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Os números que formatam o debate sobre controle de armas nos Estados Unidos

NRA WashPostSemanas atrás, o Café Expresso já abordou os trabalhos feitos pela NRA (National Rifle Association), uma instituição que defende o direito do cidadão portar armas naquele país.

A atuação da NRA, além de suporte financeiro para os candidatos em eleições que tenham os mesmos argumentos da instituição (tudo dentro da lei, sem nenhum problema, regulamentado), também está focada no mapeamento do pensamento dos congressistas sobre o tema.

Cavar e escarafunchar os dados é o mais difícil, mas a equipe da NRA mantém a disciplina de coletar diariamente, em diversas fontes disponíveis, dados valiosos que acabam ajudando a organizar o que pensa cada deputado e senador sobre o porte e uso de armas nos Estados Unidos.

A partir de tais dados, os mais importantes órgãos de imprensa podem usar as ferramentas digitais disponíveis e dar forma aos números. Desta vez, o The Washington Post mostra facilmente a relação entre as doações financeiras em campanhas e o que pensam os congressistas dos EUA.

Em Nova Iorque, até estatísticas sobre revistas policiais são divulgadas. Por que não deveriam?

Uma reportagem do The New York Times chamou a atenção para o nível de dados que são divulgados pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque. Mais do que divulgar periodicamente os indicadores de diversos crimes, o que é comum em centenas de cidades ao redor do mundo, a polícia local disponibiliza para a imprensa e para a sociedade as estatísticas sobre abordagens e revistas feitas pelos policiais.

Revistas policiais NY

No Brasil, ainda é comum as autoridades públicas esconderem, deturparem ou divulgarem parcialmente os dados referentes à segurança pública e ao desempenho das forças policias. O país ainda não tem um sistema de informações nacional, atualizado, com a quantidade de ocorrências policiais.

Dados de segurança pública são produzidos com recursos públicos – e por isso deveriam ser disponibilizados, no detalhe, para a sociedade e para a imprensa. Se há o argumento das autoridades policiais de que eles são estratégicos para realizar o planejamento contra os criminosos, vale também a justificativa que estes dados também são valiosos para os próprios cidadãos planejarem a própria segurança, moldar a rotina e se precaver contra o crime.

Se uma rua é a campeã de roubos de carros, os motoristas deveriam saber disso para decidirem se querem correr o risco de estacionar o carro nela. Se um bairro tem tido muitos roubos e furtos, as pessoas podem desejar não morar nele ou frequentá-lo – ou inquilinos podem querer exigir aluguéis mais módicos. É cruel pensar dessa forma, mas é um direito do indivíduo.

O Brasil precisa evoluir nessa área – na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas de interesse social. Na área de segurança, há um tabu ainda consistente, que pouco arrefeceu ao longo dos anos. Um exemplo positivo foi a decisão do governo estadual de São Paulo. Ele decidiu divulgar dados de crimes por bairro. Pena que tal postura só vingou depois de denúncias na imprensa apontando o mau uso, privado e privilegiado, dos indicadores até então mantidos em sigilo.

Saiba mais:

Qual é o perigo de divulgar informações públicas?

Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil.

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos?

Em regra geral, é a informação, e não a lei, que muda drasticamente e de forma perene os hábitos das pessoas. Quer um exemplo simples? A Universidade de São Paulo (USP) divulgou pesquisa mostrando que os os semáforos que informam ao motorista o tempo restante para a troca de cor – vermelha ou verde – ajuda a prevenir acidentes de trânsito. Fácil: ao saber que poderá cruzar a rua em cinco segundos, o motorista não arrisca atravessar no sinal proibido.

No mundo todo, em muitos casos, governos têm ampliado a transparência, divulgando pela internet, gratuitamente, bancos de dados com informações cruas de diversos serviços públicos. A intenção é que programadores e desenvolvedores possam transformar dados em serviços úteis às pessoas.

Exemplos – Imagine saber em quais hospitais há maior incidência de mortes ou infecções hospitalares, em quais ruas e bairros há mais casos de roubos e assaltos, em quais localidades há grande ou pouca ocorrência de enchentes, quais os planos de saúde com mais reclamações dos segurados.

