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Jornalismo esportivo: ainda há boas reportagens

A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo dispensa comentários. Muito boa. Aborda um fato que os torcedores parecem já ter percebido, traz depoimentos e análises de diversos ex-jogadores, especialistas no assunto – a arte de fazer gols nas batidas de falta.

É um trabalho muito positivo, considerando o nível ruim do jornalismo esportivo, no qual os profissionais, em grande parte das vezes, estão envolvidos em clubismo e opinião sem embasamento suficiente, muitos inclusive brigando contra números.

A matéria poderia ter sido melhor, no entanto. Um exemplo: mais números para comprovar a tese. O texto informa que há queda nos gols de falta no
Campeonato Brasileiro (133 em 2011 contra 116 em 2012). A estatística deveria abranger um período mais longo, desde 2003, por exemplo, quando o campeonato nacional passou a ser disputado no modelo de pontos corridos.

A cobertura, em vez de trazer pequena matéria com treinador de goleiros, poderia ter ouvido treinadores das categorias de base para explicar se o fundamento – bater faltas – é exaustivamente treinado entre os atletas mais jovens e aspirantes – e, caso negativo, por quais razões.

A possibilidade de melhorar a reportagem, no entanto, não tira o mérito da pauta muito bem feita, criativa e cumprida.

Sugestão de pauta – A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo deveria inspirar jornalistas esportivos a produzir boas matérias sobre outros fundamentos ou jogadas do futebol, como defesas de pênalti, cruzamentos e tabelas entre atacantes, entre outros.

Na mesma linha, as matérias poderiam trazer números sobre a eficiência dos atletas em fundamentos. Há consultorias que mensuram fundamentos e alguns clubes compram este tipo de serviço.

Tal qual  a reportagem do O Estado de S. Paulo, atletas considerados “ícones” nos fundamentos poderiam analisar o assunto.

Batedores de falta

Mais interessada nas intrigas, mídia perde chance de explicar possíveis mudanças no futebol

Uma decisão no Tribunal Regional do Trabalho devolveu a validade do contrato assinado entre o São Paulo e o jogador Oscar, atleta oriundo das bases do clube paulista que, insatisfeito com as condições financeiras do contrato que havia assinado, entrou na Justiça, ganhou na primeira instância e assinou com o Internacional, clube que defende atualmente. O texto aqui não quer remoer mais detalhes sobre o caso, até porque o caso ainda está sem um final triste ou feliz.

O caso é emblemático porque tornou-se um exemplo máximo sobe a interferência dos empresários na rotina das divisões de bases dos clubes brasileiros e também das transformações que a Lei 9.615/1998 (Lei Pelé) trouxe para o futebol brasileiro. Entre aspectos positivos e negativos, a legislação permite que atletas, até 16 anos, só assinem contratos de três anos. Acordos com validade de até cinco anos só são permitidos após o jogador ter 18 anos.

O problema é que, aos 16 anos, as principais promessas já são aliciadas por empresários que oferecem às famílias uma grande soma de dinheiro e bens em troca do direito de representar os atletas juvenis. Aos 16 anos, os clubes têm de negociar com os agentes, que exigem cláusulas consideradas excessivas do clube formador, como porcentagens vantajosas dos direitos federativos do futuro contrato e salários de craque para as jovens promessas.

Projeto de lei – Um ponto importante passou praticamente despercebido pela imprensa de grande audiência. No Congresso Nacional, tramita, desde 2005, um projeto de lei (PL 5.186) para modificar alguns aspectos da Lei Pelé. Um deles visa ampliar a proteção para o clube formador de atletas, de forma que poderiam assinar vínculos com os jogadores a partir de 14 anos.

A lei traz inúmeros outros aperfeiçoamentos à legislação que rege direitos e deveres entre clubes e atletas. A proteção ao clube formador é somente o mais evidente. Pena que emissoras de rádio e TV, portais na internet e jornais impressos perderam a oportunidade de explicar ao público os impactos das mudanças propostas no projeto de lei.

O primeiro gol ninguém nunca esquece – ou não deveria

A Notícia - gol Joinvile 1 O jornal A Notícia, da cidade de Joinville, Santa Catarina, publicou, em março, uma reportagem que pode servir de inspiração para diversos jornais, de circulação nacional ou local.

