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Londres 2012: como a Foreign Policy superou o desafio de produzir reportagens inovadoras

Os grandes eventos – econômicos, políticos, esportivos ou culturais são um desafio para a mídia. Os jornalistas precisam apresentar ao público reportagens com abordagens inovadoras, exclusivas e surpreendentes. Nessa busca, muitas tentativas resultam em matérias bobas, fúteis ou apenas um pouco engraçadas.

cover_jul26_geolympicsA revista norte-americana Foreign Policy, quinzenal, conseguiu pensar uma boa reportagem – e cumpriu-a muito bem. Eles reuniram alguns casos que marcaram politicamente a realização dos Jogos Olímpicos, alguns deles bastante conhecidos – como o ataque terrorista perpetrado pelo Setembro Negro em Munique, Alemanha, em 1972, que resultou na morte de 11 atletas israelenses e cinco terroristas.

O interessante é que as desavenças geopolíticas entre as grandes potências mundiais ao longo da história refletiram em muitos Jogos Olímpicos. Os casos são bem narrados pela revista Foreign Policy.

Vale a pena a leitura. A revista é conhecida por analisar com bastante abrangência e competência as relações externas e as intrigas mundiais de poder entre as nações. A reportagem está em inglês.

A concepção e a estrutura da pauta são relativamente simples. Isso não faz da reportagem algo fácil de ser feito. O jornalista buscou adaptar o tema ao perfil da publicação. Depois, pesquisou, em todos os eventos olímpicos, exemplos nos quais as nações trouxeram para dentro de campo os conflitos políticos ou geográficos que viviam fora dele. Vários exemplos que têm o mesmo conceito ou os mesmos princípios por trás dão unidade à matéria. Depois, bastou descrever os episódios. É isso.

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Reportagem excepcional evidencia dilemas – às vezes antagônicos – entre leitores e repórter

Zero Hora - Filho da RuaO Zero Hora publicou uma reportagem muito interessante dias atrás, chamada Filhos da Rua. Narra a trajetória de um garoto com dificuldades para abandonar as drogas e deixar de morar nas ruas. A reportagem, com autorização da Justiça, acompanhou o cotidiano do jovem por três anos seguidos.

A história particular do personagem principal acaba se transformando no pano de fundo para demonstrar vitórias e fracassos também das famílias e dos serviços de assistência social – além dos dilemas do próprio jornalismo. Veja a apresentação da reportagem, que ganhou uma versão multimídia:

Felipe é infantil, mas agressivo; pede ajuda mas não larga o crack; procura a família, mas vive nas esquinas. A sociedade sustenta seu vício com esmolas. A mãe cansou da luta para resgatá-lo. Projetos sociais dos governos fracassaram na missão de ajudá-lo. Por três anos, ZH seguiu seus passos e mostra como a mistura de omissão, pobreza, desestrutura familiar e falta de horizontes é berçário para o nascimento de um menino de rua.

O primeiro ponto interessante é o planejamento – a ideia de imaginar uma reportagem, planejá-la no longo prazo e entregar um resultado anos depois. O jornalista faz um estudo e o publica na forma de matéria. Simples de entender, difícil de conceber e entregar. Vários casos na imprensa já foram bem-sucedidos nesse tipo de pauta – e esse exemplo do Zero Hora merece elogios por ter sido bem-sucedido.

Os dilemas do leitor e do jornalista – No entanto, o aspecto mais interessante é a lição que essa história oferece aos jornalistas e aos leitores sobre os limites da profissão diante de situações extremas – e os dilemas éticos do profissional. Para um cidadão, mesmo aqueles com princípios morais porosos ou preocupações sociais restritas, é inconcebível abandonar uma pessoa em dificuldade extrema se ajudá-la é uma atitude possível no exato momento em que o fato está acontecendo.

Já para o jornalista – ou para o profissional que atua com jornalismo, o que inclui cinegrafistas e fotógrafos – a interferência no fato é algo inconcebível. Afinal, a profissão é reflexo da narração do fato da forma mais fiel possível, sem distorção e interferências.

Um exemplo hipotético clássico é o fotógrafo que, diante de uma enchente de proporções gigantescas e inéditas, vê uma pessoa lutar contra a correnteza até perder para ela. O que o fotógrafo deve fazer? Abandonar a possibilidade de registrar as imagens dessa luta e tentar ajudar a pessoa necessitada? Ou deve manter-se fiel à missão de capturar as imagens de toda a história, o que significa tirar fotografias do começo ao fim (e ninguém consegue prever quando será o final ou o último ato)? Se largar a máquina depois de fazer as primeiras fotos, pode perder a melhor cena e nunc a ninguém terá um registro do fato completo. Se permanecer com a máquina em mãos, pode ver uma pessoa necessitada morrer diante das lentes.

