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A mídia brasileira perdeu a chance de mostrar por que o futebol inglês é o mais competitivo do mundo – e como o Brasil poderia seguir a trilha

O campeonato inglês de futebol é considerado por muitos torcedores ao redor do mundo – possivelmente a larga maioria – como o mais competitivo e organizado entre todas as principais e mais tradicionais ligas, incluindo a espanhola, a italiana e a alemã, entre outras.

Mas nem sempre foi assim. A grande mudança acabou sendo iniciada por uma tragédia: a partida final entre Nottingham Forest e Liverpool, pela Copa da Inglaterra, no dia 15 de abril de 1989, no estádio Hillsborough, em Sheffield, Inglaterra. Por causa do excesso de lotação, 96 pessoas foram mortas e 766 ficaram feridas, entre outras perdas.

hillsboro

O desastre, como os ingleses chamam, deflagrou investigações por diversas instituições e resultou na publicação do Relatório Taylor, um documento com 120 páginas apontando orientações para modificar condições de policiamento, segurança e controle nos estádios e em eventos de futebol e evitar que novos fatos como os de Hillsborough acontecessem novamente.

A ausência de grades entre o gramado e as arquibancadas é apenas uma dessas sugestões, que aconteceram após uma série de transformações comportamentais, institucionais e econômicas no mundo do futebol inglês. A segurança atraiu público, dinheiro e fez do futebol inglês o campeão dos holofotes da mídia mundial atualmente.

Novo capítulo – Essa história é antiga, mas um fato torna obrigatório recontá-la. No dia 12 de setembro, uma investigação independente desmentiu diversos fatos. Mais do que apontar falhas no controle policial, concluiu que muitas provas e evidências que atenuavam as responsabilidades das autoridades policiais foram forjadas.

Hillsborough_disaster_SunNa época, a polícia agiu para culpar os torcedores do Liverpool e encobrir falhas próprias antes, durante e depois do desastre. Uma das grandes polêmicas em volta do caso pode ser exemplificada pela famosa capa do tabloide inglês The Sum, que dias depois do desastre, divulgou “alguns torcedores roubaram vítimas. Alguns torcedores urinaram sobre os corajosos policiais”.

Pois bem. A imprensa brasileira praticamente ignorou a divulgação do relatório independente, divulgado dia 12 de setembro. O jornal Folha de S. Paulo chegou a produzir uma matéria de oito parágrafos bem curtos, mas o texto ficou disponível apenas na versão online e não foi publicado na versão impressa do diário. Já O Estado de S. Paulo publicou apenas uma pequena nota sobre o tema.

Ganchos não faltam – Por que a imprensa brasileira deveria ter oferecido mais espaço ao tema? Simples. O Brasil vai sediar a Copa do Mundo em 2014. Há incontáveis casos de brigas em estádios e falta de segurança. Poucos estádios brasileiros oferecem boas condições de conforto e segurança. Em geral, o trabalhado de inteligência e controle das autoridades policiais pode ser classificado entre ruim e regular, com pouco uso da tecnologia.

Há, agora, dois “ganchos” (jargão que expressa a necessidade de haver uma razão para informar ou relembrar um assunto) para elaborar matérias sobre as condições de segurança e conforto dentro e fora dos estádios brasileiros: atualidade e proximidade. O relatório independente do caso de Hillsborough oferece um fato recente para contar uma história sobre o assunto e a evolução das reformas nos estádios no Brasil, visando a Copa de 2014, apresentam exemplos próximos da realidade do brasileiro.

O desastre que mudou a história do futebol inglês e o fez o melhor do mundo ganhou um novo capítulo – e a mídia esportiva brasileira perdeu a chance de aproveitar os ganchos existentes e entregar uma boa reportagem aos torcedores. Mas ainda dá tempo.

Saiba mais:

Kenneth Maxwell, historiador, escreveu artigo na Folha de S. Paulo sobre o assunto para assinantes). Fora este artigo, cujo tema foi escolha do próprio autor, o novo relatório sobre o desastre foi ignorado pela grande imprensa.

KENNETH MAXWELL

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O primeiro gol ninguém nunca esquece – ou não deveria

A Notícia - gol Joinvile 1 O jornal A Notícia, da cidade de Joinville, Santa Catarina, publicou, em março, uma reportagem que pode servir de inspiração para diversos jornais, de circulação nacional ou local.

