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A análise sobre estatísticas de crimes que ainda falta ser feita

A imprensa reportou a quantidade de homicídios dolosos em 2015 no Estado de São Paulo. Foi a menor taxa desde 1996. Algumas indagações:

  • A metodologia é realmente estranha. O poder público contabiliza a quantidade de casos, e não a quantidade de mortos. Como explica o texto, um caso pode conter várias mortes (uma chacina, por exemplo). Isso pode ampliar significativamente o número de pessoas assassinadas intencionalmente.
  • É sempre complicado analisar segurança pública por meio de um único indicador. Um dia ainda espero ler uma reportagem que traga, em bom espaço, todos os indicadores de mortes e de crimes.
  • Isso significa mostrar estatísticas históricas de mortes com ou sem intenção, por qualquer tipo de arma, no trânsito ou em casa, enfim, qualquer causa de morte, exceto doença.
  • Vale o mesmo para os tipos de crime: com ameaça ou não, em casa ou na rua, roubo ou furto, patrimônio – qualquer ocorrência.
  • Essa análise é muitas vezes difícil ou impossível por causa de imperfeiçoes na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas.
  • Isso é importante para evitar manipulações. Por exemplo: um assassinato passa a constar na lista de homicídios dolosos de acordo com a metodologia adotada na contabilidade e na investigação das autoridades públicas. Pode haver uma redução histórica dos casos de mortes intencionais, mas uma explosão nos de mortes cujas causas não foram identificadas.
  • Geralmente, os jornais mostram localidades com maior ou menor ocorrências de algum tipo de crime por meio de um mapa coroplético indicando cores mais escuras ou claras em cada distrito. Essa visualização é a única possível, já que o poder público não divulga o endereço exato da ocorrência, mas somente por bairros.
  • No entanto, isso pode causar distorções. Um exemplo: uma enorme quantidade de crimes praticados na fronteira entre um bairro tranquilo e outro mais problemático pode passar a impressão que um bairro inteiro é problemático. Essa distorção aumenta se o bairro for espacialmente bastante extenso.

    FSP crimes 2015

Analise o histórico de quaisquer estatísticas. Ele pode ajudar a contar outra história

Um curso recém finalizado pelo Knight Center sobre noções básicas de matemática e estatística para jornalistas pinçou uma regra básica na análise de dados: é fundamental olhar a evolução das informações em um prazo mais prolongado, quando tais informações estiverem disponíveis.

O instrutor, Greg Ferenstein, alertou que não é recomendável ignorar a História, sobretudo em mudanças de opinião pública, quando torna-se ainda mais importante consultar os dados do passado longínquo.

O exemplo utilizado para demonstrar o ensinamento foi a opinião pública da sociedade norte-americana sobre pena de morte. Enquanto a evolução das estatísticas no curto prazo mostra uma coisa (falta de apoio à pena de morte no nível mais baixo de todos os tempos), os dados completos indicam outra (apesar das oscilações ao longo das décadas, a sociedade norte-americana mantém a mesma opinião ao longo de quase um século).

Dead penalty 2

Dead penalty 1

Concluiu o instrutor, em tradução livre: “Você ainda pode afirmar que a pena de morte está em declínio em popularidade, mas você teria que levar a História em conta. Ela muda tudo.”

Dias atrás, o Pew Research Center, que investiga há muito tempo a opinião pública dos Estados Unidos e também de outros países com muita eficiência, publicou uma avaliação a respeito das taxas de pobreza entre crianças negras, brancas, asiáticas e hispânicas.

Child poverty rates

Vale a mesma lição e a mesma conclusão: com exceção das crianças asiáticas, as estatísticas mostram uma evolução, para mais ou para menos, interessante no prazo mais curto. Mas, no longo prazo, entre 1975 e 2015, o nível de pobreza entre crianças (menores de 18 anos para o instituto) permanece razoavelmente sem alterações significativas.

Projetos para visualizar mais facilmente estatísticas de orçamento público se espalham pelo mundo

O pesquisador Jonathan Gray lançou um pedido para pesquisadores do mundo todo por mais exemplos de projetos de visualização de informações fiscais – arrecadação e gasto de dinheiro público.

