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É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos?

Em regra geral, é a informação, e não a lei, que muda drasticamente e de forma perene os hábitos das pessoas. Quer um exemplo simples? A Universidade de São Paulo (USP) divulgou pesquisa mostrando que os os semáforos que informam ao motorista o tempo restante para a troca de cor – vermelha ou verde – ajuda a prevenir acidentes de trânsito. Fácil: ao saber que poderá cruzar a rua em cinco segundos, o motorista não arrisca atravessar no sinal proibido.

No mundo todo, em muitos casos, governos têm ampliado a transparência, divulgando pela internet, gratuitamente, bancos de dados com informações cruas de diversos serviços públicos. A intenção é que programadores e desenvolvedores possam transformar dados em serviços úteis às pessoas.

Exemplos – Imagine saber em quais hospitais há maior incidência de mortes ou infecções hospitalares, em quais ruas e bairros há mais casos de roubos e assaltos, em quais localidades há grande ou pouca ocorrência de enchentes, quais os planos de saúde com mais reclamações dos segurados.

No Brasil – e na América Latina, em geral – não há nenhum indício de que os administradores públicos estejam interessados em seguir o mesmo caminho. Estatísticas públicas podem comprometer. Por isso, são guardadas na gaveta.

Princípio – Essa visão mesozóica é ruim. Como disse tempos atrás Tim Berners-Lee, considerado um dos criadores da internet, “dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.”

De outro, a informação pode se transformar em serviços úteis para os cidadãos prevenirem acidentes, assaltos e fazerem melhores escolhas. Novas empresas que desenvolvem novos serviços em cima de tais informações públicas criam mais empregos, geram mais valor e conhecimento.

Safety products E novos exemplos continuam a aparecer no hemisfério norte. O jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo federal disponibilizará milhares de dados de um sistema de reclamações de consumidores sobre problemas de qualidade e segurança de produtos vendidos no varejo.

Os defensores dos consumidores de lá aplaudem o poder repentino que as pessoas passam a ter na hora de fazer compras. As empresas que estão no banco de dados dizem não se opor à iniciativa, mas acusam que várias reclamações não deveriam constar no banco de dados porque os problemas não existiram.

Melhores escolhas – Mas é inegável: se um produto está causando dor de cabeça a centenas de consumidores, é importante que as pessoas tenham informação para fazerem as próprias escolhas diante das gôndolas, independentemente de quem for a culpa.

O Brasil, mesmo tardiamente, como de costume, terá de aderir ao movimento de transparência – conhecido lá fora como “open data movement”. Algo já ocorre com dados de orçamentos públicos, na medida em que cresce a pressão para que sejam disponibilizados na internet para fácil consulta. Mais informação significa mais oportunidades das pessoas fazerem melhores escolhas. Se os bancos de dados com informações públicas existem, precisam  ser divulgados. Se não existem, precisam ser criados.

Para saber mais:

Veja outras matérias e mais exemplos sobre o mesmo assunto. 1) Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham. 2) O criador da internet começa a dar novos usos à própria criação.

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Famílias mais pobres gastam R$ 6 por mês com educação. As mais ricas, R$ 410

Para quem gosta de escarafunchar estatísticas, há milhares de dados recém-saídos dos fornos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito do orçamento familiar. São informações que revelam como o brasileiro gasta a própria renda.

A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) é abrangente e traz dados sobre o gasto das famílias por diversas clivagens, como faixa de renda, anos de estudo e por regiões. Um prato cheio para jornalistas e estudiosos, que gostam de lidar com amplos bancos de dados, com o objetivo de extrair boas pautas com belas infografias, mas é preciso entender ou se esforçar para compreender os dados. Saber “ler as tabelas” corretamente é fundamental.

Seguem algumas constatações, a partir de uma rápida leitura feita em algumas tabelas:

– A habitação é ainda o principal peso na renda das famílias mais pobres do Brasil, cuja renda total (incluindo todos os integrantes da família que tenham algum tipo de rendimento) é de até R$ 830. Esse perfil de família gasta, em média, 37% da renda com despesas ligadas à moradia. Já os mais ricos, cuja renda familiar soma mais de R$ 10.375 por mês, gastam 22,8% da renda com itens referentes à moradia, o que também não é pouco.