Pouco depois do aniversário de 35 anos do clube de futebol da cidade – o Joiville Esporte Clube (JEC) –, que disputará a Série C do Campeonato Brasileiro em 2011, A Notícia publicou uma matéria para relembrar o primeiro gol da equipe.

A reportagem foi feita a partir de entrevistas com pessoas que tiveram influência no fato e, fundamentalmente, por meio de uma reconstituição gráfica do primeiro tento do time.

O autor da reconstituição, Fabio Abreu, deu dicas sobre os caminhos para criar uma reportagem como essa, no Flickr dele: “Nove pessoas, entre jogadores e jornalistas que estavam no jogo, foram ouvidas. (A) matéria pós-jogo do (arquivo do) jornal A Notícia também serviu de base para a montagem da jogada. Não existem filmagens do jogo.” É, na verdade, um trabalho historiográfico.

A Notícia - gol Joinvile 3 A partir desse exemplo, jornais locais poderiam relembrar ou até reconstituir o primeiro gol das equipes do bairro ou da cidade. Boa parte dos clubes não têm departamentos de história ou estatísticas bem organizados, mas pode haver quem tenha um recorte de jornal ou até a memória ainda intacta para contar a história. E, futebol, sobrevive sobretudo à história oral.

Pedras no caminho – Há dificuldades a serem vencidas. Fontes orais e escritas são fundamentais para reconstituir o fato – o primeiro gol de cada clube – ocorrido, não raras vezes, há quase sem anos. As bibliotecas da cidade da cidade precisam ser visitadas para encontrar jornais antigos. Os clubes devem ser convencidos a ajudar a encontrar tais evidências históricas. Por que não, ao término de todo o trabalho, realizar um evento festivo para comemorar e relembrar o fato recém-reconstituído?

Pouco adianta também fazer um bom trabalho de apuração e entregar um texto longo ao leitor. É preciso investir em uma infografia, como feito pelo jornal A Notícia. Neste caso, a melhor solução é contratar serviços de terceiros – designeres, ilustradores, agências de comunicação.

Sugestões – Alguns tradicionais clubes do futebol brasileiro poderiam ser procurados para a produção de reportagens como a elaborada pelo A Notícia. Sugiro três, porque representam clubes tradicionais do interior do Estado de São Paulo e tais reportagens poderiam turbinar os cadernos esportivos dos jornais locais:

Clube Atlético Juventus (SP). Clube tradicional da capital paulista, sediado do bairro da Moóca, já foi campeão brasileiro na Série B, em 1983. Nos últimos anos, o Moleque Travesso tem experimentado a gangorra entre campeonatos organizados regionalmente e disputa, hoje, a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Associação Ferroviária de Esportes (SP): O máximo que A Locomotiva Grená da cidade de Araraquara conseguiu foi o vice-campeonato da Série C do Campeonato Brasileiro em 1994, perdendo o título para o Novorizontino (SP). Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas. Há registros sobre o acontecimento do primeiro gol.

Associação Atlética Internacional (SP): sediada em Limeira, e mais conhecida por Inter de Limeira, foi a primeira equipe do interior do estado a conquistar o campeonato paulista (1986). Disputa, atualmente, a a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Para saber mais:

1) Acesse as páginas da reportagem puiblicada no jornal A Notícia diretamente no Flickr do autor da façanha, Fábio Abreu.

2) Para os interessados em caçar estatísticas e histórias para boas pautas sobre o assunto, a página do Wikipédia sobre clubes brasileiros de futebol oferece uma gigantesca variedade de times em todos os estados.

Atualização em 28 de junho: Fabio Abreu, autor da reportagem que reconstitiu, em texto e infografia, o primeiro gol do JEC para ao jornal A Notícia (PR), conta rapidamente os bastidores da reportagem:

Como surgiu a idéia de fazer essa pauta: Este ano, o autor da reportagem e o editor chefe do jornal tomaram a decisão de produzir reportagens gráficas que abordassem fatos da cidade – uma forma de “conversar mais diretamente” com o leitor. O clube da cidade, o JEC, fez, em março, 35 anos. Após conversar com um amigo sobre a decisão do jornal, surgiu a sugestão de contar como foi o primeiro gol do JEC. “Achei a ideia legal porque esse gol nunca foi mostrado, não foi filmado nem nada. Mostrá-lo seria inédito”, disse Fabio Abreu. “As pessoas que eu precisaria entrevistar moram na cidade, são até personagens conhecidos. Eu cumpria a função de falar de um acontecimento que faz parte da história da cidade – e tinha o gancho do aniversário do time”, concluiu.