Pouco depois do aniversário de 35 anos do clube de futebol da cidade – o Joiville Esporte Clube (JEC) –, que disputará a Série C do Campeonato Brasileiro em 2011, A Notícia publicou uma matéria para relembrar o primeiro gol da equipe.

A reportagem foi feita a partir de entrevistas com pessoas que tiveram influência no fato e, fundamentalmente, por meio de uma reconstituição gráfica do primeiro tento do time.

O autor da reconstituição, Fabio Abreu, deu dicas sobre os caminhos para criar uma reportagem como essa, no Flickr dele: “Nove pessoas, entre jogadores e jornalistas que estavam no jogo, foram ouvidas. (A) matéria pós-jogo do (arquivo do) jornal A Notícia também serviu de base para a montagem da jogada. Não existem filmagens do jogo.” É, na verdade, um trabalho historiográfico.

A Notícia - gol Joinvile 3 A partir desse exemplo, jornais locais poderiam relembrar ou até reconstituir o primeiro gol das equipes do bairro ou da cidade. Boa parte dos clubes não têm departamentos de história ou estatísticas bem organizados, mas pode haver quem tenha um recorte de jornal ou até a memória ainda intacta para contar a história. E, futebol, sobrevive sobretudo à história oral.

Pedras no caminho – Há dificuldades a serem vencidas. Fontes orais e escritas são fundamentais para reconstituir o fato – o primeiro gol de cada clube – ocorrido, não raras vezes, há quase sem anos. As bibliotecas da cidade da cidade precisam ser visitadas para encontrar jornais antigos. Os clubes devem ser convencidos a ajudar a encontrar tais evidências históricas. Por que não, ao término de todo o trabalho, realizar um evento festivo para comemorar e relembrar o fato recém-reconstituído?

Pouco adianta também fazer um bom trabalho de apuração e entregar um texto longo ao leitor. É preciso investir em uma infografia, como feito pelo jornal A Notícia. Neste caso, a melhor solução é contratar serviços de terceiros – designeres, ilustradores, agências de comunicação.

Sugestões – Alguns tradicionais clubes do futebol brasileiro poderiam ser procurados para a produção de reportagens como a elaborada pelo A Notícia. Sugiro três, porque representam clubes tradicionais do interior do Estado de São Paulo e tais reportagens poderiam turbinar os cadernos esportivos dos jornais locais:

Clube Atlético Juventus (SP). Clube tradicional da capital paulista, sediado do bairro da Moóca, já foi campeão brasileiro na Série B, em 1983. Nos últimos anos, o Moleque Travesso tem experimentado a gangorra entre campeonatos organizados regionalmente e disputa, hoje, a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Associação Ferroviária de Esportes (SP): O máximo que A Locomotiva Grená da cidade de Araraquara conseguiu foi o vice-campeonato da Série C do Campeonato Brasileiro em 1994, perdendo o título para o Novorizontino (SP). Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas. Há registros sobre o acontecimento do primeiro gol.

Associação Atlética Internacional (SP): sediada em Limeira, e mais conhecida por Inter de Limeira, foi a primeira equipe do interior do estado a conquistar o campeonato paulista (1986). Disputa, atualmente, a a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Para saber mais:

1) Acesse as páginas da reportagem puiblicada no jornal A Notícia diretamente no Flickr do autor da façanha, Fábio Abreu.

2) Para os interessados em caçar estatísticas e histórias para boas pautas sobre o assunto, a página do Wikipédia sobre clubes brasileiros de futebol oferece uma gigantesca variedade de times em todos os estados.

Atualização em 28 de junho: Fabio Abreu, autor da reportagem que reconstitiu, em texto e infografia, o primeiro gol do JEC para ao jornal A Notícia (PR), conta rapidamente os bastidores da reportagem:

Como surgiu a idéia de fazer essa pauta: Este ano, o autor da reportagem e o editor chefe do jornal tomaram a decisão de produzir reportagens gráficas que abordassem fatos da cidade – uma forma de “conversar mais diretamente” com o leitor. O clube da cidade, o JEC, fez, em março, 35 anos. Após conversar com um amigo sobre a decisão do jornal, surgiu a sugestão de contar como foi o primeiro gol do JEC. “Achei a ideia legal porque esse gol nunca foi mostrado, não foi filmado nem nada. Mostrá-lo seria inédito”, disse Fabio Abreu. “As pessoas que eu precisaria entrevistar moram na cidade, são até personagens conhecidos. Eu cumpria a função de falar de um acontecimento que faz parte da história da cidade – e tinha o gancho do aniversário do time”, concluiu.

