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Novo projeto do ProPublica quer engajamento dos leitores para inspirar mudanças e consequências

O ProPublica, uma empresa jornalística bastante inovadora e investigativa, lançou uma iniciativa simples para envolver o leitor e colher dele contribuições que vão desde opiniões e informações para complementar matérias até sugestões e ideias.

A instituição quer que as reportagens tenham, como consequência, mais engajamento dos leitores e, dessa forma, aumentar as chances que as notícias e informações descobertas dos repórteres gerem mudanças – para melhor, claro – dos fatos mostrados.

Interrogações – A iniciativa recém-lançada e bem-intencionada, ainda terá de mostrar resultados. Praticamente todas as empresas jornalísticas têm ferramentas para envolver o leitor, seja com comentários ou pedindo a eles que comuniquem erros encontrados nas reportagens, até enviando fotografias e sugestões de temas que eles gostariam que as redações apurassem.

Quando pedir informações e dados para complementar as reportagens, terá de apurar as informações com repórteres suficientes. Para esse tipo de jornalismo, usa-se a expressão crowdsourcing, na qual as redações usam a “capacidade instalada” da audiência, ou seja, aproveitam a quantidade de pessoas disponíveis e as habilidades ou o conhecimento delas para ajudar no trabalho jornalístico.

GetInvolved

Curadoria de ideias – Pedir ideias e propostas aos leitores é muito interessante, mas exigirá que a redação eleja uma comissão de repórteres para atuar como curadoria das mensagens.

Além disso, os jornalistas terão de enviar as propostas para as autoridades ou responsáveis, acompanhar as consequências e dar uma resposta aos leitores. De nada adiantará se tal mecanismo se transformar apenas em mais um painel de comentários dos leitores.

Saiba mais:

Veja duas outras iniciativas do ProPublica que mostram a qualidade do trabalho jornalístico desenvolvido pela empresa. Uma matéria usa ferramentas de visualização de dados para mostrar facilmente como pensam os parlamentares norte-americanos a polêmica entre o direito constitucional de portar armas e o desejo de implementar leis que assegurem maior controle sobre elas.

Em outra investigação, autoridades federais dos Estados Unidos tiveram de determinar que companhias farmacêuticas informem quanto e como pagam médicos por atividades como pesquisa, consultoria, palestras, viagens ou simplesmente entretenimento.

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A jornalismo das multidões é modismo ou realidade?

O jornalismo com o apoio das multidões é um mito, um modismo ou uma realidade? Logo de cara, assumo que não tenho resposta conclusiva, mas tenho alguns palpites. Para mim, é uma realidade, mas desde que a tal da multidão seja composta por pessoas com passado e tradição de engajamento em alguma causa. Essa é uma ressalva muito importante.

23ago Eu Repórter Há casos de sucesso, outros nem tanto. E há formas e formas para atingi-lo. Os grandes veículos de comunicação, por exemplo, têm conseguido angariar a opinião dos leitores e ouvintes. Usam tais informações para pautar reportagens – ou até como espinha dorsal delas. Isso deriva de um fator importante. Os jornais, quando respeitados, têm uma clientela fixa e fiel, que o apóia e o ajuda, ainda mais quando é solicitada para isso e basta um e-mail para fazê-lo.

Bons exemplos – A pequena, mas interessante, reportagem de O Globo ajuda a exemplificar. A administração pública local atendeu à solicitação do munícipe, que desejava um conserto no asfalto. Mas, além do buraco, cobriu de piche também a boca de lobo pela qual escorrem as águas pluviais. Por sorte, o cidadão tinha feito registro fotográfico dos dois momentos: o do problema reclamado e o da solução dada pela prefeitura.

Outro exemplo, recente, é o projeto Chega de Queimadas, promovido por organizações ambientais, que conquistou o apoio de 150 mil internautas em dois dias. Pessoas, individualmente, enviaram relatos de locais e culpados por queimadas . Vale registrar que o Brasil passa por longo período de estiagem, com tempo seco e baixa humidade relativa no ar, ambiente propício para incêndios e destruição do patrimônio ambiental. Os autores usaram a tag (etiqueta) #chegadequeimadas na rede social Twitter, colocando o tema entre os mais comentados mundialmente em poucas horas após o início. Em seguida, o portal de notícias ambientais O Eco fez um mapa interativo das queimadas para indicar ocorrências a partir de relatos e fotos de leitores.

Fracasso – Nem todas as iniciativas ganham tamanha adesão.  Fiz uma experiência recente para testar o fenômeno do “crowdsourcing” – quando as multidões participam das reportagens como fontes e até autoras. Esse termo, na minha opinião, deve ser empregado para exemplificar aqueles casos nos quais as pessoas, individualmente, participam do fluxo da notícia, enviando sugestões e opiniões para uma pergunta feita por algum especialista ou por algum veículo de comunicação.

