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A guerra feita por drones: uma história poderosa, contada por meio dos dados e da visualização

O projeto “Out of Sight, Out of Mind”, uma infografia interativa criada pela agência Pitch Interactive, permite visualizar a quantidade de mortes ocasionadas pelos ataques de aviões não tripulados no Paquistão, os drones. Lançado em março de 2013, já foi bastante elogiado. O título do projeto pode ser traduzido como “o que os olhos não veem, o coração – ou a mente – não sente”.

A infografia interativa está baseada em dados coletados pela instituição não governamental Bureau of Investigative Journalism (BIJ), segundo a qual 3.207 pessoas foram mortas por bombas enviadas por drones, uma estratégia de guerra que evita custos, perdas e constrangimentos diplomáticos com envio de equipamentos militares e tropas para as áreas em guerra. Apesar do apoio civil que credenciaria o uso de drones, há conflitos éticos e humanitários, já que a maioria das vítimas não eram alvos.

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Orientação e sentido – O que chama a atenção nesse projeto da Pitch é que ele não é somente uma reportagem interativa e digital, que entrega informação de forma atraente. Nem tampouco é apenas uma visualização de estatísticas em um formato inédito que possibilita ao internauta interagir com ela, escolhendo as estatísticas e o ponto de vista que deseja. É tudo isso e mais um pouco.

É uma união bastante eficiente de jornalismo, infografia, design, programação e análise de dados. Ao organizar estatísticas atualizadas e atualizáveis de um assunto que está presente na pauta dos principais órgãos de imprensa, dá orientação e sentido aos números, conta uma história impactante e faz da visualização e da infografia uma potente ferramenta para a compreensão daquilo que está sendo apresentado.

Para mostrar como o projeto suscita debates e reportagens, o que demonstra a importância, a Pitch Interactive lista, abaixo da visualização de dados, as últimas notícias sobre a guerra travada por drones. Em 2013, por exemplo, foram 27 ataques deste tipo, segundo a publicação Business Recorder. Quem quiser saber mais, basta ler as reportagens da imprensa.

Estética e narrativa – É possível perceber o foco na narrativa da história desde o princípio, já que as primeiras informações que surgem são três frases: “Desde 2004, ataques feitos por drones mataram, numa estimativa, 3,105 pessoas no Paquistão”, “Menos de  2% das vítimas eram alvos de primeira categoria” e “o restante eram crianças, civis e alegados combatentes.

O efeito estético – bombas que caem até o solo formando arcos e, neste momento, uma coluna desce mostrando o número de vítimas do ataque – servem como isca poderosa para atrair a atenção das pessoas para um tema importante. O uso de uma tabela ou de um gráfico de barras seria igualmente eficiente em mostrar os números brutos. Mas a visualização de dados, da forma como foi feita, impressiona e faz as pessoas memorizarem e aprenderem sobre o tema.

Almanaque e jornalismo – Boa parte das visualizações de dados – geralmente usa-se a abreviação ‘datavis’, em língua inglesa – são feitas a partir do momento que os autores obtém um banco de dados com estatísticas suficientes para elaborar a infografia, interativa ou não. Apesar de bonitos, muitos cumprem apenas a função de serem almanaques elegantes.

O projeto da Pitch Interactive inverte essa lógica. Escolhe um tema importante e atual e busca a melhor fonte de dados disponível no momento, dando sentido às informações. Isso é jornalismo, dos bons.

Coleta de dados – Já que o governo dos EUA não divulga dados sobre os ataques feitos por drones, nem as circunstâncias ou informações estratégicas, os jornalistas do BIJ coletam informações nos locais dos ataques – com todas as deficiências e desafios que um tipo de coleta de informações deste tipo traz.

Do total de mortos, 175 eram crianças, 535 civis, 2.448 outros e somente 49 considerados “alvos de primeira categoria”. Como a história enfatiza, menos de 2% das vítimas eram alvos prioritários.