No Brasil – e na América Latina, em geral – não há nenhum indício de que os administradores públicos estejam interessados em seguir o mesmo caminho. Estatísticas públicas podem comprometer. Por isso, são guardadas na gaveta.

Princípio – Essa visão mesozóica é ruim. Como disse tempos atrás Tim Berners-Lee, considerado um dos criadores da internet, “dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.”

De outro, a informação pode se transformar em serviços úteis para os cidadãos prevenirem acidentes, assaltos e fazerem melhores escolhas. Novas empresas que desenvolvem novos serviços em cima de tais informações públicas criam mais empregos, geram mais valor e conhecimento.

Safety products E novos exemplos continuam a aparecer no hemisfério norte. O jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo federal disponibilizará milhares de dados de um sistema de reclamações de consumidores sobre problemas de qualidade e segurança de produtos vendidos no varejo.

Os defensores dos consumidores de lá aplaudem o poder repentino que as pessoas passam a ter na hora de fazer compras. As empresas que estão no banco de dados dizem não se opor à iniciativa, mas acusam que várias reclamações não deveriam constar no banco de dados porque os problemas não existiram.

Melhores escolhas – Mas é inegável: se um produto está causando dor de cabeça a centenas de consumidores, é importante que as pessoas tenham informação para fazerem as próprias escolhas diante das gôndolas, independentemente de quem for a culpa.

O Brasil, mesmo tardiamente, como de costume, terá de aderir ao movimento de transparência – conhecido lá fora como “open data movement”. Algo já ocorre com dados de orçamentos públicos, na medida em que cresce a pressão para que sejam disponibilizados na internet para fácil consulta. Mais informação significa mais oportunidades das pessoas fazerem melhores escolhas. Se os bancos de dados com informações públicas existem, precisam  ser divulgados. Se não existem, precisam ser criados.

Para saber mais:

Veja outras matérias e mais exemplos sobre o mesmo assunto. 1) Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham. 2) O criador da internet começa a dar novos usos à própria criação.

Mapa mundial da pena de morte mostra declínio de execuções em muitos países, mas vigor em outros

O diário sueco Dagens Nyheter produziu uma infografia interativa bastante interessante e abrangente a respeito da pena de morte no mundo desde 1900. Para tanto, teve de identificar a quantidade de condenados realmente executados nos corredores da morte em diversos países e verificar a legislação em cada nação, de forma a mostrar ao leitor onde este tipo de pena está vigente, onde foi abolido pela lei e onde foi abolido na prática.

Pena de morte A equipe de reportagem sueca constatou que a pena de morte está em declínio no mundo, mas resiste nos Estados Unidos e mantém vigor na Ásia, continente que executou dezenas de milhares de pessoas na última década. E prossegue:

“Punir as pessoas com a morte tem sido uma forma bastante comum desde que a ação humana tem sido documentada. O direito penal, por séculos, foram marcados pela idéia de vingança pelos pecados praticados no passado. Hoje em dia, no entanto, a tendência é de um mundo sem a pena de morte – mas o caminho não é linear.”

Os jornalistas, após organizarem os dados, mostram que quase todos os países que ainda aplicam a pena capital estão nos continentes asiático e africano. “Ao sul do Saara foram executadas dez pessoas em 2009, no Norte de África e do Oriente Médio mais de 600 – e na Ásia mais de mil pessoas, das quais a esmagadora maioria na China”.

No mapa interativo, você pode perceber:

1) Entre as nações desenvolvidas, os Estados Unidos e o Japão são os únicos que mantém a prática constante. Os norte-americanos executaram 52 condenados em 2009, contra sete dos japoneses. Mas 15 dos 50 estados dos EUA já baniram a prática – o último foi o Novo México, em 2009.

2) Nos últimos dez anos, a China executou mais de 15.000 pessoas.

3) O Brasil é considerado um país no qual a pena de morte foi abolida na prática, pois a última execução que se tem notícia teria ocorrido em 1.855. Mas traz uma informação interessante: 1979 é o ano em que a pena de morte foi abolida, exceto para crimes extraordinários.

No caso brasileiro, as informações contidas no trabalho de reportagem sueco seria um ótimo ponto de partida para uma investigação, buscando identificar que lei é essa, o que é considerado um crime extraordinário (já que parece que eles têm sido constantes por aqui desde 1979) e qual foi o último condenado (que o mapa indica ter sido morto em 1855, depois da Independência, antes da República e durante a escravidão). Que tal?

