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Empresário e engenheiro, o ex-deputado que inspirou Lei de Licitações deveria ser pauta obrigatória

A agência de notícias da Câmara dos Deputados informou que uma comissão especial, criada para analisar alterações nas legislações que regem as contratações do setor público, vai ouvir, no dia 8 de julho, Luís Roberto Ponte.

lei de licitaçõesO convidado, segundo informa a reportagem, é empresário, engenheiro e ex-deputado federal.

Além disso, é dele a autoria do projeto de lei que foi aprovado, em 1993, e culminou na Lei de Licitações (lei 8.666/93), que disciplina como a administração pública deve proceder para comprar quaisquer bens e serviços.

Passados mais de 20 anos desde a promulgação da lei, e com os diversos debates já realizados sobre os problemas ainda existentes para promover licitações sem demora excessiva e também garantir compras eficientes pelos gestores públicos, é essencial que os principais jornais do país, programas de televisão e de rádio, ouçam o convidado e peçam a ele uma análise da lei que ele inspirou.

Se o potencial entrevistado tiver tempo disponível, é obrigação que cada jornal de circulação nacional lhe conceda uma página, e que os programas de rádio e televisão reservem para ele espaço para debates de 30 minutos, no mínimo.

Algumas perguntas não podem faltar:

– As regras de licitação existente garantem uma compra eficiente por parte da administração pública em sua opinião?

– Como conciliar uma quantidade de regras suficientes para evitar fraudes com a necessidade de promover licitações sem burocracia e dificuldades excessivas?

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Histórias do futebol: boas matérias não precisam ter só pessoas com origem humilde, difícil e pobre

O Globoesporte.com publicou duas reportagens bastante interessantes no dia 29 de agosto. Ambas mostram a situação atual de dois personagens polêmicos que ganharam manchetes no passado e ressurgem depois de meses de esquecimento. São matérias que se sobressaem pela originalidade da pauta, pela sinceridade das fontes e pelo esforço em trazer informações novas ao leitor em uma área – futebol – na qual a imprensa costuma repetir as mesmas fórmulas e criar falsas polêmicas com perguntas muito ruins.

A primeira matéria narra a trajetória recente de Diogo, um jogador de categorias de base do São Paulo que entrou na Justiça contra o clube. Ganhou fama repentina por dois motivos: outros atletas jovens mais talentosos e promissores também acionaram o mesmo clube na Justiça, buscando anular contratos assinados, e o São Paulo é descrito, usualmente, como clube exemplar na gestão das categorias inferiores. Três raios caindo no mesmo lugar é sempre sinal de matéria para o jornalismo.

Globoesporte Diogo

A segunda reportagem conta a história da ex-bandeirinha Ana Paula de Oliveira, que ganhou destaque por atuar numa profissão majoritariamente masculina, repleta de preconceitos e pressão. Ana Paula, uma espécie de musa da arbitragem, apitou jogos importantes, se envolveu em polêmicas por causa de erros em campo (como qualquer árbitro) e depois posou nua na revista mais famosa do Brasil.

Bons ingredientes – Há aspectos que ajudam a tornar os dois personagens interessantes. Ambos se envolveram em situações polêmicas. Diogo era um atleta de categoria de base em um clube conhecido por ter uma estrutura de excelência para os jogadores mais jovens. Ele entrou na Justiça alegando irregularidades. Praticamente, negava todo essa ideia pre-concebida. Já Ana Paula ousou pousar nua em uma profissão extremamente machista.

Os jornalistas que lembraram de ambos não caíram na mesmice de dar ênfase ou foco em aspectos que endeusam os personagens. Geralmente, muitos repórteres, quando precisam escrever um perfil de uma pessoa costumam escorregar e exagerar em alguns aspectos que denotam a origem humilde do personagem, a infância pobre, a superação das dificuldades.

Globoesporte Ana Paula 2

Nos dois casos, os jornalistas tiveram a felicidade de colocar em pauta personagens que já fizeram parte do imaginário do leitor e que desapareceram somente das páginas de jornais, pois continuaram trilhando as carreiras com sucessos ou derrotas, mantiveram planos e adotaram novas ações e estratégias. Geraram notícia, apenas não havia repórteres para ouvi-las.

Ao entrevistar a ex-bandeirinha e o atleta das categorias de base, os repórteres ouviram arrependimentos e convicções, presenciaram sentimentos como tristeza e raiva, transcreveram novos planos e estratégias dos dois personagens. Da mesma forma que a fama repentina de muitos deles parece porosa e insustentável, o ostracismo pode ser também um exagero.

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.

