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Nova Iorque registrou primeira alta em homicídios em cinco anos: 350 casos em 2015

A cidade de Nova Iorque, a mais populosa cidade dos Estados Unidos, com cerca de 8,5 milhões de habitantes, registrou 350 assassinatos em 2015, entre homicídios com ou sem dolo. Isso mesmo, menos de 500. Esse tipo de crime aumentou 5,1% em comparação ao ano anterior, quando a cidade registrou 333 homicídios.

Foi a primeira elevação em cinco anos. As estatísticas foram divulgadas pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque, publicadas no The Wall Street Journal e servem para comparação com quaisquer cidades brasileiras, independentemente do porte populacional e condições sociais.

NY crime 2015

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Na pressa, prefeitura paulistana pode confundir correlação com causalidade

transitoEssa notícia na capa do jornal O Estado de S. Paulo é sintomática para ensinar sobre os conceitos de causalidade e de correlação.

Em geral, governantes e imprensa costumam ser apressados e estabelecer uma relação de causa e efeito entre dois fenômenos.

No caso, a Prefeitura de São Paulo acredita que a redução da velocidade máxima permitida em algumas vias causou um efeito positivo, que foi a redução na extensão de congestionamento – e também na quantidade total de acidentes.

Já especialistas alertam que os efeitos podem ter uma outra causa: a diminuição de carros nas ruas por causa da desaceleração da atividade econômica. As pessoas dirigem menos se não estão indo ao trabalho ou às compras e, assim, a possibilidade de ocorrerem acidentes é menor, bem como a chance de haver congestionamento.

A Prefeitura de São Paulo pode até ter acertado ao estabelecer a causa (redução da velocidade) para o efeito (índice de congestionamento menor). Até porque os acidentes rotineiros de trânsito travam a circulação de automóveis e isso eleva a extensão de congestionamento. Mas, antes de cravar, é preciso fazer os estudos estatísticos adequados. Esse alerta foi feito por um entrevistado na reportagem.

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A confusão entre causalidade e correlação é um dos principais erros que são cometidos por entrevistados e repórteres. Há uma diferença enorme entre os conceitos. Um primeiro fenômeno pode exercer influência sobre um segundo sem necessariamente ser a causa deste – ou a causa única.

Outro equívoco comum é estabelecer uma tese como verdadeira a partir de um exemplo ou dois apenas. Ouve-se um entrevistado apenas, e crava-se o título. Mas essa já é outra história.

Saiba mais:

Artigo interessante: Correlação não implica causalidade. Argumenta muito bem sobre a diferença dos dois conceitos.

Outro artigo interessante, desta vez em inglês: Causation vs Correlation.

 

Ruy Castro: Lição importante de jornalismo

Não há nada a ser dito para complementer o tema do artigo de Ruy Castro, publicado no jornal Folha de S. Paulo. Trechos:

Ao assistir a filmes americanos envolvendo jornalistas, você notará a diferença. Quando surge na tela uma entrevista coletiva, cada repórter dispara uma única pergunta, curta e objetiva, que obriga o entrevistado a fazer “gulp” antes de responder. Agora compare isto com as coletivas dos nossos repórteres de TV.

Quase todos começam por uma pergunta tão longa quanto desnecessariamente explicativa. Não satisfeitos, engatam um “…e também”, e emendam uma segunda pergunta, tão longa e explicativa quanto. Ao fim desta, o telespectador já não se lembra do que ele perguntou primeiro. Mas o entrevistado se lembra muito bem —e só responde àquela que lhe for mais confortável ou conveniente. Vê-se isso ao fim de todos os jogos de futebol, nas coletivas dos treinadores. Tem-se visto isso nas coletivas dos ministros do governo, políticos e autoridades em geral.

Você dirá que, no cinema, a dinâmica do roteiro faz com que os jornalistas tenham de parecer objetivos —não há tempo nem espaço para conversa fiada em cena. E eu responderei que esta é uma cláusula pétrea entre os repórteres americanos. “Perguntas curtas, frases curtas, palavras curtas —e uma pergunta de cada vez”, aprendi em Nova York com Alain De Lyrot, antigo editor do “Herald Tribune”. “Se o entrevistado não responder a contento, você repica a pergunta.”

