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Organizar todos os trajetos da corrida de São Silvestre – um trabalho a ser feito

Uma matéria publicada dia 30 de dezembro na Folha de S. Paulo poderia inspirar uma pesquisa de fôlego para identificar todos os trajetos que a corrida de São Silvestre já teve – já foram realizadas 91 edições anuais da prova até 2015, ininterruptamente.

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É trabalho para aficionados ou para uma atividade interdisciplinar em alguma faculdade que envolva alunos e professores de carreiras como história, jornalismo, designer gráfico e até ciências da computação.

Imagine obter informações do percurso de todas as edições da prova, desenhá-los em mapas de forma padronizada e listá-los lado a lado, como fez o designer Sam Potts com a Volta da França.

Ele organizou, lado a lado, os trajetos das cem edições da prova até então. Além da pesquisa histórica e da acurácia na compilação de dados, ele escolheu, para visualizar o trabalho, um modelo de infografia bastante simples e eficiente, chamado small multiples – gráficos com a mesma escala e eixos organizados lado a lado que permita a comparação fácil.

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A análise sobre estatísticas de crimes que ainda falta ser feita

A imprensa reportou a quantidade de homicídios dolosos em 2015 no Estado de São Paulo. Foi a menor taxa desde 1996. Algumas indagações:

  • A metodologia é realmente estranha. O poder público contabiliza a quantidade de casos, e não a quantidade de mortos. Como explica o texto, um caso pode conter várias mortes (uma chacina, por exemplo). Isso pode ampliar significativamente o número de pessoas assassinadas intencionalmente.
  • É sempre complicado analisar segurança pública por meio de um único indicador. Um dia ainda espero ler uma reportagem que traga, em bom espaço, todos os indicadores de mortes e de crimes.
  • Isso significa mostrar estatísticas históricas de mortes com ou sem intenção, por qualquer tipo de arma, no trânsito ou em casa, enfim, qualquer causa de morte, exceto doença.
  • Vale o mesmo para os tipos de crime: com ameaça ou não, em casa ou na rua, roubo ou furto, patrimônio – qualquer ocorrência.
  • Essa análise é muitas vezes difícil ou impossível por causa de imperfeiçoes na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas.
  • Isso é importante para evitar manipulações. Por exemplo: um assassinato passa a constar na lista de homicídios dolosos de acordo com a metodologia adotada na contabilidade e na investigação das autoridades públicas. Pode haver uma redução histórica dos casos de mortes intencionais, mas uma explosão nos de mortes cujas causas não foram identificadas.
  • Geralmente, os jornais mostram localidades com maior ou menor ocorrências de algum tipo de crime por meio de um mapa coroplético indicando cores mais escuras ou claras em cada distrito. Essa visualização é a única possível, já que o poder público não divulga o endereço exato da ocorrência, mas somente por bairros.
  • No entanto, isso pode causar distorções. Um exemplo: uma enorme quantidade de crimes praticados na fronteira entre um bairro tranquilo e outro mais problemático pode passar a impressão que um bairro inteiro é problemático. Essa distorção aumenta se o bairro for espacialmente bastante extenso.

    FSP crimes 2015

O futuro tal qual descrito no passado: um roteiro para planejar uma infografia

As informações abaixo foram coletadas no Brain Pickings e reproduzidas quase fielmente porque são brilhantes para explicar o processo criativo no momento de traduzir uma série de dados ou estatísticas em um infográfico.

Resumindo: no artigo, a autora informa que distribuiu, via redes sociais, uma lista de informações sobre eventos futuros tal qual foram descritos em livros e outros produtos culturais de ficção científica.

A organização das informações talvez seja a parte mais importante da produção de uma visualização criativa e eficiente, pois precisa dispor, de forma uniforme e categorizada, um conjunto de dados que estão dispersos em várias fontes. Leva tempo, muito tempo (às vezes, uma vida inteira).