Um árbitro aposentado vem fazendo jornalismo esportivo bem melhor que boa parte da imprensa

Leonardo Gaciba, ex-árbitro de futebol, se aposentou em outubro de 2010. Sorte dos torcedores. Não, ele não era um péssimo juiz. É que, ao abandonar o apito, ele passou a trabalhar como comentarista esportivo para o canal de televisão fechada SporTV e a escrever textos para um blog no portal da mesma emissora.

Os textos abordam, é claro, õ trabalho da arbitragem, mas com uma abordagem bastante diferente. O último relato, por exemplo, é uma verdadeira aula de jornalismo. Gaciba coletou dados, analisou-os e entregou ao leitor conclusões sobre o comportamento dos árbitros com o uso dos cartões amarelo e vermelho. Descobriu que a média de cartões despencou no Brasileirão 2012 enquanto o número de faltas manteve estável.

Ele somou a quantidade de punições dadas aos jogadores nos campeonatos de 2008 até 2012 (considerando sempre as 12 primeiras rodadas, que representam cerca de um terço da competição) e detectou que os juízes estão aplicando menos cartões. mais que isso: a redução é significativa. E ele pergunta: o que mudou? Porque mudou? O que aconteceu? Com especialista e fonte, ele mesmo identifica hipóteses e as comenta.

Dados como esses – quantidade de cartões amarelos e vermelhos mostrados aos atletas nos últimos cinco anos – não estão facilmente disponíveis na internet. Por isso, a maior parte dos jornalistas esportivos prefere opinar com base no que eles sentem e acham no momento – e essa opinião pode acabar enviesada e contaminada por diversos componentes, como a paixão clubística do repórter, a raiva por causa de algum acontecimento em um jogo recém-concluído ou a bronca com algum árbitro ou jogador, entre outros.

O ex-árbitro Gaciba merece os parabéns. Para apresentar as estatísticas que apresentou – e têm mostrado em diversos textos – certamente ele tem pesquisado e organizado os próprios bancos de dados para poder analisar os números e oferecer aos leitores informações mais precisas e objetivas. Os dados ajudam a esclarecer e circunscrever os fatos e reduzem o espaço para opiniões infundadas. Se o ex-juiz de futebol pode fazer, porque a maior parte dos profissionais da imprensa continuam a trabalhar na escuridão dos fatos?

Bom jornalismo, bons infográficos e boa iniciativa

Tim Devin considera-se um artista na cidade de Boston, no estado norte-americano de Massachusetts. Pode ser considerado, além disso, um bom jornalista. Ele criou uma forma inteligente de informar. Inovou, também, na plataforma. Nada de jornal impresso, internet ou qualquer outra mídia. Ele publica as notícias dele nos postes de rua.

Broadside crimeBasta ver o Broadsides (pequenos cartazes ou folhetos, neste caso, distribuídos nas ruas). Por ele, o autor divulga poemas e notícias e também realiza pesquisas de opinião.

Para divulgar notícias, ele cria infográficos com estatísticas de enorme interesse para a sociedade, edita-os de forma visualmente didática, e os cola em postes de energia. Essa vertente do projeto chama-se Mappy Facts.

Negócio? – O projeto Broadsides vale como experimento. Dificilmente oferecerá perspectiva de faturamento que o sustente financeiramente. É arte, provocação ou manifestação – ou todas as alternativas juntas.

Duas das notícias divulgadas por infográficos nos pequenos cartazes do Mappy Facts para a vizinhança abordaram a geografia do crime (quais localidades registram mais ocorrências) e a distância dos pontos de captação de água. São, sobetudo, poderosos instrumentos de conscientização. broadsides-survey-small-pho

Pesquisa de opinião – Agregado à “infografia para postes”, o autor projetou dez pequenos pedacinhos de papel, enfileirados lado a lado – metade escrito “sim”, metade escrito “não”.

São respostas possíveis para a pergunta: “Você sabia disso?” Quem quer participar da pesquisa, basta retirar um pedacinho conveniente. Ele ainda aproveita a idéia e o formato para espalhar perguntas diversas pela cidade, com ou sem gráficos agregados.

Iniciativas como essas poderiam ser divulgadas em escolas, públicas ou privadas, incentivando os alunos a fazerem o mesmo – ou projetos com o mesmo objetivo transformador.’

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas

Uma das mais difíceis tarefas do jornalismo é saber contar boas histórias. Não basta saber escrever. Tem de saber escolher os bons personagens, identificar os melhores aspectos a serem perguntados, ter coragem de jogar tudo fora se o relato não ficar bom ou parecer comum demais.

Muitos iniciantes – e também muitos jornalistas experientes – caem na armadilha de tentar transformar em heróis pessoas que são comuns – ou personagens que se parecem com outros tantos milhões por aí. Em outros casos, fatos corriqueiros ganham uma aparência incômoda de um momento histórico.

