A decisão que revolucionou o futebol completou 20 anos. E quase ninguém lembrou

No dia 15 de dezembro, um artigo nas redes sociais chamou a atenção: “20 anos da Lei Bosman – o fim da escravidão no futebol“. A notícia foi publicada no Blog do Paulinho.

Os mais jovens talvez não saibam, mas qualquer um que fosse apaixonado por futebol em 1995 sabe quem é Bosman – ou o cara que fez acabar a chamada “lei do passe”.

Em resumo: jogadores podem assinar contratos com outros clubes tão logo o contrato com a equipe atual termine (ou um pré-contrato, seis meses antes do fim do contrato) sem a necessidade de pagar uma indenização à equipe atual, que detinha o “passe” do jogador. No Brasil, foi seguida pela Lei Pelé, em 1998.

Os principais jornais impressos não lembraram da efeméride. O portal IG fez uma reportagem. Lá fora, destaque para matéria do diário inglês The Guardian.

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O futuro tal qual descrito no passado: um roteiro para planejar uma infografia

As informações abaixo foram coletadas no Brain Pickings e reproduzidas quase fielmente porque são brilhantes para explicar o processo criativo no momento de traduzir uma série de dados ou estatísticas em um infográfico.

Resumindo: no artigo, a autora informa que distribuiu, via redes sociais, uma lista de informações sobre eventos futuros tal qual foram descritos em livros e outros produtos culturais de ficção científica.

A organização das informações talvez seja a parte mais importante da produção de uma visualização criativa e eficiente, pois precisa dispor, de forma uniforme e categorizada, um conjunto de dados que estão dispersos em várias fontes. Leva tempo, muito tempo (às vezes, uma vida inteira).

Giorgia Lupi, designer da informação e uma das mais criativas editoras de arte atualmente, ao acessar tal lista, organizou os dados em uma visualização no padrão da Accurat, agência da qual ela é fundadora. O resultado é visualmente interessante. As informações, ainda mais.

As lições dela:

  • como na maioria das infografias no formato linhas do tempo, os dados são organizados sobre um eixo horizontal.
  • ela explica que usou uma “linha do tempo distorcida”, pois listou os eventos com distâncias regulares, simétricas, entre um e outro, e não em escala proporcional aos anos. A distância entre entre os eventos será a mesma, não importa se transcorreram dez ou cem anos.
  • o eixo vertical informa o ano em que o livro foi publicado
  • na parte inferior no infográfico, a autora categorizou as histórias para facilitar a leitura. Alguns símbolos foram escolhidos para indicar se o evento é majoritariamente político, tecnológico, científico ou ambiental, entre outros.
  • várias camadas foram planejadas para oferecer o máximo de informação, de forma que seja facilmente perceptível conhecer um aspecto de cada história ou alguma tendência do conjunto das histórias. exemplo: ao identificar com cores diferentes se o livro mostra uma perspectiva positiva ou negativa do futuro, percebe-se rapidamente, somente pela cor predominante, que os autores de ficção científica não têm uma visão muito positiva do futuro.

 

Accurat - The future as foretold in the past

Vale a leitura.

Alguns cuidados quando a série histórica do gráfico não começa na posição zero

O Globo - Escala eixo y em gráficos

O eixo vertical deste gráfico, publicado no jornal O Globo, mostra a quantidade de trabalhadores por conta própria (em azul) e a quantidade de trabalhadores com carteira assinada (em vermelho).

Um leitor desatento pode se confundir. A primeira impressão é que a quantidade de trabalhadores por conta própria está crescendo e a quantidade de trabalhadores com carteira assinada está diminuindo. Ambas conclusões estão corretas.

No entanto, visualmente, o leitor fica com a impressão que a quantidade de trabalhadores por conta própria (em azul) e maior que a quantidade de trabalhadores com carteira assinada (em vermelho). Essa é uma falsa conclusão. No primeiro grupo, azul, há 22 milhões de pessoas. No segundo, vermelho, 35 milhões de pessoas.

