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Riscos e cuidados no uso de estatísticas. Mesmo as oficiais

Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo no dia 4 de março de 2016 evidencia o risco – e consequentemente os cuidados -que devem ser levados em consideração no trato com estatísticas, mesmo aquelas que são oferecidas oficialmente por órgãos públicos.

Em resumo, o número de homicídios divulgados pelo poder público está subdimensionado, pois há muitos casos listados em outra categoria de informação que não aparece nos balanços divulgados pela Secretaria de Segurança Pública.

O debate em torno da reportagem e da análise dos dados exigiu explicações do governo paulista e novas regras para a divulgação de estatísticas, como a divulgação das correções feitas periodicamente e de dados dos boletins de ocorrências.

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Veja mais:

O problema atinge outros estados brasileiros, como mostra a tese do pesquisador Daniel Cerqueira, que avaliou dados sobre mortes violentas não esclarecidas no estado do Rio de Janeiro.

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A análise sobre estatísticas de crimes que ainda falta ser feita

A imprensa reportou a quantidade de homicídios dolosos em 2015 no Estado de São Paulo. Foi a menor taxa desde 1996. Algumas indagações:

  • A metodologia é realmente estranha. O poder público contabiliza a quantidade de casos, e não a quantidade de mortos. Como explica o texto, um caso pode conter várias mortes (uma chacina, por exemplo). Isso pode ampliar significativamente o número de pessoas assassinadas intencionalmente.
  • É sempre complicado analisar segurança pública por meio de um único indicador. Um dia ainda espero ler uma reportagem que traga, em bom espaço, todos os indicadores de mortes e de crimes.
  • Isso significa mostrar estatísticas históricas de mortes com ou sem intenção, por qualquer tipo de arma, no trânsito ou em casa, enfim, qualquer causa de morte, exceto doença.
  • Vale o mesmo para os tipos de crime: com ameaça ou não, em casa ou na rua, roubo ou furto, patrimônio – qualquer ocorrência.
  • Essa análise é muitas vezes difícil ou impossível por causa de imperfeiçoes na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas.
  • Isso é importante para evitar manipulações. Por exemplo: um assassinato passa a constar na lista de homicídios dolosos de acordo com a metodologia adotada na contabilidade e na investigação das autoridades públicas. Pode haver uma redução histórica dos casos de mortes intencionais, mas uma explosão nos de mortes cujas causas não foram identificadas.
  • Geralmente, os jornais mostram localidades com maior ou menor ocorrências de algum tipo de crime por meio de um mapa coroplético indicando cores mais escuras ou claras em cada distrito. Essa visualização é a única possível, já que o poder público não divulga o endereço exato da ocorrência, mas somente por bairros.
  • No entanto, isso pode causar distorções. Um exemplo: uma enorme quantidade de crimes praticados na fronteira entre um bairro tranquilo e outro mais problemático pode passar a impressão que um bairro inteiro é problemático. Essa distorção aumenta se o bairro for espacialmente bastante extenso.

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Segurança pública: homicídios não recuam, mas transparência aumenta. Como isso muda sua vida?

Estadão homicídios 2Em reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo dia 26 de março, o jornalista Bruno Paes Manso informa que a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo decidiu divulgar as estatísticas de criminalidade da capital paulista na internet, rua por rua. É um avanço talvez inigualável, comparável por ventura somente à criação da Lei de Acesso à Informação.

Pela iniciativa do governo paulista, as pessoas poderão acessar em um mapa quais ruas foram palco de crimes. Essa é uma solicitação muito antiga de jornalistas e pesquisadores, por diversas razões.

1) Os dados de segurança pública, por mais que sejam importantes para as autoridades planejarem o combate à criminalidade, são de toda a sociedade, pois foram produzidos a partir do pagamento de impostos que os cidadãos conferem ao poder público mensalmente. Informações produzidas por governos, em geral, são da sociedade, resguardados os casos mais sensíveis, como faz a Lei de Acesso à Informação.

2) Os cidadãos podem, a partir dos dados disponíveis, rua por rua, evitar os endereços mais críticos. É um direito que as pessoas têm buscar as rotas mais seguras para transitar, os bairros mais calmos para morar ou trabalhar.

3) Quanto mais locais forem os dados sobre criminalidade à disposição das pessoas, mais elas poderão cobrar das autoridades – sobretudo daquelas que são eleitas – ações para que os bairros onde moram e trabalham ganhem políticas públicas que mirem o reforço na segurança.

Estadão homicídios 1Este último item ajuda a explicar muito a relutância histórica que os governos têm em tornar públicas as estatísticas de segurança pública – e outros tipos de dados, sejam sobre saúde ou educação. Informação e conhecimento são armas muito valiosas que tornam os cidadãos mais poderosos para exigir providências – e isso aumenta a cobrança sobre as autoridades públicas.

Se a maior incidência de crimes desvaloriza uma região ou coloca em risco a vida de pessoas de forma desproporcional a outras áreas, essas pessoas podem cobrar respostas mais firmes dos governos.

As pessoas, com informações sobre a situação de bem-estar e de infraestrutura pública bairro por bairro, rua por rua, podem começar a tomar consciência de que é necessário se organizarem para reverter os problemas. Uma das saídas é exigir mais eficiência das autoridades públicas.

