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Empresário e engenheiro, o ex-deputado que inspirou Lei de Licitações deveria ser pauta obrigatória

A agência de notícias da Câmara dos Deputados informou que uma comissão especial, criada para analisar alterações nas legislações que regem as contratações do setor público, vai ouvir, no dia 8 de julho, Luís Roberto Ponte.

lei de licitaçõesO convidado, segundo informa a reportagem, é empresário, engenheiro e ex-deputado federal.

Além disso, é dele a autoria do projeto de lei que foi aprovado, em 1993, e culminou na Lei de Licitações (lei 8.666/93), que disciplina como a administração pública deve proceder para comprar quaisquer bens e serviços.

Passados mais de 20 anos desde a promulgação da lei, e com os diversos debates já realizados sobre os problemas ainda existentes para promover licitações sem demora excessiva e também garantir compras eficientes pelos gestores públicos, é essencial que os principais jornais do país, programas de televisão e de rádio, ouçam o convidado e peçam a ele uma análise da lei que ele inspirou.

Se o potencial entrevistado tiver tempo disponível, é obrigação que cada jornal de circulação nacional lhe conceda uma página, e que os programas de rádio e televisão reservem para ele espaço para debates de 30 minutos, no mínimo.

Algumas perguntas não podem faltar:

– As regras de licitação existente garantem uma compra eficiente por parte da administração pública em sua opinião?

– Como conciliar uma quantidade de regras suficientes para evitar fraudes com a necessidade de promover licitações sem burocracia e dificuldades excessivas?

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Com vários repórteres em torno da mesma matéria, leitor ganha análise exclusiva no dia seguinte

Reportagem bastante interessante do jornal O Estado de S. Paulo mostra as principais medidas dos estados brasileiros para contornar as dificuldades macroeconômicas previstas para 2015 e depois.

A pauta é simples: identificar as perguntas que precisam ser respondidas, procurar todos os gestores estaduais e, a partir das respostas, identificar as tendências e explicá-las ao leitor.

Esse tipo de pauta apresenta sempre dois desafios para a mídia, principalmente para empresas jornalísticas com abrangência regional ou local: colher as respostas em todas as fontes necessárias para montar o quadro geral. Nem sempre há profissionais disponíveis para tamanho esforço. Na reportagem realizada pelo O Estado de S. Paulo, o diário informa que nove jornalistas participaram da cobertura.

OESP Administrações estaduais

Enquanto a coleta das respostas e um trabalho mais braçal, a formulação das perguntas é uma atividade mais intelectual e demanda planejamento de um profissional que conheça bastante o tema a ser investigado. Isso evita desperdício de esforço das equipes em campo.

O resultado é sempre recompensador, pois análises semelhantes costumam ser feitas por consultorias ou universidades, mas após algum tempo. Na imprensa, o resultado é entregue bem mais rápido.

Exemplos de pautas – Há inúmeras pautas que podem ser desenvolvidas com essa estrutura e tipo de planejamento. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, dividida em subprefeituras para aproximar a administração pública da população, repórteres podem perguntar em cada autoridade local qual é a principal obra a ser realizada em 2015. Esse tipo de informação certamente é de interesse do leitor.

O mesmo pode ser feito nos estados, novamente: identificar qual será a principal obra ou ação pública do governador em cada cidade. O resultado pode ser editado em um mapa, nas páginas impressas ou na versão online, e produzida por jornais regionais.

Para saber mais:

Outra boa pauta que inclui o trabalho de diversos repórteres em diversas localidades, desta vez para os cadernos de esportes, é identificar algumas perguntas que podem ser respondidas na abertura dos campeonatos estaduais de futebol.

Jornalismo esportivo: ainda há boas reportagens

A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo dispensa comentários. Muito boa. Aborda um fato que os torcedores parecem já ter percebido, traz depoimentos e análises de diversos ex-jogadores, especialistas no assunto – a arte de fazer gols nas batidas de falta.

É um trabalho muito positivo, considerando o nível ruim do jornalismo esportivo, no qual os profissionais, em grande parte das vezes, estão envolvidos em clubismo e opinião sem embasamento suficiente, muitos inclusive brigando contra números.

A matéria poderia ter sido melhor, no entanto. Um exemplo: mais números para comprovar a tese. O texto informa que há queda nos gols de falta no
Campeonato Brasileiro (133 em 2011 contra 116 em 2012). A estatística deveria abranger um período mais longo, desde 2003, por exemplo, quando o campeonato nacional passou a ser disputado no modelo de pontos corridos.

