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Um raro momento de bom jornalismo na cobertura esportiva

A matéria em questão foi publicada no portal Globoesporte.com e aborda a recuperação do jogador de futebol Luis Fabiano, atacante da seleção brasileira na última Copa do Mundo, que está em tratamento médico desde março.

Na mídia, há sempre uma questão discutida: quando será a primeira de reestréia nos gramados brasileiros. Essa resposta é sempre incerta e o leitor acaba lendo mais boatos do que informação séria.

O portal decidiu fazer uma reportagem que, no jargão jornalístico, é chamado de “passo a passo”. Mostra com detalhes cada etapa de determinado acontecimento. Inclusive, a matéria é interessante por oferecer procedimentos e caminhos para o leitor comum. Quem olhar todas as legendas terá um guia para entender porque determinados exercícios físicos são apropriados para determinadas situações. Vale um alerta: não faça nada sozinho em casa e sempre consulte médicos e fisioterapeutas.

A reportagem utiliza muitos recursos que deveriam ser sempre explorados pela mídia: fotos-legendas para explicar cada pequena etapa do fato e legendas que oferecem informações novas, diferentes e relevantes em cada imagem, descartando mensagens fúteis ou superficiais.

Foto-legenda Luis Fabiano A fonte da notícia é um especialista – e não um funcionário qualquer do clube. Muitas vezes, na ânsia de produzir “cliques” e audiência, a mídia ouve qualquer pessoa, que dá qualquer palpite, e o leitor recebe qualquer informação oriunda de uma fonte que preferiu não ter o nome revelado.

Enquanto diversos portais jornalísticos trazem textos informando que o retorno do jogador aos gramados será daqui poucos dias, o Globoesporte.com decidiu investigar e mostrar de forma detalhada, abrangente e profunda, quais as etapas vencidas pelo atleta, porque cada etapa foi importante ou necessária, como funcionam e quais os objetivos do uso de cada equipamentos ou método de fisioterapia.

A reportagem é uma verdadeira aula de jornalismo para a mídia esportiva. O Globoesporte.com poderia ainda ter debatido todo o conteúdo da matéria com especialistas de medicina e fisioterapia de fora do clube, para oferecer ao leitor uma segunda opinião. Mas, claro, diante de tudo o que foi apresentado, é um detalhe que pode ser descartado ou abordado numa matéria seguinte.

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Blogueiros podem fazer reportagens mais inteligentes que a imprensa? Em muitos casos, sim

Uma das mais recentes – e importantes – tendências do jornalismo atualmente é o uso de estatísticas e bancos de dados para suportar reportagens e histórias. Nos últimos anos, essa vertente tem ganhado espaço na produção de conteúdo.

Isso acontece não somente por causa das inúmeras possibilidades que as ferramentas digitais oferecem para entregar o conteúdo ao público – principalmente por meio de infografias interativas bastante atrativas – mas sobretudo porque os jornalistas enxergam no nicho algo com enorme potencial inexplorado. Após organizar e analisar estatísticas e dados, muitas boas pautas podem surgir. Os números, enfim, não precisam ser um fim em si mesmos – mas podem contar boa parte da história, inclusive a principal.

Três exemplos recentes mostram o potencial do uso de estatísticas para a produção de boas pautas e de histórias interessantes e inusitadas. Elas abordam temas como política e esporte, nem sempre áreas nas quais há dados organizados que permitam analisar algum tema específico de forma abrangente. Duas foram produzidas por blogueiros e uma pela grande imprensa.

Diante da dificuldade de esmiuçar as estatísticas e as fontes destes dados em áreas específicas, diversos blogueiros, que não são jornalistas,  têm conseguido produzir boas reportagens, seguindo princípios simples do jornalismo. O fato de conhecerem as regras do mercado no qual atuam, pensarem 24 horas no assunto e saber onde buscar informação ajuda bastante. Geralmente, o autor tem de coletar as estatísticas, uma por uma, e fazer o próprio estudo que, depois, dará suporte à reportagem exclusiva. Sorte da audiência.