– As famílias mais pobres gastam 8,8% da renda com serviços como energia elétrica, telecomunicações, gás, água e esgoto. Os mais ricos desembolsam 3,9% da renda da família com tais itens, todos os meses. A diferença é que os 8,8% da renda dos mais pobres significa uma fatura mensal de R$ 65,26 por mês, em média. A fatura dos mais ricos custa R$ 549,86 por mês, em média.

– Apesar de o Brasil já ter mais de 190 milhões de linhas de telefone celular em circulação e este serviço ter grande penetração entre as famílias mais pobres, a fatura paga todo mês é quase insignificante para as operadoras. Os integrantes de famílias cuja renda conjunta não ultrapassa R$ 830 por mês podem até ter aparelhos celulares no bolso, mas, juntos, pagam R$ 5,84 por mês pelo consumo de chamadas telefônicas celulares. Já as famílias mais ricas pagam uma fatura mensal de R$ 133,47, em média.

– Educação é um item que ganha bastante atenção na cesta de consumo das famílias. Quanto maior a renda, mais destaque para o gasto com cursos diversos, incluindo de nível superior. As famílias mais pobres desembolsam, em média, 0,9% da renda mensal com educação, enquanto as mais ricas gastam 2,9% por mês. Em reais, essa fatura mensal representa R$ 6,83 (mais pobres) e R$ 409,31 (mais ricas).

Este último dado não significa que os mais pobres não estudam. Eles estudam, mas em escolas públicas, com as já conhecidas diferenças na qualidade do ensino. Como é sabido, é a educação – e não o consumo de energia ou de alimentos – que move a roda da fortuna da ascensão social. Como diz um ditado italiano, dinheiro faz dinheiro, piolho faz piolho.

Qualidade da água: nos EUA eles já sabem como é. E no Brasil?

Deu no The New York Times: desde 2004, mais de 49 milhões de americanos receberamm água com qualidade inferior do que determina lei federal. A descoberta foi feita por um jornalista do próprio jornal que analisou informações de um banco de dados federal. Boa parte da população vem consumindo água com concentrações de arsênico, substâncias radioativas ou bacterías encontradas em esgoto. O órgão regulador dos serviços, mesmo informado de todos os casos irregulares quando eles ocorreram, aplicou multas ou punições para somente 6% deles. Sim, estamos falando dos EUA.

NYT qualidade da água

Lá, eles têm um órgãos regulador federal, que disciplina algumas responsabilidades para 54.700 sistemas de águas. Aqui, no Brasil, não há um órgãos regulador federal, mas sim poucas agências reguladoras estaduais ou municipais, que começaram a surgir, principalmente, depois da sanção de uma lei federal que estabeleceu diretrizes federais. A ANA – Agência Nacional de Águas – brasileira não tem as mesmas incumbências da EPA – Environmental Protection Agency – dos Estados Unidos, mas exerce algum papel similar.

Que tal a imprensa analisar a qualidade da água nos estados brasileiros? Difícil será achar dados. Há alguns dados disponíveis. A ANA lançou ontem, dia 8, o Atlas de Abastecimento Urbano de Água. O documento revela as condições dos mananciais e sistemas de produção em 2.965 cidades do país, das quais 1.896 requerem investimentos em água (que somam R$ 18,2 bilhões) e 1.517 precisam de investimentos em tratamento e coleta de esgoto (R$ 23 bilhões). São dados quantitativos, mas já são um início.

Outra fonte pode ser o SNIS (Sistema Nacional de Informações de Saneamento). Infelizmente, só apresenta informações quantitativas e, mais infelizmente ainda, é preenchido pelos próprios operadores de água e esgoto, o que pode colocar em risco a confiabilidade dos dados. Mas também é parte do início de uma apuração. A apuração, além disso, pode dar relevância ao fato de que a população não tem à disposição indicadores públicos que assegurem a qualidade da água que sai pela torneira de cada residência brasileira.

