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Para evitar mensagens subliminares em manchetes, jornais precisam contextualizar mais os fatos

Palestras MarinaO jornal Folha e S. Paulo publicou reportagem dia 31 de agosto informando que a candidata à Presidência da República, Marina Silva, recebeu, entre março de 2011 até maio de 2014, R$ 1,6 milhão por proferir palestras, por meio de uma empresa aberta para estes fins. Foram 72 palestras.

A reportagem é puramente informativa, não opina, somente apresenta fatos, de forma evidente e patente. Mas o  problema é a mensagem subliminar que muitos leitores podem interpretar, por mais que o jornal possa se defender que não disse e nem pretendeu dizer nada além do que está escrito no texto.

Para quem lê a manchete de um grande jornal de circulação nacional, sempre fica a sensação de que há algo errado em informação deste estilo. Um leitor com menos informações pode concluir alto do tipo: “Político é tudo igual, sempre trabalhando em causa própria”. Um leitor mais bem informado pode perguntar: “E daí?”

Faltou contextualizar – A melhor forma que o jornal teria para não incorrer no erro de ser acusado de passar uma mensagem subliminar seria contextualizar. Oferecer ao leitor informações que mostrem a floresta toda, e não somente uma única árvore, é uma regra de ouro do jornalismo e dá ao leitor a oportunidade de inferir a interpretação que considerar melhor.

Que contexto? Primeiro, usar o mesmo método jornalístico empregado para obter as informações da ex-senadora Marina Silva e obter também os dados de ex-presidentes ou de ex-ocupantes de cargos públicos que ganharam dinheiro com a mesma atividade – proferindo palestras após deixar a função pública.

Bastava ao jornal, inclusive, fazer uma pesquisa detalhada no próprio arquivo. Em maio de 2011, a Folha informou que Luís Inácio Lula da Silva, já fora da Presidência da República, estava prestes a faturar US$ 1,2 milhão em quatro palestras.

Segundo, o jornal poderia ser explícito e escrever que ganhar dinheiro proferindo palestras é uma atividade privada legal, desde que haja pagamento de impostos na forma da lei.

Atualizado em 10/09/2014:

A ombudsman da Folha e S. Paulo analisou outas informações que contemplam o cerne do artigo aqui em questão: a falta de dados que ajudassem o leitor a contextualizar a notícia e dar a ela o devido grau de importância.

A jornalista Vera Guimarães Martins faz contas e descreve que o valor recebido pela presidenciável Marina Silva “não trazia anomalia que justificasse manchete”. O jornal não considerou conceitos econômicos como inflação e impostos, entre outros apontados.

Exemplo: “A começar pelo valor: sua empresa recebeu esse montante em 39 meses, o que dá uma média mensal de R$ 41 mil, normal para uma ambientalista de fama mundial, ex-senadora e ex-ministra de Estado.”

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Uma forma interessante de rastrear e mostrar o que os políticos dizem sobre temas de interesse público

Muitos designers e jornalistas estão trabalhando para encontrar maneiras de tornar as notícias políticas mais palatáveis e digeríveis para a população, para o cidadão comum, principalmente para aqueles leitores que não se importam muito com as manobras e consequências das decisões dos parlamentares.

Essa motivação deriva do fato que muitas das transformações que a sociedade e as cidades demandam nascem exatamente das discussões e manobras políticas. Sem acompanhar tais debates nas câmaras e nos parlamentos, sem fiscalizar o comportamento dos representantes legislativos, qualquer esforço pode produzir pouco resultado.

O desafio é que ainda há poucas instituições ainda se dedicando ao árduo trabalho de transformar a atividade política em dados, organizá-los, analisá-los e dar a eles uma forma visual agradável e inteligível, que crie engajamento nos cidadãos e motive-os a alterar alguma realidade. Para ficar mais claro, tente imaginar que tipo de dados poderiam ser extraídos dos discursos que os nobres deputados fazem ao longo dos anos nas tribunas do Congresso nacional.

Words and votes

Projeto inovador – Um projeto interessante tenta fazer isso nos Estados Unidos. O Words & Votes busca rastrear as informações que estão contidas nos discursos – e outras formas de expressão, como mensagens no Twitter – dos deputados e senadores norte-americanos sobre o porte de armas. O trabalho foi produzido para a organização sem fins lucrativos Sandy Hook.

Em resumo, o Words & Votes permite que o cidadão conheça mais facilmente, em um único lugar, de forma organizada, as opiniões dos representantes no Congresso sobre temas relacionados à violência e ao uso de armas de fogo.

Cada deputado e senador é “monitorado” e as declarações deles sobre o assunto são categorizadas como neutra, favorável à segurança (e, logo, contra o porte de armas) ou favorável ao porte de armas.

Ao passar a seta do mouse sobre símbolos circulares, é possível verificar qual foi o voto do congressistas em leis que tratavam de temas que têm alguma relação ou influência sobre violência e armas.

Sistema de busca – Os dados estão organizados e disponíveis em uma visualização interativa para dois momentos: atual legislatura e para as legislaturas, reunidas, entre 1999 e 2002. Os congressistas ainda são separados entre aqueles que são mais influentes e mais discursivos – e há sistema de busca para o leitor buscar o nome do próprio representante.

Um projeto interessante, sem dúvida, inclusive par ao trabalho de investigação jornalística. Por mais que interagir e entender não seja tão automático como muitos gostariam. De qualquer forma, o projeto deixa claro que o método pode ser replicado para qualquer assunto – direito dos homossexuais, direitos humanos e política fiscal, entre outros – e a forma visual pode ser melhorada, tornando mais simples e fácil para todos.

Projetos brasileiros – No Brasil, o projeto Excelências é um dos pioneiros na coleta, organização e análise de informação política. Ele captura dados de todos os parlamentares. As fontes são a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, os Tribunais de Justiça, dos Tribunais de Contas e outras fontes públicas. Mostra quem falta ou produz mais, quais são as áreas de interesse dos legisladores, as emendas que apresenta, como votam e os gastos dos gabinetes. Recentemente, a revista Veja firmou parceria com a organização para analisar, produzir reportagens e dar visibilidade nacional às informações coletadas e organizadas. enfim, dar sentido prático aos dados e mostrar como eles têm impacto na vida das pessoas.

O jornal Valor Econômico acertou uma parceria semelhante, mas com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que visa acompanhar projetos de lei e outras matérias que tramitam no Legislativo e que têm impacto na economia brasileira. Assim, a cobertura sobre o Congresso Nacional poderá ser menos nas declarações dos políticos e mais no impacto da ação política no cotidiano das empresas e das pessoas.