1) Blog do Navarro: especializado em futebol e no clube paulista São Paulo, é feito por um torcedor. Em recente reportagem, ele cruzou alguns dados: “as médias de públicos do campeonato brasileiro de 2003 a 2010 (com um longo período, evita-se a influência indevida de fatores excepcionais como boas ou má campanhas, centenários, etc), bem como a dimensão das torcidas na capital paulista (partindo-se do pressuposto de que, via de regra, os moradores da capital são os que frequentam os estádios).”

frequencia torcidas estádio

Com o exercício estatístico simples, a matéria quis mostrar e debater com o público qual é a equipe do futebol paulista que tem a torcida mais fiel. A conclusão é que os palmeirenses, seguidos por são-paulinos e por corinthianos, nesta ordem, são os mais fiéis. O texto gerou boa polêmica com os torcedores do Corinthians, até porque a torcida do clube, tradicionalmente, é chamada de “Fiel”.

2) Blog do Gaciba: produzido pelo ex-árbitro Leonardo Gaciba, trouxe outra notícia interessante que deixa qualquer jornal de primeira linha no chinelo. Um em cada quatro cartões amarelos mostrados para atletas nos jogos de futebol do Campeonato Brasileiro da Série A foram dados em momentos de bola parada. Isso significa que podem ser considerados motivos fúteis, cartões facilmente evitáveis, mais relacionados à indisciplina.

O ex-árbitro, agora comentarista esportivo, analisou todas as súmulas escritas pelos juízes após as partidas, computou os dados e descobriu um fato interessante, que serve não somente para o público leitor entender melhor os fatos que envolvem o futebol como também para os próprios atletas e comissões técnicas aperfeiçoarem o comportamento em campo. Matéria nota dez.

3) Estadão: representando a grande imprensa com um ótimo trabalho, o jornal O Estado de S. Paulo descobriu que procuradores da Prefeitura do Município de São Paulo ganham supersalários de até R$ 76,3 mil e que o valor pago a 140 dos 282 advogados da capital paulista é maior que remuneração de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), teto constitucional do funcionalismo.

OESP Servidores de eliteOs repórteres organizaram dados do site oficial “De Olho Nas Contas”, que detalha informações da folha de pagamento dos funcionários públicos da cidade.

As duas matérias têm um importante aspecto comum: em ambos os casos, os autores partiram de uma pergunta inicial e buscaram estatísticas para encontrar ou comprovar as respostas. Um segundo ponto é importante: jornalistas e blogueiro organizaram ou cruzaram estatísticas que não estão disponíveis em algum estudo ou levantamento original. No site “De Olho nas Contas”, há milhares de dados que precisam ser agrupados e organizados.

Dados nem sempre acessíveis – Nos três casos, é preciso contar com estatísticas oficiais ou de instituições consideradas “acima de qualquer suspeita” para que as conclusões não sejam destruídas, rebatidas ou colocadas em descrédito. Esses dados podem estar dispersos em diversos registros ou documentos. Nessas situações, o trabalho braçal e criterioso do repórter ou do blogueiro é fundamental, pois personagens ou leitores incomodados com as notícias sempre procuram desqualificar os métodos ou os autores. É isso.

Saiba mais:

Em dois textos recentes, o Café Expresso abordou reportagens interessantes e inovadoras com o uso de estatísticas, ajudando as equipes de reportagem a se destacarem e a fugirem da mesmice.

1) Uma interessante história de RAC no futebol. Victor Birner e equipe coletaram estatísticas para desvendar se os árbitros brasileiros mostram cartões excessivamente e se juízes diferentes adotam comportamentos diferentes na cobrança de penalidades.

2) Futebol na mídia: números e boa apuração ganham espaço onde reinam o óbvio, a futrica e o achismo. Balanços corporativos, médias de público, custo de cada gol, quantidade de treinamento e muitos outros dados foram utilizados para elaborar reportagens muito boas que fogem da mesmice.