Nossos repórteres não se contentam com uma pergunta simples e direta. Sentem-se na obrigação de enriquecê-la, desdobrá-la e acrescentar elementos. Com isso, só a tornam confusa, e o entrevistado responde o que quiser.

Explicação que não explica – e leitor não compreende o que só o especialista descobriu

Jargões 1

O Ministério do Trabalho e Emprego divulgou, como de costume, estatísticas referentes ao nível de emprego – desta vez, para o mês de janeiro. Na maioria das vezes, os jornalistas relatam os números e colhem a opinião de especialistas para interpretar as informações recém-divulgadas. É um exercício rotineiro, quase mecânico, mas não deveria.

Jargões 2O trecho em destaque exemplifica a importância desse exercício. Certamente, a explicação do especialista faz sentido para ele e para poucos leitores que conhecem os jargões e a dinâmica da economia.

Qual é o tipo de ajuste? Porque é necessário fazer este tipo de ajuste? O que significa uma queda forte na margem?

A análise do especialista deve estar correta e deve fazer sentido, mas o leitor comum, que compõe a maior parcela da audiência, fica sem compreender o que só o especialista enxergou.

Com vários repórteres em torno da mesma matéria, leitor ganha análise exclusiva no dia seguinte

Reportagem bastante interessante do jornal O Estado de S. Paulo mostra as principais medidas dos estados brasileiros para contornar as dificuldades macroeconômicas previstas para 2015 e depois.

A pauta é simples: identificar as perguntas que precisam ser respondidas, procurar todos os gestores estaduais e, a partir das respostas, identificar as tendências e explicá-las ao leitor.

Esse tipo de pauta apresenta sempre dois desafios para a mídia, principalmente para empresas jornalísticas com abrangência regional ou local: colher as respostas em todas as fontes necessárias para montar o quadro geral. Nem sempre há profissionais disponíveis para tamanho esforço. Na reportagem realizada pelo O Estado de S. Paulo, o diário informa que nove jornalistas participaram da cobertura.

OESP Administrações estaduais

Enquanto a coleta das respostas e um trabalho mais braçal, a formulação das perguntas é uma atividade mais intelectual e demanda planejamento de um profissional que conheça bastante o tema a ser investigado. Isso evita desperdício de esforço das equipes em campo.

O resultado é sempre recompensador, pois análises semelhantes costumam ser feitas por consultorias ou universidades, mas após algum tempo. Na imprensa, o resultado é entregue bem mais rápido.

Exemplos de pautas – Há inúmeras pautas que podem ser desenvolvidas com essa estrutura e tipo de planejamento. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, dividida em subprefeituras para aproximar a administração pública da população, repórteres podem perguntar em cada autoridade local qual é a principal obra a ser realizada em 2015. Esse tipo de informação certamente é de interesse do leitor.

O mesmo pode ser feito nos estados, novamente: identificar qual será a principal obra ou ação pública do governador em cada cidade. O resultado pode ser editado em um mapa, nas páginas impressas ou na versão online, e produzida por jornais regionais.

Para saber mais:

Outra boa pauta que inclui o trabalho de diversos repórteres em diversas localidades, desta vez para os cadernos de esportes, é identificar algumas perguntas que podem ser respondidas na abertura dos campeonatos estaduais de futebol.

A opinião das crianças nas reportagens: como garantir naturalidade e precisão?

pedidos das crianças

Em 14 de outubro de 2012, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem a partir da opinião de crianças entre 9 e 12 anos. Elas sugeriam o que o próximo prefeito da cidade de São Paulo – que viria a ser Fernando Haddad – deveria fazer ou ter como prioridade.

Nada de errado em escutar a opinião das crianças. No entanto, por mais que o texto do jornal explicite claramente que os jovens foram ouvidos por jornalistas, há muitas dúvidas se a opinião é realmente dos entrevistados mirins ou dos repórteres.

Esse problema é comum em matérias desse tipo, que tentam tornar adultos mais pueris ou fazer das crianças pessoas mais maduras do que elas realmente são. É comum os pais enviarem a opinião dos filhos aos jornais – o que geralmente resulta na opinião dos pais, induzindo os filhos a darem respostas automáticas e condicionadas para perguntas nas quais eles nunca pensaram. Não raramente, os pais respondem, de forma velada, pela criança, para que ela fale aquilo que os pais considerem adequado.

