Arquivo do mês: dezembro 2013

Na cobertura da morte de Nelson Mandela, imprensa esqueceu de Steve Biko – mas os leitores, não

Foram incontáveis as páginas de jornal e minutos de rádio e televisão dedicados à cobertura do falecimento de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e ativista pelo fim do regime de segregação naquele país – o ‘apartheid’. O líder sul-africano tinha 95 anos e estava muito doente havia meses. A imprensa se adiantou e antecipou o levantamento de informações.

A busca por informações sobre a vida de Nelson Mandela foi, obviamente, imensa. Não só dele. Steve Biko, líder sul-africano que também se engajou na luta contra o ‘apartheid’ naquele país, morto aos 30 anos, em 1977, pela política da África do Sul, também foi alvo da curiosidade das pessoas.

A imprensa, no entanto, não capturou essa ânsia por informação do público e não produziu nenhuma reportagem. Enquanto a procura pelos verbetes do ativista menos conhecido continuou bastante acima da média, na trilha da cobertura global sobre a vida de Mandela, os três principais jornais do Brasil – Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo – ignoraram a vida de Steve Biko. Os dois  primeiros não citaram nenhuma vez o ativista morto em 1977. O diário fluminense, ao menos, o citou em uma matéria com viés cultural.

Nelson Mandela – No dia 6 de dezembro, logo após a morte de Mandela, ocorrida dia 5, o verbete em português ‘Nelson Mandela’ na Wikipédia foi visto por 171.389 pessoas, contra média de 1.800 visitas diárias antes. Em alemão, por mais de 249 mil pessoas, contra menos de 2 mil visitas/dia antes. Em francês, por mais de 380 mil pessoas, contra menos de 3 mil, em média diária, antes.

Já o verbete em inglês foi visto por 2,7 milhões de pessoas dia 6, dia seguinte da morte de Mandela, contra média diária de 8 a 10 mil antes. O verbete em espanhol foi lido por mais de 635 mil pessoas no dia 6, contra uma média inferior a 4 mil visitas antes do falecimento de Mandela.

Steve_BikoSteve Biko – O verbete em português de Steve Biko, ativista anti-apartheid morto em 1977, obteve 1.969 visitas dia 6 (menos de 50 visitas/dia antes do falecimento de Nelson Mandela). Já o verbete em inglês foi visto por 27 mil de pessoas dia 6, dia seguinte da morte de Mandela, contra média diária de 700-800 visitas antes.

Em francês, o verbete de Steve Biko foi procurado por 5.658 pessoas dia 6, contra cerca de 100 visitas por dia antes do dia 5. Em alemão, a média diária de leitura aumentou de menos de 50 (antes do dia 5) para quase 1.000 no dia 6.

Sugestão de pauta – Mandela, líder reconhecido mundialmente, obteve na Wikipédia uma audiência que corresponde a 100 vezes à de Steve Biko em língua inglesa e 87 vezes em português. Os dados sobre audiência justificam o tamanho da cobertura dada a Mandela, mas não a audiência de espaço para Biko. Os leitores deveriam saber que Mandela, apesar de figura maior, mas não foi o único a brigar contra o ‘apartheid’. Anida há tempo.

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Visualização mostra rota de baleeiros dos EUA entre 1830 e 1855 – e as mudanças por trás dos números

Whaling ships

Um infográfico elaborado por Ben Schmidt, professor assistente de História na Northeastern University, nos Estados Unidos, mostra o potencial da visualização de dados para o estudo das ciências humanas.

O mapa digital produzido por Schmidt mostra a rota dos navios baleeiros dos Estados Unidos entre 1830 e 1855.

Um dos aspectos mais importantes nesta história é perceber a cultura de registro de estatísticas no setor de comércio marítimo naquela época.

O vídeo é bastante, principalmente porque há inúmeras ferramentas à disposição de desenvolvedores e programadores.

No entanto, sem os dados não seria possível fazer esse mapa digital e perceber padrões e transformações escondidas nas informações.

O autor explica que a exaustão dos oceanos devido a pesca intensiva de baleias leva os navios norte-americanos cada vez mais longe.

Quatro exemplos de mapas digitais para inspirar gestores a abrirem mais dados públicos

Long Island Rail Road map

Novas tecnologias têm facilitado bastante a elaboração de mapas animados que criam a opção de dar movimento aos dados apresentados. A ideia é espalhar os dados sobre mapas e dar vida a eles, colocá-los em ação. Mais do que entretenimento, isso facilita a detecção de padrões, mudanças e transformações contidas nos bancos de dados, o que poderia ficar escondido sem a animação.