As dificuldades: As dificuldades apareceram realmente na apuração. “Como era inevitável, eu teria que basear o infográfico nas informações das memórias dos entrevistados”, disse Fabio Abreu. O lance do gol aconteceu há 35 anos e algumas informações eram conflitantes. Nove pessoas foram entrevistadas. Cinco delas não se lembravam do lance, mas deram contribuições importantes para a reportagem. Das quatro que se lembravam do fato (todos foram jogadores do Joinville e estavam em campo na partida do primeiro gol),  um entrevistado disse que o gol surgiu de um cruzamento pela direita e os outros três de um passe da ponta-esquerda – esta última informação conferia com a descrição do gol feita pelo próprio jornal A Notícia naquela data. O autor, então, optou pelo passe da esquerda. Uma dica importante dele para garantir mais precisão à reconstituição: “Poderia ter juntado os quatro entrevistados em um só dia, mas tive receio de que eles se deixassem influenciar um pelo outro.”

Cobertura da mídia sobre esportes: entretenimento ou jornalismo?

O debate tomou fôlego recentemente: a cobertura da mídia sobre futebol está mais para o lado do entretenimento ou do jornalismo? Eu fico com o primeiro caso. Considero que quase tudo o que é produzido pela mídia sobre futebol, conscientemente ou não, é feito mais para entreter e menos não para informar (salvas as exceções de sempre).

Veja o que acontece quando há as chamadas janelas de contratação e venda de jogadores. Nomes de diversos jogadores são lançados para o público. A fonte nunca é revelada, mas é confiável, diz o portador do furo jornalístico. No total, imagino que um estudo sobre o assunto comprovaria que só 10% de tudo o que é dito realmente se confirma.

Além do mais, a prática do “jornalismo esportivo” tem desde profissionais que misturam paixão clubística com profissão e também muitos ex-jogadores. Nesses casos, as regras de apuração e os princípios do jornalismo podem ser neglienciados, no primeiro pelotão, ou simplesmente desconhecidos, no último. Veja bem, aqui não há nenhuma defesa pela obrigatoriedade do diploma de jornalismo para ocupar a função, somente uma defesa pelo uso das regras e princípios da atividade. Ouvir, apurar, cruzar informações com atores diversos e só esconder a fonte em casos de vida ou morte.

Li um artigo de Jeff Jarvis, professor da Escola de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova Iorque. Ele está por trás de algumas iniciativas para modernizar e melhorar o ensino de jornalismo por lá. Primeiro, criou um programa para aprimorar a capacidade dos futuros jornalistas em produzir histórias que sejam interativas, usem recursos de todas as mídias (áudio, vídeo, internet, texto, infografia, tabelas etc) e que possam ser publicadas em plataformas variadas. Agora, recentemente, lançou um novo programa, sobre empreendedorismo na indústria da mídia, para fomentar a criação de novos modelos de negócios par ao setor. Mas ele ressalta que toda a modernidade passa pelos tradicionais pilares do jornalismo: forte capacidade de relatar, boa redação, pensamento crítico e valores éticos. Vale ler.

No jornalismo esportivo, parece que esses pilares lembrados por Jeff Jarvis são dispensados na maioria das vezes, salvando raras exceções. A informação crível geralmente cede espaço para boatos, suposições, opinião do jornalista, comentarista ou boleiro. Todas as revelações, falsas ou verdadeiras, têm uma fonte oculta, demonstrando um enorme desrespeito com a audiência e uma relação perigosa entre a imprensa e os interesses das fontes. Muitos programas jornalísticos apelam para o barulho, para a polêmica e para a confusão, enquanto deveriam fazer o contrário – esforçar-se para esclarecer e informar corretamente e contextualizar a notícia para a audiência.

Por trás das fontes ocultas, há sempre o interesse de cartolas, agentes de jogadores, dirigentes e até dos próprios jornalistas, que muitas vezes fazem favores para as fontes, na espectativa de receber um presente mais na frente, que pode ser um bem material ou uma notícia exclusiva, em primeira mão, fazendo o profissional prevalecer diante dos pares. Isso, na minha opinião, acaba transformando a cobertura jornalística sobre futebol em uma espécie de classificado, onde não importa se o que está escrito é verdade ou mentira, mas sim promover o jogador ou a iniciativa da fonte da notícia.