Brasil patina há mais de uma década no desafio de reduzir corrupção

No mais recente atlas da Transparency International, organização que monitora o nível de corrupção no mundo todo, o Brasil, invariavelmente, não ocupa uma boa posição.

A organização consegue, a partir de um conjunto de pesquisas (entre 3 e 13 em cada país, dependendo da quantidade de fontes disponíveis em cada ano), avaliar qual é o nível de corrupção percebida.

O indicador oferece muito espaço para o debate. A partir de pesquisas de opinião e outras qualitativas, tenta medir o nível de percepção que a sociedade local tem sobre a corrupção no país onde vive ou negocia.

Não creio ser possível avançar muito mais que isso. É praticamente impossível determinar quais são os países nos quais há mais corrupção a partir da medição da quantidade de dinheiro desviado ou de propinas pagas.

A posição do Brasil – Entre 178 países, o Brasil se situa no pelotão do meio, no 69° lugar, com outras três nações. Toda a imprensa deu destaque para a lista dos mais e menos corruptos. Há menos corrupção por aqui do que em Vanuatu, que vem logo atrás. da mesma forma, há mais corrupção aqui que em Ruanda, na África.

Tão importante quanto a posição que o Brasil ocupa é saber quais posições ele ocupou no passado. Só assim é possível saber se houve retrocesso ou avanço.

Segundo os parâmetros da pesquisa, quanto mais próximo de 10, menor é a corrupção percebida no dia a dia nos países. Mais próximo de zero, o ‘toma-lá-dá-cá’ corre solto.

Desde 1995, quando as pesquisas começaram a ser feitas pela Transparency International, depois de melhorar significativamente entre 1995 e 1999, o país passou a patinar no combate à corrupção, mostram as estatísticas.

Corrupção no Brasil

Coloquei os dados no Tableau Public, ferramenta gratuita que permite inserir planilhas de dados e visualizá-los em gráficos. Achei que o velho e simples gráfico em formato de colunas mostraria bem a estagnação do Brasil no combate à corrupção.

Brinque com o gráfico – Quem quiser, pode verificar lá como os 178 países evoluíram ou regrediram. A ferramenta permite interação. Os interessados podem copiar a tabela de dados, clicando em ‘download’.

Montar a tabela deu um trabalho enorme. Coletei a tabela principal de todas as edições disponíveis da pesquisa anual da Transparency International, de 1995 até 2010 .

Depois, organizei os dados em uma planilha de forma que pudessem ser comparáveis, linha por linha. Muitos países entraram na pesquisa somente nas edições mais recentes. Para outros, faltam dados em pesquisas intermediárias.

Se alguém que for craque na arte de criar infográficos e visualizações, fique à vontade para refazer e melhorar.

Pé fora de forma: jogadores erram demais nos fundamentos no Brasileirão 2010

O portal UOL tornou acessível estatísticas diversas sobre o Campeonato Brasileiro 2010 de futebol. Como em qualquer tema ou área em que há competição, é divertido fazer rankings e comparar melhores e piores.

Os dados retratam o desempenho dos times após terem jogado 27 partidas, com exceção para Corinthians, Vasco, Santos e Internacional, que disputaram um jogo a menos. O campeonato inteiro terá 38 rodadas.

Durante todos 268 jogos até então, é possível notar que o pé dos jogadores está meio fora da forma. Se algum torcedor fanático tivesse assistido a todos os jogos, teria visto exatamente 8.461 cruzamentos errados e 4.181 chutes para fora do gol. Tem coisa que irrita mais do que aquele jogador que cruza uma bola rasteira, sem força suficiente, quando há todos os zagueiros altos esperando para cabecear? Ou aquela cobrança de falta que, depois de três ou quatro minutos de empurra-empurra e formação de barreira, o atacante chuta com toda a força do mundo lá para as arquibancadas?

Baixo acerto – Na média do campeonato, a cada dez tentativas de cruzamentos, somente 2,2 são realizados corretamente. A cada dez tentativas de chutes a gol, 3,7 vão na direção do gol – entram e fazem a alegria da torcida ou são defendidos pelo goleiro.