Giorgia Lupi, designer da informação e uma das mais criativas editoras de arte atualmente, ao acessar tal lista, organizou os dados em uma visualização no padrão da Accurat, agência da qual ela é fundadora. O resultado é visualmente interessante. As informações, ainda mais.

As lições dela:

  • como na maioria das infografias no formato linhas do tempo, os dados são organizados sobre um eixo horizontal.
  • ela explica que usou uma “linha do tempo distorcida”, pois listou os eventos com distâncias regulares, simétricas, entre um e outro, e não em escala proporcional aos anos. A distância entre entre os eventos será a mesma, não importa se transcorreram dez ou cem anos.
  • o eixo vertical informa o ano em que o livro foi publicado
  • na parte inferior no infográfico, a autora categorizou as histórias para facilitar a leitura. Alguns símbolos foram escolhidos para indicar se o evento é majoritariamente político, tecnológico, científico ou ambiental, entre outros.
  • várias camadas foram planejadas para oferecer o máximo de informação, de forma que seja facilmente perceptível conhecer um aspecto de cada história ou alguma tendência do conjunto das histórias. exemplo: ao identificar com cores diferentes se o livro mostra uma perspectiva positiva ou negativa do futuro, percebe-se rapidamente, somente pela cor predominante, que os autores de ficção científica não têm uma visão muito positiva do futuro.

 

Accurat - The future as foretold in the past

Vale a leitura.

Alguns cuidados quando a série histórica do gráfico não começa na posição zero

O Globo - Escala eixo y em gráficos

O eixo vertical deste gráfico, publicado no jornal O Globo, mostra a quantidade de trabalhadores por conta própria (em azul) e a quantidade de trabalhadores com carteira assinada (em vermelho).

Um leitor desatento pode se confundir. A primeira impressão é que a quantidade de trabalhadores por conta própria está crescendo e a quantidade de trabalhadores com carteira assinada está diminuindo. Ambas conclusões estão corretas.

No entanto, visualmente, o leitor fica com a impressão que a quantidade de trabalhadores por conta própria (em azul) e maior que a quantidade de trabalhadores com carteira assinada (em vermelho). Essa é uma falsa conclusão. No primeiro grupo, azul, há 22 milhões de pessoas. No segundo, vermelho, 35 milhões de pessoas.

Comparar tamanhos – A ilusão de ótica ocorre porque por duas razões: o eixo vertical não começa no número zero e começa em diferentes posições em cada gráfico de área. Por causa disse, mesmo que ele demonstre corretamente a evolução (para mais ou para menos), ele induz o leitor ao erro ao comparar o tamanho de cada grupo.

Um gráfico de linha não precisa, necessariamente, começar no ponto zero do eixo vertical. É apenas recomendável. Muitas vezes, a série estatística começa em um número muito distante do zero e é importante chamar a atenção para a evolução dos números ao longo da série histórica (ainda mais se essas mudanças forem sutis). Assim, é possível iniciar o eixo vertical em uma posição diferente de zero.

Já para um gráfico de área, que além de informar sobre a evolução do número de trabalhadores tem também a incumbência de informar o tamanho deste grupo (a quantidade total), é bastante recomendável começar o eixo vertical no número zero.

Mesma posição – O que é recomendável passa a ser obrigatório quando há o intuito de fazer comparações entre dois diferentes grupos, mostrando a evolução deles, como é o caso do gráfico do jornal. Esse é o segundo – e principal – problema. Se o eixo vertical não começar na posição zero, é essencial que ele comece na mesma posição numérica em ambos os gráficos.

O fato de escrever o número que informa sobre a quantidade de trabalhadores acaba não sendo suficiente para contornar a distorção na transmissão da informação. O melhor, mesmo, é iniciar os gráficos sempre no número zero.

Um terceiro problema, muito comum em gráficos e em comparações, é usar escala diferente. Neste caso, tal equívoco não aparece. Em ambos os gráficos, cada intervalo no eixo vertical corresponde a 500 mil trabalhadores.

Crise hídrica em São Paulo: qual gráfico mostra com mais eficiência o quanto há ainda de água?