Milhões de brasileiros tomam água da torneira porque confiam na qualidade da água entregue pela rede de distribuição. Essa confiança merece uma boa reportagem para prevalecer ou ser abalada definitivamente.

Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham

Muitas cidades norte-americanas – como São Francisco, Nova Iorque e Washington – estão à frente de uma iniciativa pra lá de inovadora. Chama-se ‘open data movement’. Os governos municipais estão abrindo bancos de dados públicos para programadores e web designers criarem aplicativos que possam ser transformados em serviços à população. A idéia é que as informações, costumeiramente chatas e até incompreensíveis, passem a ser acessíveis e úteis para as pessoas comuns após o trabalho dos profissionais de programação e design. 

Uma reportagem na edição de hoje (7 de dezembro) do Stumble SafelyThe New York Times mostra muitos exemplos bem-sucedidos. Em Washington, um site mostra a rota mais segura para voltar para casa dos bares à noite. Em São Francisco, um portal mostra resultados de inspeções sanitárias em restaurantes enquanto outro site combina informações de escolas, livrarias e restaurantes de forma que os pais podem planejar atividades extra-classe para os filhos ou analisar o melhor valor nutricional para as refeições que eles fazem fora de casa. As pessoas conseguem perceber o que está acontecendo á volta delas.

No Brasil, o poder público local – diga-se, prefeituras – FSP SP RJnão tem comportamento de oferecer informações úteis nem quando questionadas ou forçadas. Recentemente, Belo Horizonte começou a expor informações referentes ao mapa de criminalidade da cidade na internet para que os cidadãos possam ter acesso àquilo que as autoridades já têm. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro descaratam tal iniciativa.

O que querem as autoridades municipais ao entregar bancos de dados públicos para desenvolvedores de aplicativos, uma tendência que ganhou o nome de ‘open data movement’? Elas apostam na criatividade dos desenvolvedores de aplicativos para estabelecer uma nova forma de entregar serviços da administração pública aos cidadãos.

É uma forma também das pessoas saberem o que está acontecendo nas redondezas de onde moram e avaliarem o desempenho dos prefeitos, mesmo que os mais céticos estejam se perguntando se há outras intenções por trás desse exercício de transparência repentino das autoridades, que historicamente preferem esconder dados constrangedores. 

São Fco CrimesSpotting A diferença entre a iniciativa das cidades norte-americanas e da de Belo Horizonte é que enquanto as de lá oferecem os bancos de dados para que profissionais trabalhem neles, mesmo que de forma controlada, a da capital mineira oferece um produto pronto. Seria interessante se as prefeituras brasileiras começassem a abrir os bancos de dados com informações públicas para programadores – e também jornalistas – trabalharem tais informações e oferecerem serviços para a sociedade.

Reportagens que valem a pena ler e guardar

Estadão e Folha de S. Paulo trouxeram, recentemente, dois bons exemplos de CAR (computer assisted reporting). No primeiro caso, aFSO 11nov a repórter Renée Pereira, especializada na cobertura de infraestrutura, descobriu que uma parte considerável dos já insuficientes recursos reservados pelo governo federal para investir em novas obras são devolvidos ao Tesouro Nacional por incapacidade da máquina pública de gastar o dinheiro. No segundo, o repórter Eduardo Scolese, acostumado a acompanhar as idas e vindas da política e da gestão das políticas públicas em Brasília, cruzou dados de duas fontes diferentes para descobrir que cidades que mais desmatam apresentam melhora momentânea na economia local, mas os índices  de atendimento em saúde e educação pioram.