Ele publicou uma lista prévia com inúmeros projetos já existentes ao redor do mundo. Até o momento, há quase 200 projetos digitais que tentam oferecer formas mais fáceis e inteligíveis para as pessoas navegarem pelas informações dos orçamentos públicos, principalmente os mais leigos e sem muito conhecimento sobre os trâmites e terminologias sobre arrecadação e gasto de recursos públicos.

Vale lembrar uma antiga demanda: projetos de visualização de dados apenas são possíveis de serem feitos quando os dados estão disponíveis para a sociedade, em formato amigável para os programadores de dados trabalharem. As informações públicas pertencem à sociedade. Escondidas nas gavetas, não valem nada.

Exemplo brasileiro – No Brasil, um projeto interessante que busca atender a essas expectativas é o Meu Município. Ele oferece algumas informações principais e permite comparação entre cidades. O leitor que tiver um algum conhecimento sobre as rubricas de orçamento e finanças públicas poderá interpretar mais facilmente a importância as estatísticas e explorar as inúmeras possibilidades que o portal oferece.

De positivo, além do mérito de oferecer informações interpretadas e organizadas, está a possibilidade de exportar as estatísticas e a possibilidade de comparar as diversas rubricas entre várias cidades. Apresenta ainda as fórmulas para o cálculo de cada estatística orçamentária, o que serve como aula para alguns perfis de internautas. Quem acessar

Meu Município

O projeto, com algum apoio financeiro e de recursos humanos, poderia ir além rapidamente, buscando oferecer visualizações diferentes. Um exemplo mais comum são os infográficos do tipo “treemap”, uma forma eficiente de organizar e mostrar informações quantitativas de forma hierárquica por meio de retângulos. Isso permite ao leitor conhecer as dimensões de cada tipo de gasto dentro do orçamento.

Exemplos de visualização – Um bom exemplo é o que faz o governo federal dos Estados Unidos, que publica na internet a perspectiva de gastos por área proposto no orçamento federal para o ano seguinte, no caso, 2016.

US federal budget 2016 treemap

Ou como faz um projeto independente para a cidade de Arlington, no estado norte-americano de Massachusetts, que mostra informações sobre arrecadação e gastos públicos em gráficos de área e no estilo “treemap”.

Arlington fiscal data

Para saber mais:

A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro publicou a última versão do Índice Firjan de Gestão Fiscal, uma excelente ferramenta que analisa dados fiscais dos municípios brasileiros. Em 2013, entre todas as cidades brasileiras, 84,2% tinham gestão fiscal em situação difícil ou crítica, 15,4% tinham boa gestão e só 0,3% tinham gestão de excelência. Mais de 80% das cidades brasileiras não conseguiram gerar 20% das receitas necessárias para cumprir o orçamento municipal, dependendo de transferências dos governos federal e estaduais. Vale comparar o índice da Firjan e o portal Meu Município.

Dados abertos ajudam governos a combater o crime

mapa-violencia-2014O jornal O Globo divulgou dados da mais nova versão do Mapa da Violência, pesquisa que analisa estatísticas de crimes no Brasil, com apoio de dados públicos. Em 2012,  dois recordes: a taxa mais alta (29 mortos em cada 100 mil habitantes) e o maior número absoluto (56.337 homicídios).

Diversos motivos são listados para a persistente epidemia brasileira de violência. O baixo índice de solução – e consequentemente de punição – para os crimes é apontado como um dos principais.

IndicadoresJulio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência, estimou, em recente reportagem do Valor Econômico, que apenas 8% dos homicídios do país sejam solucionados. A mesma matéria trouxe uma reflexão: os níveis de renda e de escolaridade estão no pico histórico no Brasil, e a violência permanece elevada.