No caso de dois outros fundamentos importantes – passes e dribles – os times acertam a maior parte, por mais que haja equipes melhores que outras nos dois casos.

Em um primeiro olhar, pode parecer que há uma relação direta entre nível de acerto e posição tabela. Os resultados confirmam, mas nem tanto essa teoria. O Fluminense, atual líder do campeonato, é a melhor equipe nos dois fundamentos, por mais que desperdice, também, muitos cruzamentos e chutes a gol. No geral, erra menos que os concorrentes.

imageJá os segundo e terceiro colocados não seguem a mesma lógica. A equipe paulista, vice-líder, está entre os cinco piores quando o assunto é acertar cruzamentos. O time mineiro, terceiro na tabela, aparece em sétimo lugar nesse quesito. Na lista dos times que mais acertam chutes a gol, o Cruzeiro é o quarto melhor, com 41% de acerto, e o Corinthians é somente o 14°.

imageEm números de chutes por partida, é o Corinthians, vice-líder, que mais arremata a gol, por mais que erre demais. Considerando que tem um jogo a menos, chuta contra a meta do adversário 14,6 vezes por jogo, seguido pelo Santos (14,2 vezes) e Vasco (13,3 vezes), também um jogo a menos cada.

Poucos chutes e cruzamentos – Entre os que menos alçam bolas na área do adversário, estão Vasco, Prudente, Atlético Goianiense e Avaí. Entre os que menos chutam por partida, estão Prudente, Avaí, Vitória e Atlético Mineiro. Entre aqueles que hoje estão na zona de rebaixamento (Grêmio Prudente, Goiás, Atlético MG e Atlético GO), somente o Prudente usa pouco os dois artifícios para chegar ao gol.

Os números, no futebol, servem para duas coisas somente. As comissões técnicas podem analisar rodada a rodada como estão os fundamentos dos times e, dessa forma, insistir em alguns tipos de treinamento. Não significa que dará certo. Já os torcedores podem se divertir e encontrar argumentos para ratificar o sucesso do próprio time ou as agruras pelas quais passam os adversários. Na rodada seguinte, o feitiço pode virar contra o feiticeiro e quem estava com o estilingue pode passar a ocupar a vidraça.

Outras profissões – Mas são estatísticas interessantes. Compare com outras profissões. Imagine o melhor caminhoneiro de uma transportadora errando 55% das manobras que tem de fazer. Imagine um cozinheiro de um restaurante de primeira linha acertando somente 45% dos bifes que frita. Imagine o entregador deixando o seu jornal na casa do vizinho 15 a 20 dias por mês.

Vale lembrar também que estatísticas mostram o desempenho nos fundamentos. Só isso. Vale muito em um torneio de pontos corridos, no qual o que vale é a regularidade. Mas, como muitos torcedores já aprenderam ao longo da vida, nem sempre é o melhor time que ganha o jogo – ou o campeonato.

Para saber mais:

1) Coloquei os números absolutos e relativos em tabelas e gráficos interativos no ManyEyes, para quem quiser realizar as próprias verificações sobre cruzamentos e chutes a gol, de acordo com a paixão clubista de cada um.

2) Aqueles que quiserem ir adiante, podem fazer esse ou outros exercícios com estatísticas coletando, rodada após rodada, os números de desempenho de times e jogadores na página do UOL Esportes.

Famílias mais pobres gastam R$ 6 por mês com educação. As mais ricas, R$ 410

Para quem gosta de escarafunchar estatísticas, há milhares de dados recém-saídos dos fornos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito do orçamento familiar. São informações que revelam como o brasileiro gasta a própria renda.

A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) é abrangente e traz dados sobre o gasto das famílias por diversas clivagens, como faixa de renda, anos de estudo e por regiões. Um prato cheio para jornalistas e estudiosos, que gostam de lidar com amplos bancos de dados, com o objetivo de extrair boas pautas com belas infografias, mas é preciso entender ou se esforçar para compreender os dados. Saber “ler as tabelas” corretamente é fundamental.

