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Jornal aposta nas fotos-legendas. Mas poderia dar mais espaço a elas

O jornal O Estado de S. Paulo passou a publicar mais fotos-legendas – aquelas imagens com legendas mais longas, mais explicativas. É uma forma de contar as histórias de maneiras diferentes, mais visuais, menos textuais. Facilita a captura da informação principal por parte do leitor.OESP enchentes

O recurso tem sido usado com mais frequência, o que é bem-vindo. O diário poderia ousar um pouco mais e publicar uma página inteira com fotos-legendas, em diversos tamanhos. Poderia contar uma história completa ou várias delas utilizando somente fotografias com as respectivas legendas, ampliadas, mais extensas. Ou poderia aumentar o espaço para as imagens, publicando a mesma quantidade de fotos-legendas em, no mínimo, meia página.

OESP foto-legenda 1

No dia 11 de novembro, domingo, o jornal publicou fotos-legendas para retratar a alteração na rotina das pessoas em bairros periféricos da cidade de São Paulo por causa do crescimento dos homicídios e da violência em 2012. As quatro OESP foto-legenda 2imagens ocuparam cerca de 20% de uma página. Naquele dia, o Estadão foi entregue para os leitores com 11 cadernos e um total de 186 páginas. Por que não utilizar uma única página, inteira, com fotos-legendas sobre o assunto? Por que não retratar a reportagem inteira dessa forma?

Dois dias depois, o mesmo recurso foi utilizado, como vem sendo em várias matérias, dessa vez para mostrar os estragos causados pela forte chuva que caiu na capital paulista na véspera. De novo, quatro imagens dividiram espaço equivalente a 20% da página. O jornal, naquele dia, foi impresso com sete cadernos e 80 páginas.

Para saber mais:

Veja outras reportagens e exemplos já analisados sobre o uso de fotos-legendas no jornalismo impresso.

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Os jornais brasileiros teriam coragem de fazer uma primeira página dessas?

The Huntsville TimesSeja lá qual for o assunto principal do dia, os jornais brasileiros teriam coragem de mudar o padrão de edição da primeira página para estourar uma bela foto, como fez o The Huntsville Times, no estado norte-americano do Alabama?

Esse não é o padrão do Huntsville. A primeira página é, usualmente, editado como todos os outros jornais: um título para a principal matéria, mais chamadas para diversas matérias, tudo ocupando equilibradamente a página inteira.

Editorialmente, tanto faz: ambos os modelos trazem diversas chamadas na capa. Mas essa parece muito mais atraente, não?

Recentemente, no dia 15 de maio, o jornal noticiou que uma temporada de tornados causou muitos estragos no estado  do Alabama. Em uma das edições do diário, a primeira página, novamente, decidiu Huntsville 15mai11chamar a atenção do leitor com uma foto impactante e uma arte incomum, com muita beleza.

Primeiro, a notícia, na primeira página, literalmente continua a imagem. O parágrafo foi editado de tal forma que a primeira linha segue a base do tornado.

Mas há um segundo fato, bastante interessante para os padrões brasileiros.

A escolha do superintendente de ensino na cidade de Huntsville ganhou o topo da primeira página daquela edição de domingo, indicando a importância da notícia para a comunidade local.

É possível imaginar, caro leitor, uma notícia similar, a respeito da escolha do secretário municipal de educação de qualquer cidade brasileira, na capa de algum jornal local?

Antes e depois: uma das mais básicas regras do jornalismo, executada com fotos e eficiência

Uma das mais básicas regras do jornalismo é confrontar tempos diferentes: passado, presente e futuro. O “antes e depois” funciona, dá noção ao leitor do tamanho da mudança e da novidade, informa fácil.

Antes e depois 2 O jornal O Estado de S. Paulo, dia 30 de janeiro, colocou essa regra elementar em prática com muita maestria. A reportagem analisava o resultado de uma política pública da prefeitura de São Paulo cujo objetivo é retirar camelôs sem autorização das ruas da capital com auxílio de um contingente significativo de policiais militares, que passam a ganhar um dinheiro extra do município para trabalharem nos horários de folga.

