Arquivo do mês: março 2014

Onde achar boas matérias? Colunistas continuam oferecendo boas pautas em um único parágrafo

Durante décadas, as seções, nos jornais impressos, que trazem pequenas notícias com caráter exclusivo e informações de bastidores dos mercados e dos governos – as chamadas “colunas de notinhas” – são consideradas pelos jornalistas como uma fonte importante para novas pautas e matérias.

Os colunistas, muitas vezes, recebem informações de fontes econômicas, governamentais ou políticas em ‘’”off”, ou seja, que não querem ter os nomes delas revelados. Cabe ao colunista ter um relacionamento confiável com a fonte da informação ou se esforçar para encontrar indícios, por outras consultas, que confirmem a informação exclusiva – ou os dois métodos juntos.

Critérios e controle – As “colunas de notinhas”, muitas vezes, podem ser usadas de forma descontrolada e sem critérios, sobretudo porque os jornalistas responsáveis por elas não dão atenção necessária para as intenções, latentes ou patentes, da fonte da notícia. A pergunta que deve ser feita é: porque a fonte da informação decidiu entregar a informação exclusiva para um jornalista? É sempre um cuidado necessário.

Resguardado esse cuidado, as “colunas de notinhas” são realmente fonte inestimável de pautas exclusivas. Veja o caso da coluna Direto da Fonte, da jornalista Sonia Racy. Traz à tona, dia 28 de março, no jornal O Estado de S. Paulo, que há um estudo, concluído no fim de 2013, com novos dados referentes ao antigo projeto de iniciar a despoluição do Rio Pinheiros.

COluna Sonia RacyVale lembrar que o que se discute, em âmbito governamental, é investir na despoluição, de forma direta, das águas sujas do rio. Isso significa instalar equipamentos para coletar a água suja e tratá-la. Outra forma, que vem sendo realizada pelo governo paulista ao longo dos últimos 20 anos, é aumentar a capacidade de tratar as águas do rio de forma indireta, ampliando a rede de tratamento de esgoto de forma que as águas que são despejadas no rio Pinheiros – e nos afluentes dele – não carreguem uma elevada carga de esgoto não tratado.

O caso da despoluição do rio Pinheiros – Essa história é longínqua. Começa em outubro de 1992, quando foi publicada uma resolução conjunta entre secretárias de Meio Ambiente e de Saúde do Estado de São Paulo (resolução SMA-SES 04/92) proibindo o bombeamento das águas do rio Pinheiros para a Billings, definindo como exceção somente casos de emergência, como o controle de enchentes. Com isso, a velocidade da vazão do rio diminuiu – e a circulação da água é uma forma natural – e uma das mais importantes – para aumentar dispersar poluentes e aumentar o nível de oxigênio na água.

As restrições para despejo das águas do rio Pinheiros no reservatório Billings foram ampliadas (1997) e o governo estadual começa a estudar quais tecnologias poderiam ser utilizadas para iniciar a despoluição do rio (1998). Um método, o de flotação, começa a ser testad0 (1999)  em pequena escala e a água resultante é utilizada para irrigar os canteiros de flores nas margens do rio e tanques de criação de peixes no local. ´

Um projeto com dimensões maiores foi lançado oficialmente (2001), mas, a partir deste momento, embates intermináveis entre governo e Ministério Público por causa de discordâncias em torno dos resultados dos testes resultaram no abandono do projeto (2011), após gastar cerca de R$ 160 milhões em investimentos e testes.  O governo paulista, então, abriu uma audiência pública (2013) para receber propostas de tecnologia para tratar as águas do rio.

Contexto e novidade – A novidade que a coluna Direto da Fonte revela é que há um desfecho para o último passo então conhecido – a abertura da audiência pública. Desde dezembro de 2013, há um relatório com o resultado dessa audiência pública. Vale ou não vale uma nova matéria?

A notícia surge em um momento de intenso debate em relação ao uso dos recursos hídricos para o abastecimento de água potável dos centros urbanos brasileiros em um cenário de falta de chuvas e rios poluídos.

Um simples quadro devolve ao leitor a noção de conjunto das informações

Quadro investigações

Em várias reportagens atualmente, há geralmente uma busca frenética para conseguir números e dados que ajudem a produzir uma infografia diferenciada para ajudar o leitor a contextualizar a informação principal. Isso nem sempre é necessário.

A imprensa tem produzido, de forma incessante, matérias sobre as investigações sobre possível cartel envolvendo empresas que fornecem equipamentos para obras de transporte sobre trilhos.

Recentemente, dia 25 de março, uma ação do Ministério Público paulista ofereceu à Justiça estadual a denúncia de 30 empresários envolvidos nas investigações. Já foram tantas as reportagens sobre os desdobramentos do caso que há chance enorme de o leitor perder a noção do conjunto dos fatos.

O jornal O Estado de S. Paulo conseguiu devolver ao leitor essa noção. Para isso, não precisou recorrer a alguma visualização de dados pirotécnica. Bastou um quadro, com informação textual, noticiando os casos ainda em investigação e quais os fatores mais importantes para cada um deles.

Esse tipo de solução é muito interessante para o leitor em assuntos políticos e de investigações que se desdobram por meses e meses e deveria ser utilizado em mais ocasiões.