Fatores que interferem – A lista de fatores com correção ou interferência – o que não significa causalidade – nos indicadores de segurança pública são muitos: capacidade de coletar dados em tempo real, organização e transparência de estatísticas de crime, equipamentos (carros e outros itens) e tecnologia, evolução da economia e do nível educacional, capacidade do poder público prender, investigar, punir e educar, entre outros.

A realização da Copa do Mundo no Brasil, a partir de 12 de junho, deixará – em tese – melhorias na área de inteligência. Em tese porque, depois do evento, será necessário alocar recursos para operação e treinamento de recursos humanos.

Monitorar e capturar informação – O projeto, viabilizado graças à pressão do evento esportivo internacional, foi a construção de uma central de monitoramento de locais públicos, capaz de captar imagens de aproximadamente 500 câmeras que já operam em funções de segurança, transporte e trânsito. O governo federal investiu R$ 66 milhões, e o governo estadual paulista gastou R$ 2,25 milhões na reforma predial.

Não é só em São Paulo que projetos de inteligência serão inaugurados. A matriz de responsabilidades da Copa do Mundo, documento acordado entre os governos brasileiros, lista projetos em todas as cidades envolvidas no evento. Mas reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que, das 39 ações em segurança pública, 27 foram concluídas (69%) e 12 estão incompletas (31%).

Dados abertos – As políticas públicas de dados abertos também podem ajudar na prevenção ou combate aos crimes. De um lado, as autoridades públicas responsáveis pelos registros de ocorrências são publicidade aos dados, mantendo o sigilo das pessoas envolvidas. O que importa é onde, quando e que tipo de crime ocorreu. De outro lado, o cidadão tem à disposição mais informações para tomar decisões melhores.

Mais que isso: empresas privadas, com acesso legal aos dados, passaram a oferecer serviços de organização, visualização, análise e treinamento. Exemplos: CrimeReport, SpotCrime e CrimeMapping. Nos Estados Unidos, há um conjunto enorme de companhias com esse objetivo, que fecham acordos com as autoridades e, ao mesmo tempo, oferecem consultorias e treinamento a elas, nas cidades ou condados. O cidadão pode acessar aplicativos para visualizar os tipos de crimes em um raio próximo aos locais de moradia ou trabalho.

Chicago himicidesSe os dados são públicos, a imprensa também ajuda. Programadores e jornalistas constroem mapas constantemente atualizados, encontram a melhor forma de visualizar a informação e oferecem reportagens associadas. O Chicago Tribune esclarece ao leitor que está comprometido a escrever uma história sobre cada assassinato e oferece mapas indicando onde pessoas levaram tiros ou foram assassinadas. O Los Angeles Times tem mapas com indicadores de crimes. O Everyblock, projeto de jornalismo local que que voltou a funcionar em janeiro, também oferece mapas de criminalidade baseados em dados públicos.

Para saber mais:

Lembram do filme Minority Report, no qual os investigadores passam a se antecipar aos crimes? Com base em estatísticas e algorítimos, alguma coisa parecida começa a surgir nos departamentos de polícia.

Acesse o banco de dados da ONU com taxas de homicídios (sem contar suicídios) em diversos países e ao longo de vários anos, em números absolutos e em taxa relativa (homicídios por 100.000 habitantes). Esse banco de dados é interessante porque também indica a fonte da estatística. No Brasil, a taxa de homicídios pode variar de 21 a 25 assassinatos a cada grupo de 100.000 habitantes, de acordo com a fonte (Ministério da Justiça ou Mapa da Violência).

Infográfico complexo e interessante mostra o clima em 35 cidades mundiais, inclusive São Paulo

Global Weather SP

Uma visualização de dados bastante interessante e complexa: é assim que se pode caracterizar o infográfico “Global Weather Radials 2013”, feito pelo estúdio alemão Raureif para mostrar as ondas de calor e frio em 35 cidades de vários países em 2013.

O clima de cada cidade é representado em um círculo, formado por várias linhas verticais, cada uma para um dia do ano. Esse círculo lembra um relógio, indicando o clima transcorrendo ao longo dos 12 meses do ano.