As dificuldades: As dificuldades apareceram realmente na apuração. “Como era inevitável, eu teria que basear o infográfico nas informações das memórias dos entrevistados”, disse Fabio Abreu. O lance do gol aconteceu há 35 anos e algumas informações eram conflitantes. Nove pessoas foram entrevistadas. Cinco delas não se lembravam do lance, mas deram contribuições importantes para a reportagem. Das quatro que se lembravam do fato (todos foram jogadores do Joinville e estavam em campo na partida do primeiro gol),  um entrevistado disse que o gol surgiu de um cruzamento pela direita e os outros três de um passe da ponta-esquerda – esta última informação conferia com a descrição do gol feita pelo próprio jornal A Notícia naquela data. O autor, então, optou pelo passe da esquerda. Uma dica importante dele para garantir mais precisão à reconstituição: “Poderia ter juntado os quatro entrevistados em um só dia, mas tive receio de que eles se deixassem influenciar um pelo outro.”

Há 30 anos, faleceu Nelson Rodrigues: dez trechos da crônica esportiva dele – e porque a unificação de títulos no futebol brasileiro é uma besteira

No próximo dia 21 de dezembro, completa-se 30 anos do falecimento de Nelson Rodrigues. O personagem dispensa qualquer leitura de currículo. Prefiro mencioná-lo como o maior dramaturgo do futebol brasileiro – ou o maior boleiro da dramaturgia brasileira.

Nelson Rodrigues 1 Selecionei, com muita dificuldade, dez trechos de um livro de crônicas esportivas de Nelson Rodrigues. Digo dificuldade e já justifico: – poderiam ser 30, 50, 100. O autor sempre teve a facilidade natural para enxergar a alma do brasileiro e do craque tupiniquim, e raros os textos nos quais não transbordava dramaturgia nos mais simples gestos – inclusive para o arremesso do mais mundano lateral.

Ah, como usava bem os adjetivos. Para Nelson Rodrigues, todos os canalhas eram magros e até para chupar um Chicabon era necessário ter alma. Os trechos abaixo foram retirados do livro “O Berro Impresso das Manchetes – crônicas completas da Manchete Esportiva 55 – 59”. Para aqueles que querem pensar e discutir seriamente sobre a unificação de títulos da Taça Brasil e do torneio Roberto Gomes Pedrosa, vale ler os livros de crônicas de Nelson Rodrigues. Naquelas décadas, de 50, principalmente, o futebol – e a política do mundo futebolístico – circulava na esfera do eixo Rio-São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre.

O futebol brasileiro sempre existiu – e foi muito bem representado. O que nunca existiu, de fato, foi algo como um campeonato brasileiro. A razão é a desorganização. O futebol brasileiro nunca foi organizado corretamente, nunca foi tratado com seriedade administrativa e mercadológica. Até hoje não o é – imagine, então, décadas atrás.Nelson Rodrigues 2

Mas, seguem os trechos de Nelson Rodrigues, que são leitura muito, mas muito mais prazerosa.

1) O sujeito que não acredita em milagres é capaz de tudo. (…) É suscetível dos piores sentimentos. (…) Quanto a mim, com satisfação o confesso: – acredito piamente em milagre. Ou por outra: – só acredito em milagre. A meu ver, o fato normal, o fato lógico, o fato indiscutível merece apenas a nossa repulsa e o nosso descrédito. É preciso captar ou, melhor, extrair de cada acontecimento o que há, nele, de maravilhoso, de inverossímil e, numa palavra, de milagre. ((Manchete Esportiva – 03/03/1956)

2) Quando o Brasil levantou o Pan-americano, eu só lamentei uma coisa – que Bilac não estivesse vivo. (…) Outrora, cada acontecimento tinham um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante. (…) Os correspondentes brasileiros, que estava no México, deviam mandar, de lá,  telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas, como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: – “que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos.” Vejam vocês o que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade parva e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação. (Manchete Esportiva – 31/03/1956)

