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As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas

Uma das mais difíceis tarefas do jornalismo é saber contar boas histórias. Não basta saber escrever. Tem de saber escolher os bons personagens, identificar os melhores aspectos a serem perguntados, ter coragem de jogar tudo fora se o relato não ficar bom ou parecer comum demais.

Muitos iniciantes – e também muitos jornalistas experientes – caem na armadilha de tentar transformar em heróis pessoas que são comuns – ou personagens que se parecem com outros tantos milhões por aí. Em outros casos, fatos corriqueiros ganham uma aparência incômoda de um momento histórico.

Armadilhas – Em muitos casos, o autor se emociona com a história de vida de um personagem que nem sempre vale uma história. É comum isso ocorrer quando na frene do gravador estão pessoas que conseguiram vencer doenças graves, obtiveram sucesso diante de adversidades tremendas ou a partir de uma origem pobre ou fizeram boas ações sem esperar nada em troca.

Nessas situações, o escritor ou jornalista imagina estar diante de história instigante e arrebatadora, nas o resultado pode ser uma narrativa cansativa, piegas, artificial, forçada. A linha que separa os dois lados é muito tênue.

Se o jornalista acabar se envolvendo emocionalmente com o personagem, isso pode acabar encobrindo a capacidade de discernir quando a história está pendendo mais para o lado comum do que para o extraordinário.

Também é ruim quando escritor tem uma vida intrincada com a do personagem, de fomra que o primeiro fica com dificuldades para equilibrar diversos elementos da história de vida do segundo. É sempre muito delicado relacionar em um texto que se tornará público glórias e desonraa de conhecidos e amigos.

Casos antagônicos – O jornal O Estado de S. Paulo costuma publicar perfis de personagens e histórias do cotidiano. Nem sempre a pauta é realmente ímpar, única. Nem sempre o texto acerta o tom.

Boas histórias 4Em uma reportagem, o jornal contou a história de um advogado que, perplexo com a quantidade de impostos existentes no Brasil e todos os transtornos que esse cipoal tributário deixa de rastro no dia a adia das pessoas e empresas, decidiu transformar toda a legislação em um livro de seis toneladas e dimensões gigantescas. O fato de o personagem já ter sido morador de rua nem precisou entrar no texto principal, de tão excêntrica que é a história em si. A foto deu o toque final.

Outra matéria, no entanto, escorregou. A missão foi narrar a iniciativa de um grupo de amigos adultos que, ajudados pelas redes sociais, conseguiram reunir a “turma da rua” da época em que eram adolescentes. Lembranças importantes para o grupo que apareceu na reportagem significaram pouco ou nada para os leitores. As brincadeiras de uns com os outros não conseguiram capturar a atenção. O texto é bom, a foto é criativa e bem feita. No entanto, ficou a sensação de estar diante de uma história artificial, sem graça, “forçada”. Boas histórias 3

Passo a passo – É claro que alguns jornalistas têm melhor capacidade de observação, imaginação e percepção. Tudo isso ajuda muito na hora de compor um roteiro, mantê-lo instigante e eletrizante, fundamental para manter a atenção do leitor. Mas mesmo aqueles que se consideram ruins para contar uma história podem melhorar tal habilidade.

Algumas dicas, para quem quiser se aprimorar. Busque todos os detalhes que imaginar. Muitas vezes, excesso de adjetivos escondem falta de detalhes e de informações que permitam narrar e descrever.

Tente coletar o que o personagem fez minuto a minuto se estiver narrando algum fato importante. Busque perceber as facilidades, habilidades, ansiedades e medos do personagem. 

Se for possível, visite o local onde a história aconteceu e observe a paisagem, sinta o clima, tente imaginar os fatos se desenrolando no lugar. Caso contrário, peça para o personagem descrever – e instigue-o a contar mais com perguntas objetivas.

