A opinião das crianças nas reportagens: como garantir naturalidade e precisão?


pedidos das crianças

Em 14 de outubro de 2012, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem a partir da opinião de crianças entre 9 e 12 anos. Elas sugeriam o que o próximo prefeito da cidade de São Paulo – que viria a ser Fernando Haddad – deveria fazer ou ter como prioridade.

Nada de errado em escutar a opinião das crianças. No entanto, por mais que o texto do jornal explicite claramente que os jovens foram ouvidos por jornalistas, há muitas dúvidas se a opinião é realmente dos entrevistados mirins ou dos repórteres.

Esse problema é comum em matérias desse tipo, que tentam tornar adultos mais pueris ou fazer das crianças pessoas mais maduras do que elas realmente são. É comum os pais enviarem a opinião dos filhos aos jornais – o que geralmente resulta na opinião dos pais, induzindo os filhos a darem respostas automáticas e condicionadas para perguntas nas quais eles nunca pensaram. Não raramente, os pais respondem, de forma velada, pela criança, para que ela fale aquilo que os pais considerem adequado.

Mesmo que a redação do jornal tenha enviado repórteres para entrevistar as crianças, a deturpação da opinião pode facilmente acontecer, mesmo sem intenção. Quando o jovem entrevistado não formula boas respostas – ou respostas esperadas pelo entrevistador – as perguntas podem facilmente ser feitas de forma a ajudar a criança a responder aquilo que o jornal gostaria de ouvir. Não há maldade. A pauta precisa ser cumprida.

É claro que pode ter ocorrido a coincidência de a reportagem ter encontrado várias crianças com elevado grau de opinião política, sintonizadas com os problemas da cidade e as obrigações de um prefeito – e que saibam expressar as ideias de forma clara. Mas matérias desse tipo deixam sempre a dúvida: será que as frases reproduzidas expressam realmente a opinião das crianças? Ou as ideias dos pais ou repórteres?

A solução é dar transparência ao método de apuração das informações. Explicar ao leitor quantas entrevistas foram feitas, quantas foram aproveitadas e quantas foram descartadas. Reproduzir com mais fidelidade as frases ditas pelas crianças, na ordem natural que elas foram formuladas e pronunciadas, corrigindo, eventualmente, somente erros de sintaxe.

Além disso, às crianças poderia ser dada a oportunidade de pensar sobre os temas centrais da reportagem antecipadamente, em uma aula especialmente formulada pelos professores. Assim, os jovens entrevistados estariam mais extrovertidos e seguros para responder, com naturalidade, as perguntas dos repórteres.

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