3) Pois bem: – há o jogo e o Brasil consegue uma dessas vitórias definitivas, antológicas. Sim, amigos: – os 3 X 2 sobre os austríacos, na própria Viena, deviam figurar, merecidamente, numa antologia. Pela primeira vez apresentamos ao Velho Mundo uma imagem fidedigna do futebol brasileiro. E como se não bastasse a vitória em si, houve um elemento que a valorizou e, mesmo, dramatizou: – o juiz ladrão. Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permite, shakespeareana. O espetáculo deixa de se resolver em termos chatamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve no time prejudicado e respectiva torcida esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe adormecido no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue. (Manchete Esportiva – 21/04/1956)

4) Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, vejam: – pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro.(…) é preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores de fúrias tremendas. e, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que eu conheci são, fatalmente, magros.(Manchete Esportiva – 03/05/1958)

Vicente feola 1 5) Um Feola magro teria sido melhor para o escrete? Não creio e explico. (…) Pois uma de suas consideráveis vantagens de homem e, atrevo-me a dizê-lo, de técnico está nesta circunstância (ser gordo), que ele deplora e repudia. Numa terra de neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor. Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória. Examinem a figura de napoleão como Imperador. Era ele, na ocasião, algum depauperado? Não, senhor. Pelo contrário: – os quadros mostram a inequívoca e imperial barriga napoleônica. E uma das coisas que me levam a acreditar no Brasil como campeão do mundo é o fato de termos, finalmente, um técnico gordo. (Manchete Esportiva – 03/05/1958)

6) Só um Garrincha poderia fazer isso. Porque Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Se tivesse jogado contra a Inglaterra, ele não teria dado a menor bola para a Rainha Vitória, o Lorde Nelson e a tradição naval do adversário. Absolutamente. Para ele, Pau Grande, que é a terra onde nasceu, vale mais do que toda a comunidade britânica, Com esse estado de alma, plantou-se na ponta para enfrentar os russos. Os outros brasileiros poderiam tremer. Ele não e jamais. Perante a platéia internacional, era quase um menino. Tinha essa humilhante sanidade mental do garoto que caça cambaxirra com espingarda de chumbo e que, em Pau Grande, na sua cordialidade indiscriminada, cumprimenta até cachorro. Antes de começar o jogo, o seu marcador havia de olhá-lo e comentar para si mesmo, em russo: “Esse não dá pra saída (por causa das pernas tortas)!” E, com dois minutos e meio, tínhamos enfiado na Rússia duas bolas na trave e um gol. Aqui em toda a extensão do território nacional, começávamos a desconfiar que é bom, que é gostoso ser brasileiro. (…) Cada vez que Garrincha passava por um, o público vinha abaixo. Mas não creiam que ele fizesse isso por mal. De modo algum. Garrincha estava, ali, com a mesma boa-fé inefável com que, em Pau Grande, vai chumbando as cambaxirras, os pardais. Via nos russos a inocência dos passarinhos. Sim: os adversários eram outros tantos passarinhos, desterrados de Pau Grande.(Manchete Esportiva – 21/06/1958)

7) A glória de um craque vive não dos jogos de rotina, mas dos clássicos eternos. O torcedor não se lembra das peladas, mas tem uma memória implacável para as batalhas decisivas. E o sujeito que apanha a bola num Botafogo X Flamengo parece estar chutando para a eternidade. (Manchete Esportiva – 06/09/1958)

8 ) Eu sei que nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de ilustre, de insigne, de formidável qualquer borra-botas. Isso com as pessoas. Com os fatos, a mesma coisa. Em nossa histeria verbal, enfeitamos os fatos como se eles fossem índios de carnaval. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

9) Eis a verdade: o brasileiro se considera um povo feio. Aqui, quando se fala em espanhola, em italiana, em americana, há, em todos nós, uma salivação imensa, torrencial. Há indivíduos que assistem um livro de Gina Lollobrigida e, na saída do cinema, gostariam de trocar a namorada, a esposa, a amante. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

