa ressalva, dificilmente emanarão dos arquivos do instituto dados com tanto detalhe, com cinco ou seis décadas de sequência, para cada ente federativo.

Nos últimos anos, a área econômica é o setor do governo central que mais evoluiu na organização e confiabilidade de dados orçamentários (tanto arrecadação quanto gasto), principalmente a partir da década de 1990, quando houve a necessidade de organizar as estatísticas das contas públicas por causa do iminente plano de combate à inflação – o Real.

Tornou-se essencial conhecer rigorosamente o destino dos gastos para evitar descontroles nos preços. Na contabilidade pública, o Real forçou uma revolução positiva sem precedentes.

Problema histórico – Essa falta de cultura do poder público brasileiro em registrar e mensurar estatísticas sobre as iniciativas governamentais causou estragos consideráveis no esforço de entender as transformações econômicas e sociais no Brasil.

Mesmo historiadores, quando conseguem resgatar alguns dados, nunca recuperam dados que representem a fotografia do país – no máximo, de um estado ou município. Simples: se o Estado pouco se preocupou em mensurar e registrar as estatísticas sobre gastos e serviços públicos, é impossível resgatá-los de qualquer arquivo.