Essa decisão da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, mesmo que tardia, é louvável e não pode passar sem os merecidos aplausos. Segue a tendência de dar visibilidade aos dados públicos. Como bem lembra a reportagem, outras cidades importantes no mundo já publicam  estatísticas sobre criminalidade rua por rua – e ajudam os cidadãos. Imagine se os governos, tal qual decidiram fazer com as ocorrências criminais, começassem a divulgar o tempo de espera para consultas médicas, a quantidade de alagamentos, as ocorrências de coleta de lixo – tudo rua por rua?

Veja mais:

1) Qual é o perigo de divulgar informações públicas? 2) Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe. 3) Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil.

Em Nova Iorque, até estatísticas sobre revistas policiais são divulgadas. Por que não deveriam?

Uma reportagem do The New York Times chamou a atenção para o nível de dados que são divulgados pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque. Mais do que divulgar periodicamente os indicadores de diversos crimes, o que é comum em centenas de cidades ao redor do mundo, a polícia local disponibiliza para a imprensa e para a sociedade as estatísticas sobre abordagens e revistas feitas pelos policiais.

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No Brasil, ainda é comum as autoridades públicas esconderem, deturparem ou divulgarem parcialmente os dados referentes à segurança pública e ao desempenho das forças policias. O país ainda não tem um sistema de informações nacional, atualizado, com a quantidade de ocorrências policiais.

Dados de segurança pública são produzidos com recursos públicos – e por isso deveriam ser disponibilizados, no detalhe, para a sociedade e para a imprensa. Se há o argumento das autoridades policiais de que eles são estratégicos para realizar o planejamento contra os criminosos, vale também a justificativa que estes dados também são valiosos para os próprios cidadãos planejarem a própria segurança, moldar a rotina e se precaver contra o crime.

Se uma rua é a campeã de roubos de carros, os motoristas deveriam saber disso para decidirem se querem correr o risco de estacionar o carro nela. Se um bairro tem tido muitos roubos e furtos, as pessoas podem desejar não morar nele ou frequentá-lo – ou inquilinos podem querer exigir aluguéis mais módicos. É cruel pensar dessa forma, mas é um direito do indivíduo.

O Brasil precisa evoluir nessa área – na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas de interesse social. Na área de segurança, há um tabu ainda consistente, que pouco arrefeceu ao longo dos anos. Um exemplo positivo foi a decisão do governo estadual de São Paulo. Ele decidiu divulgar dados de crimes por bairro. Pena que tal postura só vingou depois de denúncias na imprensa apontando o mau uso, privado e privilegiado, dos indicadores até então mantidos em sigilo.

Saiba mais:

Qual é o perigo de divulgar informações públicas?

Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil.

Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe

No fim de semana, o jornal norte-americano The Washington Post publicou uma reportagem mostrando que diversas modalidades de crime estão em queda nos Estados Unidos, segundo o FBI, mas uma delas cai de forma muito mais rápida: os roubos de carro. A queda na quantidade de veículos roubados, lá, atinge 40% entre 2003 e 2010. Em algumas localidades, a redução foi maior que 60%.

Fewer cars stolen A matéria explica que as polícias locais, lá, usam uma gama variada de métodos e ferramentas, desde carros chamados de “isca”, que são monitorados pelas equipes à espera dos ladrões, como o uso de rastreamento e bloqueio remoto. São dispositivos já bastante disseminados.

As chaves especiais de ignição, que os bandidos aprenderam a copiar ao longo dos anos, evoluíram para outras que se comunicam com computadores de bordo a partir de algoritmos complexos e milhões de possibilidades de códigos de acesso, segundo o jornal, tornando mais difícil e caro burlar a tecnologia, exigindo ladrões especializados, tempo e equipamentos.

N o dia 25 de julho, o governo do Estado de São Paulo divulgou novas estatísticas sobre criminalidade. Os homicídios diminuíram consistentemente, o que é bom. Há alguns anos, o foco da política de segurança pública paulista é evitar crimes contra a vida. De outro lado, crimes contra o patrimônio, como os roubos de carros, continuam crescendo, depois de um período de queda.

Crimes SP 1semEscassez de dados – No Brasil, não há estatísticas consolidadas, abrangentes, centralizadas e à vista de todos sobre o assunto, que dê ao cidadão um retrato exato de como está a incidência de crimes no país inteiro. Os estados divulgam as estatísticas locais da forma como querem, quando querem, com a periodicidade que desejarem. Há relutância dos governantes em oferecer dados históricos e comparáveis.

O Estado de São Paulo passou a fazê-lo de uma forma mais transparente, divulgando estatísticas de acordo com diversas modalidades de crimes, períodos e localidades, da mais abrangente (o estado todo) à mais local, cidade por cidade até distrito por distrito, no caso da capital paulista.

Esse comportamento exigiu certa pressão da imprensa, mas tem permitido aos cidadãos acompanhar a evolução histórica dos crimes nas cidades e no estado e, inclusive, comparar com outros países.

Se nos EUA os roubos e furtos de carros caíram 40% desde 2003, no Estado de São Paulo a redução é de 21% desde 2001. Se a diminuição desse tipo de ocorrência parece vagarosa, vale lembrar que as autoridades priorizam a preservação da vida e depois a do patrimônio. Como reflexo dessa diretriz, os homicídios dolosos – ou seja, com intenção de matar – recuaram 65% entre 2001 e 2010.

Veja mais:

Conheça as estatísticas do Estado de São Paulo sobre segurança pública e faça suas próprias comparações.

Em matéria recente, o Café Expresso abordou a questão envolvendo a divulgação de dados de violência no estado de São Paulo.