Os autores explicam que as vítimas classificadas como “outros” ainda são um desafio, pois podem ser tanto vizinhos da vítima, cidadãos sem qualquer ligação com a ela ou até amigos ou parceiros dos alvos preferenciais. Muitos não foram sequer identificados. O governo norte-americano coloca nessa conta todos os homens adultos que possa ser um combatente, até que isso se prove o contrário.

Banco de dados reúne infografias interativas dos jornais The Guardian e The New York Times

NY Times - Oscar contenders

Um banco de dados disponível na internet reúne bastante do que há de melhor no campo da infografia interativa do jornalismo mundial. Até o momento, quase 400 trabalhos elaborados pelas equipes do inglês The Guardian e o norte-americano The New York Times.

Cada qual é uma aula a parte, alguns pela simplicidade, outros pela genialidade da pauta, muitos pela complexidade da programação. Vale mergulhar e analisar todos, sem pressa.

No começo deste ano, por exemplo, o Times publicou reportagem mostrando as conexões existentes entre os profissionais e trabalhos indicados ao Oscar. Nenhum texto conseguiria ser tão didático quanto a infografia elaborada.

O The Guardian, em trabalho magistral, voltou a utilizar o modelo ‘Guitar Hero’ para indicar diferentes tipos de acontecimentos ao longo de um período mais longo em vários países – tudo ao mesmo tempo.

Desta vez, o tema foi a crise econômica nos países europeus após a bancarrota financeira de 2009.  Já havia utilizado o mesmo recurso, genial, para contar a história moderna da música (em 2011) e a evolução dos acontecimentos após as revoltas populares no Oriente Médio (em 2012).

Se há um pecado, é que a maioria dessas infografias interativas, em algum momento, deixam de ser atualizadas pela equipe de jornalistas.

Qual área recebe mais recursos do orçamento público ou tem mais projetos de lei?

Duas interessantes visualizações mostram como usar recursos infográficos simples para dar sentido a um conjunto de informações jornalísticas e tornar mais fácil a compreensão do leitor.

Texas Tribune - Legislative Session BillsO Texas Tribune publicou uma visualização de forma que é possível perceber facilmente quais áreas são alvo de uma quantidade maior de projetos de lei arquivados pela assembleia legislativa do Texas, um dos 50 estados dos Estados Unidos, localizado na região sudoeste do país. É atualizado diariamente pela equipe de jornalistas.

Já o Financial Times criou o mesmo tipo de visualização para mostrar aos leitores e contribuintes o tamanho do corte de gastos nas despesas previstas pelos ministérios no Reino Unido. Dentro do orçamento total, é possível perceber quanto – em números absolutos e proporcionais – estava previsto para cada área e qual foi a redução ou ampliação de gastos.

Treemap – Esse tipo de visualização é chamado de ‘treemap’ (sem tradução eficiente em português). É uma forma espacial de visualizar estatísticas que signifiquem parte de um todo, uma parcela de um total, uma área que faz parte de uma área maior. Tem o benefício de dar hierarquia aos dados – quais são os maiores e os menos, comparados uns com os outros.

UK budget - FT

Possibilidades – Imagine que as exportações de um país são compostas por produtos de diversos setores. Cada setor tem um volume exportado diferente do outro. Um quadrado maior representa o volume total vendido a outros países. Esse quadrado maior é dividido em diversos quadrados ou retângulos, proporcionalmente ao que as vendas de cada setor representam em relação ao todo.

Esse tipo de visualização pode ser empregado também para mostrar a quantidade de um tipo de crime em cada estado brasileiro, de forma que a soma dos crimes em cada estado resulte em um quadrado maior – o total de ocorrências deste crime no país.

Na área política, o ‘treemap’ poderia ser usado para mostrar visualmente quais são as maiores e menores bancadas nas assembleias legislativas da União, dos estados e dos municípios.

O Texas Tribune foi bastante criativo ao utilizar esse tipo de visualização para um tema político, já que, geralmente, o treemap’ é empregado para assuntos econômicos e orçamentários.

Saiba mais:

O Many Eyes, projeto da IBM, é um dos mais consagrados sites para iniciantes elaborarem tipos variados de infografia a partir de ‘modelos pré-fabricados’. Basta inserir os dados e seguir as instruções.