O Estado de São Paulo – bem como toda a Região Sudeste, outros estados brasileiros e outros países – atravessam uma crise hídrica causada por índices pluviométricos muito abaixo da média histórica, de forma atípica. Cidadãos e especialistas questionam as causas, buscam os culpados e tentam decifrar os sinais para descobrir o que acontecerá no futuro próximo.

Dois gráficos recentes publicados no jornal O Estado de S. Paulo tentam explicar ao cidadão o quanto ainda há de água nos reservatórios que atendem a Região Metropolitana no entorno da capital paulista. É a fotografia do momento.

Publicado no dia 27 de setembro pelo biólogo Fernando Reinach, um gráfico simples mostra o quanto há ainda de água no Sistema Cantareira, um conjunto de represas ao norte da capital paulista e que atende a maior parte dos cidadãos da Região Metropolitana.

Fernando Reinach - Cantareira

A grande ajuda que este gráfico traz é mostrar a quantidade de água em números absolutos, expressos pela unidade de medida “milhões de metros cúbicos”. Mais que isso: o gráfico apresenta o volume de água no primeiro dia de cada ano desde 1983, o que permite às pessoas descobrirem o quanto se gastou de água no ano anterior, considerando as entradas e as saídas de água no Sistema Cantareira. Dá a sensação que há ainda uma quantidade de água suficiente para aguentar mais alguns meses de extrema estiagem e rezar para que chova.

Outros infográficos mostram o volume de água em cada sistema em unidade de medida proporcional, expresso na forma de “% da capacidade do sistema”. Assim, o número mostra ao leitor o quanto há de água em relação ao quanto cabe de água em cada sistema.

Siatuação dos mananciais 22out14

O ponto alto deste infográfico, publicado dia 22 de outubro, é permitir que o leitor tenha uma noção mais completa de quanto há de água em todos os reservatórios que atendem a Região Metropolitana de São Paulo e qual reservatório atende quais cidades e bairros.

No entanto, passa a impressão, errada, que o Sistema Cantareira vai secar completamente em poucos dias, mesmo que haja informação de rodapé noticiando que é preciso considerar as cotas do volume morto – uma reserva de água que está abaixo das tubulações que captam a água do reservatório por gravidade (sem uso de bombas).

O ideal seria ter, em um gráfico como o elaborado por Fernando Reinach, a quantidade de água disponível e a capacidade de todos os reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos) que atendem a Região Metropolitana de São Paulo.

Ou então elaborar uma infografia com múltiplos gráficos pequenos, um para cada reservatório, um do lado do outro, mostrando a capacidade e a quantidade de água disponível nos reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos).

Como lembra o biólogo, em boa parte do artigo publicado dia 27 de setembro, o governo paulista – e nenhum governo, pela regra – não pode perder a batalha de comunicação: precisa ser transparente e claro, para evitar ruídos e informação equivocada. A imprensa também não pode perder essa batalha.

Duas boas ideias de infografias, mas detalhes e tempo exíguo comprometeram o resultado final

FlamengoGaza - Mortos e foguetes

Um dos principais desafios na elaboração de infografias no jornalismo é aliar o prazo exíguo para a produção das notícias e a complexidade de encontrar e coletar as estatísticas e produzir gráficos esclarecedores, contextualizados e relevadores.

Quando o jornalista termina a apuração dos fatos, geralmente há poucas horas – quando não, minutos – para que os infografistas pensem em uma solução e a coloque em prática. Na maioria das vezes, a única saída é escolher um gráfico simples, de barras ou colunas. São os desafios do ‘hard news’, expressão que indica as notícias que surgem no dia e precisam ser investigadas no mesmo dia, para constarem na edição do dia seguinte.

Nos últimos dias, duas reportagens chamaram a atenção por apresentarem duas infografias que são bonitas, funcionais, que contextualizam a notícia e revelam novas informações. No entanto, dois pequenos detalhes prejudicaram o resultado final, provavelmente fruto da pressa do dia a dia jornalístico. “Fecha! Fecha!”, é a ordem no fim do dia.

