Arquivo da tag: bons personagens

O que define um personagem interessante para o jornalismo?

FSP - Clube Mato GrossoNa prática do jornalismo, é rotina se deparar com personagens que podem ser considerados ótimos para um perfil ou para serem protagonistas de matérias inusitadas. Mas é um desafio também, pois não há uma cartilha que dê certeza ao repórter se o entrevistado é ou não, realmente, detentor de atributos que vão arrebatar inquestionavelmente a atenção do leitor.

Um personagem ímpar não é necessariamente uma pessoa que venceu após superar obstáculos enormes em um ambiente de condições desfavoráveis. Pode ajudar, mas não necessariamente conduz a uma grande matéria. Há sempre um risco de a reportagem dar contornos de heroísmo a uma história de vida igual à de outros milhões de pessoas.

FSP- Rei dos acessosPerseverança, foco, obstinação, sucesso e outras muitas características heroicas – o que nos romances costuma funcionar – não necessariamente serão ingredientes de sucesso para um perfil no jornalismo. Boas seções de obituários sempre trazem tais histórias.

O inusitado pode ser um atributo essencial. Outro é conseguir carimbar no personagem entrevistado um apelido que apele para a memória do leitor. O “Neymar do Nordeste” ou o “Lampião do século XIX” também ajudam a engrandecer a um personagem.

Política e esporte são áreas férteis para o surgimento de personagens inusitados, que atingiram marcas ou metas audaciosas e podem ser protagonistas de matérias interessantes a partir de apelidos que facilitam alçá-los ao topo em meio aos iguais ou competidores.

O jornal Folha de S. Paulo conseguiu localizar dois personagens interessantes em pouco tempo para reportagens sobre futebol. Uma relatou as características e opiniões do “rei do acesso“, um treinador de futebol de times pequenos e fora dos eixos de maior audiência que é o campeão de desempenho no desafio de fazer times subirem de divisões.

Outra matéria narrou a trajetória até agora bem-sucedida de uma equipe de futebol – o Cuiabá – em uma região sem tradição nem grandes feitos na modalidade. Vale a leitura.

 

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.

 

Anúncios

Histórias do futebol: boas matérias não precisam ter só pessoas com origem humilde, difícil e pobre

O Globoesporte.com publicou duas reportagens bastante interessantes no dia 29 de agosto. Ambas mostram a situação atual de dois personagens polêmicos que ganharam manchetes no passado e ressurgem depois de meses de esquecimento. São matérias que se sobressaem pela originalidade da pauta, pela sinceridade das fontes e pelo esforço em trazer informações novas ao leitor em uma área – futebol – na qual a imprensa costuma repetir as mesmas fórmulas e criar falsas polêmicas com perguntas muito ruins.

A primeira matéria narra a trajetória recente de Diogo, um jogador de categorias de base do São Paulo que entrou na Justiça contra o clube. Ganhou fama repentina por dois motivos: outros atletas jovens mais talentosos e promissores também acionaram o mesmo clube na Justiça, buscando anular contratos assinados, e o São Paulo é descrito, usualmente, como clube exemplar na gestão das categorias inferiores. Três raios caindo no mesmo lugar é sempre sinal de matéria para o jornalismo.

Globoesporte Diogo

A segunda reportagem conta a história da ex-bandeirinha Ana Paula de Oliveira, que ganhou destaque por atuar numa profissão majoritariamente masculina, repleta de preconceitos e pressão. Ana Paula, uma espécie de musa da arbitragem, apitou jogos importantes, se envolveu em polêmicas por causa de erros em campo (como qualquer árbitro) e depois posou nua na revista mais famosa do Brasil.

Bons ingredientes – Há aspectos que ajudam a tornar os dois personagens interessantes. Ambos se envolveram em situações polêmicas. Diogo era um atleta de categoria de base em um clube conhecido por ter uma estrutura de excelência para os jogadores mais jovens. Ele entrou na Justiça alegando irregularidades. Praticamente, negava todo essa ideia pre-concebida. Já Ana Paula ousou pousar nua em uma profissão extremamente machista.

Os jornalistas que lembraram de ambos não caíram na mesmice de dar ênfase ou foco em aspectos que endeusam os personagens. Geralmente, muitos repórteres, quando precisam escrever um perfil de uma pessoa costumam escorregar e exagerar em alguns aspectos que denotam a origem humilde do personagem, a infância pobre, a superação das dificuldades.

Globoesporte Ana Paula 2

Nos dois casos, os jornalistas tiveram a felicidade de colocar em pauta personagens que já fizeram parte do imaginário do leitor e que desapareceram somente das páginas de jornais, pois continuaram trilhando as carreiras com sucessos ou derrotas, mantiveram planos e adotaram novas ações e estratégias. Geraram notícia, apenas não havia repórteres para ouvi-las.

Ao entrevistar a ex-bandeirinha e o atleta das categorias de base, os repórteres ouviram arrependimentos e convicções, presenciaram sentimentos como tristeza e raiva, transcreveram novos planos e estratégias dos dois personagens. Da mesma forma que a fama repentina de muitos deles parece porosa e insustentável, o ostracismo pode ser também um exagero.

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.