Global Weather Radials 2013 - Cópia

Como ler o infográfico – A parte de baixo da linha mostra a temperatura mais baixa do dia – e quanto mais próximo do centro do círculo, mas frio foi a temperatura mínima daquele dia. Ao contrário, o topo da linha mostra a temperatura máxima registrada naquele dia.

As bolhas em tom azul claro indicam as precipitações – quanto maior, mais chuva ou neve. O centro da bolha está posicionado no meio da linha que representa o dia em que choveu ou nevou.

Rapidamente, o leitor pode perceber quais as cidades que tiveram estações mais quentes ou mais frias, qual a duração das ondas de calor e frio, bem como ocorrências específicas, que são informadas em texto atrelado à fina barra que representa a temperatura de determinado dia.

São Paulo – O clima das cidades de São Paulo e de Buenos Aires estão demonstrados no infográfico. Na capital paulista, em 2013, percebe-se as elevadas temperaturas em todas as estações do ano – mais intensamente entre janeiro e março e depois entre outubro e dezembro.

A visualização apenas confirma o que o paulistano ainda deve ter na memória – as elevadas temperaturas do último verão entre o fim de 2013 e início de 2014. Mas o leitor não consegue comparar as precipitações de chuvas entre os dois últimos verões, pois os dados indicam somente as ocorrências em 2013.

Os dados utilizados para elaborar essa visualização foram obtidos no projeto Open Weather Map, no Instituto Meteorológico da Noruega e no Weather Underground. Os eventos climáticos específicos, informados em texto, foram avaliados manualmente, a partir da leitura de jornais nas respectivas cidades.

A guerra feita por drones: uma história poderosa, contada por meio dos dados e da visualização

O projeto “Out of Sight, Out of Mind”, uma infografia interativa criada pela agência Pitch Interactive, permite visualizar a quantidade de mortes ocasionadas pelos ataques de aviões não tripulados no Paquistão, os drones. Lançado em março de 2013, já foi bastante elogiado. O título do projeto pode ser traduzido como “o que os olhos não veem, o coração – ou a mente – não sente”.

A infografia interativa está baseada em dados coletados pela instituição não governamental Bureau of Investigative Journalism (BIJ), segundo a qual 3.207 pessoas foram mortas por bombas enviadas por drones, uma estratégia de guerra que evita custos, perdas e constrangimentos diplomáticos com envio de equipamentos militares e tropas para as áreas em guerra. Apesar do apoio civil que credenciaria o uso de drones, há conflitos éticos e humanitários, já que a maioria das vítimas não eram alvos.

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Orientação e sentido – O que chama a atenção nesse projeto da Pitch é que ele não é somente uma reportagem interativa e digital, que entrega informação de forma atraente. Nem tampouco é apenas uma visualização de estatísticas em um formato inédito que possibilita ao internauta interagir com ela, escolhendo as estatísticas e o ponto de vista que deseja. É tudo isso e mais um pouco.

É uma união bastante eficiente de jornalismo, infografia, design, programação e análise de dados. Ao organizar estatísticas atualizadas e atualizáveis de um assunto que está presente na pauta dos principais órgãos de imprensa, dá orientação e sentido aos números, conta uma história impactante e faz da visualização e da infografia uma potente ferramenta para a compreensão daquilo que está sendo apresentado.

Para mostrar como o projeto suscita debates e reportagens, o que demonstra a importância, a Pitch Interactive lista, abaixo da visualização de dados, as últimas notícias sobre a guerra travada por drones. Em 2013, por exemplo, foram 27 ataques deste tipo, segundo a publicação Business Recorder. Quem quiser saber mais, basta ler as reportagens da imprensa.

Estética e narrativa – É possível perceber o foco na narrativa da história desde o princípio, já que as primeiras informações que surgem são três frases: “Desde 2004, ataques feitos por drones mataram, numa estimativa, 3,105 pessoas no Paquistão”, “Menos de  2% das vítimas eram alvos de primeira categoria” e “o restante eram crianças, civis e alegados combatentes.