Comparar tamanhos – A ilusão de ótica ocorre porque por duas razões: o eixo vertical não começa no número zero e começa em diferentes posições em cada gráfico de área. Por causa disse, mesmo que ele demonstre corretamente a evolução (para mais ou para menos), ele induz o leitor ao erro ao comparar o tamanho de cada grupo.

Um gráfico de linha não precisa, necessariamente, começar no ponto zero do eixo vertical. É apenas recomendável. Muitas vezes, a série estatística começa em um número muito distante do zero e é importante chamar a atenção para a evolução dos números ao longo da série histórica (ainda mais se essas mudanças forem sutis). Assim, é possível iniciar o eixo vertical em uma posição diferente de zero.

Já para um gráfico de área, que além de informar sobre a evolução do número de trabalhadores tem também a incumbência de informar o tamanho deste grupo (a quantidade total), é bastante recomendável começar o eixo vertical no número zero.

Mesma posição – O que é recomendável passa a ser obrigatório quando há o intuito de fazer comparações entre dois diferentes grupos, mostrando a evolução deles, como é o caso do gráfico do jornal. Esse é o segundo – e principal – problema. Se o eixo vertical não começar na posição zero, é essencial que ele comece na mesma posição numérica em ambos os gráficos.

O fato de escrever o número que informa sobre a quantidade de trabalhadores acaba não sendo suficiente para contornar a distorção na transmissão da informação. O melhor, mesmo, é iniciar os gráficos sempre no número zero.

Um terceiro problema, muito comum em gráficos e em comparações, é usar escala diferente. Neste caso, tal equívoco não aparece. Em ambos os gráficos, cada intervalo no eixo vertical corresponde a 500 mil trabalhadores.

Entrevista traz pistas importantes sobre futuro do jornalismo

O jornal O Globo tem o hábito de publicar diariamente uma rápida entrevista com alguém que tenha algo a dizer. Inclusive, a primeira pergunta é sempre “conte algo que eu não sei”.

No dia 9 de outubro, o entrevistado foi Greg Policinski, jornalista, editor fundador do Instituto Newseum, o Museu da Imprensa, sediado em Washington, Estados Unidos. Policinski é diretor de operações da instituição.

Vale a leitura. Há dicas interessantes sobre o presente e o futuro do jornalismo e da imprensa. Destaque:

  • Os micropagamentos podem se constituir em uma fonte de receita alternativa à publicidade e à circulação.
  • Em algum tempo, o imediatismo (“instant now”, na entrevista) que a internet trouxe pode deixar de ser tão relevante assim para o leitor.
  • Jornalismo, mais que notícias, vende credibilidade.
  • Para construir credibilidade, é necessário tempo e pessoas.

Newseum

Na pressa, prefeitura paulistana pode confundir correlação com causalidade

transitoEssa notícia na capa do jornal O Estado de S. Paulo é sintomática para ensinar sobre os conceitos de causalidade e de correlação.

Em geral, governantes e imprensa costumam ser apressados e estabelecer uma relação de causa e efeito entre dois fenômenos.

No caso, a Prefeitura de São Paulo acredita que a redução da velocidade máxima permitida em algumas vias causou um efeito positivo, que foi a redução na extensão de congestionamento – e também na quantidade total de acidentes.

Já especialistas alertam que os efeitos podem ter uma outra causa: a diminuição de carros nas ruas por causa da desaceleração da atividade econômica. As pessoas dirigem menos se não estão indo ao trabalho ou às compras e, assim, a possibilidade de ocorrerem acidentes é menor, bem como a chance de haver congestionamento.

