Arquivo do mês: outubro 2013

Projeto avalia esforço dos países na política de abrir dados públicos e cria boas perspectivas

Daily chart

A The Economist costuma analisar estatísticas e publicá-las no formato de gráficos na coluna chama “Daily Chart”. Na imensa maioria das vezes, faz excelente trabalho.

Recentemente, publicou um conjunto de gráficos para dar visibilidade a um índice de transparência, recentemente divulgado pelo Open Knowledge Foundation, que mostra quais países mais avançaram até então na política de divulgação de dados públicos – movimento global denominado “open data”.

A publicação cruzou os números do índice em questão com outros rankings: PIB per capita (Fundo Monetário Internacional), desenvolvimento humano (Índice de Desenvolvimento Humano da ONU) e percepção de corrupção (Transparência Internacional).

Conclusão: países que mais divulgam informações e dados públicos são aqueles que, em geral, detêm melhores índices de desenvolvimento humano e de renda per capita – e também menos corrupção. Ou vice-versa.

Como funciona – O índice de transparência recentemente lançado escolheu dez assuntos – orçamento público, emissão de gases poluentes e transporte, entre outros – e criou nove critérios para analisar a qualidade desta divulgação (se os dados estão publicados em formato de fácil manuseio por quaisquer interessados, se há dados públicos disponíveis para determinada área, se são atualizados periodicamente etc).

Analisa-se, majoritariamente, o nível mais elevado de governo. No Brasil, por exemplo, os dados sobre serviço de transportes são referentes aos do sistema de ônibus interestaduais, divulgados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Na área de orçamento público, avalia-se se as estatísticas de gastos do governo federal.

Open data index

Aspectos positivos – Há inúmeros aspectos positivos no projeto desenvolvido pelo Open Knowledge Foundation. Pela primeira vez, há uma metodologia sólida para construir um ranking dos países que mais avançam no esforço de divulgar informações públicas, principalmente porque o índice mistura informações quantitativas com avalições qualitativas.

Além disso, a metodologia também prevê que as informações podem ser conferidas e corrigidas constantemente. Como os participantes dessa iniciativa estão reunidos na Open Knowledge Foundation, uma instituição sólida, há perspectiva de o projeto avançar mais e se consolidar ao longo do tempo. Colaborativo, sempre cabe mais gente disponível a trabalhar, o que pode impulsionar o índice para patamares mais elevados.

Limitação do índice – O índice não pretende ser uma lista de todos os bancos de dados públicos disponíveis em cada país. O primeiro objetivo é verificar o quanto as nações estão cumprindo um acordo firmado em 2011 para abrir estatísticas públicas. O segundo é oferecer uma ferramenta para que os cidadãos “deem o pontapé inicial” nas discussões com os governos para abrir mais dados.

Se o índice não pretende capturar e avaliar todos os tipos de dados abertos até hoje, fica uma pergunta: como medir precisamente o esforço e os resultados em cada país sobre o assunto? Resposta: um grupo gigantesco de colaboradores teria de se juntar à iniciativa para, em cada país, capturar e avaliar todos os tipos de dados públicos divulgados pelos governos federal, estaduais e municipais.

Para jornalistas – A iniciativa tem potencial para ser um enorme banco de dados para o trabalho de repórteres que desejam avaliar o quanto um país avançou no cumprimento de leis que determinam a divulgação de dados públicos. Mais: é possível comparar com países vizinhos ou mais avançados. Comparação cria inveja – e isso é um combustível e tanto para a ação de políticos e governantes.

Para saber mais:

O McKinsey Global Institute lançou um relatório bastante consistente sobre os impactos econômicos e sociais das políticas de abertura de dados públicos pelos governos do mundo todo. O trabalho indica que US$ 3 trilhões poderiam ser gerados de valor em sete áreas com a publicidade de dados públicos (e outros privados, que eles preferem incluir no conceito de ‘open data’).

Anúncios

Uma forma interessante de rastrear e mostrar o que os políticos dizem sobre temas de interesse público

Muitos designers e jornalistas estão trabalhando para encontrar maneiras de tornar as notícias políticas mais palatáveis e digeríveis para a população, para o cidadão comum, principalmente para aqueles leitores que não se importam muito com as manobras e consequências das decisões dos parlamentares.

Essa motivação deriva do fato que muitas das transformações que a sociedade e as cidades demandam nascem exatamente das discussões e manobras políticas. Sem acompanhar tais debates nas câmaras e nos parlamentos, sem fiscalizar o comportamento dos representantes legislativos, qualquer esforço pode produzir pouco resultado.

O desafio é que ainda há poucas instituições ainda se dedicando ao árduo trabalho de transformar a atividade política em dados, organizá-los, analisá-los e dar a eles uma forma visual agradável e inteligível, que crie engajamento nos cidadãos e motive-os a alterar alguma realidade. Para ficar mais claro, tente imaginar que tipo de dados poderiam ser extraídos dos discursos que os nobres deputados fazem ao longo dos anos nas tribunas do Congresso nacional.

Words and votes

Projeto inovador – Um projeto interessante tenta fazer isso nos Estados Unidos. O Words & Votes busca rastrear as informações que estão contidas nos discursos – e outras formas de expressão, como mensagens no Twitter – dos deputados e senadores norte-americanos sobre o porte de armas. O trabalho foi produzido para a organização sem fins lucrativos Sandy Hook.

Em resumo, o Words & Votes permite que o cidadão conheça mais facilmente, em um único lugar, de forma organizada, as opiniões dos representantes no Congresso sobre temas relacionados à violência e ao uso de armas de fogo.

Cada deputado e senador é “monitorado” e as declarações deles sobre o assunto são categorizadas como neutra, favorável à segurança (e, logo, contra o porte de armas) ou favorável ao porte de armas.