Seguem algumas constatações, a partir de uma rápida leitura feita em algumas tabelas:

– A habitação é ainda o principal peso na renda das famílias mais pobres do Brasil, cuja renda total (incluindo todos os integrantes da família que tenham algum tipo de rendimento) é de até R$ 830. Esse perfil de família gasta, em média, 37% da renda com despesas ligadas à moradia. Já os mais ricos, cuja renda familiar soma mais de R$ 10.375 por mês, gastam 22,8% da renda com itens referentes à moradia, o que também não é pouco.

– As famílias mais pobres gastam 8,8% da renda com serviços como energia elétrica, telecomunicações, gás, água e esgoto. Os mais ricos desembolsam 3,9% da renda da família com tais itens, todos os meses. A diferença é que os 8,8% da renda dos mais pobres significa uma fatura mensal de R$ 65,26 por mês, em média. A fatura dos mais ricos custa R$ 549,86 por mês, em média.

– Apesar de o Brasil já ter mais de 190 milhões de linhas de telefone celular em circulação e este serviço ter grande penetração entre as famílias mais pobres, a fatura paga todo mês é quase insignificante para as operadoras. Os integrantes de famílias cuja renda conjunta não ultrapassa R$ 830 por mês podem até ter aparelhos celulares no bolso, mas, juntos, pagam R$ 5,84 por mês pelo consumo de chamadas telefônicas celulares. Já as famílias mais ricas pagam uma fatura mensal de R$ 133,47, em média.

– Educação é um item que ganha bastante atenção na cesta de consumo das famílias. Quanto maior a renda, mais destaque para o gasto com cursos diversos, incluindo de nível superior. As famílias mais pobres desembolsam, em média, 0,9% da renda mensal com educação, enquanto as mais ricas gastam 2,9% por mês. Em reais, essa fatura mensal representa R$ 6,83 (mais pobres) e R$ 409,31 (mais ricas).

Este último dado não significa que os mais pobres não estudam. Eles estudam, mas em escolas públicas, com as já conhecidas diferenças na qualidade do ensino. Como é sabido, é a educação – e não o consumo de energia ou de alimentos – que move a roda da fortuna da ascensão social. Como diz um ditado italiano, dinheiro faz dinheiro, piolho faz piolho.

Estatísticas insinuam qual é o grupo da morte – o mais fraco – da Copa Libertadores 2010

Este ano, a Copa Santander Libertadores da América promete uma briga à parte: a brasileira. Das cinco equipes do Brasil disputando a segunda fase, de grupos, estão três das maiores torcidas do País: Flamengo, Corinthians e São Paulo, além de Cruzeiro e Internacional. Há outras faíscas em campo: a rivalidade entre os times paulistas; a rivalidade recente entre o São Paulo diante de Cruzeiro e Internacional, equipes que desclassificaram o São Paulo em edições anteriores do torneio; e a rivalidade entre Internacional e Corinthians, na qual a equipe paulista levou a melhor no Brasileirão 2005 e na Copa do Brasil 2009. Naquele Brasileirão, os gaúchos ainda não esqueceram toda a confusão e a reviravolta causada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na tabela após a revista Veja descobrir indícios de que um árbitro manipulara resultados.

Se a rivalidade entre brasileiros será uma disputa à parte, há equipes sul-americanas tradicionais que sempre fazem jogos extremamente difíceis. Os mexicanos, também, sempre convidados pela Conmebol, já têm dois times automaticamente classificados para as oitavas de final, além de mais dois disputando a fase de grupos. As duas já classificadas são remanescentes da edição da Libertadores do ano passado, quando foram perderam os jogos por WO por não aceitarem jogar em países neutros. Em abril e maio de 2009, o mundo estava apavorado com a perspectiva de uma pandemia de gripe suína, cujo epicentro foi o México e os Estados Unidos.

A idéia surgiu de uma análise bastante interessante que li sobre como era possível imaginar o grupo da morte da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, a partir de algumas contas, considerando a posição das seleções em dois rankings – o FIFA’s world soc­cer rank­ings e o Nate Silver’s Soc­cer Power Index da ESPN.

O primeiro desafio para determinar o grupo da morte da Libertadores 2010 – o grupo com equipes mais fortes – foi criar um ranking com todos os times sul-americanos e mexicanos – ao menos com todos aqueles que participam da atual fase de grupos. Não foi uma tarefa fácil. Se para as seleções nacionais há dois rankings bem feitos, pra o futebol sul-americano, em tese, deveria haver dois – o da Conmebol e o da IFFHS. Mas eles são incompletos.