Armadilhas – Em muitos casos, o autor se emociona com a história de vida de um personagem que nem sempre vale uma história. É comum isso ocorrer quando na frene do gravador estão pessoas que conseguiram vencer doenças graves, obtiveram sucesso diante de adversidades tremendas ou a partir de uma origem pobre ou fizeram boas ações sem esperar nada em troca.

Nessas situações, o escritor ou jornalista imagina estar diante de história instigante e arrebatadora, nas o resultado pode ser uma narrativa cansativa, piegas, artificial, forçada. A linha que separa os dois lados é muito tênue.

Se o jornalista acabar se envolvendo emocionalmente com o personagem, isso pode acabar encobrindo a capacidade de discernir quando a história está pendendo mais para o lado comum do que para o extraordinário.

Também é ruim quando escritor tem uma vida intrincada com a do personagem, de fomra que o primeiro fica com dificuldades para equilibrar diversos elementos da história de vida do segundo. É sempre muito delicado relacionar em um texto que se tornará público glórias e desonraa de conhecidos e amigos.

Casos antagônicos – O jornal O Estado de S. Paulo costuma publicar perfis de personagens e histórias do cotidiano. Nem sempre a pauta é realmente ímpar, única. Nem sempre o texto acerta o tom.

Boas histórias 4Em uma reportagem, o jornal contou a história de um advogado que, perplexo com a quantidade de impostos existentes no Brasil e todos os transtornos que esse cipoal tributário deixa de rastro no dia a adia das pessoas e empresas, decidiu transformar toda a legislação em um livro de seis toneladas e dimensões gigantescas. O fato de o personagem já ter sido morador de rua nem precisou entrar no texto principal, de tão excêntrica que é a história em si. A foto deu o toque final.

Outra matéria, no entanto, escorregou. A missão foi narrar a iniciativa de um grupo de amigos adultos que, ajudados pelas redes sociais, conseguiram reunir a “turma da rua” da época em que eram adolescentes. Lembranças importantes para o grupo que apareceu na reportagem significaram pouco ou nada para os leitores. As brincadeiras de uns com os outros não conseguiram capturar a atenção. O texto é bom, a foto é criativa e bem feita. No entanto, ficou a sensação de estar diante de uma história artificial, sem graça, “forçada”. Boas histórias 3

Passo a passo – É claro que alguns jornalistas têm melhor capacidade de observação, imaginação e percepção. Tudo isso ajuda muito na hora de compor um roteiro, mantê-lo instigante e eletrizante, fundamental para manter a atenção do leitor. Mas mesmo aqueles que se consideram ruins para contar uma história podem melhorar tal habilidade.

Algumas dicas, para quem quiser se aprimorar. Busque todos os detalhes que imaginar. Muitas vezes, excesso de adjetivos escondem falta de detalhes e de informações que permitam narrar e descrever.

Tente coletar o que o personagem fez minuto a minuto se estiver narrando algum fato importante. Busque perceber as facilidades, habilidades, ansiedades e medos do personagem. 

Se for possível, visite o local onde a história aconteceu e observe a paisagem, sinta o clima, tente imaginar os fatos se desenrolando no lugar. Caso contrário, peça para o personagem descrever – e instigue-o a contar mais com perguntas objetivas.

Tente descobrir tudo sobre a vida do seu personagem, mesmo que tenha de jogar fora todas as informações coletadas. Qual foi o momento que sentiu mais medo? O parente que mais gosta e por quê? O que lhe dá mais satisfação em fazer? O principal defeito? E a maior virtude? Se possível, confronte as respostas com alguém próximo do seu personagem.

Desconfie sempre do saudosismo – é meio caminho para a pieguice. Aposte no inusitado – raramente frustra. Acima de tudo, é fundamental ler os bons autores da literatura brasileira e as boas reportagens que são publicadas na imprensa alternativa e na chamada grande mídia.

Para saber mais:

Sugiro uma visita no Congresso da Abraji, associação de jornalismo investigativo, que será realizado entre 30 de junho e 2 de julho. Alguns palestrantes darão boas dicas de como contar boas histórias. Thiago Herdy contará como reconstruiu a história de Jean Charles, morto em Londres. Leonêncio Nossa falará sobre os bastidores da reportagem que resgatou do esquecimento mais de 30 lutas armadas do Brasil ocorridas todas no século XX. Já Eliane Brum dará detalhes como foi construir uma reportagem sobre a família Lula, cuja apuração levou mais de 8 anos e cujo texto é um retrato da nova classe média que ascendeu no período 2003-2010.