O efeito estético – bombas que caem até o solo formando arcos e, neste momento, uma coluna desce mostrando o número de vítimas do ataque – servem como isca poderosa para atrair a atenção das pessoas para um tema importante. O uso de uma tabela ou de um gráfico de barras seria igualmente eficiente em mostrar os números brutos. Mas a visualização de dados, da forma como foi feita, impressiona e faz as pessoas memorizarem e aprenderem sobre o tema.

Almanaque e jornalismo – Boa parte das visualizações de dados – geralmente usa-se a abreviação ‘datavis’, em língua inglesa – são feitas a partir do momento que os autores obtém um banco de dados com estatísticas suficientes para elaborar a infografia, interativa ou não. Apesar de bonitos, muitos cumprem apenas a função de serem almanaques elegantes.

O projeto da Pitch Interactive inverte essa lógica. Escolhe um tema importante e atual e busca a melhor fonte de dados disponível no momento, dando sentido às informações. Isso é jornalismo, dos bons.

Coleta de dados – Já que o governo dos EUA não divulga dados sobre os ataques feitos por drones, nem as circunstâncias ou informações estratégicas, os jornalistas do BIJ coletam informações nos locais dos ataques – com todas as deficiências e desafios que um tipo de coleta de informações deste tipo traz.

Do total de mortos, 175 eram crianças, 535 civis, 2.448 outros e somente 49 considerados “alvos de primeira categoria”. Como a história enfatiza, menos de 2% das vítimas eram alvos prioritários.

Os autores explicam que as vítimas classificadas como “outros” ainda são um desafio, pois podem ser tanto vizinhos da vítima, cidadãos sem qualquer ligação com a ela ou até amigos ou parceiros dos alvos preferenciais. Muitos não foram sequer identificados. O governo norte-americano coloca nessa conta todos os homens adultos que possa ser um combatente, até que isso se prove o contrário.

Visualização mostra rota de baleeiros dos EUA entre 1830 e 1855 – e as mudanças por trás dos números

Whaling ships

Um infográfico elaborado por Ben Schmidt, professor assistente de História na Northeastern University, nos Estados Unidos, mostra o potencial da visualização de dados para o estudo das ciências humanas.

O mapa digital produzido por Schmidt mostra a rota dos navios baleeiros dos Estados Unidos entre 1830 e 1855.

Um dos aspectos mais importantes nesta história é perceber a cultura de registro de estatísticas no setor de comércio marítimo naquela época.

O vídeo é bastante, principalmente porque há inúmeras ferramentas à disposição de desenvolvedores e programadores.

No entanto, sem os dados não seria possível fazer esse mapa digital e perceber padrões e transformações escondidas nas informações.

O autor explica que a exaustão dos oceanos devido a pesca intensiva de baleias leva os navios norte-americanos cada vez mais longe.

Quatro exemplos de mapas digitais para inspirar gestores a abrirem mais dados públicos

Long Island Rail Road map

Novas tecnologias têm facilitado bastante a elaboração de mapas animados que criam a opção de dar movimento aos dados apresentados. A ideia é espalhar os dados sobre mapas e dar vida a eles, colocá-los em ação. Mais do que entretenimento, isso facilita a detecção de padrões, mudanças e transformações contidas nos bancos de dados, o que poderia ficar escondido sem a animação.

Em geral, os mapas mostram as informações pulsando, acendendo e apagando, permitindo que o leitor perceba facilmente as regiões ou os períodos nos quais as ocorrências se concentram. As visualizações oferecem ainda setas para o controle da reprodução na animação, de forma que seja possível paralisar ou analisar as estatísticas cronologicamente ou em qualquer mês.

Estatísticas de fluxo e estoque – Para cumprir o efeito pulsante, as séries estatísticas precisam ter uma característica: fluxo.  O que isso significa? Simples. Os dados do período presente precisam substituir aqueles de um período anterior. Exemplo: os pontos em um mapa que representa a quantidades de crimes em fevereiro de um ano se apagam quando surgem os dados de ocorrências em março.