A cobertura, em vez de trazer pequena matéria com treinador de goleiros, poderia ter ouvido treinadores das categorias de base para explicar se o fundamento – bater faltas – é exaustivamente treinado entre os atletas mais jovens e aspirantes – e, caso negativo, por quais razões.

A possibilidade de melhorar a reportagem, no entanto, não tira o mérito da pauta muito bem feita, criativa e cumprida.

Sugestão de pauta – A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo deveria inspirar jornalistas esportivos a produzir boas matérias sobre outros fundamentos ou jogadas do futebol, como defesas de pênalti, cruzamentos e tabelas entre atacantes, entre outros.

Na mesma linha, as matérias poderiam trazer números sobre a eficiência dos atletas em fundamentos. Há consultorias que mensuram fundamentos e alguns clubes compram este tipo de serviço.

Tal qual  a reportagem do O Estado de S. Paulo, atletas considerados “ícones” nos fundamentos poderiam analisar o assunto.

Batedores de falta

Infografia no jornalismo: beleza não é tudo se os números não forem fundamentais

O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma boa reportagem tentando identificar o que pensam os mais variados partidos do Congresso Nacional sobre temas que devem ser debatidos durante uma possível reforma política.

Durante os dias que sucederam protestos em diversas cidades brasileiras, o governo federal sugeriu que regras do sistema eleitoral e partidário fossem alteradas para mudar a forma de fazer política no país e atender parte dos pleitos da população.

A equipe de reportagem do jornal conseguiu rapidamente consultar as lideranças dos partidos políticos representados tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado sobre diversos temas: unificação das eleições, foro privilegiado, reeleição, financiamento público, voto em lista e fim das coligações proporcionais.

Infográfico reforma política

A ideia foi cobrar respostas objetivas dos líderes partidários puderam, que podiam responder que o partido ao qual ele representa é a favor ou contra o assunto proposto ou ainda não tem posição sobre o tema.

O infográfico é muito bonito, atraente e eficiente – na medida em que permite ao leitor perceber dimensões (qual tema tem mais concordância ou discordância), variedade (a opinião sobre diversos assuntos) e detalhes (qual partido é contrário ou favorável e em qual casa do Congresso Nacional).

No entanto, a notícia entregue ao leitor é distorcida. No infográfico, o voto de um partido como PT e PSDB, as maiores bancadas no Congresso, valem o mesmo que os partidos políticos: um voto.

Pouco importa indicar que a maioria dos partidos apoia determinado assunto se as maiores bancadas parlamentares são contrárias ou ainda não têm opinião formalizada. Em assuntos como esses, seria natural que os congressistas seguissem a orientação dos partidos no momento de confirmar o voto.

No infográfico, parece que os deputados estão divididos entre manter ou acabar com a possibilidade de governantes serem reeleitos. No entanto, três dos quatro partidos com as maiores bancadas – PT, PMDB e PSDB – não opinaram.

O ideal, então, seria multiplicar a resposta do líder partidário pela quantidade de congressistas que ele representa – o tamanho das bancadas. Assim, o infográfico mostraria com mais exatidão se determinados assuntos presentes na discussão sobre reforma política têm chances maiores ou menores de serem aprovadas.

Reportagem digital evita erros das mais antigas e das mais recentes práticas jornalísticas

As mais antigas e mais recentes ferramentas do jornalismo muitas vezes colidem umas contra as outras – e essa colisão gera energia nova. A reportagem multimídia Moendo Gente é um bom exemplo. Uniu a boa e velha reportagem com os melhores recursos visuais disponíveis. O tema é o menos importante. Merece aplauso o processo, desde o planejamento e a escolha do método até o apuro na condução da reportagem e na edição. O foco da matéria é o leitor, por mais óbvio que pareça, e não a preferência do jornalista que a produz.

Reportagem digital

A matéria, como ela própria explica, “é um mergulho no universo dos trabalhadores dos principais frigoríficos brasileiros”. Ela investiga os acontecimentos, coloca repórteres em campo, junta as pontas, investiga de novo. Busca estatísticas e as ordena, tira novidades a partir do cruzamento dos dados, investiga novamente. Ouve pessoas, narra dramas e questiona autoridades. Mostra tudo de forma visualmente agradável, bonito e atraente e ainda permite que o receptor da notícia – o internauta – interaja com a reportagem, selecionando aspectos que deseja conhecer.