Par amostrar facilmente o leitor sobre os efeitos da operação municipal, o jornal resgatou nos bancos de fotografias imagens antigas de locais da capital paulista repletas de camelôs. A partir dessa pesquisa, indiciou ruas e praças que os fotógrafos do diário deveriam fazer fotos atuais, buscando o clique a partir do mesmo ângulo das imagens antigas. O resultado ficou bastante satisfatório, já que texto algum conseguiria exprimir a dimensão da transformação ocorrida.

Antes e depois 1

Alguns jornais conseguem fugir das regras convencionais para preencher bem as capas

A edição de domingo, dia 26 de setembro, do The New York Times, não deixou passar a oportunidade de trazer para a capa do jornal uma bela foto e uma notícia interessante, mesmo que não esteja entre as mais importantes para o público norte-americano.

O jornal escancarou bela foto, mostrando detalhes arquitetônicos de uma construção em uma nova cidade que está sendo erguida próxima de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A extravagância está na promessa dos planejadores, que prometem a primeira cidade do mundo com emissão nula de carbono. A arquitetura e a engenharia misturam aspectos modernos, ambientalmente corretos e também milenares – a nova cidade será murada, como os antigos núcleos habitacionais séculos ou milênios atrás.

NY Times zero carbon

A opção não elimina a necessidade  de informar, já na capa, assuntos importantes no dia a dia dos leitores e cidadãos – principalmente pautados pela economia e pela política, segundo ponto de vista majoritário dos editores. As disputadas entre partidos políticos e entre instituições públicas ocupam a manchete principal.

Em artigos anteriores, o Café Expresso trouxe exemplos e argumentos diferentes para sustentar a mesma tese. Os jornais deveriam usar fotos atrativas, assuntos inusitados, para trazer para a leitura de jornais públicos que muitas vezes preferem outras mídias, como internet, rádio ou televisão. Os jovens, principalmente. Esses ingredientes, muitas vezes, estão presentes em matérias frias, aquelas que não têm muita força para interferir nos principais fatos da agenda econômica, política  e social e que podem ser publicadas em qualquer dia, sem prejuízo ao tema. Mas podem atrair o leitor que procura dicas, estilo de vida ou assuntos menos cansativos e sérios. A capa de jornal é uma vitrine que não pode ser desprezada.

Correio capaNo Brasil, no mesmo dia em que o diário nova-iorquino trouxe com uma bela foto na capa a história da primeira cidade mundial com emissão zero de carbono, o Correio Braziliense deu visibilidade, ao mesmo estilo, à história da cearense Maria Nasaré Nunes, que trocou a depressão pelo hábito de caminhar diariamente e acabou se transformando em maratonista premiada inúmeras vezes.

A idéia do jornal é premiar o exemplo de superação e, com isso, tentar fisgar pessoas que se identifiquem com tais princípios ou que conheçam amigos na mesma situação do personagem relatado. Bola dentro.

Veja mais:

1) Infográfico do The New York Times explica aspectos da arquitetura e da engenharia adaptados à conservação do meio ambiente na nova cidade que surge perto de Abu Dhabi.

2) Além da foto da capa do jornal, portal do The New York Times também traz outras fotos-legendas (outra neurose do Café Expresso) explicando preocupação e função de detalhes paisagísticos e urbanísticos da primeira cidade com emissão zero de carbono.

No jornalismo, relembrar é obrigação, mas sem superficialidade

Relembrar é viver, prega a velha máxima. No jornalismo, é uma obrigação. Dificilmente os fatos encerram-se no momento em que aconteceu – carregam consequências e exigem novas ações e atitudes no futuro. Quando envolve somente agentes privados, pessoas e empresas, vale ao jornalista relembrar a notícia para verificar se a sociedade aprendeu com erros cometidos ou se repetiu acertos. Quando há o poder público envolvido, a tarefa é verificar se as medidas corretivas e preventivas foram adotadas, já que que o governo é nada mais que o zelador dos bens e recursos de todos.

Bem fez, então, a Folha de S.Paulo ao relembrar o que tem feito pessoas comuns e administração pública municipal para remediar e evitar as inundações e as perdas materiais no Jardim Pantanal, Zona Leste da cidade de São Paulo, derivadas dos problemas ocorridos durante meses de chuvas fortes e atípicas que causaram enchentes e muito transtorno na capital paulista.