Isso não quer dizer que séries estatísticas com característica de “estoque” – quando os dados de determinado período apenas são acrescentados aos de períodos anteriores – não possam ser transformadas em mapas animados. Exemplo: extensão de rodovias asfaltadas. Ao passo que os governos e as empresas entregam as obras de determinados trechos  de estradas asfaltadas, elas simplesmente surgem no mapa de vias já com asfalto, sendo somadas aos trechos já feitos em períodos passados.

Fishing map

Tornados e bombeiros – Um mapa exemplifica bem as explicações anteriores. Ele mostra dados referentes a ocorrências de tornados nos Estados Unidos durante 2004 e 2013, ‘dando vida’ às estatísticas do departamento norte-americano de meteorologia. O internauta pode perceber os meses com mais ocorrências, detectar se há algum padrão – um período do ano no qual sempre há maior prevalência – e analisar se os registros crescem ao longo dos anos. Uma tabela resolveria boa parte dessas perguntas, mas o mapa consegue mostrar as regiões mais impactadas.

Outro mapa mostra a rotina de movimentação diária dos trens urbanos nas linhas do sistema que atende Long Island, na Região Metropolitana de Nova Iorque, considerado o mais movimentado da América do Norte. Tem 124 estações distribuídas em mais de 1.100 quilômetros de extensão. Note que esse mapa mostra apenas as linhas que compõem o sistema de trens urbanos da cidade, excluindo as de metrô. Analisando o fluxo dos pontos ao longo das linhas férreas, percebe-se com mais facilidade em quais trechos e horários há maior intensidade e disponibilidade de trens.

Fire engine callouts Amsterdam

Outro mapa mostra a atividade pesqueira no norte da Europa. O autor indica que há 3,2 milhões dados ao longo dos 365 dias de 2004. Cada ponto indica um barco pesqueiro trabalhando. O internauta consegue visualizar a intensidade da atividade econômica, o que cumpre a intenção do mapa: fazer as pessoas pensarem sobre questões como uso sustentável dos mares.

O último mostra o ‘pulso’ das chamadas feitas ao serviço de bombeiros de Amsterdã, capital holandesa. O autor reuniu no mapa 62.415 pedidos de combate a incêndios feitas entre janeiro de 2006 e setembro de 2010. Novamente, é possível notar com mais facilidade – em comparação a uma simples tabela – quais são as regiões mais afetadas e se há algum padrão, como, por exemplo, se há meses em que há um número maior de ocorrências em todos os anos.

E você com isso? – Mapas animados podem ser produzidos para mostrar visualmente padrões e transformações sobre quaisquer assuntos em uma cidade ao longo de um ano ou mais. Imagine a quantidade de ocorrências de acidentes de trânsito (com ou sem quantidade de vítimas), alagamentos (inclusive a extensão das enchentes), homicídios, roubos e furtos, congestionamento (necessariamente com dados sobre a extensão de vias paradas ou com trânsito lento).

Todas essas informações podem ser mostrado em um mapa animado. Mas, para isso, os gestores públicos, sobretudo os municipais, precisam tomar decisões que resultem em mais dados públicos abertos à disposição dos desenvolvedores.

Para saber mais:

Os mapas animados usam a tecnologia CartoDB de cartografia digital, com contribuição de API (Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicativos, em português). É possível, com esforço razoável, abrir uma conta gratuita e aprender algumas técnicas por meio de tutoriais (aulas em vídeo).

Aqui, aula online para iniciantes sobre elaboração de mapas digitais, ministrada por profissional da CartoDB.

Excelente matéria do Washington Post sobre tecnologia policial é também uma aula de jornalismo

ShotSpotter heat map

Dias atrás, o The Washington Post publicou uma daquelas reportagens que são verdadeiras aulas de jornalismo. A matéria mostrava uma iniciativa da polícia no Distrito de Washington, capital dos Estados Unidos, para monitorar incidentes com armas de fogo por meio da instalação de dispositivos que percebem e analisam o som de disparos em uma área de mais de 50 quilômetros quadrados.