Alguns ingredientes de uma boa reportagem

Uma boa reportagem publicada dia 29 de março no diário Valor Econômico mostra o quanto uma boa idéia, acompanhada de um método eficiente, bastante persistência dos repórteres e um eficiente trabalho em equipe pode resultar em matérias exclusivas (por revelar um fato latente), abrangentes (por abordarem um amplo espectro de situações), profundas (por não darem trégua a questões mal respondidas) e bem dimensionadas (por apresentarem números que mensurem o tamanho do problema).

Dias atrás, o Café Expresso trouxe dois exemplos de reportagens produzidas a partir da transformação de boas idéias em matérias importantes e interessantes graças ao sucesso no estabelecimento de um método eficiente e habilidade no cruzamento de dados. Hoje, mais um, que além daqueles ingredientes, conseguiu explorar o trabalho em equipe ao extremo para ouvir várias fontes e evitar um problema que é um risco gigantesco na produção de notícias: os interesses justos, porém sempre parciais e às vezes contraditórios, das fontes ouvidas.

MiniapagõesA reportagem mostrou que os miniapagões, que compreendem interrupções de pequena duração no fornecimento de energia elétrica, cresceram 70% em um ano. A pauta surgiu a partir de uma dessas quedas de energia, que afetou também a redação do jornal. No intervalo de poucos dias, as redações do diário em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro tinham sofrido cortes de eletricidade. Decidiram apurar as razões, pois se tratava de amplo interesse social ao afetar residências e empresas repetidamente. A fonte primária para a coleta dos dados foi a Aneel, agência reguladora do setor elétrico. Uma equipe de jornalistas nas três cidades cuidou de entrevistas e coletou e organizou dados sobre qualidade do serviço (que mede quantidade de interrupções e duração média delas), satisfação do consumidor e preço das tarifas.

Miniapagões2 “Então decidimos publicar as três informações, porque percebemos, a partir de entrevistas, que os preços das tarifas, a satisfação do consumidor e a qualidade do fornecimento têm uma relação. E, o mais curioso, é que os consumidores parecem se preocupar mais com a qualidade do fornecimento do que com o preço que pagam”, respondeu-me, por e-mail, Danilo Fariello, autor da matéria principal. Para evitar quaisquer equívocos – afinal, os repórteres não são consultores ou especialistas das tecnicidades do mercado de energia elétrica – procuraram e entrevistaram autoridades e instituições, geradores, transmissores, distribuidores e consumidores de energia, para explicar a razão dos ‘miniapagões’. “Cada um apontava um motivo, mas o consenso maior acabou se formando em torno da falta de investimentos das distribuidoras na manutenção da rede”, respondeu Fariello. O resultado foram duas páginas analisando as causas, consequências e medidas das autoridades.

Como evitar conclusões equivocadas em uma matéria na qual a própria redação cruza dados e números e tira as próprias conclusões? O repórter responde:

– “Exaurir o máximo das fontes disponíveis de informações, tanto pessoas quanto dados. Além das pessoas citadas na reportagem, outras foram procuradas.”

– “A cada conversa com alguma pessoa ligada ao setor (elétrico), eu colocava a questão e perguntava por explicações. A apuração durou mais de uma semana, pelo que me lembro. Como o próprio texto mostra, foram muitas as razões apontadas para o problema e muitos os responsáveis.”

O jornalista deixou claro que a pauta conseguiu ser bem-sucedida graças ao tempo disponível para prepará-la e ao esforço de ouvir muitos envolvidos, dos mais variados elos da cadeia e de grupos de interesse, para não cometer equívocos. Era fundamental conseguir “discernir as informações do lobby puro”. “É um desafio diário filtrar o que realmente é dado objetivo do que pode ser uma informação questionável, que pode beneficiar A, B ou C”, informou-me Fariello.

Mesmo em um grande jornal, ou principalmente nesses, os interesses das fontes, autoridades e agentes de mercado são tremendos – e nem sempre é possível evitá-los. Invariavelmente, como me respondeu Fariello, “a informação que beneficia ou prejudica alguém é também, de fato, uma notícia”, e, por isso, precisa ser publicada.

Para saber mais: Assinantes do jornal podem ler a matéria completa por aqui.