Da forma como foram feitas, as duas reportagens são boas aulas de jornalismo. Primeiro, porque evidenciam a vontade dos repórteres em revelar fatos a partir dados mensuráveis e de novas abordagens, além das fontes oficiais. Segundo, porque deram ao leitor um bom retrato de assuntos que estavam na agenda do dia – investimento em infraestrutura e desmatamento. Por fim, com evidências nas mãos, ofereceram às fontes usualmente entrevistadas – autoridades governamentais, líderes empresariais, acadêmicos e organizações ambientais – a oportunidade de analisarem e opinarem em cima de fatos concretos. Gráficos e infografias facilitaram o entendimento por parte do leitor. As duas matérias, merecidamente, saltaram para as respectivas capas dos diários.

Na Folha de S. Paulo, Scolese analisou um banco de dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que lista, em números, a área desmatada nos municípios brasileiros. Organizou-o de acordo com os mais desmatadores. Depois, cruzou as informações com outro banco de dados, desta vez da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), que enumera indicadores de desenvolvimento social – educação, saúde, emprego e renda – em todas as cidades brasileiras. Ambos os bancos de dados analisam o período de 2000 a 2006, o que permitiu grandes descobertas que podem ser lidas na reportagem publicada no dia 11 de novembro de 2009, dois dias antes do governo federal anunciar, com festa, o menor índice de desmatamento da história do País.

Já Renée organizou um banco de dados colhendo informações que lhe interessavam do Siafi (Sistema Integrado de OESP 13novAdministração Financeira), disponibilizado pelo Tesouro Nacional. A intenção era verificar como estava a execução do orçamento de investimentos dos ministérios federais responsáveis por obras de infraestrutura. Descobriu que, entre 2004 e 2008, o governo federal deixou de investir R$ 20 bilhões em novas obras, pois só conseguiu reservar para gasto R$ 52 bilhões de um orçamento de R$ 72 bilhões aprovado pelo Congresso Nacional para o setor no período. Publicada no dia 13 de novembro, no auge da cobertura da imprensa sobre as causas de consequências do maior blecaute de energia elétrica da história brasileira, a matéria mostrou que, mesmo quando há recursos, o poder público não consegue gastá-los integralmente.

Pela vanguarda e ineditismo, ambas as reportagens merecem ser lidas e guardadas.

Imprensa prova que pode melhorar a sociedade

Poucas autoridades públicas conseguem manter uma convivência profícua e transparente com a imprensa, o que inclui saber reconhecer problemas existentes e reportados pela mídia. O próprio presidente da República já demonstrou inúmeras vezes antipatia com os jornalistas. Já disse que não lê jornais nem revistas porque isso lhe dá azia. Já disse que aconselha a todo presidente se manter longe de jornais nos fins de semana. Já disse que formadores de opinião da imprensa estão em extinção. Já disse diversas outras coisas. Mas, dia após dia, a imprensa vem mostrado força e importância em ajudar a transformar o País em algo melhor.

Recente exemplo pôde ser conferido na última quinta-feira, dia 12 de novembro. A quantidade de parlamentares trabalhando normalmente na Câmara de deputados foi maior. Isso só foi possível porque o jornal O Globo flagrou dezenas deles usando de uma artimanha antiética para burlar o dia de trabalho sem desconto em folha de pagamento no fim do mês. Aproveitavam que o painel de presença era aberto uma hora antes das sessões plenárias para, antecipadamente, sem alarde, registrar presença e logo em seguida ir para o aeroporto para viajar para os respectivos estados.

A matéria causou constrangimento e forçou a presidência da Câmara a corrigir, por regra, os desvios de comportamentos dos parlamentares. Agora, o painel de presença só é aberto na hora em que a sessão é iniciada, às 9h. Antes, abria uma hora antes.

Vale lembrar que matéria recente publicada na Folha de S. Paulo mostrou que os consumidores pagaram a mais e indevidamente, por sete anos, pela conta de eletricidade. As autoridades foram forçadas a explicar a falha e indicar alternativas ou pretensões para resolver o problema.

Bem feito, o jornalismo pode desvendar problemas e maus comportamentos de autoridades públicas e ajudar a transformar positivamente a sociedade e o meio político. Assuntos como esses são, sem dúvida, uma boa leitura de domingo.