A reportagem recupera a frustração da famílias que perderam mobiliário e expectativa de receberem dinheiro do poder público, na medida em que se vêem como vítimas da inação do poder público. Do outro lado, a prefeitura caminha para retirar do local moradores que invadiram áreas, se é que será possível detectar tal comportamento, e investe na construção de um dique e de um piscinão.

3jul Jd Pantanal O ponto forte dessa matéria do jornal é tentar contar o fim da história de fatos amplamente abordados poucos meses atrás – considerando que as chuvas fortes na capital paulista ocorreram entre os últimos meses de 2009 e os primeiros de 2010.

Peca, no entanto, por tratar o tema de forma superficial, dramatizando de forma pasteurizada o cotidiano das famílias e relegando ao papel de coadjuvante as ações do poder público para todo um bairro. Diante da dimensão do acontecimento, importa mais a foto panorâmica que permita visualizar a permanência da devastação do que a imagem fechada de um casal na soleira da porta. Importa mais trazer dados que dimensionem a quantidade d famílias prejudicadas e os gastos do poder público do que a descrição dos móveis dentro de uma casa ou das atividades informais que um comerciante pratica para auferir renda.

O erro jornalístico no caso é superdimensionar o drama de forma artificial e tentar criar empurrar o leitor para uma percepção sem dar a ele a chance de comparar e tirar as próprias conclusões. Sem dúvida que cabe e é imprescindível a narração das dificuldades das famílias que ainda moram no local, mas não deve ser o começo, meio e fim da matéria.

Há perguntas demais sem respostas para permanecer somente na superfície do drama. Como viviam essas pessoas antes das enchentes? Será que a população local já não vivia de atividades informais antes? Será que a família que perdeu móveis é diferente dos milhares de pessoas que vivem a mesma situação depois de enchentes? Qual era a infraestrutura o bairro antes e depois das fortes chuvas? A remoção das famílias para locais sem risco é algo juridicamente, financeiramente e fisicamente possível? Ou apenas engambelação?

No fundo, talvez tenha faltado método e discussão para ajudar a equipe de reportagem a ir para as ruas com uma lista mínima de dados essenciais para serem colhidos e tornar bem-sucedida a boa pauta jornalística. Há muita pergunta sem resposta para dar superexposição para o velho e mascado retrato da família pobre em situação de sofrimento.

Para saber mais: De volta ao Pantanal, reportagem (só para assinantes do jornal Folha de S. Paulo ) que busca relatar como está o bairro Jardim Pantanal, um dos mais prejudicados com as mais recentes enchentes de Sâo Paulo.

Os mesmos comes e bebes, mas com receitas bem inovadoras. Que tal fazer essa festa junina?

O caderno Paladar, do jornal O Estado de S. Paulo, inovou novamente na pauta. A idéia era, a partir dos mesmos ingredientes tradicionalmente utilizados para os comes e bebes das festas juninas, propor receitas totalmente inovadoras com a ajuda de chefs de cozinha e sommeliers (especialistas em bebidas) de restaurantes renomados.

Paladar1 A equipe do jornal se preocupou com as receitas. Os leitores adoram reportagens de oferecem os procedimentos, o passo a passo, os caminhos para eles aprenderem e fazerem algo sozinhos.

E as receitas eram inovadoras: sorvete de pipoca doce, pé de moleque de chocolate com rapadura e castanha em vez de açúcar queimado e amendoim, raspadinha de quentão, pedaços de abóbora fritos no formato de lascas gigantes de batatas chips, milho assado com cobertura de queijo meia cura ralado e derretido e depois salpicado com páprica doce (na foto).

A pergunta que fica é sempre a mesma: porque uma matéria tão inusitada, diferenciada, inovadora, com ótimas fotos, não ganhou a capa do jornal, com destaque, no topo?

Difícil responder. O assunto ganhou apenas um pequeno espaço na capa, um Paladar4 título minúsculo. Em vez de estourar a fotografia dos pratos diferenciados, a foto escolhida abordou uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) que debateu sanções ao Irã – um assunto tão importante no contexto mundial quanto distante do leitor brasileiro, sem utilidade prática alguma para ele, por mais que o governo federal esteja tentando mediar uma negociação entre os envolvidos na discussão.