 

Os desafios para construir um ranking completo e único

Quatro problemas iniciais surgiram.

1) O ranking da IFFHS se mostrou extremamente rarefeito para comparações, já que não abrange muitas equipes sul-americanas e mexicanas. O foco é a Europa. Por isso, o descartei.

2) Já a Confederação Sul-americana de Futebol, a Conmebol, não faz uma lista desse tipo (todos os times de todos os países), posicionando as equipes de acordo com os resultados que conquistaram ao longo da história do futebol sul-americano.

Na verdade, ela produz vários rankings, exatamente dez, um para cada país participante, nos quais lista melhores e piores. O problema é que não compara times de países diferentes. Ela simplesmente não diz se argentinos são melhores que brasileiros, se peruanos são piores que equatorianos, se paraguaios e uruguaios são equivalentes.

Este obstáculo foi relativamente simples de superar. Para conceder pontos para cada equipe, a Conmebol criou uma regra: dois pontos por partida disputada e pontos extras para títulos conquistados. Assim, se a Conmebol não compara todas as equipes para não acirrar os ânimos das federações nacionais, eu mesmo comparei, já que tudo aqui não passa de um exercício estatístico.

3) Se criar um ranking único da Conmebol não foi difícil, havia nele também lacunas, mesmo que poucas em comparação à lista da IFFHS. As equipes mexicanas, apesar de já disputarem a Libertadores há alguns anos, não são mensuradas pela entidade máxima do futebol sul-americano.

Para superar este desafio, pesquisei o desempenho das duas equipes mexicanas que participam atualmente da fase de grupos – Monterrey e Monarca Morelia – em todas as competições organizadas pela Conmebol. Adotei com elas o mesmo critério: dois pontos para cada partida disputada e pontos extras para títulos.

Como os times do México não participam da Copa Sul-americana, iniciada em 2002, ou outras quaisquer, até onde consegui entender, não precisei fazer pesquisas adicionais para dar-lhes pontos extras.

O Monterrey (MEX), segundo o blog do Victor Birner, só participou da Copa Libertadores de 1999 e foi eliminado na primeira fase (6 jogos, 2 vitórias, 1 empate e 3 derrotas, 10 gols feitos e 0 sofridos). TOTAL = 12 pontos.

O Monarcas Morelia, segundo Wikipedia, participou da Copa Libertadores de 2002 (10 jogos, 6 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, 23 gols feitos e 13 sofridos). TOTAL = 20 pontos.

4) Outra decisão difícil foi inserir no ranking equipes sul-americanas estreantes na Libertadores. É o caso do Racing (URU). A equipe jogou bem contra Corinthians em São Paulo e já tem uma vitória, conquistada contra o Cerro Portenho (PAR). Mas não tive escolha a não ser adotar o mesmo critério da Conmebol para dar pontos à equipe uruguaia e inseri-la no ranking.

Assim, como o Racing não tem quaisquer participações em campeonatos da Conmebol, inseri-lo na última colocação do ranking que envolve todos os times, mesmo que esta equipe não me pareça pior do que muitos times bolivianos (que estão em posições melhore). Mas não encontrei regra melhor, por princípio.

Grupos Libertadores 2010

Como eleger o grupo mais forte?

 

1) A primeira maneira de analisar a força dos grupos é calcular uma nota média entre a posição dos quatro times de cada grupo, de forma que a nota média mais elevada significa um grupo teoricamente mais fraco. Dessa forma, Cruzeiro e Flamengo estariam em grupos mais difíceis enquanto Corinthians e São Paulo estariam em grupos mais fáceis.

2) Como, além do campeão de cada grupo, há vagas para os segundos colocados, outra forma de analisar a força dos grupos é calcular a distância entre os segundos e os terceiros colocados de cada grupo, considerando as posições deles no ranking da Conmebol que foi adaptado. Entre os brasileiros, novamente o Cruzeiro estaria, teoricamente, no grupo mais forte. E o São Paulo, seguido por Internacional e Corinthians, estaria no mais fraco.

