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Na crise do coronavírus, jornais voltam a apostar nas crianças

Com a expansão da covid-19 pelo mundo, alçada para a categoria de pandemia, a população global foi forçada a mudar comportamentos a partir das recomendações de isolamento social, quarentena, proibição de abertura de lojas e serviços. Escritórios, escolas e quaisquer espaços que representem aglomerações de pessoas foram proibidos ou desestimulados.

As crianças estão em casa e os país estão à procura de entretenimento e educação para elas. É uma oportunidade para a mídia se aproximar dos pais e das crianças com conteúdo específico.

Formar novos leitores não é necessariamente uma obrigação dos jornais, mas sim das famílias e do sistema educacional do país. Mas essa diretriz sempre esteve por trás de suplementos semanais voltados para crianças e/ou adolescentes. Essa linha de atuação, em quase todos os órgãos de mídia, foi abandonada nos últimos anos, muito por causa das adaptações que a indústria jornalística empreende para encontrar novas fontes de receitas em tempos de redução das verbas publicitária.

Três reportagens recentes, neste cenário, chamaram a atenção. O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo elaboraram matérias para os adultos interagirem com as crianças, que estão reclusas em casa e demandam atividades recreativas. Outros diários podem ter feito reportagens similares. É uma boa tática para cativar pais e filhos, gerar empatia com adultos ansiosos devido à falta de criatividade para entreter a criançada.

Boa escolha dos jornais. Deveriam insistir nessa direção e, inclusive, criar um canal especial digital com vídeos, narração de histórias, brincadeiras diversas. Isso pode reforçar o relacionamento com pais e amais jovens. Veja os dois exemplos abaixo.

 

Mapas podem frustrar caso não tragam marcos descritos nos textos

Recente reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostra os desafios do novo time à frente do governo federal para concluir uma obra emblemática para a segurança hídrica e para o desenvolvimento da Região Nordeste: a transposição do rio São Francisco. Os repórteres visitaram cidades no entorno da obra para avaliar a evolução do projeto, capturar as expectativas das pessoas que moram nas localidades e analisar a perspectiva de conclusão da obra, superlativa em muitos aspectos.

Um mapa enriquece a reportagem. Mas, infelizmente, indica apenas parte das localidades e instalações de infraestrutura descritas no texto e nas legendas das fotografias. É presumível: o mapa é pequeno e falta espaço para listar todas as cidades e informações de caráter geográfico, há pressa no fechamento do jornal, pode haver poucos profissionais disponíveis com a habilidade de produzir mapas – ou tudo ao mesmo tempo. Mas a falta de precisão pode gerar frustração.

O mapa cita:

  • Cidades: Natal (RN), João Pessoa (PB), Recife (PE), Cabrobó (PE), Penaforte (CE), Juazeiro do Norte (CE), São José de Piranhas (PB) e Cajazeiras (PB).
  • Marcos geográficos: rio São Francisco
  • Instalações de infraestrutura: Barragem de Sobradinho, Eixo Norte e Eixo Leste (da transposição do rio São Francisco).

Mas o mapa não cita outros municípios, marcos geográficos e instalações de infraestrutura que estão no texto:

  • Cidades: Floresta (PE) e Campina Grande (PB).
  • Marcos geográficos: Região do Cariri (CE) e Chapada do Araripe (na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco).
  • Instalações de infraestrutura: Açude Poções (PB), represas na Paraíba e reservatório de Fortaleza (CE).

O mapa serve certamente para orientar o leitor durante a descrição existente no texto da reportagem, pois mesmo as pessoas familiarizadas com os detalhes geográficos da região podem ter dificuldades que visualizar mentalmente o percurso das obras.

A reportagem é faz parte de uma cobertura especial de duas páginas publicada em um domingo, o que permite especular que houve tempo para planejar um mapa completo – e até maior.

O que define um personagem interessante para o jornalismo?

FSP - Clube Mato GrossoNa prática do jornalismo, é rotina se deparar com personagens que podem ser considerados ótimos para um perfil ou para serem protagonistas de matérias inusitadas. Mas é um desafio também, pois não há uma cartilha que dê certeza ao repórter se o entrevistado é ou não, realmente, detentor de atributos que vão arrebatar inquestionavelmente a atenção do leitor.

Um personagem ímpar não é necessariamente uma pessoa que venceu após superar obstáculos enormes em um ambiente de condições desfavoráveis. Pode ajudar, mas não necessariamente conduz a uma grande matéria. Há sempre um risco de a reportagem dar contornos de heroísmo a uma história de vida igual à de outros milhões de pessoas.

FSP- Rei dos acessosPerseverança, foco, obstinação, sucesso e outras muitas características heroicas – o que nos romances costuma funcionar – não necessariamente serão ingredientes de sucesso para um perfil no jornalismo. Boas seções de obituários sempre trazem tais histórias.