Nos últimos oito anos, desde que o programa foi criado, 39 mil incidentes com armas de fogo foram detectados pelo sistema graças ao som capturado pelos sensores espalhados pela cidade. Com o conhecimento da ocorrência e com o registro em mãos, os policiais podem agir com mais celeridade e circunscrever o local do disparo com um pouco mais de precisão, por mais que o sistema não seja perfeito e haja vários tipos de interferências e possíveis falhas.

Se o tema é interessante, a matéria foi bastante eficiente e mostra um roteiro positivo de ferramentas e possibilidades ao alcance dos jornalistas. Para elaborar a reportagem, o jornalista requisitou as estatísticas do programa policial por meio da lei de acesso à informação local.

ShotSpotter audio

Mecanismos multimídia – Com os dados em mãos, os repórteres planejaram uma matéria multimídia, incluindo a possibilidade do leitor distinguir o som de tiros e de fogos de artifício – um dos trabalhos que o sistema policial faz automaticamente.

Diagramas ainda explicam didaticamente o funcionamento da tecnologia à disposição dos policiais e um “mapa de calor” mostra os quarteirões onde houve mais e menos disparos, o que é facilmente perceptível pela gradação das cores. O leitor pode saber quantos disparos ocorreram em cada quarteirão ao longo dos últimos anos. Infelizmente, a matéria não mostra um gráfico com a evolução das ocorrências para todo o Distrito de Washington nos últimos anos. Dá apenas um dado, no meio do texto: os disparos diminuíra, somando 5,385 tiros em 2012.

O jornal também não se resignou a apenas relatar as estatísticas conseguidas. Buscou um personagem que refletia o foco, o assunto central da matéria: o som dos disparos de armas de fogo – e o colocou no início da reportagem. Especialistas completam a reportagem, explicando o sistema e as possibilidades da tecnologia para ajudar nas ações de planejamento, combate e prevenção contra o crime.

A reportagem, em inglês, vale a leitura completa. Alguns aspectos interessantes:

– A tecnologia foi criada a partir da sensibilidade de um engenheiro especializado em acústica, que passou a ficar preocupado com a atuação de gangues. Ele conversou com a polícia local para saber como um sistema de detecção de tiros poderia ajudar a combater a violência.

– O engenheiro foi encaminhado a especialistas do serviço de geologia dos Estados Unidos, que já pesquisam formas de utilizar o conhecimento disponível para detecção de terremotos – uma das áreas de muita pesquisa tecnológica lá – para perceber quando há disparos por armas de fogo. A adaptação a um ambiente urbano – por causa das interferências que prédios e corredores, entre outros obstáculos, causam na acústica – em tempo real vinha sendo difícil.

– Com um parceiro, o engenheiro criou um software para aprimorar a detecção de sons em tempo real. Bem-sucedido, patenteou o sistema, que já é utilizado por 65 departamentos de polícia nos Estados Unidos, e também na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

– A partir de um disparo de arma de fogo, detectado em tempo real pelos sensores instalados na capital norte-americana, o departamento de polícia aciona imediatamente os policiais que, com a possibilidade de intervir no local exato, têm mais chances de capturar o autor do tiro e apreender o revólver. O sistema demora apenas 40 segundos para capturar o som, comparar o dado e informar o local da ocorrência. Os policias podem ser despachados quase em tempo real ao incidente.

– O sistema está monitora pouco mais de 50 quilômetros quadrados do Distrito de Washington, o que representa quase um terço dos 177 quilômetros quadrados da capital dos Estados Unidos.

– O programa, que funciona há oito anos, custou aos cofres públicos cerca de US$ 3,5 milhões nos últimos seis anos (algo como R$ 1,3 milhão por ano).

– O software que sustenta o sistema de detecção do som dos disparos está conectado a um sistema de câmeras de circuito fechado . Assim, a polícia quer começar a conhecer as sequência de cenas em tempo real imediatamente após os tiroteios. Contra vandalismo, a aparência e a localização dos sensores não são revelados.

