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Cobertura da mídia sobre esportes: entretenimento ou jornalismo?

O debate tomou fôlego recentemente: a cobertura da mídia sobre futebol está mais para o lado do entretenimento ou do jornalismo? Eu fico com o primeiro caso. Considero que quase tudo o que é produzido pela mídia sobre futebol, conscientemente ou não, é feito mais para entreter e menos não para informar (salvas as exceções de sempre).

Veja o que acontece quando há as chamadas janelas de contratação e venda de jogadores. Nomes de diversos jogadores são lançados para o público. A fonte nunca é revelada, mas é confiável, diz o portador do furo jornalístico. No total, imagino que um estudo sobre o assunto comprovaria que só 10% de tudo o que é dito realmente se confirma.

Além do mais, a prática do “jornalismo esportivo” tem desde profissionais que misturam paixão clubística com profissão e também muitos ex-jogadores. Nesses casos, as regras de apuração e os princípios do jornalismo podem ser neglienciados, no primeiro pelotão, ou simplesmente desconhecidos, no último. Veja bem, aqui não há nenhuma defesa pela obrigatoriedade do diploma de jornalismo para ocupar a função, somente uma defesa pelo uso das regras e princípios da atividade. Ouvir, apurar, cruzar informações com atores diversos e só esconder a fonte em casos de vida ou morte.

Li um artigo de Jeff Jarvis, professor da Escola de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova Iorque. Ele está por trás de algumas iniciativas para modernizar e melhorar o ensino de jornalismo por lá. Primeiro, criou um programa para aprimorar a capacidade dos futuros jornalistas em produzir histórias que sejam interativas, usem recursos de todas as mídias (áudio, vídeo, internet, texto, infografia, tabelas etc) e que possam ser publicadas em plataformas variadas. Agora, recentemente, lançou um novo programa, sobre empreendedorismo na indústria da mídia, para fomentar a criação de novos modelos de negócios par ao setor. Mas ele ressalta que toda a modernidade passa pelos tradicionais pilares do jornalismo: forte capacidade de relatar, boa redação, pensamento crítico e valores éticos. Vale ler.

No jornalismo esportivo, parece que esses pilares lembrados por Jeff Jarvis são dispensados na maioria das vezes, salvando raras exceções. A informação crível geralmente cede espaço para boatos, suposições, opinião do jornalista, comentarista ou boleiro. Todas as revelações, falsas ou verdadeiras, têm uma fonte oculta, demonstrando um enorme desrespeito com a audiência e uma relação perigosa entre a imprensa e os interesses das fontes. Muitos programas jornalísticos apelam para o barulho, para a polêmica e para a confusão, enquanto deveriam fazer o contrário – esforçar-se para esclarecer e informar corretamente e contextualizar a notícia para a audiência.

Por trás das fontes ocultas, há sempre o interesse de cartolas, agentes de jogadores, dirigentes e até dos próprios jornalistas, que muitas vezes fazem favores para as fontes, na espectativa de receber um presente mais na frente, que pode ser um bem material ou uma notícia exclusiva, em primeira mão, fazendo o profissional prevalecer diante dos pares. Isso, na minha opinião, acaba transformando a cobertura jornalística sobre futebol em uma espécie de classificado, onde não importa se o que está escrito é verdade ou mentira, mas sim promover o jogador ou a iniciativa da fonte da notícia.

Claro, se uma fonte entrega a notícia para o jornalista em primeira mão, a função do jornalista não é brigar com ela, e sim divulgá-la, como já disse Juca Kfouri, quando antecipou que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) excluiria o estádio do Morumbi, pertencente ao São Paulo Futebol Clube, da lista de sedes dos jogos da Copa do Mundo em 2014 no Brasil, boa parte em razão da briga política decana do clube com a a entidade. Kfouri é lembrado pela produção jornalística à frente da revista Placar, com foco na política e nos negócios (ou negociatas) por trás da atividade dos clubes e entidades de esporte. Além disso, mantém até campanha para que jornalistas não pratiquem atividades comerciais ou publicitárias.

Outro exemplo da má prática do jornalismo na cobertura envolvendo futebol  está no vaivém de informações que colocam e tiram, a todo momento, e às vezes no mesmo dia, o estádio do Morumbi da Copa do Mundo em 2014. A mídia, cada qual um caso diferente, tomou posição contra ou a favor dos agentes envolvidos, numa conduta que praticamente loteou o espaço nos jornais, internet, rádios e TVs para que os envolvidos na disputa divulguem boatos, verdades ou mentiras, mas quase sempre sob o sigilo da proteção da fonte.

Há uma conhecida e antiga briga política nos bastidores do futebol entre os cartolas e, infelizmente, a imprensa tem corroborado com as versões de um ou de outro lado. Para evitar desconfiança, a informação teria, obrigatoriamente, de vir acompanhada de quem a relatou, mesmo que isso signifique o risco de “perder a fonte”, quando o dono da informação deixa de oferecê-la de forma espontânea e facultiva.

A má qualidade, a má formação ou a má conduta dos profissionais envolvidos na cobertura midiática sobre futebol, quando ocorre, não pode justificar a pouca qualidade do que é entregue ao público, até porque, acima de todas as equipes em campo ou nos bastidores, há editores e chefes de redação – estes sim, em teoria, os zeladores da confiabilidade da notícia. Mas a leitura diária por anos seguidos dos cadernos de esporte – e agora ainda mais dos blogs na internet debaixo do guarda-chuva de empresas jornalísticas tradicionais – não tem mostrado essa regra.