O inusitado pode ser um atributo essencial. Outro é conseguir carimbar no personagem entrevistado um apelido que apele para a memória do leitor. O “Neymar do Nordeste” ou o “Lampião do século XIX” também ajudam a engrandecer a um personagem.

Política e esporte são áreas férteis para o surgimento de personagens inusitados, que atingiram marcas ou metas audaciosas e podem ser protagonistas de matérias interessantes a partir de apelidos que facilitam alçá-los ao topo em meio aos iguais ou competidores.

O jornal Folha de S. Paulo conseguiu localizar dois personagens interessantes em pouco tempo para reportagens sobre futebol. Uma relatou as características e opiniões do “rei do acesso“, um treinador de futebol de times pequenos e fora dos eixos de maior audiência que é o campeão de desempenho no desafio de fazer times subirem de divisões.

Outra matéria narrou a trajetória até agora bem-sucedida de uma equipe de futebol – o Cuiabá – em uma região sem tradição nem grandes feitos na modalidade. Vale a leitura.

 

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.

 

Exemplo nota dez de reportagem para público jovem

Reportagem feita pelo jornal O Estado de S. Paulo em junho de 2013 é um exemplo excelente sobre o exercício, que deveria ser cotidiano, de escolher temas que interessem para o público jovem. Os principais jornais do país praticamente perderam audiência deste segmento de leitores para a internet, que tem canais com pauta e linguagem mais personalizadas e adaptadas.

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Para saber mais:

Os projetos educacionais selecionados pelo Estadão são apenas uma pequena fração do que existe para aqueles interessados em aprender temas específicos de diversas áreas do conhecimento. Aqui, é possível compreender como as opões são muitas – em língua inglesa.

Exemplo de jornalismo na fiscalização das ações do poder público

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O portal G1 tem feito um ótimo trabalho ao acompanhar, periodicamente, o cumprimento das promessas de campanha do presidente da República, dos governadores e de alguns prefeitos.

É possível acompanhar o cumprimento de promessas nas diversas áreas da administração pública.

Esse tipo de prática jornalística ao longo do tempo, companhando diligentemente a evolução de algum tipo de assunto, não costuma ser tão comum nas redações.

Essa reportagem “de longo prazo” do G1 ainda tem o mérito de preservar o histórico da apuração, oferecendo ao leitor as informações das parciais apuradas em momentos no passado.

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Algumas vezes, jornalistas acompanham a evolução do bem-estar de famílias ao longo de um prazo mais longo, de forma que o leitor possa identificar, sob o prisma do personagem e do jornalista, os principais indutores da mudança de bem-estar da família acompanhada. O resultado costuma ser muito bom para o leitor.

Veja mais:

Reportagem da Folha de S. Paulo acompanha famílias desde 2005, início de programa social do governo federal, e mostra que beneficiários do Bolsa Família trilham caminhos opostos ao longo de dez anos.

Lei das Estatais: Vale uma pesquisa nos estados e municípios?

A Folha de S. Paulo publicou reportagem mostrando que, no Estado de São Paulo, um decreto que regulamenta a Lei das Estatais – que estabelece, entre outras normas, novas regras para nomeação de diretores e conselheiros de estatais – havia sido flexibilizado. O governo paulista desistiu da flexibilização dias depois.

A chamada Lei das Estatais, quando aprovada, foi considerada uma importante evolução na governança das empresas estatais brasileiras. O governo federal publicou decreto regulamentando aspectos da lei dia 27 de dezembro. Os estados devem fazer o mesmo.

Diz o primeiro artigo da Lei 13.303/2016:

Art. 1o  Esta Lei dispõe sobre o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias, abrangendo toda e qualquer empresa pública e sociedade de economia mista da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios que explore atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, ainda que a atividade econômica esteja sujeita ao regime de monopólio da União ou seja de prestação de serviços públicos.

Vale uma pesquisa em todos os estados brasileiros – e até nas capitais – para identificar como os gestores públicos do Poder Executivo estão regulamentando, via decreto, os dispositivos da lei, sobretudo nas empresas estatais consideradas de pequeno porte (receita operacional bruta inferior a R$ 90 milhões).

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Riscos e cuidados no uso de estatísticas. Mesmo as oficiais

Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo no dia 4 de março de 2016 evidencia o risco – e consequentemente os cuidados -que devem ser levados em consideração no trato com estatísticas, mesmo aquelas que são oferecidas oficialmente por órgãos públicos.

Em resumo, o número de homicídios divulgados pelo poder público está subdimensionado, pois há muitos casos listados em outra categoria de informação que não aparece nos balanços divulgados pela Secretaria de Segurança Pública.

O debate em torno da reportagem e da análise dos dados exigiu explicações do governo paulista e novas regras para a divulgação de estatísticas, como a divulgação das correções feitas periodicamente e de dados dos boletins de ocorrências.

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Veja mais:

O problema atinge outros estados brasileiros, como mostra a tese do pesquisador Daniel Cerqueira, que avaliou dados sobre mortes violentas não esclarecidas no estado do Rio de Janeiro.