3) Nesta edição da Copa Libertadores da América, especificamente, não haverá vagas para todos os segundos colocados. Em vez de oito vagas, há somente seis, pois os dois times mexicanos remanescentes das oitavas de final da edição passada da Libertadores já têm vaga garantida nesta edição do torneio. Então, talvez seja interessante e importante identificar quais são os terceiros colocados mais fortes. A terceira força de cada grupo será uma pedra no sapato dos restantes, fazendo-os, teoricamente, perder pontos preciosos. Essa perda de pontos será danosa principalmente para os segundos colocados, que podem ver seus pares obterem pontuações melhores em grupos cujos terceiros colocados sejam mais fracos. Dessa forma, novamente Cruzeiro e Flamengo estão em grupos com terceiros colocados mais fortes em comparação com todos os outros grupos. E Internacional, seguido pelo São Paulo, tem um terceiro colocado considerado o mais fraco entre todos os grupos.

 

Cruzeiro no grupo da morte? São Paulo no grupo mais fraco?

Prismas Libertadores 2010É extremamente complicado acertar qual é o grupo mais difícil e o grupo mais fácil somente analisando a posição de cada equipe participante em um ranking. Mas não podemos desconsiderar que seja uma forma de tentar enxergar a questão.

A conclusão que esse exercício entrega é que o Cruzeiro estaria, hipoteticamente, no grupo da morte da Copa Libertadores 2010, enquanto o São Paulo estaria, em tese, no grupo mais fácil.

É difícil imaginar quais serão os dois segundos colocados que ficarão de forma das oitavas de final. Em tese, onde houver maior disputa, nos grupos mais fortes, é grande a chance de haver equilíbrio e, dessa forma, o segundo colocado não obter uma pontuação tão boa em comparação aos pares de outros grupos. O risco é ficar de forma por causa desse equilíbrio.

É óbvio que esse exercício não é conclusivo – é apenas mais uma maneira de comparar. A última posição que o Racing (URU) ganhou no ranking não condiz com a dificuldade imposta ao Corinthians na primeira partida do time brasileiro no Grupo 1.

Da mesma forma, o São Paulo, no Grupo 2, voltou a perder para o Once Caldas (COL) lá na Colômbia – e o time paulista enfrentou muita dificuldade. Ainda no Grupo 2, Once Caldas e Monterrey (MEX) estão em posições bastante diferentes no ranking da Conmebol adaptado para este exercício (54ª e 154ª posições), mas empataram em ambos os jogos.

Já o Estudiantes (ARG), a primeira força do Grupo 3, mesmo que ganhe o próximo jogo, em casa, contra o modesto Bolívar (BOL), ficará ainda a dois pontos do Alianza Lima (PER), terceira força do grupo, de acordo com o ranking, que já obteve três vitórias e uma derrota.

Times como o Bolívar (BOL) conseguem boa pontuação somente pelo fato de estarem sempre presentes na Copa Libertadores da América, ganhando, por edição do torneio, no mínimo os pontos relativos às partidas disputadas. Não significa que sejam fortes ou páreo para as outras equipes do grupo, apesar de terem uma posição interessante no ranking que adaptei.

No fim, é claro que vencerá a Libertadores 2010 a equipe que combinar melhor tática, técnica, raça, sorte, experiência e jogadas individuais de jogadores habilidosos, entre outros fatores.

 

Trabalho colaborativo

Da mesma forma que tentei imaginar critérios para determinar qual é o grupo da morte da Copa Santander Libertadores da América 2010 e regras para superar as dificuldades técnicas e ausência de informações, outras pessoas podem pensar em maneiras diferentes de fazer o mesmo exercício. Este blogueiro ficará satisfeito se receber críticas e colaborações, incluindo novas formas de resolver este exercício.

Uol Esporte dá show de criatividade!

A equipe do Uol Esporte deu show de criatividade, persistência e eficácia ao transformar um assunto dos mais chatos no mundo do futebol – os treinos – em algo extremamente interessante e interativo. O resultado foi incrível.