Comentários dos leitores – Muitos leitores do Zero Hora, assim que o tema e o teor da reportagem foi anunciado dias antes da publicação, escolheram um lado e reclamaram muito da postura do jornal, acusando-o de sensacionalista e explorar as dificuldades do personagem principal para vender mais jornal.

Outros, entenderam o objetivo do trabalho do diário e a função da jornalista Letícia Duarte. A repórter responsável pela apuração teve de fazer escolhas difíceis para fazer um relato fiel sobre o acontecimento. Na verdade, parece que ambos estão com a razão – cada qual no papel que tem de cumprir.

O jornal, no fim, não poderia ter deixado os leitores sem respostas, sob risco de se distanciar deles. E não deixou. Promoveu um amplo debate com especialistas, jornalistas e sociedade, pelo qual foi, ao menos, deixar claro qual é a responsabilidade e a função de cada instituição ou profissional. Se os jornalistas entendem Melhor assim.

Saiba mais:

Veja outro exemplo de reportagens planejadas com antecedência para serem publicas anos depois, entregando ao leitor um relato da evolução do fato após um período prolongado de observação.

Três exemplos de capas de jornal criativas e ousadas

A capa do jornal costuma ser um mosaico daquilo que aconteceu de mais importante no dia anterior. O editor precisa calibrar a quantidade de notícias buscando temas das mais variadas áreas de cobertura do diário. É difícil montar o quebra-cabeças, reunindo fotos, gráficos, títulos, palavras certas e precisas.

Alguns jornais – independentemente do perfil, do porte e da abrangência da circulação – buscam ousar na composição da primeira página. Alguns exemplos:

Diário do Comercio (SP) – O diário aproveitou a célebre imagem da campanha do presidente norte-americano Barack Obama com a frase dita por ele em um encontro com o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para informar, na primeira página, o índice de popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff. "Ela é o cara", estampa o jornal.

Correio Braziliense (DF) – A Comissão da Verdade, criada pelo governo federal para investigar o paradeiro de desaparecidos políticos durante o regime militar no Brasil, ainda causa constrangimentos e polêmica em ambos os lados – militares e defensores dos direitos civis. Um dos casos é emblemático: a morte, em cárcere, do jornalista Vladimir Herzog. O jornal, então, lembrou que os brasileiros não sabem, há 48 anos, o que, de fato, aconteceu. A imagem diz mais que tudo.

O Dia (RJ) – A recente morte do humorista Chico Anysio (1931 – 2012) deixou o mundo artístico – e os fãs dele – muito triste. O jornal fluminense encontrou um modo ímpar de informar os leitores, sugerindo que não somente o humorista faleceu, mas também os mais de 200 personagens criados por ele ao longo de uma carreira inteira.

Os pauteiros podem ajudar a salvar os jornais impressos?

Dias atrás, o Café Expresso elogiou a pauta e a reportagem sobre o aniversário de dez anos do caso, ainda inconcluso, do assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel. Depois daquela reportagem, a imprensa começou a dar mais atenção para a cobertura do tema, ainda mais porque o julgamento de cinco acusados está marcado para 10 de maio, com júri popular. O programa Roda Viva, da TV Cultura, entrevistou o irmão do ex-prefeito.

Lei Rouanet Reportagens como essas são importante para manter a sociedade informada sobre os desdobramentos de importantes casos, sejam eles econômicos, políticos ou policiais. Servem, também, para fazer um exame detalhado e apresentar as principais conclusões para os leitores ou telespectadores.

Outra matéria segue esse mesmo princípio. A Folha de S. Paulo aproveitou o aniversário de 20 anos da Lei Rouanet para oferecer aos leitores os impactos e as transformações causadas no cenário cultural pela legislação.

Boas razões – Aproveitar o momento em que algum caso completa cinco, dez, vinte ou mais anos para fazer uma reportagem é sempre bastante interessante para os leitores, que passam a ter condição de avaliar, de forma equilibrada, se as instituições públicas brasileiras estão funcionando a contento.

Em um momento em que os jornais impressos buscam um caminho diferente para manter a fidelidade dos leitores cada vez mais bombardeados pela velocidade e pela instantaneidade da divulgação de notícias, reportagens mais analíticas podem colaborar para manter os jornais como instrumentos essenciais, tanto para lazer como para os negócios.

Pautas como essas precisam ser planejadas com uma ou duas semanas de antecedência, de forma que muitos especialistas possam ser ouvidos e outras informações, às vezes estatísticas, precisam ser organizadas.