As festas juninas, mesmo nestas semanas de Copa do Mundo, serão realizadas por famílias, vizinhos, escolas e comunidades inteiras. Já que é uma prática comum, as pessoas certamente gostariam de aprender novidades e inovar. E elas amam isso. Não é por acaso que se disseminaram no Brasil grandes redes varejistas de bricolagem – trabalhos manuais feitos em casa, na escola ou em qualquer lugar, seja por distração ou economia. Milhões de pessoas, mesmo que sem habilidade alguma, gostam de tentar fazer as coisas.

Paladar2 Por essas razões, as reportagens sobre receitas inovadoras para as festas juninas têm vários dos ingredientes que justificam uma exposição destacada na capa: uma bela e inusitada imagem, procedimentos e lições para as pessoas aprenderem a fazer com as próprias mãos e um assunto totalmente relacionado ao presente, ao momento atual.

Não é a primeira vez que o Estadão deixa de dar destaque, na capa, para uma reportagem bem feita do caderno Paladar. E também não é a primeira vez que o Café Expresso defende que reportagens que abordam temas frios – interessantes ou importantes, mas que não exigem publicação imediata – ganhem a primeira página dos jornais, com belas fotos e títulos atraentes. Nada mais, nada menos, pode ser uma enorme contribuição para aumentar a venda de exemplares nas bancas e atrair para a leitura de jornais grupos de pessoas que não têm o hábito de lê-los.

Reportagem mostra aquilo que deveria ser regra nos jornais de fim de semana

O jornal O Estado de S. Paulo superou expectativas na edição no caderno Aliás, que circula aos domingos com o objetivo de expandir e aprofundar o conhecimento a respeito de algum assunto que foi alvo da cobertura midiática durante a semana.

Considero a matéria uma exceção e perfeita para um modelo de jornalismo que deveria prevalecer nos fins de semana, com coberturas especiais e prazerosas. O jornal acertou também em chamar, na capa, a atenção do leitor. Achei muito interessante o conjunto da obra por três razões:

Aliás1 1) Tema. A partir do resultado de mais uma pesquisa eleitoral, realizada pelo Ibope e divulgada dia 22 de abril, o caderno Aliás decidiu analisar transformações na forma da opinião pública se expressar em tempos de velocidade supersônica na transmissão a informação e na múltipla variedade de plataformas para as pessoas expressarem as próprias opiniões, amplificando o imediatismo e facilidade. Até anos atrás, a voz dos cidadãos costumava ser ouvida somente em anos eleitorais. Agora, as pessoas podem emitir opinião imediatamente, tão logo aprovem ou desaprovem algum ato de um político ou autoridade pública.

2) Edição. Para ilustrar o impacto das redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut na comunicação e na difusão da opinião dos cidadãos, o jornal pediu que pessoas comuns escrevessem, em folhas de papel grandes, qualquer opinião. Qualquer mesmo. Em seguida, fotografou-as. O resultado foram fotografias do que poderia ser apelidado de um Twitter no papel, pois as mensagens tinham de ser curtas para caberem na folha. Frases do tipo “Quanto vale a sua saúde? Valorize o médico”, “Brasil é tão lindo quanto Portugal” e “Coma mais manga” retratam o que pensam ou desejam os autores, além de sugerir algumas informações sobre a história ou a profissão deles, por exemplo.

3) Pauta. Para debater o tema, a redação convidou Massimo Di Felice e Célia Retz dos Santos, sociólogos, que trouxeram pontos de vista interessantes sobre um assunto que raramente os leitores parariam para pensar.

Para saber mais: Veja extras do conteúdo elaborado para a cobertura feita pelo caderno Aliás no portal do Estadão. Um detalhe é importante: pelos créditos, percebe-se a atenção em fotografar e ouvir pessoas de várias localidades brasileiras. A abrangência nacional e a representatividade dada à pauta são fundamentais em uma reportagem que se propõe a avaliar o que pensa o povo brasileiro. Bola dentro!