Excelente matéria do Washington Post sobre tecnologia policial é também uma aula de jornalismo


ShotSpotter heat map

Dias atrás, o The Washington Post publicou uma daquelas reportagens que são verdadeiras aulas de jornalismo. A matéria mostrava uma iniciativa da polícia no Distrito de Washington, capital dos Estados Unidos, para monitorar incidentes com armas de fogo por meio da instalação de dispositivos que percebem e analisam o som de disparos em uma área de mais de 50 quilômetros quadrados.

Nos últimos oito anos, desde que o programa foi criado, 39 mil incidentes com armas de fogo foram detectados pelo sistema graças ao som capturado pelos sensores espalhados pela cidade. Com o conhecimento da ocorrência e com o registro em mãos, os policiais podem agir com mais celeridade e circunscrever o local do disparo com um pouco mais de precisão, por mais que o sistema não seja perfeito e haja vários tipos de interferências e possíveis falhas.

Se o tema é interessante, a matéria foi bastante eficiente e mostra um roteiro positivo de ferramentas e possibilidades ao alcance dos jornalistas. Para elaborar a reportagem, o jornalista requisitou as estatísticas do programa policial por meio da lei de acesso à informação local.

ShotSpotter audio

Mecanismos multimídia – Com os dados em mãos, os repórteres planejaram uma matéria multimídia, incluindo a possibilidade do leitor distinguir o som de tiros e de fogos de artifício – um dos trabalhos que o sistema policial faz automaticamente.

Diagramas ainda explicam didaticamente o funcionamento da tecnologia à disposição dos policiais e um “mapa de calor” mostra os quarteirões onde houve mais e menos disparos, o que é facilmente perceptível pela gradação das cores. O leitor pode saber quantos disparos ocorreram em cada quarteirão ao longo dos últimos anos. Infelizmente, a matéria não mostra um gráfico com a evolução das ocorrências para todo o Distrito de Washington nos últimos anos. Dá apenas um dado, no meio do texto: os disparos diminuíra, somando 5,385 tiros em 2012.

O jornal também não se resignou a apenas relatar as estatísticas conseguidas. Buscou um personagem que refletia o foco, o assunto central da matéria: o som dos disparos de armas de fogo – e o colocou no início da reportagem. Especialistas completam a reportagem, explicando o sistema e as possibilidades da tecnologia para ajudar nas ações de planejamento, combate e prevenção contra o crime.

A reportagem, em inglês, vale a leitura completa. Alguns aspectos interessantes:

– A tecnologia foi criada a partir da sensibilidade de um engenheiro especializado em acústica, que passou a ficar preocupado com a atuação de gangues. Ele conversou com a polícia local para saber como um sistema de detecção de tiros poderia ajudar a combater a violência.

– O engenheiro foi encaminhado a especialistas do serviço de geologia dos Estados Unidos, que já pesquisam formas de utilizar o conhecimento disponível para detecção de terremotos – uma das áreas de muita pesquisa tecnológica lá – para perceber quando há disparos por armas de fogo. A adaptação a um ambiente urbano – por causa das interferências que prédios e corredores, entre outros obstáculos, causam na acústica – em tempo real vinha sendo difícil.

– Com um parceiro, o engenheiro criou um software para aprimorar a detecção de sons em tempo real. Bem-sucedido, patenteou o sistema, que já é utilizado por 65 departamentos de polícia nos Estados Unidos, e também na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

– A partir de um disparo de arma de fogo, detectado em tempo real pelos sensores instalados na capital norte-americana, o departamento de polícia aciona imediatamente os policiais que, com a possibilidade de intervir no local exato, têm mais chances de capturar o autor do tiro e apreender o revólver. O sistema demora apenas 40 segundos para capturar o som, comparar o dado e informar o local da ocorrência. Os policias podem ser despachados quase em tempo real ao incidente.

– O sistema está monitora pouco mais de 50 quilômetros quadrados do Distrito de Washington, o que representa quase um terço dos 177 quilômetros quadrados da capital dos Estados Unidos.

– O programa, que funciona há oito anos, custou aos cofres públicos cerca de US$ 3,5 milhões nos últimos seis anos (algo como R$ 1,3 milhão por ano).

– O software que sustenta o sistema de detecção do som dos disparos está conectado a um sistema de câmeras de circuito fechado . Assim, a polícia quer começar a conhecer as sequência de cenas em tempo real imediatamente após os tiroteios. Contra vandalismo, a aparência e a localização dos sensores não são revelados.

– As pessoas, ao ouvirem um som, muitas vezes confundem com fogos de artifício ou escapamento de carros e motos. Além disso, não informam a ocorrência à polícia. Já o sistema consegue detectar até 95% dos disparos. Com dados em tempo real e com tamanha abrangência, há possibilidade de agir com mais eficiência e foco no combate e prevenção ao crime.

Anúncios

Uma resposta para “Excelente matéria do Washington Post sobre tecnologia policial é também uma aula de jornalismo

  1. Pingback: Info-Links da Semana [16] | Visual Loop Brasil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s