A Prefeitura de São Paulo pode até ter acertado ao estabelecer a causa (redução da velocidade) para o efeito (índice de congestionamento menor). Até porque os acidentes rotineiros de trânsito travam a circulação de automóveis e isso eleva a extensão de congestionamento. Mas, antes de cravar, é preciso fazer os estudos estatísticos adequados. Esse alerta foi feito por um entrevistado na reportagem.

materia

A confusão entre causalidade e correlação é um dos principais erros que são cometidos por entrevistados e repórteres. Há uma diferença enorme entre os conceitos. Um primeiro fenômeno pode exercer influência sobre um segundo sem necessariamente ser a causa deste – ou a causa única.

Outro equívoco comum é estabelecer uma tese como verdadeira a partir de um exemplo ou dois apenas. Ouve-se um entrevistado apenas, e crava-se o título. Mas essa já é outra história.

Saiba mais:

Artigo interessante: Correlação não implica causalidade. Argumenta muito bem sobre a diferença dos dois conceitos.

Outro artigo interessante, desta vez em inglês: Causation vs Correlation.

 

Sugestão de pauta: Quem já pediu impeachment de quem e por qual motivo?

Em meio ao debate político intenso que ocorre em 2015, ainda rescaldo das eleições realizadas em 2014, há muitas críticas e respectivas réplicas a respeito da correção em exigir ou não impeachment da presidente da República neste início de segundo mandato. É golpe? É um instrumento constitucional?

info_vc_231114O debate ganhou novo impulso com mais dois pedidos de impeachment protocolados nos últimos dias, de um legislador e uma instituição civil.

Para responder estas duas perguntas, basta um levantamento nos documentos oficiais – a fonte, no caso, é o Poder Legislativo, que protocola os pedidos de impeachment de presidente da República feitos por partidos políticos, pessoas comuns ou instituições civis.

Mais do que identificar a quantidade de pedidos já feitos contra o presidente da República, como já fizeram os jornais Gazeta do Povo em 2014 e O Estado de S. Paulo em março passado, vale identificar a motivação, como já sugeriu um internauta dias atrás.

O diário paranaense identificou a motivação de alguns dos pedidos na reportagem, mas o ideal seria uma equipe de reportagem listar a motivação de todos os pedidos já feitos até então.

Assim, será possível responder várias perguntas e terminar com o falso debate sobre pertinência ou não de protocolar pedidos de impeachment.

Analise o histórico de quaisquer estatísticas. Ele pode ajudar a contar outra história

Um curso recém finalizado pelo Knight Center sobre noções básicas de matemática e estatística para jornalistas pinçou uma regra básica na análise de dados: é fundamental olhar a evolução das informações em um prazo mais prolongado, quando tais informações estiverem disponíveis.

O instrutor, Greg Ferenstein, alertou que não é recomendável ignorar a História, sobretudo em mudanças de opinião pública, quando torna-se ainda mais importante consultar os dados do passado longínquo.

O exemplo utilizado para demonstrar o ensinamento foi a opinião pública da sociedade norte-americana sobre pena de morte. Enquanto a evolução das estatísticas no curto prazo mostra uma coisa (falta de apoio à pena de morte no nível mais baixo de todos os tempos), os dados completos indicam outra (apesar das oscilações ao longo das décadas, a sociedade norte-americana mantém a mesma opinião ao longo de quase um século).

Dead penalty 2

Dead penalty 1

Concluiu o instrutor, em tradução livre: “Você ainda pode afirmar que a pena de morte está em declínio em popularidade, mas você teria que levar a História em conta. Ela muda tudo.”

Dias atrás, o Pew Research Center, que investiga há muito tempo a opinião pública dos Estados Unidos e também de outros países com muita eficiência, publicou uma avaliação a respeito das taxas de pobreza entre crianças negras, brancas, asiáticas e hispânicas.

Child poverty rates

Vale a mesma lição e a mesma conclusão: com exceção das crianças asiáticas, as estatísticas mostram uma evolução, para mais ou para menos, interessante no prazo mais curto. Mas, no longo prazo, entre 1975 e 2015, o nível de pobreza entre crianças (menores de 18 anos para o instituto) permanece razoavelmente sem alterações significativas.