UOLEsporte1 A partir de uma eficiente pauta, que identificou quais informações deveriam ser capturadas, 15 repórteres foram a campo. Montaram um banco de dados e tabularam números a respeito da quantidade de horas e do tipo de treinamento que cada clube priorizou. Parece chato? Então veja a manchete que resumiu o trabalho: “Por Centenário, Corinthians ‘força’ pré-temporada e supera rivais no treino”. Os torcedores dos outros times certamente se perguntaram: “caramba, e o meu time, como está se preparando para fazer frente a essa estratégia dos corinthianos?”

Ao acessar os dados, o internauta pode verificar os rankings que demonstram  quais times – entre quatro paulistas, quatro fluminenses, dois gaúchos e dois mineiros – UOLEsporte3treinaram por mais horas, quais adotaram maior quantidade de treinos táticos ou técnicos, quais forçaram mais no exercício físico. O trabalho resultou ainda em fichas que descrevem especificidades  dos treinamentos em cada time.

Essa informação é extremamente importante, tanto que os clubes, ao longo dos anos, ampliaram a quantidade de profissionais nas comissões técnicas para coletar e organizar informações que sejam úteis a fisioterapeutas e para o próprio técnico. O sucesso foi fazer dessas informações algo também interessante.

UOLEsporte4 Mas, o ‘pulo do gato’ da equipe do Uol Esporte foi usar ingredientes bastante conhecidos para atrair audiência: a tática de criar rankings em assuntos nos quais há muita disputa e concorrência. Para isso, foi fundamental o planejamento, a escolha de quais informações deveriam ser coletadas pelos repórteres espalhados por quatro estados, a padronização da coleta de dados, a tabulação e a criatividade na apresentação dos resultados.

O blog e este blogueiro vêm mostrando com rotina bons trabalhos que estão sendo feitos na cobertura jornalística, principalmente aqueles que privilegiam a excelência e o planejamento na pauta e a criatividade na apresentação da apuração. Uma sugestão ainda pode render um ótimo trabalho de apuração e reportagem, com potencial para interagir, positivamente, com a paixão do internauta pelo futebol.

Qualidade da água: nos EUA eles já sabem como é. E no Brasil?

Deu no The New York Times: desde 2004, mais de 49 milhões de americanos receberamm água com qualidade inferior do que determina lei federal. A descoberta foi feita por um jornalista do próprio jornal que analisou informações de um banco de dados federal. Boa parte da população vem consumindo água com concentrações de arsênico, substâncias radioativas ou bacterías encontradas em esgoto. O órgão regulador dos serviços, mesmo informado de todos os casos irregulares quando eles ocorreram, aplicou multas ou punições para somente 6% deles. Sim, estamos falando dos EUA.

NYT qualidade da água

Lá, eles têm um órgãos regulador federal, que disciplina algumas responsabilidades para 54.700 sistemas de águas. Aqui, no Brasil, não há um órgãos regulador federal, mas sim poucas agências reguladoras estaduais ou municipais, que começaram a surgir, principalmente, depois da sanção de uma lei federal que estabeleceu diretrizes federais. A ANA – Agência Nacional de Águas – brasileira não tem as mesmas incumbências da EPA – Environmental Protection Agency – dos Estados Unidos, mas exerce algum papel similar.

Que tal a imprensa analisar a qualidade da água nos estados brasileiros? Difícil será achar dados. Há alguns dados disponíveis. A ANA lançou ontem, dia 8, o Atlas de Abastecimento Urbano de Água. O documento revela as condições dos mananciais e sistemas de produção em 2.965 cidades do país, das quais 1.896 requerem investimentos em água (que somam R$ 18,2 bilhões) e 1.517 precisam de investimentos em tratamento e coleta de esgoto (R$ 23 bilhões). São dados quantitativos, mas já são um início.

Outra fonte pode ser o SNIS (Sistema Nacional de Informações de Saneamento). Infelizmente, só apresenta informações quantitativas e, mais infelizmente ainda, é preenchido pelos próprios operadores de água e esgoto, o que pode colocar em risco a confiabilidade dos dados. Mas também é parte do início de uma apuração. A apuração, além disso, pode dar relevância ao fato de que a população não tem à disposição indicadores públicos que assegurem a qualidade da água que sai pela torneira de cada residência brasileira.

Milhões de brasileiros tomam água da torneira porque confiam na qualidade da água entregue pela rede de distribuição. Essa confiança merece uma boa reportagem para prevalecer ou ser abalada definitivamente.