Com boa pauta, jornais impressos dão espetáculo de jornalismo

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O Globo, 8 de novembro de 2009: fonte exclusiva, bom planejamento e enorme contribuição para melhorar a sociedade

É comum ler que o fim está próximo para os jornais impressos. Há muitas matérias chatas, baseadas no jornalismo declaratório ou oficial. As autoridades públicas sabem que muito daquilo que dizem acaba sendo publicado nos jornais no dia seguinte. Usam e abusam desse expediente. Os jornalistas, da mesma forma, sabem que acabam sendo reféns desse caminho unidirecional da notícia.

Algumas redações, no entanto, estão dando sucessivas provas do contrário aos apocalípticos. Uma rápida leitura pelos principais impressos brasileiros mostra que o jornal impresso está longe do fim. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, no dia 18 de outubro, que a quantidade de juízes investigados aumentou 653% em 2009 – e o ano ainda nem terminou. A punição máxima, quando há, no entanto, é a aposentadoria com direito ao salário.

Já a Folha de S. Paulo, dia 18 de outubro, divulgou que o brasileiro paga a mais pela conta de eletricidade há sete anos – inclusive, com conhecimento das autoridades. A matéria, de Agnaldo Brito, fez com que diversas instituições tivessem debater o problema e prometer publicamente solução à sociedade ao longo de duas semanas.

Selecionei mais dois casos do que considero jornalismo impresso revigorado. O jornal O Globo foi autor de duas das matérias que considerei mais atraentes e importantes para o cidadão. Na mais recente, em 8 de novembro, mostrou que deputados, que já se ausentam do Congresso nas segundas e sextas-feira para ‘atender as bases eleitorais’, agora também o fazem em dias ‘normais’.

Depois de receber uma dica, o jornalista Evandro Éboli e os fotógrafos Ailton de Freitas e Roberto Stuckert se posicionaram no plenário da Câmara dos Deputados e no aeroporto de Brasília para mostrar que diversos parlamentares chegavam bastante cedo, entre 8 e 9 horas, digitavam a senha de presença e seguiam depois para as cidades de origem sem risco de desconto no contracheque. Em uma quinta-feira, quase cem deputados foram flagrados nessa artimanha, fotografados registrando presença na primeira hora do dia no plenário e minutos depois já no aeroporto. Na Câmara, todos com expressão assustada. No aeroporto, sorrisos. A reportagem forçou líderes parlamentares e o pesidente da casa a darem explicações.

O Globo 25out post

Reportagem exclusiva mostra que carteira assinada é raridade em cidades com grande concentração de benefícios do Bolsa Família

No dia 25 de outubro, O Globo já havia publicado outra matéria interessante. Nas cidades com maior cobertura do Bolsa Família, emprego formal é raridade. Os repórteres Regina Alvarez e Sérgio Marques analisaram dados disponíveis em 85 dos 100 municípios com maior cobertura pelo programa, somando 1 milhão de habitantes e 259 mil domicílios. Descobriram que o benefício chega a 71% das famílias, enquanto somente 1,3% das pessoas têm emprego formal. As histórias colhidas em campo mostraram municípios com apenas quatro empregos formais falhas para fazer o benefício chegar até as famílias, abrindo espaço para aproveitadores. Especialistas e autoridades tiveram de debater sobre como fazer com que programas de renda não criem dependência e como garantir que as contrapartidas – geralmente relacionadas a educação e saúde – sejam cumpridas.

As reportagens acima deixam claro que há um nicho importante para o jornal impresso, que ganha musculatura a partir do momento em que apresenta temas ainda encobertos. Matérias exclusivas, que ultrapassem um pouco o excesso de declarações e informações de autoridades públicas e políticos em geral, asfaltam um bom caminho para a sobrevida dos impressos. Esse comportamento, um planejamento milimétrico, boas fontes, histórias bem contadas, ótimas fotografias e infográficos bem organizados estão oferecendo um verdadeiro espetáculo de jornalismo para o cidadão.