Ao passar a seta do mouse sobre símbolos circulares, é possível verificar qual foi o voto do congressistas em leis que tratavam de temas que têm alguma relação ou influência sobre violência e armas.

Sistema de busca – Os dados estão organizados e disponíveis em uma visualização interativa para dois momentos: atual legislatura e para as legislaturas, reunidas, entre 1999 e 2002. Os congressistas ainda são separados entre aqueles que são mais influentes e mais discursivos – e há sistema de busca para o leitor buscar o nome do próprio representante.

Um projeto interessante, sem dúvida, inclusive par ao trabalho de investigação jornalística. Por mais que interagir e entender não seja tão automático como muitos gostariam. De qualquer forma, o projeto deixa claro que o método pode ser replicado para qualquer assunto – direito dos homossexuais, direitos humanos e política fiscal, entre outros – e a forma visual pode ser melhorada, tornando mais simples e fácil para todos.

Projetos brasileiros – No Brasil, o projeto Excelências é um dos pioneiros na coleta, organização e análise de informação política. Ele captura dados de todos os parlamentares. As fontes são a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, os Tribunais de Justiça, dos Tribunais de Contas e outras fontes públicas. Mostra quem falta ou produz mais, quais são as áreas de interesse dos legisladores, as emendas que apresenta, como votam e os gastos dos gabinetes. Recentemente, a revista Veja firmou parceria com a organização para analisar, produzir reportagens e dar visibilidade nacional às informações coletadas e organizadas. enfim, dar sentido prático aos dados e mostrar como eles têm impacto na vida das pessoas.

O jornal Valor Econômico acertou uma parceria semelhante, mas com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que visa acompanhar projetos de lei e outras matérias que tramitam no Legislativo e que têm impacto na economia brasileira. Assim, a cobertura sobre o Congresso Nacional poderá ser menos nas declarações dos políticos e mais no impacto da ação política no cotidiano das empresas e das pessoas.

Três cursos para aprender algumas competências associadas ao jornalismo de dados e à infografia

No Brasil, muitas pessoas, principalmente estudantes, que querem começar a trabalhar melhor dentro do universo que se convencionou a chamar de ‘jornalismo de dados’ encontra dificuldade para aprender, treinar e desenvolver as principais competências desta área: onde buscar as informações, como organizar e analisar dados e estatísticas, como dar uma forma bonita e inteligível a elas.

Algumas iniciativas interessantes surgiram, com aulas presenciais ou online, voltadas para iniciantes ou aqueles com comportamento autodidata. Todas as disciplinas são interessantes, tanto para jornalistas ou para profissionais que lidem com estatísticas e bancos de dados e precisem melhorar a eficiência na organização, análise ou apresentação das informações.

1) Escola de Dados. Há aulas básicas, ensinamentos e instruções sobre conceitos e procedimentos para praticar o jornalismo de dados. Ensinam como procurar e coletar estatísticas, utilizar os principais recursos disponíveis em uma planilha de dados (como organizar e filtrar informações) e os primeiros passos para analisar dados. Oferecem ferramentas online para diversas atividades – extrair, limpar, analisar, apresentar e compartilhar dados – e oportunidades para aprender mais por meio de ‘expedições de dados’. Online, para autodidatas.

2) Infografia e visualização de dados. É um curso introdutório, oferecido pelo Knight Center for Journalism in the Americas e ministrado por Alberto Cairo. É gratuito, em inglês, totalmente feito pela internet, para quantas pessoas se inscreverem (a primeira edição teve mais de 2.000 estudantes de 109 países e a segunda edição contou com 5.200 participantes de 138 países). Ensina por meio de capítulos de livros, vídeos, discussões em fórum. O curso já começou no dia 6 de outubro e dura cinco semanas. É possível se inscrever ainda e acelerar no cumprimento das tarefas para ficar no mesmo nível dos outros.

3) Programa de Jornalismo de Dados e Visualização. Organizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), organização que surgiu com a função de oferecer cursos de pós-graduação para editores em jornalismo, tem preço acessível, grade curricular abrangente e professores que colocam a ‘mão na massa’ todos os dias. Dura quatro dias inteiros, dois deles sábados, com aulas presenciais. Passa por áreas como infografia e visualização, coleta e organização de dados, mapas e utilização da Lei de Acesso à Informação Pública.

Banco de dados reúne infografias interativas dos jornais The Guardian e The New York Times

NY Times - Oscar contenders

Um banco de dados disponível na internet reúne bastante do que há de melhor no campo da infografia interativa do jornalismo mundial. Até o momento, quase 400 trabalhos elaborados pelas equipes do inglês The Guardian e o norte-americano The New York Times.

Cada qual é uma aula a parte, alguns pela simplicidade, outros pela genialidade da pauta, muitos pela complexidade da programação. Vale mergulhar e analisar todos, sem pressa.

No começo deste ano, por exemplo, o Times publicou reportagem mostrando as conexões existentes entre os profissionais e trabalhos indicados ao Oscar. Nenhum texto conseguiria ser tão didático quanto a infografia elaborada.

O The Guardian, em trabalho magistral, voltou a utilizar o modelo ‘Guitar Hero’ para indicar diferentes tipos de acontecimentos ao longo de um período mais longo em vários países – tudo ao mesmo tempo.

Desta vez, o tema foi a crise econômica nos países europeus após a bancarrota financeira de 2009.  Já havia utilizado o mesmo recurso, genial, para contar a história moderna da música (em 2011) e a evolução dos acontecimentos após as revoltas populares no Oriente Médio (em 2012).

Se há um pecado, é que a maioria dessas infografias interativas, em algum momento, deixam de ser atualizadas pela equipe de jornalistas.