Carreira de Vanderlei Luxemburgo – Uma reportagem, da Folha de S. Paulo, informou, em pequeno texto, o retorno do técnico Vanderlei Luxemburgo ao Flamengo, equipe de futebol do Rio de Janeiro que se encontra em posição ruim no Campeonato Brasileiro de 2014. Nos últimos anos, o técnico tem acumulado críticas e resultados frustrantes.

De forma inteligente, os jornalistas criaram um gráfico de colunas que funciona como uma linha do tempo, mostrando uma estatística qualquer e pontuando momentos bons e ruins na carreira do treinador. “Uma estatística qualquer?” Sim, pois a bela infografia não indica ao leitor qual é a estatística expressa nas colunas. Pontos conquistados? Número de vitórias? Faltou a informação no eixo ‘y’, no rótulo de dados ou abaixo do título do gráfico. O que cada coluna mostra? Uma pena. Já a linha do tempo funciona perfeitamente, com setas e fotos de momentos diferentes da carreira de Luxemburgo.

Técnico Luxembrugo

Foguetes na Faixa de Gaza – Outra reportagem relata mais um dia de combates entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza. A ideia foi utilizar dois gráficos de colunas empilhadas para somar números de israelenses e palestinos mortos, em um gráfico, e quantidade de foguetes disparados pelo Hamas que foram interceptados ou não pelo exército de Israel. A soma das variáveis em cada gráfico deveria informar a quantidade total de mortos e de foguetes disparados, respectivamente.

No entanto, na legenda do gráfico que aborda os foguetes, a cor escura indica foguetes disparados e a cor clara indica foguetes que atingiram Israel. Na verdade, é a soma das duas informações que representam o total de foguetes disparados. Uma parte é a quantidade de foguetes interceptados, enquanto a parte restante é a quantidade de foguetes não interceptados que atingiram o solo israelense. Isso é o que se presume dos números. Uma pena, novamente.

Gaza - Mortos e foguetes 2

As duas ideias foram muito bem concebidas e até bem executadas, se considerar o tempo exíguo que os profissionais têm para coletar e organizar as estatísticas, planejar e produzir as infografias. Pequenos detalhes, no entanto, acabam dificultando o entendimento por parte do leitor.

Dica para tratar com dados e elaborar infografias

O infográfico abaixo é um dos primeiros que estou fazendo para o curso ministrado pelo Alberto CairoAlberto Cairo, na modalidade Massive Open Online Course (MOOC) pela Knight Center for Journalism in the Americas.

Em uma das tarefas, o objetivo é desenhar novamente um infográfico original considerado ruim pelo professor (um mapa mostrando o perfil de consumo em alguns países).

Alberto Cairo w3 2

O infográfico original (acima), considerado pouco eficiente pelo professor, traz um mapa com diversas etiquetas de compras trazendo informações específicas de cada país. Apesar de bonito e agradável, dificulta a tarefa do leitor, pois requer dele muito esforço para memorizar e, então, consequentemente, comparar os números apresentados.

A minha sugestão (abaixo) foi mostra três gráficos em barras empilhadas – e algumas observações complementares. As barras ou as colunas tornam mais fácil a vida do leitor para comparar os dados, eliminando a necessidade de memorizá-los antes.

A ideia foi contextualizar as estatísticas presentes do infográfico original. As cores mais escuras nas barras levam o leitor para ler os pequenos quadros abaixo, com uma foto e uma informação referente ao país destacado.

Alberto Cairo w3

Listo ainda três outros exemplos (abaixo), de dois outros alunos, que buscaram facilitar a vida do leitor no momento de comparar. Outra dica do professor, que foi utilizada em todos os infográficos, aborda a utilização de cores.

A melhor opção é utilizar cores em tons mais claros e que não agridam muito a imagem apresentada. Esse princípio ajuda, inclusive, nos casos em que o infográfico precisa ressaltar alguma estatística. Com cores mais neutras e claras, basta realçar o dado desejado com uma tonalidade mais escura da cor.