Os responsáveis pela pauta nos jornais precisam recorrer aos arquivos das redações, boa parte hoje já informatizados. Para aniversários de nascimento ou morte de pessoas importantes ou grandes acontecimentos mundiais, algumas ferramentas na internet ajudam no serviço, como as efemérides do Google.

Los Angeles Times: boa pauta mescla bancos de dados, infografia e narrativa com eficiência

O jornal Los Angeles Times produziu uma bela reportagem que ajuda a demonstrar uma das mais atraentes vertentes do jornalismo atualmente. A matéria faz uso de três ingredientes: bancos de dados, infografias e excelente reportagem para contar a história.

A matéria em questão aborda a retomada das transferência de dinheiro dos estrangeiros residentes nos Estados Unidos para as famílias que eles deixaram nos países de origem. Índia, China e México, nessa ordem, são os principais países de destino dos dólares mandados pelos imigrantes que trabalham no mercado norte-americano.

Dados e visualização – As estatísticas suportam a pauta: o crescimento das remessas de recursos de imigrantes mexicanos para o México. A análise sobre os dados permitiu identificar uma informação nova sobre o mercado de trabalho norte-americano. A partir desse ponto, especialistas ajudaram a entender as causas e consequências dessa mudança e sugerir conclusões sobre o fenômeno.

Los Angeles Times 12jan2012 A infografia reúne recursos como estatísticas sobre mapa e gráficos em barras, com tonalidades diferentes da mesma cor, de forma que o leitor percebe facilmente medidas como distribuição espacial e quantidade. A informação visual permite entender quais estados mexicanos mais receberam dinheiro despachado por imigrantes mexicanos que trabalham nos Estados Unidos.

Personagem – Um terceiro aspecto é a harmonia com a qual todos esses elementos foram organizados na parte principal da capa do jornal.

A reportagem é inaugurada com um personagem comum que representa a essência do fato que pretende ser contado – uma empregada doméstica que espera numa fila a vez de enviar uma pequena quantia para a mãe, que mora em Chiapas, México.

A matéria ainda supõe, a partir dos especialistas, que o crescimento, depois de três anos em queda, da quantidade total de dinheiro enviado por imigrantes para parentes residentes em outros países pode representar uma evidência do fortalecimento e da recuperação do mercado de trabalho norte-americano.

Método – Esse estilo de jornalismo têm sido chamado de “data-driven journalism”, algo como “jornalismo movido por estatísticas”. Em regra geral, é um método baseado na organização e análise de bancos de dados cada vez mais abrangentes que ajudam os jornalistas a detectarem mudanças que embasam as pautas e as notícias subsequentes.

Muitas vezes, a análise dos dados e a visualização deles conta com a participação de programadores que, com as técnicas das ciências da computação, criam regras para cruzar e orientar as estatísticas de forma eficiente.

Se as enchentes em São Paulo, ao menos, se parecessem com essa …

Huntsville é uma cidade localizada no norte do Estado do Alabama, nos Estados Unidos, com 180 mil pessoas. Já o jornal tem uma tiragem de aproximadamente 60 mil exemplares diários. As enchentes, lá, parecem mais agradáveis que as de cá. Essa, estampada na capa do jornal, ocorreu dia 26.

The Huntsville Times 27jan12

Estadão faz homenagem aos 80 anos do Cristo Redentor com infografia digna de prêmio

Anos atrás, os apaixonados por infografias tinham apenas a revista Superinteressante para recorrer. Com a guinada do jornalismo para novas frentes, como o uso mais intensivo de estatísticas e bancos de dados e a elaboração de infográficos estáticos ou interativos, diversos jornais impressos ou eletrônicos têm conseguido bons resultados na arte de informar sem usar longos textos.

80 anos Cristo Redentor O jornal O Estado de S. Paulo publicou no dia 12 de outubro uma reportagem para lembrar do aniversário de 80 anos da inauguração do Cristo Redentor e informar a agenda de eventos culturais e de entretenimento programada para a festa. Ao mesmo tempo, aproveitou a oportunidade para instruir os leitores a respeito de uma polêmica que permanece após décadas: quem foram os verdadeiros autores da obra.

A matéria se transformou em alegoria do principal aspecto: uma infografia digna de prêmio, tão boa quanto aquelas produzidas pela Superinteressante. O jornal praticamente “desmontou” a estátua e mostrou como funciona a estrutura interna do monumento e deu instruções sobre a construção.

Saiba mais:

No ano passado, o Estadão já tinha feito algo similar quando o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, já centenário, foi reaberto, em maio de 2010, após 18 meses de reformas. A infografia também “desmontou” o edifício para ativar a curiosidade das pessoas.