Tente descobrir tudo sobre a vida do seu personagem, mesmo que tenha de jogar fora todas as informações coletadas. Qual foi o momento que sentiu mais medo? O parente que mais gosta e por quê? O que lhe dá mais satisfação em fazer? O principal defeito? E a maior virtude? Se possível, confronte as respostas com alguém próximo do seu personagem.

Desconfie sempre do saudosismo – é meio caminho para a pieguice. Aposte no inusitado – raramente frustra. Acima de tudo, é fundamental ler os bons autores da literatura brasileira e as boas reportagens que são publicadas na imprensa alternativa e na chamada grande mídia.

Para saber mais:

Sugiro uma visita no Congresso da Abraji, associação de jornalismo investigativo, que será realizado entre 30 de junho e 2 de julho. Alguns palestrantes darão boas dicas de como contar boas histórias. Thiago Herdy contará como reconstruiu a história de Jean Charles, morto em Londres. Leonêncio Nossa falará sobre os bastidores da reportagem que resgatou do esquecimento mais de 30 lutas armadas do Brasil ocorridas todas no século XX. Já Eliane Brum dará detalhes como foi construir uma reportagem sobre a família Lula, cuja apuração levou mais de 8 anos e cujo texto é um retrato da nova classe média que ascendeu no período 2003-2010.

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Em vez de esperar pelos estudos, jornalistas estão produzindo-os

Hora da morte Jornalistas, muitas vezes, conseguem boas matérias a partir do momento que conseguem estudos ou levantamentos inéditos feitos por institutos econômicos, associações sindicais ou empresariais ou universidades. O que essas instituições fazem é colocar técnicos e professores para avaliar algum fato, mensurando a dimensão de algum fato da realidade social, econômica ou política de uma cidade, estado ou do país, identificando causas e consequências e oferecendo propostas para melhorar a situação.

Agora, muitos jornais estão investindo tempo em realizar os próprios levantamentos. Os jornalistas têm as habilidades que têm os técnicos das instituições que antes faziam e entregavam os estudos e trabalhos prontos: faro para pesquisa, capacidade de organizar dados, técnicas para fazer relações entre informações, perspicácia para ouvir especialistas que identifiquem causas e consequências. São matérias especiais, que requerem tempo maior de apuração e produção, publicadas principalmente nas edições de domingo.

A edição do dia 15 de agosto trouxe diversos desses exemplos e parece sinalizar que as redações podem ter se convencido da pertinência de liberar jornalistas para estudarem e pesquisarem um tema em profundidade.

Boa perícia1) O Estado de S. Paulo: Na era CSI, perícia na maior parte do País não tem o mínimo para solucionar crimes. Os jornalistas aproveitaram a imagem que os leitores têm dos seriados norte-americanos que mostram a tecnologia e a destreza da polícia e de peritos para desvendar crimes e identificar criminosos. Planejaram o roteiro de informações que teriam de ser pesquisadas, elaboraram um questionário e enviaram para as 27 unidades da federação por duas semanas. Com os dados, produziram um mapeamento da estrutura de perícia e criminalística dos governos estaduais do Brasil – e mostraram tudo numa maravilhosa infografia.

2) Folha de S.Paulo: Dez obras viárias recebem mais verbas que o metrô. Os repórteres estabeleceram um método: escolheram um período de tempo para verificar o volume de recursos empregados em obras voltadas para a mobilidade de carros e de pessoas e identificaram os valores envolvidos nos investimentos e intervenções do poder público. Com base nisso, mostraram qual é o setor de transporte prioritário para a ação do Estado no discurso e na prática.

3) Folha de S.Paulo: Onze da noite é a hora em que se registram mais homicídios em São Paulo. A partir de informações oficiais do governo estadual paulista sobre homicídios, os jornalistas identificaram qual é a hora da morte no estado – o horário e o dia da semana mais propenso para ocorrer mortes. Produziram uma bela infografia para facilitar a compreensão dos leitores.