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Por que os prefeitos brasileiros não imitam Nova Iorque, cada vez mais digital e inovadora?

Em fevereiro, o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, fez um discurso – o  State of the City adress – no qual analisou os resultados de algumas áreas sociais e políticas públicas e apontou metas e diretrizes para serem perseguidas em 2013.

Bloomberg continuou instituindo ações para tornar a cidade de Nova Iorque amigável ao surgimento de novas empresas tecnológicas e para aumentar a eficiência dos serviços públicos por meio do uso mais abrangente da internet. Tudo está a cargo do NYC Digital – uma espécie de secretaria municipal encarregada de cumprir essas duas diretrizes principais.

Vale lembrar algumas informações. O NYC Digital foi instituído por lei em janeiro de 2011. Em agosto de 2012, 75% das 36 ações listadas tinham já sido cumpridas. As ações restantes já tinham sido iniciadas. Nenhuma medida estava somente no papel. Atualmente, o escritório digital da administração do prefeito Bloomberg informa que mais de 80% das metas já foram cumpridas.

NY digital map

As cinco áreas – Por traz das duas diretrizes centrais do NYC Digital, há cinco frentes de batalha:

– Acesso: ampliar e melhorar o acesso da população à internet (incluindo acesso gratuito em 20 parques públicos);

– Educação: criar mais espaços para o ensino das ciências aplicadas, como matemática, programação e engenharia;

– Governo Aberto: expandir as iniciativas de transparência (hoje, há quase 900 bancos de dados com informações públicas disponíveis para a consulta de qualquer pessoa, contra 350 antes);

NY apps

– Engajamento: manter os cidadãos em contato permanente com as iniciativas da prefeitura, seja recebendo ou contribuindo com informações, principalmente a comunidade de profissionais como programadores e empreendedores (uma iniciativa foi o lançamento de dez aplicativos oficiais para telefones celulares, ajudando o contribuinte em serviços como reciclagem de materiais, inspeção sanitária em bares e restaurantes e serviço para encontrar transporte para casa).

– Indústria: criar condições (regulação e infraestrutura) para Nova Iorque atrair empreendedores, investimentos e novas empresas de tecnologia (entre as ações, há iniciativas para financiar ou incentivar o surgimento de start-ups que prestem serviços inovadores e um mapa das empresas de tecnologia que estão com vagas abertas – o ‘Made In NY Digital Map’ – que conta com 1.800 empresas, das quais 1.047 estavam contratando no início do mês).

A transparência – Ao analisar o discurso feito pelo prefeito de Nova Iorque em fevereiro, é possível perceber que, a partir de agora, o governo municipal fará ainda mais esforços para dar publicidade aos atos da administração pública local.

“Using data to tackle problems has helped us to improve services across city government. This year, the data analytics team we created at City Hall will launch a new platform that will improve the way all agencies share information. To lead this effort, I’ll appoint the city’s first ever Chief Analytics Officer, Michael Flowers. And he’ll make as much of this data as possible public, so that the tech community can hold us accountable.

Bloomberg criou o cargo de Chief Analytics Officer, que será responsável por melhorar a forma como o poder público compartilha informações do governo. A iniciativa visa criar plataformas e políticas para que todos os órgãos públicos tenham um padrão na divulgação de dados e informações públicas,  não apenas na forma, mas sobretudo na concepção.

O que isso significa? Simples de entender, desafiador na execução: o prefeito quer entregar, voluntariamente, aos cidadãos, informações que sejam úteis para o cotidiano das pessoas, para a fiscalização das ações da prefeitura e para o surgimento de novas ideias e negócios.

Fica a pergunta – Para iniciativas como a de Nova Iorque vingarem, é necessário que o poder público tenha uma forte cultura e comportamentos bastante disseminados em coletar e organizar dados e informações, bem como o desejo real de torná-los públicos a todos aqueles que, por interesse ou capacidade técnica, tenham condições de transformar a informação em um serviço útil.

Há algum prefeito de alguma cidade brasileira está adotando ações efetivas sobre esses temas? Ou antes disso: algum prefeito brasileiro tem interesse ou condições de seguir a trilha digital de Nova Iorque?

Veja mais:

Nas eleições municipais, dois temas importantes – saneamento básico e potencial digital das cidades – ficaram fora do debate.

Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe

No fim de semana, o jornal norte-americano The Washington Post publicou uma reportagem mostrando que diversas modalidades de crime estão em queda nos Estados Unidos, segundo o FBI, mas uma delas cai de forma muito mais rápida: os roubos de carro. A queda na quantidade de veículos roubados, lá, atinge 40% entre 2003 e 2010. Em algumas localidades, a redução foi maior que 60%.

Fewer cars stolen A matéria explica que as polícias locais, lá, usam uma gama variada de métodos e ferramentas, desde carros chamados de “isca”, que são monitorados pelas equipes à espera dos ladrões, como o uso de rastreamento e bloqueio remoto. São dispositivos já bastante disseminados.

As chaves especiais de ignição, que os bandidos aprenderam a copiar ao longo dos anos, evoluíram para outras que se comunicam com computadores de bordo a partir de algoritmos complexos e milhões de possibilidades de códigos de acesso, segundo o jornal, tornando mais difícil e caro burlar a tecnologia, exigindo ladrões especializados, tempo e equipamentos.

N o dia 25 de julho, o governo do Estado de São Paulo divulgou novas estatísticas sobre criminalidade. Os homicídios diminuíram consistentemente, o que é bom. Há alguns anos, o foco da política de segurança pública paulista é evitar crimes contra a vida. De outro lado, crimes contra o patrimônio, como os roubos de carros, continuam crescendo, depois de um período de queda.

Crimes SP 1semEscassez de dados – No Brasil, não há estatísticas consolidadas, abrangentes, centralizadas e à vista de todos sobre o assunto, que dê ao cidadão um retrato exato de como está a incidência de crimes no país inteiro. Os estados divulgam as estatísticas locais da forma como querem, quando querem, com a periodicidade que desejarem. Há relutância dos governantes em oferecer dados históricos e comparáveis.

O Estado de São Paulo passou a fazê-lo de uma forma mais transparente, divulgando estatísticas de acordo com diversas modalidades de crimes, períodos e localidades, da mais abrangente (o estado todo) à mais local, cidade por cidade até distrito por distrito, no caso da capital paulista.

Esse comportamento exigiu certa pressão da imprensa, mas tem permitido aos cidadãos acompanhar a evolução histórica dos crimes nas cidades e no estado e, inclusive, comparar com outros países.

Se nos EUA os roubos e furtos de carros caíram 40% desde 2003, no Estado de São Paulo a redução é de 21% desde 2001. Se a diminuição desse tipo de ocorrência parece vagarosa, vale lembrar que as autoridades priorizam a preservação da vida e depois a do patrimônio. Como reflexo dessa diretriz, os homicídios dolosos – ou seja, com intenção de matar – recuaram 65% entre 2001 e 2010.

Veja mais:

Conheça as estatísticas do Estado de São Paulo sobre segurança pública e faça suas próprias comparações.

Em matéria recente, o Café Expresso abordou a questão envolvendo a divulgação de dados de violência no estado de São Paulo.