Escolhi, como método, o tema futebol, por ser um dos que mais recebem comentários de internautas em diversos blogs sobre esportes. Circunscrevi a abordagem: características dos serviços dentro e no entorno dos estádios. Delineei também quais os tipos de informações – vários – que os internautas poderiam conferir, pois nem todos conseguem imaginar que ajuda dar. Distribuí, em um domingo, dia de rodada do campeonato brasileiro, um aviso em diversos blogs que debatem futebol. Resultado: aproximadamente 400 acessos, mas somente dois comentários.

Fatores de sucesso? – Penso em fatores que influenciam o resultado. Minha audiência via blog e redes sociais não é grande. No entanto, espalhei a chamada para o exercício de jornalismo colaborativo sobre futebol em diversos blogs, que ajudaram a espalhar a iniciativa. Acredito que o torcedor de futebol e o ativista ambiental são internautas bastante diferentes. O primeiro é um apaixonado por consumir o produto e debater o tema. O segundo quer transformar a realidade e é também, da mesma forma, apaixonado pelo debate sobre o assunto.

As redes sociais podem ajudar a atingir objetivos – mas sem ilusões

Com a profusão de pessoas usando redes sociais para tudo quanto é fim, não foram poucas as vezes que me perguntaram como usar tais recursos para melhorar a performance daquilo que as pessoas se propõe a fazer no Twitter (que é o caso mais comum).

Internautas dos mais variados perfis, que usam o Twitter para finalidades diferentes, vez ou outra procuram por dicas sobre como atingir mais pessoas, ter mais interação e, desta forma, obter um desempenho mais satisfatório com as redes sociais.

Casos reais não faltam: professores que querem se relacionar com alunos, jornalistas que precisam cobrir um seminário, turistas ansiosos por dicas de lazer durante visita a uma cidade. Sabendo usar, o Twitter pode ajudar.

Achei interessante as dicas de um professor assistente da USC Annenberg, escola de comunicação e jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles. Aproveito as dicas do autor e, em tradução livre, com pitacos próprios, seguem seis dicas:

1) Tão logo você decidir sobre o que precisa das pessoas conectadas ao Twitter, anuncie nele. Diga para qual palestra está indo, se tem alguém participando. Diga qual a sua dúvida, explique que busca por respostas. Repita as perguntas em diferentes momentos, sem exagerar.

2) Se estiver indo para uma palestra e quiser interação, avise quando chegar no local. Pergunte para aqueles que te seguem se há alguém no mesmo local. Peça para disseminarem seu comentário ou pergunta. Peça dicas, sugestões, questões.

3) Aja como uma agências de notícias para despertar o interesse daqueles que estão lendo o que você escreve. Em cada novo comentário, dê informações adicionais. Use múltiplos formatos, como texto, fotos e vídeos, quando aplicável. Aproveite sempre para pedir dicas e ajuda.

4) Não deixe de dar um retorno para aqueles que colaboram e para os que apenas lêem o que você escreve ou anuncia. Agradeça sempre. Ao perceber que há interação, outros podem decidir colaborar. Dê coordenadas para que todos saibam quando e como poderão ter acesso ao resultado do seu trabalho.

5) Evite, em todas as etapas, os exageros. Não repita os mesmos pedidos e informações a todo momento, sem critério. Evite comentários ufanistas quando receber colaborações simples ou costumeiras.

6) Use as tais hashtags (palavras que servem como ponto de referência na navegação pela rede social, que busca todos os comentários que tragam essa palavra e ajudam os leitores a lerem tudo o que foi escrito sobre um evento ou assunto). Geralmente, são precedidas do símbolo #.

Ouvir e colher a opinião das multidões (em inglês, usa-se o termo crowdsourcing), acima de tudo, precisa ser feito com critério. Nem toda opinião alheia é valiosa. Nem toda informação ou dica é verdadeira. Assuntos banais podem ser debatidos por pessoas comuns, mas temas específicos geralmente exigem especialistas ou alguém com alguma experiência. Se qualquer um pode comentar sobre a qualidade da organização do congresso, nem todos conseguem opinar com propriedade a respeito dos temas debatidos.

O uso de redes sociais para colher a opinião das multidões e melhorar o desempenho daquilo que você se propõe a fazer nem sempre dá resultados. Vejo duas razões:

1) Modismo. Como tudo na internet, há um momento de pico seguido por outro de esquecimento. Rede social, opinião das multidões e outros tantos termos no mundo dos internautas podem estourar quando surgem e parecer algo revolucionário. Tudo na internet parece revolucionário inicialmente. Mas boa parte desaparece rapidamente.

2) Futilidade. Outra questão é que enquanto milhares de pessoas gastam tempo comentando um assunto que envolve celebridades, somente um ou dois podem se empenhar em compartilhar o conhecimento próprio em um comentário valioso. A proporção é mais ou menos essa.