Usa texto, mapas, vídeos. Um bom exemplo de reportagem multimídia que usa o melhor de todos os recursos e não cai no erro das mais antigas e das mais recentes práticas jornalísticas. Uma delas é exagerar no texto quando há reportagens investigativas de fôlego como essa, com profundidade. Outra é exagerar nas estatísticas e números que, mesmo que apresentados de forma atraente, não apenas dados de almanaque, que não respondem as mais importantes questões sobre o assunto.

Foi produzida pela ONG Repórter Brasil. Os jornalistas investigaram as relações de trabalho nos maiores frigoríficos brasileiros, organizaram estatísticas sobre acidentes de trabalho, apresentaram os elos entre as empresas e as redes de supermercados, no Brasil e no mundo. A ideia é mostrar que um local de trabalho negligenciado aqui precisa ficar evidente para um varejista e para um consumidor do outro lado do mundo.

Só a National Geographic lembrou de contar essa história, que já dura séculos, mas está perto do fim

A National Geographic Brasil publicou uma excelente reportagem sobre os últimos 20 saveiros que ainda restam no litoral da Bahia. A matéria ficou ainda melhor porque foi editada aproveitando bastante de boas fotos-legendas (fotografias que são acompanhadas de legendas maiores, mais explicativas do que as usuais, bastante curtas e resumidas), como é costume da publicação.

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Os saveiros são barcos à vela que durante séculos fizeram – e os 20 remanescentes ainda fazem – o transporte de cargas entre a costa e os grandes navios cargueiros, desde as caravelas até os à vapor. Surgiram na Bahia, funcionaram principalmente durante o período que Salvador foi capital do império português no Brasil e foram, ao longo de décadas, imortalizados nos livros escritos por Jorge Amado.

A história foi descoberta pela National Geographic Brasil, mas pode servir de ponto de partida para todas as outras mídias, principalmente os jornais impressos (que, caso decidam abordar a pauta, deveriam usar largamente o recurso das fotos-legendas) e os programas televisivos.

O placar do Mensalão: quem condenou quem por qual crime de uma forma bem fácil de entender

O julgamento da Ação Penal 470 – conhecida como o Caso Mensalão – apresentou desafios para a imprensa. Deslocar jornalistas em quantidade suficiente para acompanhar os debates, as acusações e as defesas no Supremo Tribunal Federal, treinar os profissionais com os termos e trâmites de um julgamento como esse, buscar especialistas, simplificar e explicar didaticamente e contextualizar informações de forma resumida, entre outros.

Quando a leitura de votos dos ministros começou, para cada um dos acusados, para cada tipo de crime apregoado a cada réu, outro desafio surgiu: como mostrar ao leitor um placar que reunisse tantas informações ao mesmo tempo sem transformá-lo em um painel com centenas de dados confusos e desorganizados?

Afinal, há 11 ministros, 40 réus, sete crimes diferentes. Como há réus com dois ou mais crimes, há um total de 102 julgamentos – e cada ministro precisa dar um voto para cada um desses julgamentos, perfazendo um total de 1.122 votos (considerando que todos os ministros apresentarão votos para todos os crimes denunciados).

Mensalão Valor Econômico

O portal R7 e o jornal Valor Econômico encontrarão as melhores soluções visuais para mostrar de forma rápida, resumida e abrangente o placar do julgamento, considerando os votos de todos os ministros para todos os crimes denunciados.

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O que um traz na coluna, outro traz nas linhas, mas o resultado é o mesmo. A tendência é que, conforme todos os crimes denunciados sejam julgados, falte espaço horizontal ao infográfico do R7, já que a solução preferida foi escrever o nome dos ministros um embaixo do outro. O placar terá de crescer para a direita.

Já a solução do Valor Econômico permite que o placar cresça para baixo, já que o nome dos ministros foi escrito um ao lado do outro, no topo da tabela. Há a possibilidade, inclusive, de o placar final do julgamento inteiro caber numa única página de jornal, o que pode servir de instrumento de trabalho para jornalistas e outros profissionais.

O placar do R7, no entanto, conseguiu juntar numa mesma coluna a decisão dos ministros, independentemente se eles votarem pela absolvição ou pela condenação. Já o placar o Valor Econômico criou duas colunas, em cores diferentes, para mostrar a diferença do voto ao leitor.

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Vale ainda uma menção ao infográfico criado pelo portal G1 para mostrar qual réu é acusado de qual crime, de forma muito simples, didática e eficiente. O mesmo objetivo foi cumprido com maestria pelo jornal O Globo, em uma infografia interativa, com fotos dos acusados.

Veja mais:

A imprensa produziu diversos infográficos, muitos deles interativos, sobre o caso Mensalão. O VisualLoop, um portal que reúne infografias e visualizações, reuniu um conjunto delas.