10) E, com efeito, ao entrar no estádio tricolor, eu vi, diante de mim, um deserto imenso e irremediável. Meia dúzia de gatos pingados, inclusive eu.Ora, isso mostra que as últimas atuações do “timinho” espavoriram a torcida. O pessoal está fugindo dos jogos. (…) Ainda domingo, outro “pó-de-arroz” como eu debruça-se no meu ombro e rosna-me: “Coitadinho!” Referia-se ao nosso quadro. Eu compreendi o diminutivo apiedado. Eis a verdade: há certos estados em que um time deixa de irritar, de enfurecer e passa a suscitar, tão somente, uma profunda compaixão. Mas eu confesso: prefiro a blasfêmia, a praga, o nome feio e, enfim, a cólera, do que esse “coitadinho” quase terno e quase lírico, que ofende mais que uma cusparada. (Manchete Esportiva – 11/10/1958)

Quer participar de um projeto de jornalismo colaborativo sobre estádio de futebol?

Os estádios de futebol no Brasil tem qualidade ruim, no geral. Há falta de conforto e de proteção contra chuva ou sol, banheiros de terceiro mundo, falta opções de alimentação a preços acessíveis. O entrono dos estádios é uma “terra de ninguém”. Cambistas, com ou sem lei que criminaliza a atividade, atuam livremente, talvez, agora, com um pouco mais de discrição. Guardadores de carros – os “flanelinhas” – cobram caro para que os motoristas possam estacionar o automóvel em locais públicos. Os preços das entradas, em geral, não são caras, mas aumentam assustadoramente em jogos mais importantes. Os torcedores não recebem serviços à altura como contrapartida.

Enfim, problemas não faltam. O Café Expresso gostaria de iniciar um projeto de jornalismo colaborativo e contar com a ajuda dos torcedores de todo o País para entender como funciona o dia a dia no entorno e dentro dos estádios durante os dias de futebol. A proposta é que cada um que frequente estádios ou tenha conhecimento sobre o assunto envie para cá informações atualizadas, no espaço para comentários. Depois, os dados serão consolidados e publicados numa matéria aqui mesmo – e também distribuídas para os principais jornalistas esportivos do País via redes sociais. Seria interessante ter informações sobre alguns assuntos:

– Qual estádio foi frequentado, em qual jogo, em qual data?

– Você se importa de deixar o seu nome e a sua idade?

– Há quanto tempo você frequenta estádios de futebol?

– Há estação de trem urbano ou metrô por perto, para facilitar o acesso dos torcedores?

– Os cambistas atuam livremente ou disfarçadamente?

– Quanto custou o ingresso que você comprou? Em qual setor do campo?

– Você sabe quanto custa o ingresso mais caro e o mais barato?

– Quanto a mais os cambistas cobram pelo ingresso à venda?

– Há flanelinhas (guardadores de carro) agindo nas redondezas dos estádios? Quanto eles cobram?

– Há estacionamentos nas redondezas dos estádios? Quanto custa, em média?

– Há barracas de alimentação no entorno dos estádios? Que opções de comida são vendidas? Quanto custa, em média?

– Há lanchonetes no entorno do estádio? Quanto custa um refrigerante ou uma cerveja, em lata ou em garrafa?

– Há vendedores ambulantes, os camelôs, comercializando cerveja em lata? Quanto custa? Eles podem atuar livremente ou precisam ser discretos?

– Há policiamento? Os policiais tentam inibir a atuação de vendedores ambulantes, barracas de lanches, guardadores de carros ou cambistas?

Que tal dar espalhar para amigos e dar seu depoimento? Eu começo com o meu.

Meu nome é José Casadei, 36 anos, frequento o estádio do Morumbi, sou torcedor do São Paulo. O estádio passa periodicamente por pequenas reformas. Os banheiros são bons e limpos, congestionados e precários apenas em dias de grande público. A entrada mais barata custa R$ 20, para assistir na arquibancada, descoberta, atrás dos gols. Nas partidas da Libertadores 2010, chegou a custar R$ 60 – R$ 70. Para assistir com visão para o centro do gramado, custa por volta de R$ 40. Chegou a custar, na Libertadores, R$ 140. Em outros setores, cobertos, com visão melhor e com alguns serviços, custaram entre R$ 300 e R$ 400. Há possibilidade de comprar ingressos pela internet.