– As pessoas, ao ouvirem um som, muitas vezes confundem com fogos de artifício ou escapamento de carros e motos. Além disso, não informam a ocorrência à polícia. Já o sistema consegue detectar até 95% dos disparos. Com dados em tempo real e com tamanha abrangência, há possibilidade de agir com mais eficiência e foco no combate e prevenção ao crime.

Uma forma interessante de rastrear e mostrar o que os políticos dizem sobre temas de interesse público

Muitos designers e jornalistas estão trabalhando para encontrar maneiras de tornar as notícias políticas mais palatáveis e digeríveis para a população, para o cidadão comum, principalmente para aqueles leitores que não se importam muito com as manobras e consequências das decisões dos parlamentares.

Essa motivação deriva do fato que muitas das transformações que a sociedade e as cidades demandam nascem exatamente das discussões e manobras políticas. Sem acompanhar tais debates nas câmaras e nos parlamentos, sem fiscalizar o comportamento dos representantes legislativos, qualquer esforço pode produzir pouco resultado.

O desafio é que ainda há poucas instituições ainda se dedicando ao árduo trabalho de transformar a atividade política em dados, organizá-los, analisá-los e dar a eles uma forma visual agradável e inteligível, que crie engajamento nos cidadãos e motive-os a alterar alguma realidade. Para ficar mais claro, tente imaginar que tipo de dados poderiam ser extraídos dos discursos que os nobres deputados fazem ao longo dos anos nas tribunas do Congresso nacional.

Words and votes

Projeto inovador – Um projeto interessante tenta fazer isso nos Estados Unidos. O Words & Votes busca rastrear as informações que estão contidas nos discursos – e outras formas de expressão, como mensagens no Twitter – dos deputados e senadores norte-americanos sobre o porte de armas. O trabalho foi produzido para a organização sem fins lucrativos Sandy Hook.

Em resumo, o Words & Votes permite que o cidadão conheça mais facilmente, em um único lugar, de forma organizada, as opiniões dos representantes no Congresso sobre temas relacionados à violência e ao uso de armas de fogo.

Cada deputado e senador é “monitorado” e as declarações deles sobre o assunto são categorizadas como neutra, favorável à segurança (e, logo, contra o porte de armas) ou favorável ao porte de armas.

Ao passar a seta do mouse sobre símbolos circulares, é possível verificar qual foi o voto do congressistas em leis que tratavam de temas que têm alguma relação ou influência sobre violência e armas.

Sistema de busca – Os dados estão organizados e disponíveis em uma visualização interativa para dois momentos: atual legislatura e para as legislaturas, reunidas, entre 1999 e 2002. Os congressistas ainda são separados entre aqueles que são mais influentes e mais discursivos – e há sistema de busca para o leitor buscar o nome do próprio representante.

Um projeto interessante, sem dúvida, inclusive par ao trabalho de investigação jornalística. Por mais que interagir e entender não seja tão automático como muitos gostariam. De qualquer forma, o projeto deixa claro que o método pode ser replicado para qualquer assunto – direito dos homossexuais, direitos humanos e política fiscal, entre outros – e a forma visual pode ser melhorada, tornando mais simples e fácil para todos.

Projetos brasileiros – No Brasil, o projeto Excelências é um dos pioneiros na coleta, organização e análise de informação política. Ele captura dados de todos os parlamentares. As fontes são a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, os Tribunais de Justiça, dos Tribunais de Contas e outras fontes públicas. Mostra quem falta ou produz mais, quais são as áreas de interesse dos legisladores, as emendas que apresenta, como votam e os gastos dos gabinetes. Recentemente, a revista Veja firmou parceria com a organização para analisar, produzir reportagens e dar visibilidade nacional às informações coletadas e organizadas. enfim, dar sentido prático aos dados e mostrar como eles têm impacto na vida das pessoas.

O jornal Valor Econômico acertou uma parceria semelhante, mas com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que visa acompanhar projetos de lei e outras matérias que tramitam no Legislativo e que têm impacto na economia brasileira. Assim, a cobertura sobre o Congresso Nacional poderá ser menos nas declarações dos políticos e mais no impacto da ação política no cotidiano das empresas e das pessoas.