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Reportagens interativas não precisam de pirotecnia

Uma reportagem interativa bem-feita não precisa trazer infografias ousadas, vídeos editados com qualidade de cinema e outras pirotecnias que a tecnologia e as ferramentas online permitem. O essencial – como sempre, no jornalismo – é a qualidade da informação.

Um exemplo é a reportagem produzida pelo Pew Research Center, uma instituição norte-americana que tem a missão de informar o público sobre diversos fatos dos Estados Unidos e do mundo todo. Eles fazem pesquisas de opinião, estudos demográficos, análises sobre o funcionamento da imprensa e diversas outros trabalhos sociais empíricos. Dessa forma, costumam ter matéria-prima exclusiva, de alta qualidade e interesse.

Recentemente, por causa do aniversário de 50 anos da ‘Marcha sobre Washington’, dia 28 de agosto , que se transformou em um marco na luta pelos direitos das pessoa negras nos Estados Unidos e consequentemente em todo o mundo, o Pew Research produziu uma análise baseada tanto em pesquisas de opinião quanto em dados governamentais do Censo norte-americano para perceber as mudanças demográficas entre brancos e negros – e também hispânicos e asiáticos – nas últimas cinco décadas.

O resultado é um relatório com texto didático, mesmo que longo, gráficos estáticos simples e um amplo conjunto de estatísticas organizadas novamente em gráficos sem pirotecnia, mas com interatividade, dando ao público a possibilidade de selecionar informações do ponto de vista que lhe interessar.

Pew Research Center - Race in America

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Segurança pública: homicídios não recuam, mas transparência aumenta. Como isso muda sua vida?

Estadão homicídios 2Em reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo dia 26 de março, o jornalista Bruno Paes Manso informa que a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo decidiu divulgar as estatísticas de criminalidade da capital paulista na internet, rua por rua. É um avanço talvez inigualável, comparável por ventura somente à criação da Lei de Acesso à Informação.

Pela iniciativa do governo paulista, as pessoas poderão acessar em um mapa quais ruas foram palco de crimes. Essa é uma solicitação muito antiga de jornalistas e pesquisadores, por diversas razões.

1) Os dados de segurança pública, por mais que sejam importantes para as autoridades planejarem o combate à criminalidade, são de toda a sociedade, pois foram produzidos a partir do pagamento de impostos que os cidadãos conferem ao poder público mensalmente. Informações produzidas por governos, em geral, são da sociedade, resguardados os casos mais sensíveis, como faz a Lei de Acesso à Informação.

2) Os cidadãos podem, a partir dos dados disponíveis, rua por rua, evitar os endereços mais críticos. É um direito que as pessoas têm buscar as rotas mais seguras para transitar, os bairros mais calmos para morar ou trabalhar.

3) Quanto mais locais forem os dados sobre criminalidade à disposição das pessoas, mais elas poderão cobrar das autoridades – sobretudo daquelas que são eleitas – ações para que os bairros onde moram e trabalham ganhem políticas públicas que mirem o reforço na segurança.

Estadão homicídios 1Este último item ajuda a explicar muito a relutância histórica que os governos têm em tornar públicas as estatísticas de segurança pública – e outros tipos de dados, sejam sobre saúde ou educação. Informação e conhecimento são armas muito valiosas que tornam os cidadãos mais poderosos para exigir providências – e isso aumenta a cobrança sobre as autoridades públicas.

Se a maior incidência de crimes desvaloriza uma região ou coloca em risco a vida de pessoas de forma desproporcional a outras áreas, essas pessoas podem cobrar respostas mais firmes dos governos.

As pessoas, com informações sobre a situação de bem-estar e de infraestrutura pública bairro por bairro, rua por rua, podem começar a tomar consciência de que é necessário se organizarem para reverter os problemas. Uma das saídas é exigir mais eficiência das autoridades públicas.

Essa decisão da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, mesmo que tardia, é louvável e não pode passar sem os merecidos aplausos. Segue a tendência de dar visibilidade aos dados públicos. Como bem lembra a reportagem, outras cidades importantes no mundo já publicam  estatísticas sobre criminalidade rua por rua – e ajudam os cidadãos. Imagine se os governos, tal qual decidiram fazer com as ocorrências criminais, começassem a divulgar o tempo de espera para consultas médicas, a quantidade de alagamentos, as ocorrências de coleta de lixo – tudo rua por rua?

Veja mais:

1) Qual é o perigo de divulgar informações públicas? 2) Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe. 3) Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil.

Projetos jornalísticos mapeiam a opinião de partidos e parlamentares no Brasil e nos EUA

O ProPublica, organização jornalística independente sediada em Nova Iorque, EUA, conseguiu montar um mapa que facilita bastante aqueles que querem entender o quanto é difícil e polêmico discutir e alterar a legislação sobre o porte de armas nos Estados Unidos. O trabalho, divulgado dia 16 de janeiro, mostra como deputados e senadores dos partidos Democratas e Republicano, além de um parlamentar independente, se comportam e opinam quanto ao tema.

A primeira conclusão que a visualização permite constatar é que há uma brutal distinção entre a opinião dos congressistas republicanos e democratas. Enquanto o Partido Republicano é majoritariamente favorável à manutenção do direito de possuir e portar armas de fogo, o Partido Democrata é amplamente favorável a restringir o porte de armas.

ProPublica

Após mais uma ocorrência de massacre em escolas norte-americanas, o presidente reeleito dos Estados Unidos, Barak Obama, incitou o Congresso a apertar a lei, tornando-a mais restrita. O problema é que a Segunda Emenda da Constituição daquele país deixa claro que todo cidadão tem o direito de manter e portar armas de fogo. A discussão é secular.

Estudo que facilita – A visualização interativa foi facilita pelo trabalho do Institute for Legislative Action (ILA), braço da National Rifle Association, associação que defende o direito de possuir e portar armas a todo cidadão. A organização situa cada congressista com base na opinião e ações deles sobre adotar um controle mais restrito ou manter o direito constitucional.

Com os dados, o ProPublica colocou programadores e jornalistas para apresentar os dados de uma forma visualmente agradável e inteligente, dando sentido às informações e permitindo aos internautas selecionarem as informações que querem do ponto de vista que desejam.

No Brasil – Imaginem usar a mesma solução para mapear a opinião dos congressistas brasileiros para os mais candentes temas em discussão – ou paralisados – no Congresso Nacional?

O projeto Estadão Dados, inaugurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, começou a organizar e entender estatísticas sobre diversos assuntos, entre eles comportamentos dos parlamentares no Congresso Nacional, em Brasília.

Um dos trabalhos dentro do Estadão Dados chama-se “Basômetro” e permite entender como os partidos políticos e congressistas votaram – com o governo ou contra o governo – em diferentes projetos de lei ao longo de 2011 e 2012. Vale a pena conferir.

Basômetro

Outros aspectos – Tanto o trabalho do ProPublica quanto do jornal O Estado de S. Paulo ajudam os leitores a entenderem melhor temas complexos. Só se tornam úteis porque há um trabalho importante dos programadores e jornalistas em dar uma orientação, um sentido, às estatísticas. Caso contrário, seria apenas mais um almanaque.

Um aspecto interessante é que os dois projetos jornalísticos permitem uma visão” tanto da árvore quanto da floresta”, pois mostra como pensam e decidem tanto o congressita, individualmente, quanto os partidos políticos, conjuntamente.