Mesmo que a redação do jornal tenha enviado repórteres para entrevistar as crianças, a deturpação da opinião pode facilmente acontecer, mesmo sem intenção. Quando o jovem entrevistado não formula boas respostas – ou respostas esperadas pelo entrevistador – as perguntas podem facilmente ser feitas de forma a ajudar a criança a responder aquilo que o jornal gostaria de ouvir. Não há maldade. A pauta precisa ser cumprida.

É claro que pode ter ocorrido a coincidência de a reportagem ter encontrado várias crianças com elevado grau de opinião política, sintonizadas com os problemas da cidade e as obrigações de um prefeito – e que saibam expressar as ideias de forma clara. Mas matérias desse tipo deixam sempre a dúvida: será que as frases reproduzidas expressam realmente a opinião das crianças? Ou as ideias dos pais ou repórteres?

A solução é dar transparência ao método de apuração das informações. Explicar ao leitor quantas entrevistas foram feitas, quantas foram aproveitadas e quantas foram descartadas. Reproduzir com mais fidelidade as frases ditas pelas crianças, na ordem natural que elas foram formuladas e pronunciadas, corrigindo, eventualmente, somente erros de sintaxe.

Além disso, às crianças poderia ser dada a oportunidade de pensar sobre os temas centrais da reportagem antecipadamente, em uma aula especialmente formulada pelos professores. Assim, os jovens entrevistados estariam mais extrovertidos e seguros para responder, com naturalidade, as perguntas dos repórteres.

O modelo The New York Times de fazer e divulgar reportagens para o público mais jovem

NYT - Be yourself music videos

O The New York Times, como todos os jornais ao redor do mundo, se preocupa em publicar reportagens para todos os perfis possíveis de leitores. Um dos grandes desafios nas redações é escolher temas que interessem a crianças e adolescentes, principalmente com uma abordagem que não pareça infantil ou inocente demais para os leitores mais jovens.

Um grande erro dos jornalistas é tratar crianças e adolescentes como inocentes ou desinformados, um equívoco gigantesco, principalmente na era de difusão de informações nas redes sociais. Ou então anunciam como uma grande novidade algo que já está presente na conversa dos mais jovens há anos. Crianças e adolescentes sabem mais que os adultos sobre temas que lhes são de interesse. Mas a maioria das reportagens parece querer agradar os pais em vez dos filhos.

O The New York Times deve enfrentar o mesmo desafio diariamente. O jornal, no entanto, busca conversar com o público mais jovem com regularidade. Inclusive, mensalmente, seleciona uma coleção de reportagens que tratam de temas de interesse de crianças e adolescentes e publica em um blog, The Learning Network, que tem o objetivo de colaborar com professores que gostam de usar jornais e matérias para debates em salas de aula. É uma fonte inspiradora de pautas para os diários em qualquer país, guardadas as diferenças culturais e comportamentais entre jovens nos EUA e em outras nações, claro.

Exemplos – Em uma reportagem, o Times aborda a atuação de adolescentes com habilidades em tecnologia e que estão usando tais competências para empreender no mundo dos negócios, criando aplicativos e soluções digitais impulsionados pela difusão de ferramentas gratuitas de baixo custo.

NYT - Technologically skilled teenagers

Outra matéria analisa o conteúdo de musicas e vídeos recentes que dizem aos adolescentes para serem seguros com o corpo deles, ou “serem eles mesmos”, sejam eles mais gordos ou mais magros do que aquilo que pode ser considerado padrão em alguns grupos ou localidades.

Numa era que milhares de fotografias estilo “selfie” são publicadas todos os minutos, o discurso presente da letra das músicas capta o gosto dos mais jovens. Isso acontece há anos, claro, seja para a estética ou para qualquer outro comportamento. Os jornais precisam ficar atentos.

Detalhe importante: as reportagens não são segregadas em um caderno especial publicado uma vez por semana. Elas são impressas em quaisquer partes do jornal, sendo comum encontrá-las nas editorias de comportamento, ciência, economia ou política.