Arquivo da tag: corrupção no mundo

Toda história tem de ter um fim – principalmente no jornalismo

Uma das críticas costumeiras que as pessoas fazem para a imprensa é a capacidade que a mídia tem de mudar de direção e esquecer um caso – até então, extremamente importante – tão logo surja outra história tão ou mais devastadora. É comum notar que um caso sobre corrupção é rapidamente esquecido quando outro aparece. Sim, a mídia é volúvel com suas histórias.

Dia 4 de abril, o jornal Folha de S.Paulo resgatou um caso que ganhou bastante audiência e notoriedade: a Máfia dos Sanguessugas. O gatilho que atiçou a memória da redação foi o aniversário de cinco anos da história, já que em 4 de maio de 2006, a Polícia Federal deflagrou uma operação para combater desvio de verbas públicas federais na compra de ambulâncias por autoridades municipais.

FSP Sanguessugas Antes de tudo, o jornal merece elogios. Foi o único, entre todos os mais importantes da mídia de circulação nacional, que lembrou de aguçar a memória dos leitores.

Atualizou para o público o rumo do julgamento dos envolvidos no escândalo e mostrou que, até o momento, somente um dos envolvidos foi punido criminalmente – que é o que interessa para combater a impunidade.

Problemas – A crítica que a imprensa merece é a capacidade de esquecer facilmente dos casos que descobre. Toda história precisa ter um fim – principalmente no jornalismo. Lançar os casos de corrupção e deixar de acompanhá-los semanas depois, independentemente dos motivos, somente aumenta a sensação de impunidade que a sociedade tem com relação à punição de casos de corrupção.

Manter os principais casos de corrupção atualizados para o público, independente da plataforma que a notícia será distribuída, custa caro. Jornalismo tem um custo e as empresas de mídia ainda não conseguiram fechar as equações para tornar rentáveis as inúmeras oportunidades diante delas. As redações estão cada vez mais enxutas e que a velocidade de circulação das informações aumentou a carga de trabalho dos profissionais.

Saídas para o impasse – Talvez a solução seja a reorganização da pauta das redações – deixar um pouco de lado a cobertura cotidiana dos atos oficiais de centenas de órgãos e autoridades do poder público que vivem apresentando frases de efeito e factóides para ganhar espaço na mídia e passar a produzir conteúdo direcionado ao que pode interessar à audiência.

As grandes empresas de mídia poderiam orientar as equipes para produzirem uma matéria especial por semana para relembrar algum caso de corrupção e atualizar as informações para a audiência. Contar o final das histórias esquecidas – sejam casos da economia, da política ou sobre corrupção – certamente faz parte do grupo de interesse dos consumidores de notícias.

Para saber mais:

1) O Museu da Corrupção é um portal que tem o objetivo de ser um receptáculo dos casos de mal versação dos recursos públicos. De uma maneira bastante humorada e interativa, é possível relembrar os principais escândalos com um nível de atualização até razoável. Vale a pena conferir.

2) O Wikipédia traz uma lista relativamente grande dos principais casos de corrupção que estouraram no Brasil nas últimas décadas. Para alguns itens, há boa descrição da história e até boa atualização. Como é sabido, o Wikipédia é escrito por voluntários, mesmo que haja algum tipo de supervisão. Dependendo do uso que se pretende, é fundamental checar os dados.

3) O Café Expresso produziu um texto recentemente analisando dados estatísticos sobre a evolução do Brasil nas listas que apontam as nações mais e menos corruptas. Você acha que vale a pena relembrá-lo?

Brasil patina há mais de uma década no desafio de reduzir corrupção

No mais recente atlas da Transparency International, organização que monitora o nível de corrupção no mundo todo, o Brasil, invariavelmente, não ocupa uma boa posição.

A organização consegue, a partir de um conjunto de pesquisas (entre 3 e 13 em cada país, dependendo da quantidade de fontes disponíveis em cada ano), avaliar qual é o nível de corrupção percebida.

O indicador oferece muito espaço para o debate. A partir de pesquisas de opinião e outras qualitativas, tenta medir o nível de percepção que a sociedade local tem sobre a corrupção no país onde vive ou negocia.

Não creio ser possível avançar muito mais que isso. É praticamente impossível determinar quais são os países nos quais há mais corrupção a partir da medição da quantidade de dinheiro desviado ou de propinas pagas.

A posição do Brasil – Entre 178 países, o Brasil se situa no pelotão do meio, no 69° lugar, com outras três nações. Toda a imprensa deu destaque para a lista dos mais e menos corruptos. Há menos corrupção por aqui do que em Vanuatu, que vem logo atrás. da mesma forma, há mais corrupção aqui que em Ruanda, na África.

Tão importante quanto a posição que o Brasil ocupa é saber quais posições ele ocupou no passado. Só assim é possível saber se houve retrocesso ou avanço.

Segundo os parâmetros da pesquisa, quanto mais próximo de 10, menor é a corrupção percebida no dia a dia nos países. Mais próximo de zero, o ‘toma-lá-dá-cá’ corre solto.

Desde 1995, quando as pesquisas começaram a ser feitas pela Transparency International, depois de melhorar significativamente entre 1995 e 1999, o país passou a patinar no combate à corrupção, mostram as estatísticas.

Corrupção no Brasil

Coloquei os dados no Tableau Public, ferramenta gratuita que permite inserir planilhas de dados e visualizá-los em gráficos. Achei que o velho e simples gráfico em formato de colunas mostraria bem a estagnação do Brasil no combate à corrupção.

Brinque com o gráfico – Quem quiser, pode verificar lá como os 178 países evoluíram ou regrediram. A ferramenta permite interação. Os interessados podem copiar a tabela de dados, clicando em ‘download’.

Montar a tabela deu um trabalho enorme. Coletei a tabela principal de todas as edições disponíveis da pesquisa anual da Transparency International, de 1995 até 2010 .

Depois, organizei os dados em uma planilha de forma que pudessem ser comparáveis, linha por linha. Muitos países entraram na pesquisa somente nas edições mais recentes. Para outros, faltam dados em pesquisas intermediárias.

Se alguém que for craque na arte de criar infográficos e visualizações, fique à vontade para refazer e melhorar.