Cambistas atuavam livremente. Agora, com mais discrição, para ver se a nova lei que criminaliza essa atividade “vai pegar ou não”. A prática mais comum é vender ingresso de meia-entrada pelo preço cheio, sem o desconto de 50% característico deste tipo de entrada. Barracas de lanches (pernil, lingüiça e cachorro-quente) atuam livremente ao término das partidas, mas são reprimidas antes dos jogos, principalmente com maior público. Custam, na média, R$ 7. A lata de cerveja no vendedor ambulante custa entre R$ 2 e R$ 3. Há poucas lanchonetes, somente no raio de 1,5 km de distância do estádio, que está situado em um bairro residencial, sem comércio no entorno.

A polícia está sempre presente, com bastante oficiais. Não há repressão contra cambistas, guardadores de carro ou outras atividades ilegais. Um “flanelinha” cobra entre R$ 15 e R$ 10 em jogos de pouca atratividade. Nos jogos da Libertadores 2010, pediram algo como R$ 40. Os riscos de encontrar avarias nos carros é pequeno, mas não raro. Estacionamentos cobram R$ 30 em média – a até R$ 100 nas partidas da Libertadores.

No Manchester, treinadores ficam no cargo por 24 anos. No Brasil, técnicos têm de ganhar todo ano

Muricy Ramalho, cotado para ser o novo técnico da seleção brasileira, já deu entrevistas dizendo que gosta de seguir princípios como lealdade e esforço dentro do futebol. Prega o cumprimento de contratos firmados. Depois de rápida passagem como treinador do time principal do São Paulo Futebol Clube (SPFC), na década de 90, passou por diversos times até retornar ao mesmo SPFC, em janeiro de 2006. Ganhou três títulos brasileiros consecutivos mas não resistiu a uma nova desclassificação na Taça Libertadores da América – a quarta consecutiva. Em junho de 2009, três anos e meio de pois de assumir o cargo, foi demitido.

Controvérsias a parte, a relação entre Muricy Ramalho e o SPFC é uma das mais umbilicais no futebol brasileiro, devido a sintonia entre treinador e torcida. Superada, certamente, pela relação de Telê Santana com a mesma torcida e com o mesmo clube.

Telê Santana, à frente da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, foi desclassificado nas duas vezes, e passou a ser considerado “pé frio”, um profissional sem sorte. Em outubro de 1990, assume o cargo de treinador no SPFC, do qual só saiu em em janeiro de 1996, por causa de uma isquemia cerebral. Os cinco anos e três meses à frente do time ficaram marcados na história das relações entre treinadores e torcidas de futebol.

A sintonia que existe entre os dois treinadores, o clube e a torcida são sintomáticas e exemplares, mas ainda distante do que existe no Manchester United, clube inglês.

O atual treinador do Manchester United, Sir Alex Ferguson, está no cargo desde novembro de 1986, há quase 24 anos, independentemente de conquistar os títulos mais desejados do clube em um ano ou não. Ganhou duas vezes a Liga dos Campeões da UEFA, o que corresponde à taça Libertadores na América do Sul, e um título intercontinental de clubes, o mundial extra-Fifa até 2005. Comparativamente, Telê Santana obteve desempenho melhor quando analisada tal meta: ganhar o principal título continental.

Poucos sabem, mas Fergunson não é (ainda) o mais longevo técnico do Manchester. Matt Busby comandou o time de Old Trafford entre 1945 e 1969. Ganhou cinco títulos nacionais e um continental. Se comparações numéricas forem permitidas, o escocês, em números absolutos, vence, mas o brasileiro teria mais 20 anos para tentar um título continental. Mas cá, diferente de lá, não há tanto tempo assim para os treinadores permanecerem no cargo entre um título e outro.

Vale lembrar essas histórias, principalmente em um momento em que diversos treinadores correm o risco de perderem os cargos após o retorno do Campeonato Brasileiro 2010, depois da Copa do Mundo. Ricargo Gomes, no SPFC, há um ano no cargo, terminou o Brasileirão 2009 em terceira colocação e classificou o clube para as semi-finais da Libertadores 2010. Dorival Junior, no Santos, liderou o melhor futebol no primeiro semestre no Brasil, ganhou o campeonato paulista 2010 e está na final da Copa do Brasil, que pode dar uma vaga tranquilizadora para o time na Libertadores 2011. Silas, no Grêmio, está há menos de um ano no clube e ganhou o campeonato estadual este ano.