Claro, se uma fonte entrega a notícia para o jornalista em primeira mão, a função do jornalista não é brigar com ela, e sim divulgá-la, como já disse Juca Kfouri, quando antecipou que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) excluiria o estádio do Morumbi, pertencente ao São Paulo Futebol Clube, da lista de sedes dos jogos da Copa do Mundo em 2014 no Brasil, boa parte em razão da briga política decana do clube com a a entidade. Kfouri é lembrado pela produção jornalística à frente da revista Placar, com foco na política e nos negócios (ou negociatas) por trás da atividade dos clubes e entidades de esporte. Além disso, mantém até campanha para que jornalistas não pratiquem atividades comerciais ou publicitárias.

Outro exemplo da má prática do jornalismo na cobertura envolvendo futebol  está no vaivém de informações que colocam e tiram, a todo momento, e às vezes no mesmo dia, o estádio do Morumbi da Copa do Mundo em 2014. A mídia, cada qual um caso diferente, tomou posição contra ou a favor dos agentes envolvidos, numa conduta que praticamente loteou o espaço nos jornais, internet, rádios e TVs para que os envolvidos na disputa divulguem boatos, verdades ou mentiras, mas quase sempre sob o sigilo da proteção da fonte.

Há uma conhecida e antiga briga política nos bastidores do futebol entre os cartolas e, infelizmente, a imprensa tem corroborado com as versões de um ou de outro lado. Para evitar desconfiança, a informação teria, obrigatoriamente, de vir acompanhada de quem a relatou, mesmo que isso signifique o risco de “perder a fonte”, quando o dono da informação deixa de oferecê-la de forma espontânea e facultiva.

A má qualidade, a má formação ou a má conduta dos profissionais envolvidos na cobertura midiática sobre futebol, quando ocorre, não pode justificar a pouca qualidade do que é entregue ao público, até porque, acima de todas as equipes em campo ou nos bastidores, há editores e chefes de redação – estes sim, em teoria, os zeladores da confiabilidade da notícia. Mas a leitura diária por anos seguidos dos cadernos de esporte – e agora ainda mais dos blogs na internet debaixo do guarda-chuva de empresas jornalísticas tradicionais – não tem mostrado essa regra.

Torcedor sofre: filas e preços aumentam para assistir futebol nos estádios

Os preços das arquibancadas no Maracanã para assistir, na quarta-feira (12) o jogo entre Flamengo e Universidad de Chile, variam de R$ 50 a R$ 80. Do assento mais barato ao mais caro no estádio, o torcedor desembolsa de R$ 30 a R$ 250. Mas, no mercado do futebol, o cliente nem sempre tem razão – e muito menos conforto. A fila, como mostra a foto, do GloboEsporte.com, é uma falta de respeito e consideração com aquele que é o maior patrimônio de qualquer clube: o torcedor.Fila Flamengo

A situação não foi diferente no Sul do País, para comprar ingressos para a partida na qual o Grêmio recebe o Santos, pelas semifinais da Copa do Brasil. As filas também são longas e a carga de ingressos disponibilizada foi pequena: 18.000. O restante é de preferência de quem é sócio do clube. Os preços variaram para arquibancada (R$ 50), cadeira lateral (R$ 80) e cadeira central (R$ 100).

Fila Cruzeiro A fila se cresce também para comprar ingressos para assistir Cruzeiro e São Paulo, em Belo Horizonte, pelas oitavas-de-final da Libertadores da América 2010. Se a fila cresceu, o preço também.

De fato, a diretoria celeste majorou os preços dos bilhetes em relação aos cobrados nas partidas anteriores. Nas partidas da primeira fase do torneio, a administração do clube cobrou R$ 15 para geral, R$ 30 para cadeira inferior, R$ 50 para cadeira superior lateral, R$ 70 para cadeira superior central e R$ 100 para cadeira especial. Agora, aumentou de 30% para mais os ingressos, exceto os de geral: cadeira inferior (R$ 40), cadeira superior lateral (R$ 70); cadeira superior central (R$ 90) e cadeira especial (R$ 130).

Não tem sido diferente nas semifinais e nas finais dos campeonatos estaduais ou em qualquer outro torneio. Mais do que desrespeito, é Fila Grêmioum sinal de que os clubes brasileiros estão anos luz de entenderem o que são conceitos de administração, gestão e marketing, em uma era que todos os setores de varejo e serviços usam a internet como plataforma de vendas e de entrega de produtos e serviços. Será que não vale a pena a imprensa esportiva, que tanto peca na elaboração de boas pautas e reportagens, pensar em começar a cobrir, de forma objetiva, temas relativos à gestão e ao atendimento aos torcedores?