Em geral, os mapas mostram as informações pulsando, acendendo e apagando, permitindo que o leitor perceba facilmente as regiões ou os períodos nos quais as ocorrências se concentram. As visualizações oferecem ainda setas para o controle da reprodução na animação, de forma que seja possível paralisar ou analisar as estatísticas cronologicamente ou em qualquer mês.

Estatísticas de fluxo e estoque – Para cumprir o efeito pulsante, as séries estatísticas precisam ter uma característica: fluxo.  O que isso significa? Simples. Os dados do período presente precisam substituir aqueles de um período anterior. Exemplo: os pontos em um mapa que representa a quantidades de crimes em fevereiro de um ano se apagam quando surgem os dados de ocorrências em março.

Isso não quer dizer que séries estatísticas com característica de “estoque” – quando os dados de determinado período apenas são acrescentados aos de períodos anteriores – não possam ser transformadas em mapas animados. Exemplo: extensão de rodovias asfaltadas. Ao passo que os governos e as empresas entregam as obras de determinados trechos  de estradas asfaltadas, elas simplesmente surgem no mapa de vias já com asfalto, sendo somadas aos trechos já feitos em períodos passados.

Fishing map

Tornados e bombeiros – Um mapa exemplifica bem as explicações anteriores. Ele mostra dados referentes a ocorrências de tornados nos Estados Unidos durante 2004 e 2013, ‘dando vida’ às estatísticas do departamento norte-americano de meteorologia. O internauta pode perceber os meses com mais ocorrências, detectar se há algum padrão – um período do ano no qual sempre há maior prevalência – e analisar se os registros crescem ao longo dos anos. Uma tabela resolveria boa parte dessas perguntas, mas o mapa consegue mostrar as regiões mais impactadas.

Outro mapa mostra a rotina de movimentação diária dos trens urbanos nas linhas do sistema que atende Long Island, na Região Metropolitana de Nova Iorque, considerado o mais movimentado da América do Norte. Tem 124 estações distribuídas em mais de 1.100 quilômetros de extensão. Note que esse mapa mostra apenas as linhas que compõem o sistema de trens urbanos da cidade, excluindo as de metrô. Analisando o fluxo dos pontos ao longo das linhas férreas, percebe-se com mais facilidade em quais trechos e horários há maior intensidade e disponibilidade de trens.

Fire engine callouts Amsterdam

Outro mapa mostra a atividade pesqueira no norte da Europa. O autor indica que há 3,2 milhões dados ao longo dos 365 dias de 2004. Cada ponto indica um barco pesqueiro trabalhando. O internauta consegue visualizar a intensidade da atividade econômica, o que cumpre a intenção do mapa: fazer as pessoas pensarem sobre questões como uso sustentável dos mares.

O último mostra o ‘pulso’ das chamadas feitas ao serviço de bombeiros de Amsterdã, capital holandesa. O autor reuniu no mapa 62.415 pedidos de combate a incêndios feitas entre janeiro de 2006 e setembro de 2010. Novamente, é possível notar com mais facilidade – em comparação a uma simples tabela – quais são as regiões mais afetadas e se há algum padrão, como, por exemplo, se há meses em que há um número maior de ocorrências em todos os anos.

E você com isso? – Mapas animados podem ser produzidos para mostrar visualmente padrões e transformações sobre quaisquer assuntos em uma cidade ao longo de um ano ou mais. Imagine a quantidade de ocorrências de acidentes de trânsito (com ou sem quantidade de vítimas), alagamentos (inclusive a extensão das enchentes), homicídios, roubos e furtos, congestionamento (necessariamente com dados sobre a extensão de vias paradas ou com trânsito lento).

Todas essas informações podem ser mostrado em um mapa animado. Mas, para isso, os gestores públicos, sobretudo os municipais, precisam tomar decisões que resultem em mais dados públicos abertos à disposição dos desenvolvedores.

Para saber mais:

Os mapas animados usam a tecnologia CartoDB de cartografia digital, com contribuição de API (Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicativos, em português). É possível, com esforço razoável, abrir uma conta gratuita e aprender algumas técnicas por meio de tutoriais (aulas em vídeo).

Aqui, aula online para iniciantes sobre elaboração de mapas digitais, ministrada por profissional da CartoDB.