As pessoas comuns têm poder de guiar a cobertura da imprensa? Parece que sim

Fotoleitor3As multidões ganham cada vez mais atenção e espaço na cobertura da imprensa. O fenômeno pode ser explicado por uma palavra na língua inglesa: crowdsourcing. Mais do que serem fontes primárias das notícias, as multidões passam a ser produtoras dessas informações. Na minha opinião, um bom texto para explicar essa mudança de prisma na produção jornalística – claro, trata-se de algo incipiente, mas nem por isso desprezível – foi feito por Carlos Castilho. Cito uns trechos para exemplificar:

– Cresce cada vez mais o número de jornais que buscam na aproximação com o leitor a fórmula para encontrar sair da crise em que as publicações impressas estão mergulhadas.

– Na comparação um a um, é claro que um jornalista sabe mais do que um leitor. Mas se tomarmos em conta que os leitores são milhares ou milhões, fica fácil entender que não há profissional no mundo, por melhor que ele seja, capaz de ter um conhecimento individual superior ao da soma dos conhecimentos dos seus leitores. Até agora, os leitores estavam isolados por falta de ferramentas capazes de transformá-los numa multidão dinâmica e interativa.

– A internet operou este milagre, e o público passou a poder manifestar-se de forma coletiva e interativa. É o que os especialistas chamam de crowdsourcing (as multidões como fonte de conhecimento).

Tentar entender esse fenômeno é algo fascinante, pois trata-se de algo ainda em construção. Não creio que as multidões substituirão a produção da imprensa como a conhecemos. Acredito que as pessoas comuns – o que costumo chamar de sociedade civil desorganizada, em contraponto à organizada, na forma de ongs e instituições diversas que costumam ser ouvidas pela imprensa de forma mais rotineira – terão uma função colaborativa para a imprensa.

As pessoas comuns poderão guiar a cobertura da imprensa. Foi o que aconteceu durante a correria dos profissionais de Twitter Notícia em focojornalismo para fazer a cobertura de todos os acontecimentos derivados das chuvas e dos deslizamentos ocorridos nas cidades do Rio de Janeiro e de Niterói, no início de abril. Foi o que informaram Bette Lucchese (TV Globo), Marcia Menezes (G1) e Mauricio Martins (CBN Rio) em debate promovido pelo programa Notícia em Foco, da Rádio CBN, na noite do dia 12 de abril, com alguns trechos transcritos no Twitter.

A multidão ajudou os jornalistas responsáveis pela chefia de reportagem e pela pauta a dimensionarem o tamanho dos problemas que estão começando. Para o portal G1, os internautas enviaram cerca de 370 vídeos e 300 fotos, além de muitos e-mails. O jornal impresso O Globo recebeu mais de 700 fotos dos leitores.

11abr pg leitores GloboOuvir as multidões, as pessoas comuns ou a sociedade civil desorganizada passou a ser uma alternativa para ativar o interesse da sociedade pelos jornais. Da mesma forma que alguém procura conhecer a opinião de outrem sobre algum serviço ou produto antes de comprá-lo, desejam ouvir a opinião de outros antes de darem a própria. Os jornalistas que são formadores de opinião ocupam papel relevante nesse convencimento prévio, mas as multidões passam a querer ouvir também as próprias pessoas comuns para formatar um ponto de vista.

O Globo tem sido pioneiro em dar mais espaço para as opiniões das pessoas comuns que escrevem ou enviam material para o jornal. O colunista Ancelmo Gois, usualmente, utiliza imagens enviadas pelos leitores na coluna diária que produz – e complementa cobrando as autoridades públicas, dependendo do assunto. O mesmo diário adotou uma diagramação em diversas matérias – e inclusive na capa, em algumas oportunidades – pela qual reproduz a opinião de um leitor entre aspas, com letras maiores, em destaque no meio da reportagem, como mostra a notícia 13abr Arrudaao lado, sobre a decisão do STJ de soltar o ex-governador do Distrito Federal. Há cerca de um mês, inovou mais uma vez, oferecendo diariamente uma página inteira para publicar a opinião que as pessoas comuns enviam ao jornal. O concorrente que mais se aproximou de algo com esse objetivo – Folha de S.Paulo – ampliou o famoso Painel dos Leitores em meia página, mas somente aos domingos.

FotoleitorNão raramente as fotos e informações dos leitores pautam a cobertura da imprensa, como mostram estes exemplos de O Globo ao lado, sobre o desrespeito de carros que sobem nas calçadas e sobe goteiras dentro dos trens. A diferença entre ter uma foto ou informação publicada em um jornal de grande circulação ou em um blog próprio é que, no primeiro caso, a publicação é precedida de uma averiguação, de forma que os fatos possam ser comprovados, expandidos ou contrapostos.

Fotoleitor2  A participação das pessoas comuns na produção do jornalismo diário terá sempre de ser aceita com cuidado, para que a imprensa não seja utilizada para a prática do contra-jornalismo ou tentativa de alguns de difamar ou denunciar adversários sem provas. Mas, se bem conduzida, tende a dar mais criatividade, abrangência e foco em notícias locais que muitas vezes os grandes jornais, por causa do próprio gigantismo, não conseguem abordar.